Mostrando postagens com marcador Cenas Deletadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cenas Deletadas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Capítulo 30.5 - Criatura das Profundezas

Onde a cena se encaixava?
Na metade do Capítulo 30, após a chega dos demais integrantes da Ordem do Selamento na Ilha-S e pouco antes de Ralph e seus amigos subirem no Trem das Águas para irem em busca do ladrão de pérolas.

Sobre o que falava?
Uma enorme lula gigante, um monstro antigo conhecido como Pyrimids, ataca a embarcação do Capitão Bernard e obriga Ralph e seus amigos a lutarem por suas vidas em uma das poucas cenas de ação que envolvia todos personagens lutando juntos. Esta é a última Cena Deletada do Livro 1.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 2700 palavras, a batalha contra o Pyrimids foi escrita baseando-se nos primeiros gibis do autor. As lulas gigantes sempre fizeram parte da mitologia de Sellure e o autor quis homenageá-las com esse capítulo, mas no fim das contas a luta não representava nenhum crescimento para os personagens e acabou sendo cortada da versão final.

Uma curiosidade é que nos gibis era aqui que acontecia a batalha entre Ralph e Half, e Lesten se sacrificava para salvar seus amigos, afundando junto com o Navio Fantasma pouco antes da batalha final contra Raegar (só que mais tarde ele retornava, porque o Lesten é imortal).


Criatura das Profundezas
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas


Lesten encarava a água que estava irrequieta, todos os sinais indicavam que algo dentro do oceano havia sido despertado. O vento sofrera uma mudança súbita de direção e as ondas antes tão mansas começavam a se descontrolar. Auria aproximou-se da proa do navio para descobrir do que se tratava.

