terça-feira, 24 de agosto de 2021

Quatro Elementos: A Traição [Resenha]


"Uma marca no braço poderia ser uma simples tatuagem, mas, no mundo onde os mutantes vivem, isso significa que seu corpo se transforma para desenvolver poderes de um dos elementos: água, terra, fogo e ar.Ou, no caso de Selena, todos eles juntos. O mundo que os humanos não conhecem é abalado quando a jovem é marcada de forma desconhecida, e os traços que recebeu da transformação foram de uma cor incomum. Selena se tornou a protetora lendária e, o que antes era uma lenda entre os mutantes, torna-se um pesadelo. Sua chegada à academia mutante para ser treinada a controlar suas afinidades se transforma em uma catástrofe, e seus poderes chamam a atenção do mal que, seguindo as profecias, passa a aterrorizar o mundo mutante para tomar o poder.

Em um universo de magia, traição, guerra, romance e aventura, Selena precisará contar com a ajuda dos deuses, dos elementos e de seus amigos para salvar a raça da exposição humana e impedir que o sangue de inocentes seja derramado. Isso se ela puder salvar a si mesma..."

Autor(a): Gabriela Flumignan
Editora: Novo Século - Talentos da Literatura Brasileira
Lançamento: Dezembro de 2018
Altura e largura: 21 x 14 cm
Número de páginas: 448
Gênero: Fantasia, Romance, Ficção, Juvenil

Por que escolhi essa obra?

Eu conheci a Gabriela através de uma recomendação da Raquel, do Raposa Galáctica (que inclusive já chegou a escrever uma resenha maravilhosa sobre Matéria que você confere clicando aqui). Segundo a Raquel, Quatro Elementos estava entre uma de suas obras nacionais favoritas, e isso já me despertou o interesse pelo trabalho da Gabriela.

Nós entramos em contato e eu propus uma parceria entre nossos projetos — eu enviei um exemplar de Matéria, e ela me mandou um dela. Uma das coisas que mais me chamou atenção no seu trabalho foram os stories e a participação da Gabriela nas redes sociais, sempre tentando comentar e interagir com seus seguidores. Inclusive, ela fez uma leva de stories compartilhando suas primeiras impressões de Matéria e eu me apaixonei por sua transparência e forma de se expressar. Eu tinha certeza de que ela saberia passar toda essa espontaneidade para o livro, entregando aos leitores uma história incrível, profunda e cheia de personagens cativantes. Não me decepcionei!

Capa, Design e Editoração

O projeto gráfico do livro ficou por conta da equipe da Novo Século. Para quem não conhece, Talentos da Literatura Brasileira é um selo dentro da editora que visa dar uma oportunidade para escritores nacionais ainda em ascensão. Com uma alta tiragem de cópias físicas, o livro consegue chegar a uma variedade de sites e possíveis leitores dentro do gênero.

Ao meu ver, o título Quatro Elementos não é forte o bastante para se sustentar, perdendo-