— Viu alguma coisa? Parecia uma baleia.
— Bem maior — respondeu Lesten, perturbado. — Os mares de Century são repletos de criaturas bizarras, de tubarões gigantes até enguias colossais. Conheço muito pouco sobre os monstros que habitam as profundezas do oceano, mas estou doido para descobrir mais sobre eles!
— Você é o único que corre atrás do perigo — Auria respondeu com uma risada, apoiando os cotovelos no corrimão e virando-se de costas. — Quando nos deparamos com ele, tudo que podemos fazer é confrontá-lo.
Lesten voltou a olhar entretido para o mar quando um impacto forte badalou toda a estrutura do Navio Fantasma, fazendo com que Auria escorregasse e Ralph precisasse apoiar-se no ombro do lagarto para ficar de pé. Uma sombra começou a rodear a embarcação, uma presença maligna impossível de se ignorar. Ralph correu para a cabine do capitão para alertar Bernard, que no momento observava o cenário de sua ampla janela de vidro com uma paz incomum. Aedan e Bill também estavam presentes quando foram interrompidos.
— Capitão, parece que batemos em alguma coisa! — alertou Ralph, ofegante.
— Ele está nos seguindo desde a madrugada, aguardando a hora certa de atacar — comentou Bernard, dando uma tragada em seu cachimbo com uma calma incomum. — Na verdade, creio que ele esteja de olho no Navio Fantasma há alguns anos, embora eu nunca tenha lhe dado a chance de me confrontar.
— Você fala “dele” como se fossem velhos amigos — disse Aedan.
Ralph hesitou alguns segundos antes de perguntar.
— Quem é ele?
— Um Pyrimids, um dos monstros marinhos mais antigos de Sellure. Essa espécie inspirou inúmeras lendas nos anos das navegações, são monstruosamente imensos, e dizem também serem os responsáveis por impedir que qualquer navio atravesse as fronteiras de nossos mapas — explicou o capitão. — Como o Navio Fnatasma não esteve ocultado pela neblina mágica nos últimos dias, fomos logo localizados por ele.
— E o que espera que façamos agora? — indagou Ralph, embora já soubesse da resposta.
O capitão riu, as rugas em seu rosto cansado se evidenciaram.
— Ah, essa será uma bela história de pescador a se contar...
Outro estrondo foi ouvido, o navio balançou para os lados e os móveis acompanharam o movimento. Ralph imediatamente correu para fora onde seus companheiros observavam curiosos o movimento nas águas.
— Saiam logo daí! — gritou o jovem.
— Por quê? Acha que ele vai pular e puxar a gente para o fundo do mar? — Auria brincou.
Assim que se deu conta, a mulher pôde ver um imenso tentáculo emergir, apoiando-se nas beiradas do casco com ventosas gosmentas cheias de farpas como os de uma água-viva. Hayley saltou para o colo de Lee que a agarrou, Elma conjurou um machado fez um corte vertical no tentáculo que estremeceu e recuou para o fundo do mar. Auria ativou sua armadura, mas de que aquilo adiantaria se a criatura a sufocasse no oceano? Ralph brandiu Lignum e reuniu-se com seus amigos o mais longe da beirada que pôde.
— Que bizarrice é essa? — bradou Lee, de punhos fechados e braços erguidos. — Como é que vamos lutar contra algo desse tamanho? Ele nem deve sentir os nossos golpes.
— Essas criaturas lutaram as grandes guerras do passado — explicou Lesten. — Houveram grandes domadores de monstros que aprenderam como controlá-los a seu favor, treinadores de Aukalakas, Dinorros e até mesmo dragões. A presença dessas aberrações decidia o lado vencedor, pois por onde passavam sobrava um rastro de destruição e ruína.
— Vou até subir de nível depois que derrotar um! — Ralph falou eufórico com sua espada de madeira firme em sua mão.
Bernard saiu de sua cabine e reuniu os demais membros da Ordem do Selamento. Tootie conseguia sentir as vibrações através da areia no oceano, aquele era um dos maiores monstros que já vira ou conhecera.
— A dimensão ultrapassa os cinquenta metros, isso porque não consigo medir o tamanho dos tentáculos — disse a guardião da areia, concentrando sua energia. — Mesmo tendo estudado fósseis durante oito anos para construir o museu das Ruínas Douradas, há pouquíssimos vestígios deixados pelos Pyrmids por conta da ausência de ossos.
— Eu quero ver, eu quero ver! — Elice gritava histericamente perto da borda até que Aedan precisou afastá-la dali. A menina precisou ficar trancada na cabine do capitão onde não arranjaria mais confusão.
Uma última calmaria tomou conta do navio, todos aguardavam qualquer sinal do monstro marinho que estava em seu próprio território. Não era intenção de ninguém fugir para terra firme onde estivessem seguros, pois assim a criatura continuaria à solta, podendo atacá-los na madrugada ou longe o bastante de qualquer ilha para que sequer cogitassem a chance de se salvarem caso o navio fosse destruído. Eles precisavam colocar um fim àquela ameaça de uma vez por todas.
 O primeiro ataque surgiu quando dois tentáculos saíram um de cada lado do navio, atravessando a madeira do deque e quebrando caixotes no caminho. Lesten perfurou um deles com sua lança enquanto Auria repeliu a segunda onda com seu escudo. Hayley conjurou um feitiço de agilidade para que Lee pudesse correr mais depressa e saltar a alturas sobre-humanas, afastando qualquer ameaça que prejudicasse as condições da embarcação.
Outros quatro tentáculos surgiram do lado oposto, atacando os tótines pelas costas. Elma ativou espadas mágicas que dançaram e fatiaram um dos tentáculos com cortes precisos, como se fossem pequenos pedacinhos de sashimi. Tootie conjurou uma barreira de areia para conter o avanço, mas os ataques eram violentos e vinham por toda a parte. Bill desapareceu em algum lugar fugindo do conflito, como sempre
— Se estamos enfrentando um polvo, seus oito braços já eram — disse Lee, sentindo a adrenalina do momento. — Esse treinamento vai render!
Apesar de a vitória parecer certa, os Pyrimids se tornavam cada vez mais violentos conforme percebiam que sua presa resistia. Subitamente, ondas com mais de três metros formaram-se uma após a outra, o monstro emergia e mergulhava de maneira contínua, ele se chocava contra o casco do navio na tentativa de virá-lo, batendo com sua cabeça em formato de pirâmide capaz de atravessar mesmo a mais resistente das armaduras como se fosse uma furadeira. Bernard sentiu um aperto em seu coração, cada ferida no navio atingia diretamente sua essência mágica.
Um novo impacto fez o casco ceder, jatos d’água invadiram o convés e inundaram as câmaras inferiores. Uma forte camada de tinta negra formou-se ao redor do navio, de onde a ponta de uma pirâmide surgiu abrindo uma cratera. O pilar que sustentava a vela chegou a tombar, as duas metades oscilaram e todos perderam o equilíbrio. Água jorrava para todos os lados, todos os tentáculos da monstruosa lula gigante começaram a abraçar a embarcação como se estivesse prestes a devorá-la. Uma boca monstruosa revelou-se da água como um buraco negro que a tudo consumia, com sua porção de dentes serrilhados e hálito fétido. Uma gosma amarela saía dele, tudo que caía lá dentro era triturado, desde peixes até caixas, barris e pedras.
Lee segurou Hayley e saltou para uma área segura longe do convés, abandonando o combate para assegurar sua segurança. Auria tropeçou e caiu, Ralph segurou sua mão enquanto tentava desesperadamente segurar-se a qualquer instrumento que fosse. Lesten usou suas patas adesivas para escalar o navio destroçado e resgatar seus amigos antes de retornar ao combate.
— Esse em breve vai entrar na minha lista! — falou o gecko.
Com o navio partido ao meio, o lagarto conseguia andar por áreas íngremes onde nenhum outro tinha acesso. Os braços do Pyrimids tentavam pegá-lo, mas sua agilidade era invejável. Lesten saltava e dava piruetas no ar como um malabarista, enquanto isso, Tootie assumiu a forma de um archeopteryx feito de areia, uma espécie de ave dos tempos antigos, e começou a bicar com força os tentáculos que se moviam como se tivessem consciência própria.
Assim que Lesten alcançou o topo do mastro, deparou-se com Bill sentado sobre um enorme barril.
— Não me diga que você estava se escondendo — disse o gecko furioso.
— Mas que coisa, só porque não estou constantemente na linha de frente não significa que não colaboro com a batalha. Sou um gatuno ardiloso, nobre companheiro réptil, perito em furtividades e estratégias astutas. — Bill fez um breve sinal com a mão e simplesmente chutou o barril que foi direto para a boca da criatura. — Está na hora de alguns fogos de artifício!
O Pyrimids engoliu o barril e uma explosão foi ouvida de dentro do seu estômago. A fumaça expelida denunciava que Bill colocara pólvora o bastante ali dentro para dar-lhe uma tremenda dor de barriga, o que o fez desacelerar o ritmo de seus ataques.
Bernard concentrou sua mana para trazer o navio o mais próximo que pudesse da Ilha-S, onde a lula gigante não pudesse alcançá-los, mas ainda era cedo para que o Pyrimids desistisse de sua refeição. Assim que ele emergiu foi como se um prédio inteiro saísse do meio do oceano — sua cabeça tinha o formato perfeitamente triangular, como um molusco que escolhe uma concha grande demais para se acomodar; nela estavam presos recifes, pequenos crustáceos, limo e até equipamentos de guerra enferrujados; um verdadeiro bioma ambulante. Em lados opostos estavam seus enormes olhos quase cinco vezes maiores que bolas de canhão, sua boca ficava mais embaixo, logo, enquanto ele a protegesse parecia ser impossível de atacá-lo em toda sua resistência.
— Esse é o monstro mais maneiro que eu já vi! — gritou Ralph.
— Vai chamá-lo pra equipe também? — Auria brincou. Seu amigo pareceu adorar a ideia.
O Navio Fantasma se afastava devagar, os danos causados teriam destruído qualquer embarcação comum, mas Bernard sempre se gabara de que “sua alma estava presa ao seu navio”, se ela morresse, ele preferia afundar junto de sua amada.
Já perto da costa, o Pyrimids não dava sinais de que iria parar. Um simples amontoado de terra não o impediria; com seus tentáculos, ele puxava a areia no fundo com impulso para mover-se. O pesado compartimento que ocupava cabeça servia como proteção para o corpo gelatinoso frágil, ele avançava pela região rasa da costa com uma fome insaciável.
— E o monstro continua vindo! — falou Bill. — Gastei um bom estoque de pólvora nele.
— Se não pudermos acertar a boca na base da pirâmide, será impossível derrotá-lo — concluiu Tootie.
Os tentáculos que haviam sido cortados começavam a se regenerar, apenas mais um sinal do quão perigosas eram aquelas criaturas nos tempos antigos. Aedan continuava com as mãos no bolso, preferira não participar da luta para analisar o nível de força de seus companheiros da Ordem, mas a verdade era que ainda estava cansado e indisposto desde sua luta com Ralph no vulcão.
Bernard concentrou as forças em um de seus joelhos, bateu as pernas no chão e o convés inteiro tremeu anunciando que o gigante acabara de acordar.
— Já estou cansado de ver uma criatura asquerosa como você machucar minha amada!
Mesmo que não houvesse um marinheiro sequer para manusear o leme ou limpar o convés, todo o navio era controlado pelo capitão que o comandava. As fileiras de canhões se posicionaram contra a pirâmide que se aproximava, disparando bolas de ferro que causaram sérios danos na carapaça da criatura.
Quando um tentáculo avançou em direção da cabine onde Elice estava alojada, Aedan estendeu o braço e uma labareda de fogo incinerou o membro por completo. O tentáculo caiu tostado enquanto Lesten o abocanhava contente.
— Oba, comida exótica! — gritou o lagarto. — Mandou bem, cabeça de fogo!
Aedan apenas riu quando lhe irrompeu a ideia de abrir um restaurante, Elice iria adorar.
O grupo se dividiu em equipes que se se auxiliaram a descer do navio e afastar-se da costa onde a criatura ainda os rondava. A presença do Pyrimids nos arredores colocaria em perigo a segurança do Trem das Águas e de qualquer turista que se aproximasse da ilha naquela época do ano. Elma permanecia na linha de frente com seu exército de espadas, disposta a proteger seus amigos a qualquer custo.
— Cuidado para não serem arrastados para a água! Se caírem no território dele, estarão realmente encrencados — alertou a guardiã do pântano.
Quando o Pyrimids alcançou a terra, ele se arrastava como um caracol vagaroso que transporta sua casa. Estava claramente enfraquecido após a longa batalha, mas era como se a criatura também estivesse empolgada com uma batalha após tantos anos sem um adversário digno.
Com sua espada de madeira, Ralph acertava a lula com cortes perfeito na cabeça. A criatura tentou arrastar Tootie, mas Lee segurou a ponta de um dos tentáculos com os dois braços e o puxou até arrancá-lo. Lesten se desviava com habilidade entre os destroços de madeira quando sentiu que algo o agarrou pela cauda e puxou-o com força em direção do fundo. O lagarto usava as garras para segurar-se em qualquer superfície sólida, mas acabou largando suas armas e sendo tragado para dentro do mar.
— Não! — Ralph gritou. Auria o puxou pela camisa, impedindo-o de cometer qualquer loucura.
— Você não sabe nadar! — respondeu a guerreira, prontificando-se a entrar em seu lugar. — Deixe isso comigo.
Lee foi quem a impediu na sequência, já arrancando a blusa e as botas.
— Sou mais rápido.
— Você é manco — ela argumentou.
— Não sabe o que sou capaz de fazer com essa perna.
— Olha, se eu fosse vocês, eu nem perderia tempo procurando a lagartixa — comentou Aedan, apontando para uma coisa verde gosmenta que boiava perto da praia.
A cauda de Lesten estava lá, mas não havia sinal dele.
O Pyrimids recuara após ter sido brutalmente atacado pelos canhões do Navio Fantasma, os danos em sua cabeça triangular foram intensos o bastante para que ele finalmente voltasse a se esconder no buraco profundo de onde viera. Bernard apoiou-se na proa do navio e esticou os braços, gritando com todas as forças:
— Vai fugir agora, seu miserável? Nosso duelo não terminou! — O capitão viu a monstruosidade marinha entrar na água e soltar uma densa camada de tinta que cobriu toda a superfície da costa. — Um dia iremos nos reencontrar, seu bastardo!
A calmaria tomou conta da região. Ralph andava entre os destroços, afastando móveis quebrados e toras de madeira no caminho em busca de algum sinal de seu amigo. Viu uma pequena fita vermelha flutuar, e imediatamente a reconheceu.
— L-Lesten — murmurou, mas as palavras mal saíram de sua boca.
— Ele a deixava presa na ponta da lança — comentou Auria, colocando a mão em seu ombro. — Eu sinto muito...
Foi quando algo puxou a mulher para dentro da água mais uma vez. A primeira reação de Ralph foi resgatá-la, mas tudo que viu foi uma porção de bolhas saírem seguidas de Lesten que mais parecia um jacaré rindo sem parar. Auria recuperou o fôlego toda ensopada e ofegante, mas fez questão de acertar um soco na ponta do nariz do lagarto para que ele aprendesse uma lição.
— Heh, heh. Assustei vocês, né? — brincou o gecko. — Mas porra, que tapão doído você tem, hein?
— Pensamos que você estivesse morto, e que péssima hora para brincadeiras! — Auria falou alto.
— Qual é, sou um exímio Caçador de Monstros, não posso tombar diante da primeira criatura grande que eu encontrar. Na verdade eu aproveitei para guardar um pedacinho, se liga! — Lesten levantou um tentáculo que ainda se movia. — Vai ficar lindo na minha estante junto com a pata da capivara mutante.
— Pensei que geckos terrestres não pudessem nadar — retrucou Lee.
— Correção: geckos não gostam de nadar, deixamos essa tarefa para nossos primos crocodilianos. E a propósito, por que só o ruivo ficou triste diante da ideia de que eu tava morto? Que preconceito é esse?
Ralph abraçou Lesten com força e os dois caíram na água rasa.
— Já não consigo imaginar minha vida sem vocês!
Os guardiões da Ordem do Selamento se aproximaram, aquela batalha fora uma excelente demonstração de trabalho em equipe e todos estavam muito orgulhosos. Elice parecia minúscula de cima do ombro do Capitão Bernard em cima, ela gritava alto enquanto os aplaudia contente:
— Vocês conseguiram! Realmente são heróis de verdade!

sábado, 23 de novembro de 2019

Capítulo 27.5 - O Retorno de Johnny Goldo

Onde a cena se encaixava?
No começo do Capítulo 27, pouco antes de Lee e Hayley se depararem com o túmulo da feiticeira

Sobre o que falava?
Após desaparecer por quase 200 páginas, Goldo escapa da prisão em um barquinho à remo. O leitor acaba por descobrir que quem o ajudou a recuperar-se foi Hayley, o que mais tarde resultou no roubo das Pérolas Sagradas.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 900 palavras, o trecho estragava a surpresa do reencontro entre Auria e Goldo, além de parecer uma tremenda coincidência ele ser auxiliado justamente por Lee e Hayley. Eram três páginas que não acrescentavam grande coisa, sem contar que ninguém gosta do Goldo.

O Retorno de Johnny Goldo
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas

Em algum lugar perdido do oceano de Century, um pequeno bote a remo fazia seu percurso sem que ninguém tivesse conhecimento de sua existência. Os olhos profundos indicavam que dormira pouco, os braços doloridos demonstravam o desgaste de alguém que passara por maus bocados; suas roupas estavam largas e encardidas, o sujeito mais parecia um náufrago abandonado à deriva. Ele remava calmamente e cantarolava canções antigas de piratas em seu próprio ritmo, disperso do mundo e de tudo que o assombrasse, seguindo em direção de uma ilha marcada pelo formato da letra S em seu mapa desenhado num pedaço de guardanapo.
Quando ele olhou para trás, uma enorme onda o pegou desprevenido e virou seu barquinho. O homem só parou de se debater quando alcançou a costa, por sorte era um excelente nadador. Ergueu o rosto e cuspiu água, balbuciando palavras sem sentido. Quando enfim tocou a areia, enfiou a cara na no chão e abraçou a terra.
— Finalmente... Finalmente cheguei...
Apoiado apenas em um pedaço de madeira improvisado, saiu caminhando em busca de um pouco de comida para recuperar-se. Foi incapaz de continuar, suas pernas cederam e ele voltou ao chão, ficando ali na beira do mar que tanto amava.
Viera de muito longe para completar uma missão importante, não morreria tão perto de cumpri-la. Não fugira da prisão para fracassar ali. Pensou em todos os erros que cometera na vida e concluiu que não se arrependia de nenhum. Fora um bom pirata, vivenciando aventuras inimagináveis e reunindo montanhas de ouro que não lhe tinha serventia alguma agora. Fora tudo confiscado, não tinha um tostão no bolso.
Quando toda a esperança pareceu se esvair, uma pequena sombra de orelhas pontudas formou-se sobre ele.
— Lee, veja! Este homem parece estar ferido, eu preciso ajuda-lo.
— Hayley, não podemos ajudar qualquer estranho que encontramos no caminho. Veja como ele está vestido, pode ser um fugitivo.
— M-mas ele está ferido, eu preciso...
— Não, não precisa. Por que deveríamos?
— Por que não?
— Você está começando a falar que nem aquele menino ruivo...
Foi a última coisa que o homem ouviu antes de desmaiar.

i

Aquele sabor salgado na boca, a claridade atordoante, a sensação de estar nascendo de novo nunca antes fora tão forte. Levantou-se ainda um pouco zonzo e olhou para os lados, avistando um homem de óculos escuros e expressão séria junto de uma pequena raposa adormecida em seu colo.
— Quem são vocês? — perguntou o homem desconfiado.
— Por que não me diz você primeiro? — retrucou Lee.
O sujeito coçou a cabeleira emaranhada e depois a barba suja de areia. Apesar de ser um pirata, sabia reconhecer quando fora resgatado da morte iminente.
— Perdoem-me a ousadia, não estou acostumado a bons tratos... Meu nome é Johnny Goldo.
Lee balançou a cabeça resposta, mas não lhe deu maiores informações.
— O que busca nestas terras, Sr. Goldo?
— Bem, creio que não haja motivos para esconder meus reais propósitos de meus salvadores. Estou aqui a negócios, embora com uma ligeira margem de atraso. Eu transportava meu superior, um renomado cientista, quando encontrei problemas na Ilha dos Geckos. Perdi minha embarcação e meu bando.
— E veio remando essa distância toda? — Lee pareceu impressionado. — Devo-lhe certos méritos.
Lee arremessou um fruto nativo da ilha em direção de Goldo. Como estava faminto, abocanhou a fruta sem pensar duas vezes e ainda repetiu outras três ou quatro. Lee observava com atenção, acariciando a cabeça de Hayley em seu colo uma vez que ela agora recuperava as energias após usar sua magia de cura.
— E quanto a você? O que faz por essas bandas? — questionou Goldo com a boca cheia.
— Eu e minha companheira procurávamos uma feiticeira que pudesse ajudar-nos com... meu bichinho de estimação — ele apontou para Hayley, era melhor não compartilhar nada sobre a maldição dela com estranhos.
 Nem mesmo um terrível pirata foi forte o bastante para resistir à fofura dela.
— Que coisinha mais linda! Deve valer uma nota no mercado negro. — Goldo tentou acariciá-la, mas Lee o repreendeu com um tapa.
— Não ouse.
— Tudo bem, tudo bem.
Terminada a refeição, Goldo apoiou-se em seus joelhos gordos e levantou-se. Alongou os músculos e estalou as costas, depois tampou a visão para observar o oceano distante.
— Foi-me prometido algo surpreendente caso eu consiga encontrar uns artefatos mágicos... mas, para ser sincero, nem sei com o que estou lidando. Só quero agarrá-las e dar o fora daqui. Ouvi dizer que tem gente perigosa nessa ilha, um rapaz ruivo. Preciso estar com uma perna atrás para evitar ser derrubado.
— Já lidei com pessoas do submundo — comentou Lee. — É preciso assumir riscos.
— Vejo que você é vivido, meu bom rapaz. É um jogo de gato e rato, você precisa estar pronto para caçar e não ser devorado, basta saber com quem está lidando. Na nossa mente, estamos sempre fazendo a coisa certa, então, quem sou eu para discutir?
Goldo coçou seus olhos profundos, pronto para enfim seguir com sua jornada.
— Obrigado pela ajuda, caro amigo. Que o destino lhe pague em dobro, quando houver a oportunidade!
— Ei — chamou Lee. — Não vá se meter em confusão.
— Oh, não, jamais. Provavelmente você nunca mais ouvirá falar de mim. Não nesta situação precária. Eu ainda serei o homem mais rico do mundo.
Goldo foi andando e seguiu pela praia, deixando para trás pegadas na areia que logo foram varridas pelas ondas.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Capítulo 19.5 - Proteja-me [Cenas Deletadas]

Onde a cena se encaixava?
Entre os Capítulos 19 e 20, o grupo tirou um tempo para descansar na cidade de Bausonne fazendo os preparativos para seguirem em jornada. Este era para ter sido o fechamento do arco da busca pelas Pérolas Sagradas antes dos personagens partirem pra a Ilha-S.

Sobre o que falava?
Após a captura de Tootie, conhecemos uma nova antagonista que atende pelo nome de Mysteria e que sente um tremendo ódio de todas as maldades cometidas contra sua raça no Reino de Sellure. Este capítulo explorava as consequências da morte do irmão de Lesten em sua vida, o arrependimento de Bill e a relação de obediência de Tootie em busca de uma mestra.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Combinadas a Parte 1 e 2 totalizavam quase 8000 palavras, um corte necessário para a versão final do livro. O feedback para essas duas partes foi extremamente precário e o arco foi considerado um filler.


Proteja-me (Parte 2)
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas

Estava sozinha, mas já se acostumara àquela sensação desde que era criança. Vivia largada pelas ruas de Bausonne, invisível aos olhos dos transeuntes, o máximo que conseguia arrancar eram suspiros e olhares de pena, mas ninguém nunca se importara de verdade a ponto de ajudar. Para todas as direções que olhasse só via seu reflexo — alguns distorcidos, outros tão perfeitos que pareciam ser reais —, Tootie esticou o braço e, para surpresa, uma mulher projetou-se em sua frente. As duas eram tão parecidas que poderiam ser confundidas com mãe e filha, mas talvez a figura não passasse de uma idealização de como Tootie queria ser quando crescesse: corpo voluptuoso, longos cabelos negros, adereços e joias que a fazia assemelhar-se a uma rainha. Um sorriso esperançoso formou-se entre seus lábios de menina.
— Senhorita Cléo, é você mesmo? — perguntou Tootie. — Você voltou para mim?
— Claro que não, bobinha — respondeu a voz.  — Ninguém deseja você por perto, não consegue enxergar? Você é uma criaturinha deprimente que segue qualquer um que te dê um pouco de carinho como um animalzinho sem dono. Não é a toa que eu a deixei para morrer sozinha. E quer saber de uma coisa? Eu não suportava mais estar perto de você. Espero que o mundo esqueça sua existência.

Tootie despertou ofegante, tentou livrar-se desesperadamente daqueles pensamentos até concluir que estava em um local desconhecido, uma sala úmida de piso frio e paredes estreitas. Pelo barulho vindo do outro lado da parede, a chuva parecia engrossas anunciando a chegada de uma tempestade iminente. Ainda não tinha pistas de onde estava, talvez um depósito? Juntou as duas mãos e tentou reunir um pouco de areia caso estivesse perto da praia, mas não havia o suficiente nem para ativar a parte mais remota de seus poderes através da mana.
Ouviu-se o barulho de um portão de ferro sendo aberto. Tootie não conseguia enxergar direito na penumbra, mas pôde reconhecer um vulto que caminhava em sua direção, apoiando-se sobre um dos joelhos para encarar mais de perto a garotinha suja e indefesa largada no chão de pedra.
— Você sabe por que está aqui?
Tootie mordeu um dos lábios, mas não respondeu. Sua anfitriã parecia ser amigável, mas com certeza não tinha boas intenções por trancafiá-la em um cárcere como se fosse algum espécime raro.
— Eu preciso descobrir uma coisa. Se me permite...
A figura em sua frente tocou na alça de seu vestido, o que fez Tootie recuar corada. passara por aquilo antes. Começou a se debater assustada, mas suas costas ficaram expostas por breves que permitiram que sua captora visse o que procurava: uma tatuagem misteriosa próxima à asa esquerda com formato circular. A mulher levantou-se, satisfeita com seus resultados.
— É o que eu imaginava. Então você também foi uma das experiências.
Tootie precisou conter o choro, estava assustada e aflita. Se houve uma época de sua vida em que mais sentira medo, então aquela tatuagem era responsável por trazer de volta suas piores lembranças, uma cicatriz presa ao seu corpo para que nunca esquecesse.
Tomada por uma onda de ternura, a mulher de manto ajoelhou-se ao lado de Tootie e a envolveu com os dois braços num sinal de compaixão.
— Calma, não precisa ficar com medo. — A mulher revelou próximo ao seu abdômen uma  cicatriz semelhante. — Está vendo? Eu sou como você. Eu também fui uma experiência.
Tootie limpou os olhos, mas mal conseguia organizar as palavras.
— Por que você me trouxe para cá? Eu não quero estar aqui — lamentou a menina.
— Desculpe-me, mas eu imaginei que você poderia reagir mal caso eu mantivesse uma aproximação mais casual. Não era minha intenção desestabilizá-la assim — disse a mulher. — Pode me chamar de Mysteria. Eu sou uma tótines, como você.
— O que... quer de mim? — Tootie ainda sentia sua cabeça latejar e não entendia exatamente como havia ido parar ali. Mysteria sorriu involuntariamente e segurou na mão da garota, seus dedos se entrelaçaram como se uma ligação muito forte as envolvesse.
— Nós sofremos muito no passado, não é? Isso nos faz iguais. Acha que poderíamos ser amigas?
Aquela frase de Mysteria parecia ter sido dita pela própria mulher que considerara sua única mãe, a Srta. Cleópatra. Por incontáveis anos, Tootie procurara uma figura materna que a acolhesse, sentia a necessidade de ser protegida.
A conversa foi interrompida quando o portão voltou a ser aberto e duas pessoas entraram na cela às pressas, atravessando o corredor para a enfermaria. Um deles berrava de dor por conta de seu braço ensanguentado devido a mordidas que se assemelhavam as de um tubarão. Um terceiro homem aproximou-se trazendo a seguinte mensagem:
— Senhorita Mysteria, nós pegamos um deles!
— Tragam-no agora mesmo — ordenou.
Foram necessários quatro monstros para arrastarem ainda que com dificuldade o gecko que se debatia ferozmente. Lesten tinha as mãos e os pés acorrentados e portava uma focinheira, ele se contorcia com a força de um crocodilo selvagem e nem mesmo quatro criaturas com o dobro de seu tamanho conseguiam contê-lo. Tootie assustou-se ao ver seu amigo naquela situação e rogou para que o soltassem.
— Por favor, parem com isso! Ele está sofrendo!
— Não se preocupe, não é minha intenção tirar a vida de ninguém — confirmou Mysteria. — Só pensei em trazê-lo porque assim seria mais fácil para você nos entregar a Pérola Sagrada que você protege, guardiã.
— Do que está falando? Eu nem a tenho mais! — Tootie desesperou-se.
Mysteria sofreu uma súbita mudança de comportamento e puxou a menina pelo cabelo.
— Como assim? O que você fez com a droga da pérola, sua merdinha?
Tootie assustou-se com tamanha agressividade, sentiu a peruca ser arrancada de sua cabeça, depois caiu de joelhos no chão e encolheu-se para que não fosse mais abusada. Mysteria procurou respirar fundo e manter a compostura, havia uma lacuna em seu plano que precisava ser contornada.
— Estávamos tão perto de encontrar... conte-me o que fez com aquele artefato, menina.
— E-eu não a tenho mais... Nunca sequer soube o que as pérolas fazem, mas por favor, deixem o meu amigo em paz... — rogou Tootie.
Mysteria ordenou que seus homens soltassem Lesten que caiu no chão como um saco de areia, incapaz de mover-se. Ela fitou Tootie em toda sua agonia e dessa vez não sentiu pena.
— Vocês, da tão estimada Ordem do Selamento, realmente não fazem ideia do quão importante era sua função... É decadente ver como tratam um tesouro imensurável, eu teria desempenhado o mesmo papel com muito mais eficiência — disse Mysteria em seu monólogo, pois suas visitas não estavam em condições de ouvir. — Vocês devem estar se perguntando por que estou aqui. Bem, vocês não eram os únicos a tentarem reunir esses artefatos, é verdade mesmo que eles realizam desejos?
Lesten grunhiu alto, mas era impossível entender o que ele tinha a dizer.
Mysteria caminhou em direção do lagarto, observando-o com atenção por debaixo de seu manto. Seus olhos de ametista enfeitiçavam os de coração fraco, mas não ele. As pupilas do gecko estavam dilatadas, sua íris biconvexa chamuscava como as de um dragão e por uma fração de segundos foi ela quem se encantou.
— Você daria um excelente serviçal. Por que não se junta à minha causa? Quando eu tiver meus desejos realizados, eu farei de você o meu criado mais fiel. O mundo cairá de joelhos aos seus pés.
Um descuido foi o que bastou para que Lesten puxasse as duas correntes que prendiam seus braços e derrubar os homens que o prendiam. Por ser ágil, ninguém conseguiu apanhá-lo enquanto se esgueirava pelas paredes e preparava o ataque. Com um salto veloz, avançou contra Mysteria mesmo desarmado, ainda tinha a força para arrancar a pele do rosto dela com as próprias garras, mas colidiu com uma barreira mágica criada de última hora e foi direto ao chão.
— Geckos são mesmo desprezíveis. Impossível fazê-los mudar de ideia ou trair seus ideais. No mundo novo que pretendo criar, não servirão nem para ingerir o lixo que gerarmos — disse Mysteria com a voz carregada de malícia, pisando na cabeça do lagarto com seu sapato diversas vezes até ver o sangue verde jorrar.
Lesten não conseguia mover-se, uma força invisível o imobilizava paralisando apenas seus músculos e obrigando sua mente a continuar funcionando.
— Sua verdadeira punição começa em breve, lagarto — ordenou Mysteria. — Sumam com o corpo mais tarde.
— Não! — gritou Tootie. — Por favor, ele é meu amigo! Leve-me em seu lugar!
Mysteria devolveu-lhe um olhar repleto de significados.
— Acho que encontrei um novo uso para você, garotinha. Por que não tentava me fazer mudar de ideia?
Tootie aproximou-se da mulher e ajoelhou em sua frente, oferecendo-se para cumprir toda e qualquer tarefa que lhe designassem. Lesten era obrigado a ver tudo sem se mexer, queria ajudá-la, mas não conseguia salvar nem a si mesmo. Os homens que o capturaram começaram a chutá-lo no rosto, no abdômen, em todos os lugares que lhe causassem dor. Lesten grunhiu e se envergou como um animal abatido, arrependido de não ter treinado mais, de ter saído naquela viagem, de ter sido incapaz de proteger as pessoas que confiaram nele.
Tudo escureceu. Uma alucinação tomou conta de sua mente, levando suas dores para outra realidade. Lesten estava agachado com as mãos na cabeça, temia que os valentões voltassem para roubar sua comida no intervalo, mas concluiu que na verdade era ele quem fazia essas coisas. Quando abriu os olhos, pensou ter se visto num espelho.
Ei, irmão, disse o reflexo. Lembra-se de mim? Você me deixou para morrer.
— É mentira — Lesten murmurou, fechando os olhos e esperando a hora em que despertasse daquele pesadelo. Seria melhor continuar no escuro a ter de encarar aquelas lembranças mais uma vez. — Eu tentei. Eu fiz de tudo.
Você fez tudo errado, Lesten, como sempre. Como consegue ser tão imprestável? Que péssimo irmão eu fui arranjar, é por isso que ninguém gosta de você, nem aqueles que você considera seus amigos, nem a sua própria família. E eu nunca vou te perdoar por isso. Nunca.

i

Não poderia descansar enquanto todos seus amigos estivessem em segurança. Bausonne estava deserta, os habitantes locais se escondiam da tempestade dentro de suas casas, pois sabiam que não poderiam enfrentar a mãe natureza em sua fúria. Os pingos desciam como canivetes, as embarcações do cais dançavam conforme o ritmo das águas turbulentas, o vento envergava as árvores e o mar invadia a cidade com ondas de até cinco metros. As tempestades em Century eram súbitas e imprevisíveis, mas não havia a opção de esperá-la passar, o resgate era urgente.
— Quais as ordens? — perguntou Auria com prontidão.
— Eu tenho um plano — falou Ralph. — Vocês duas acham que conseguem dar conta da porta de entrada?
— Eu adoro receber visitas — respondeu Elma.
Facade informou-lhes a direção do cais ao leste da cidade. Havia suspeitas do envolvimento de piratas há pelo menos um ano, mas ninguém tinha o interesse de comprovar. O local era utilizado para transporte de mercadorias para a Ilha-S, alimentando uma guerra civil que vinha ganhando força na região. Independente de quais fossem suas atividades por debaixo dos panos, estava na hora de interrompê-las.
Antes que começassem a busca, Ralph deu-se conta de que uma sombra esguia o acompanhava.
— Não pense que estou fazendo isso por vocês ou essas pérolas idiotas — falou Bill.
— Você deveria desculpar-se com ela, e não comigo — Ralph retrucou, pois não descansaria até que Tootie estivesse segura no Castelo da Fachada.
A função de Auria e Elma era chamar a atenção na entrada para que Ralph e Bill tivessem passagem livre rumo ao esconderijo inimigo pelos fundos. Havia um soldado trajado em armadura que fazia a vigilância, escondendo-se debaixo de um container para não ser pego pela chuva. As duas se aproximaram como quem busca abrigo, Auria envolvia seus braços em sinal de frio e Elma também estava toda descabelada.
— Ah, que bom que encontramos esse lugarzinho para nos escondermos! — disse Auria, como se encenasse uma peça. — Espero que essa chuva passe logo.
— Desculpe-me, senhoritas, mas vocês não podem ficar aqui — disse o soldado. — Esta é uma zona privada, sou pago para manter todos longe.
— Vai mesmo dispensar duas lindas moças nessa tempestade? — indagou Elma, lançando uma piscadela. — Vamos lá, querido, é só por alguns minutos.
O soldado ameaçou pegar sua lança e Elma não esperou para acertar-lhe um soco na garganta, fazendo-o cair ofegante no chão. Ela entendia de armaduras, sabia bem onde não recebiam defesa apropriada. Outros três homens ouviram o barulho e deixaram suas posições no interior da construção, Auria levou a mão até sua bainha e esqueceu-se completamente de que não tinha mais Melodia para defender-se e, para piorar, também estava sem sua jaqueta, uma vez que Elma estava trabalhando em melhorias para ela.
— Acho que nós deveríamos ter nos preparado melhor — disse Auria.
— Querida, toda mulher sempre sai de casa prevenida.
Elma movimentou seu indicador e diversas peças de armadura começaram a se deslocar, alocando-se no corpo de Auria com proteção reforçada, desde as manoplas, ombreiras e o peitoral de aço até um elmo feito sob sua medida. Era como controlar uma máquina indestrutível, nada a atingiria enquanto estivesse ali dentro, espadas não causavam mais do que arranhões e flechas eram repelidas como as picadas de um inseto. Estava imbatível. Enquanto sua verdadeira armadura não ficasse pronta, teria emprestado alguns dos equipamentos de Elma para transformá-la em uma guerreira de verdade.
Auria olhou para trás no aguardo de uma confirmação e a artesã fez um cumprimento com a cabeça.
— Vai em frente, gata. Arrasa.

Do outro lado, Ralph esgueirava-se pelas passagens estreitas dos esgotos de Bausonne enquanto Bill andava mais a frente, pois conhecia bem aquelas rotas. Nenhum deles dizia nada, estavam preocupados demais com seus amigos para discutirem. Muita água suja escorria pelos canos a ponto de cobrir seus joelhos, as paredes eram escorregadias e era preciso apoiar-se nelas para não cair devido a força da enxurrada.
Uma escada enferrujada quase oculta atrás de um cano foi usada para atingir a superfície, a água aumentava de nível consideravelmente, precisavam ser rápidos. Após se livrarem dos corredores fétidos, uma bifurcação formou-se entre portas e paredes de concreto. O barulho do vento lá fora era quase inaudível, por um instante só ouviam a respiração um do outro ficando cada vez mais densa.
— Você não é o único que quer ser herói nessa história, garoto — Bill disse de repente, indo pelo lado esquerdo e esperando que não fosse seguido. — Vá salvar o lagarto, que eu salvo a Tootie.
— Nós estamos aqui como uma equipe, você não vai resolver nada sozinho.
Bill virou-se para ele, seus olhos cinzentos como chumbo escondidos por debaixo de panos. Estava claro que ele não mudaria de ideia.
— Deixe-me consertar meus próprios erros.
Ralph admitiu que aquele era um pensamento nobre, por isso concordou em ir atrás de Lesten sozinho. O gatuno seguiu o caminho oposto que percorria corredores largos e vazios, mas todo cuidado era pouco. Começou a planejar seu ataque surpresa, por isso deixou os esgotos em direção de uma tubulação de ar. Após alguns minutos arrastando-se debruçado, pôde enxergar Tootie virada de costas ao lado de uma figura misteriosa sentada sobre uma cadeira, oculta por seu manto.
Desceu do teto com a faca em mãos. Estava para atingi-la pelas costas quando deu de cara com uma parede invisível e percebeu que fora pego em uma armadilha.
— Tootie! Princesa! — Bill gritava do outro lado, batendo com as duas mãos contra a barreira que não parecia ceder.
A mulher de manto virou-se para ele com um semblante comovente, mas seu sorriso transformou-se em uma risada sarcástica que caçoava de suas atitudes precipitadas.
— Estou tão feliz por você, querida, você fez tantos amigos! Conte-me, quem é este garoto? Ele também é uma experiência? Ele está em posse de uma das Pérolas Sagradas?
— O que você está fazendo ao lado dela? Fuja daí! — gritou Bill.
— Não posso. Eu me preocupo demais com vocês — falou Tootie, a expressão estática. — Por favor, vá embora. Não se preocupe, estarei em segurança ao lado da Srta. Mysteria.
— Sou eu quem deveria protegê-la!
— Coisa que você não foi capaz — respondeu Mysteria, compreensiva. — Então, você realmente é um dos guardiões da Ordem. Céus, mais parecem um bando de crianças brincando de esconde-esconde. Onde está a sua marca? Talvez eu deva agradecê-lo, porque foi graças a sua informação que descobri que as Pérolas Sagradas estavam nos arredores. Oito anos, vocês se mantiveram escondidos por oito anos... Os tótines deveriam manter-se unidos, somos melhores que essas raças inferiores e imperfeitas.
— Eu também sou um tótines e mesmo assim não saio por aí falando mal dos outros — argumentou Bill. — Pelo menos, não tanto... aprendi a conviver com isso. Sei que sofremos muito naqueles tempos horríveis, mas não dá para colocar culpa em toda uma nação. Que a história não volte a se repetir.
— Ora, meu pequeno ladrãozinho... Por que não fazemos um novo acordo? Dê-me as Pérolas Sagradas que liberto sua amiga.
— Se eu conseguisse reunir todas, com certeza não daria para você — retrucou Bill.
— Oh, é claro que não. Você jamais as reuniria porque não é forte o bastante.
Mysteria voltou-se para Tootie e segurou a mão dela, chegando bem perto do rosto da menina e mordiscando sua orelha enquanto lançava um olhar provocativo para o outro lado da barreira invisível.
— Eu adorei o presente. Obrigada por trazê-la até mim.
Bill fechou o punho e gritou com ainda mais força. Atirou uma bomba de fumaça e desapareceu, deixando-as sozinhas. Mysteria balançou a cabeça com pesar e falou para sua criada:
— Está vendo? Nunca se esqueça daqueles que realmente querem seu bem. Amigos cuidam e protegem, essa gente toda não passa de interesseiros no que você tem a oferecer, por isso os tótines estão melhores sozinhos.

ii

Ralph continuava sua busca pelos corredores quando alcançou um depósito de mercadorias pirata. Havia mantimentos para alimentar um batalhão além de armas e equipamentos que ele nunca vira antes. O jovem notou que o chão estava estranhamente escorregadio, o que o levava a crer que: a) eles tinham um bom faxineiro, b) não deveria estar pisando ali, ou c) algo devia ter sido limpo há pouco tempo. Ralph seguiu até uma sala sem iluminação onde jogavam os resíduos e encontrou sangue verde entre as frestas do piso de concreto. Dentro de uma lata de lixo, seu amigo lagarto estava praticamente desacordado, lutando para continuar respirando.
— Lesten! Vamos lá, campeão, aguente firme!
Ralph o retirou dali, colocando-o no chão com dificuldade. Chamava seu nome e tentava mantê-lo acordado até que recebeu o primeiro sinal de sensatez.
— E-eu não consegui proteger a Chanel... — o lagarto murmurou arrasado, preferindo ficar de olhos fechados a encarar a realidade. — Eu não consigo proteger ninguém... Por quê? Por que eu sou um fudido imprestável?
— Não diga bobagens — Ralph tentou apoiá-lo em seu ombro, mas Lesten não cooperava, preferia continuar estirado no chão feito o lixo que era. O rapaz sentou-se ao lado do amigo arfando de cansaço, mas estava longe de desistir. — Você é o gecko mais maneiro que eu conheço, não tem problema cometer alguns deslizes vez ou outra... nós gostamos de você exatamente do jeito que é.
— Eu não quero que as pessoas gostem de mim.
Os dois se entreolharam. Um turbilhão de pensamentos percorreu a mente do garoto, mas ele os resumiu em poucas palavras:
— Tudo bem. Você ainda é meu melhor amigo.
Ralph o ergueu mais uma vez, mas quando o colocou de pé Lesten perdeu o equilíbrio e os dois foram direto ao chão. O garoto tentava arrastá-lo e praticamente rogava para que tivesse forças para seguir em frente mais uma vez.
— Vamos lá, amigão... Se não quiser fazer por você, faça por seus amigos!
Sua mente não estava em seu melhor estado. Estava machucado e ferido, mas nada se comparava ao que aquela mulher fizera dentro de sua cabeça. Era cruel trazer de volta lembranças que não deveriam ser retiradas do escuro, muitas noites não conseguira dormir por causa das consequências da guerra até que concluiu que nunca mais viveria sem ela. A culpa estava impregnada em cada canto de sua memória, a responsabilidade não cumprida, o arrependimento.
— Você não sabe a minha história — Lesten murmurou baixinho, mas quando o puxou para mais perto ergueu a voz e gritou o mais alto que pôde. — Tá vendo essa cicatriz? É pra eu me olhar no espelho todos os dias e nunca me esquecer do que eu fiz de errado, todos nós temos arrependimentos e não há nada que possamos fazer para mudar essa realidade!
— Pare de dizer bobagens!
— Pare você de se importar comigo! Pare de tentar ser meu amigo!
Ralph o socou. Sua mão tremia. Lesten piscou com os olhos arregalados, pois esperava aquilo de qualquer um, menos dele.
— Cala a boca. — O garoto respirava com dificuldade. O soco doera mais nele. — Cala a boca. Estou cansado de socar os meus amigos hoje, mas vocês estão merecendo. Eu preciso que você seja forte agora, por aqueles que ainda confiam ou já confiaram em nós. Não podemos decepcioná-los.
Lesten não sentia vontade de rir e nem chorar, mas compreendeu a mensagem, revelando um sorriso torto e com dentes quebrados que pelo menos eram substituídos bem rápido nos geckos.
Alguém precisava dele — seus amigos precisavam do velho Lesten de volta.
— É a primeira vez que te vejo tão bravo
— É, eu sei. Não conta pra ninguém, mas às vezes acontece.
Lesten apoiava-se num dos ombros de seu amigo quando eles saíam da sala. Ao passarem pelo depósito de armamentos, várias lanças estavam alocadas na parede, mas uma em especial era marcada por uma fita vermelha surrada na ponta.
— Ali... eu preciso dela.
Assim como Lignum era especial, era nítido que aquela lança tinha algum valor sentimental. Lesten prendeu a fita vermelha com mais força e respirou fundo.
— E aí, irmão... Pronto para mais uma luta?
Através de seu olfato, Lesten pôde situar-se pelo cheiro salgado do mar até encontrar a saída. A chuva continuava intensa, o rapaz deixou-o confortável sobre um caixote e brandiu Lignum, indicando que continuaria sua busca.
— O Bill e a Tootie ainda não voltaram. Preciso encontrá-los.
— Ruivo, toma cuidado com essa mulher... A magia dela atinge a sua mente, eu nunca vi nada parecido...
Ralph agradeceu o conselho e seguiu com pressa pelos corredores. Mysteria o aguardava em sua sala no centro do depósito, mas não havia sinal de Tootie.
— Vejam só, trouxeram um preá para brincar comigo.
— Eu nem sei o que é um preá, mas deve ser um bicho bacana. Eu sou o Ralph, da Espada de Madeira.
A mulher teve que rir do comentário, mas logo se recompôs.
— Você é tão adorável. Eu adoraria tê-lo como meu bobo da corte, você me faria rir todos os dias.
Ralph retirou uma sacola de sua mochila e a atirou no chão. Mysteria o encarou pasma, pois não estava esperando que realmente fosse conseguir o que buscava de maneira tão simples.
— Você só pode estar brincando.
— Só temos três até agora — Ralph explicou. — Não precisa conferir, estão todas aí. Você sequestrou a nossa amiga, esse é o pagamento para tê-la de volta.
Mysteria caminhou até a sacola e a abriu apreensiva, as pérolas realmente estavam ali. Olhou bem para Ralph e não compreendeu sua atitude. Quem era ele, e o que buscava? Se queria tanto assim resgatar seus amigos, seria mesmo capaz de sacrificar seus maiores sonhos em prol deles?
— Eu sempre pensei que esse mundo estivesse apodrecido — perguntou Mysteria. — Você se lembra dos tempos em que as pessoas ainda eram boas? Os cavaleiros tinham honra. As promessas eram cumpridas, e os votos jamais se rompiam. Cada dia que passa eu sinto que estamos mergulhando em um abismo de maldade irrecuperável, e nesse exato momento, diante de um gesto de bondade, fico sem palavras.
— Eu entendo — respondeu Ralph. — Entendo de verdade. Nós dois estamos tentando lutar por um mundo melhor, deveríamos unir nossas forças.
— Isso será impossível — corrigiu Mysteria. — Eu tenho certeza que existe maldade em você, assim como ela também habita em mim. Ninguém é inocente nessa história, em algum momento você será corrompido pela vida, parecemos limpos por fora, mas estamos podres por dentro. Meu plano era utilizar os poderes do Mago para restaurar a ordem, livrar-me somente daqueles que fossem ruins, mas aí ninguém teria salvação — Mysteria esticou os braços e de suas mãos uma energia transparente materializou-se como se fossem estrelas pontiagudas — Acho que seria melhor se o sol simplesmente explodisse logo e todos morressem ao mesmo tempo. É, este seria um bom desejo.
Com sua espada de madeira, Ralph avançou contra Mysteria e esquivou-se dos projéteis. A feiticeira gerou uma barreira mágica na tentativa de prendê-lo, ele mergulhou Lignum e estilhaçou a parede como se fosse feita de vidro. A mulher assustou-se com as lascas e tropeçou, indo direto ao chão.
— C-como ele consegue destruir meus feitiços invisíveis? — Mysteria bradou, pasma.
— Essa é a anti-matéria — Ralph apresentou sua espada mágica. — Em uma luta de ferro contra ferro, eu não poderia machucar ninguém. Ela acerta diretamente na energia espiritual do indivíduo, esse é o verdadeiro poder da Lignum.
Num ato de desespero, Mysteria fez uso de seus poderes mais obscuros. Ela criou um espelho na mente do garoto, confundindo lembranças e as tornando um tormento. Esticou a mão na direção do rapaz num gesto teatral, mas Ralph continuou parado — como uma criança entusiasmada espera a apresentação final — mas nada acontecia.
— E-eu não entendo. Meus poderes não funcionam com você.
— Ah, então você estava tentando atingir a minha mente — Ralph concluiu. — Que maneiro.
— Parece que suas lembranças não são afetadas.
— Não mesmo. E você nem vai conseguir.
— Por quê?
— Sei lá. Porque eu não quero
Ralph colocou a ponta de sua espada na garganta da mulher e Mysteria riu da cena.
— Uma espada mágica, imune a magias da mente... você é mesmo intrigante, pergunto-me até se não descende da raça dos tótines, pois você é certamente especial.
— Eu sou apenas um garoto comum da zona rural de Helvetica.
— E agora? — perguntou Mysteria em tom desafiador. — Vai bater em uma mulher com essa espada de madeira?
Para sua surpresa, um golpe foi desferido com força contra sua nuca. Bill fizera o favor de apaga-la por alguns instantes, estava acostumado a tal tarefa. Ele pegou de volta a sacola contendo as três pérolas e a arremessou para Ralph. Não iria mais envolver-se com aqueles artefatos, Tootie estava ao seu lado, e aquilo era tudo que importava.
— Acho que posso te perdoar agora — disse Ralph.
— Meu ego é inflado demais para agradecer — respondeu Bill, voltando-se para Tootie. — Mas quanto a você, minhas eternas desculpas! Eu prometi que nunca a deixaria, pode ter certeza que irei recompensá-la pelo resto da minha vida!
— Não tem problema — disse Tootie, exausta e abalada depois de um dia tão conturbada. — Eu sabia que vocês viriam... e devo ser idiota por isso, mas confiar em vocês é a única escolha que tenho.
— Ouch, isso doeu — falou Bill. — Não voltarei a repetir o mesmo erro...
Bill e Tootie deixaram o depósito, mas quando Ralph estava para sair, viu que Mysteria levantava-se. A mulher retirou o manto do rosto e seus cabelos púrpuros caíram sobre seu rosto.
— Garoto, posso fazer uma única pergunta?
— À vontade, dona.
— Você acha que está fazendo a coisa certa?
— O que é certo para você às vezes é errado para o outro, por mais óbvio que pareça — respondeu Ralph, erguendo os ombros. — Eu acredito sinceramente que seus ideais eram nobres, mas não vamos generalizar, todos merecem uma segunda chance.
Ralph esticou a mão em sua direção para ajudá-la a levantar-se, mas Mysteria recusou o gesto.
— Faça bom uso de seu desejo, moleque, porque no fim dessa história você também não passará de um bobo da corte de um espetáculo que não esperava fazer parte.
— Eu não pretendo realizar nenhum pedido meu, se quiser saber. No fim das contas, se o Mago realmente realiza desejos ou não, não importa. Todos nós devemos lutar por um mundo melhor, todos os dias, e se não fizermos nada, não são pérolas ou magia que fará. Você pode sentar, reclamar e colocar a culpa nos outros o quanto quiser, mas pelo menos eu estarei fazendo a minha parte. E você?
O jovem acenou para ela com a mão e deixou a construção, indo para o encontro de seus amigos. A chuva foi passageira, e apesar do estrago deixado em Bausonne o litoral foi tomado por uma calmaria como nunca antes vista quando a tempestade cessou. Gaivotas já planavam pelo céu livre de nuvens, nenhuma onda perturbava a costa e seus amigos estavam sentados entre os escombros conversando como se acabassem de sair de uma festa.
— Nossa, lagartixa, parece que você foi atropelado duas vezes e depois ainda passaram por cima para ter certeza de que estava morto — falou Auria.
— Essa é a minha cara mesmo, tu já devia estar acostumada — respondeu Lesten, sem ideias para retrucar na mesma moeda. A guerreira o envolveu num dos braços e lhe deu alguns cascudos, escondendo toda a preocupação e angústia que sentira em sua ausência.
— Sem você minha vida perde a graça, sabia?
Lesten deu um sorriso torto, cheio de si. Foi então que reparou Tootie, olhando-o envergonhada. Devia estar esperando algum tipo de punição por ter sido desatenta e acabado desencadeando todo aquele conflito.
— Ei, Chanel. — Para sua surpresa, Lesten revelou o pequeno ursinho de Dinorros com a cabeça rasgada. — Eu encontrei perdido enquanto tentava te achar, mas acabei estragando no caminho, pra variar.
— V-você guardou — a garota pegou o ursinho no colo, seus olhos quase se encheram de lágrimas ao lembrar-se que por pouco não o perdera para sempre. — Nunca mais vou abandoná-lo. Obrigada, senhor lagarto! Obrigada a todos vocês!
Pela primeira vez, todos souberam lutar e defender o próximo. Não importava quais desafios surgissem, estariam prontos para enfrentá-los.
Ralph deitou-se na areia da praia esticando as pernas, cercado de entulhos, amontoados de lixo e dois ou três peixes mortos.
— Que dia, hein — disse o garoto com um sorriso no rosto.
Lesten só pôde confirmar com a cabeça, suspirando aliviado.
— Que dia.

Menu Principal






Menu Secundário






Estatísticas




POSTAGENS
COMENTÁRIOS
Tecnologia do Blogger.

Comentários Recentes

Companheiros de Aventura

+ Lidas da Temporada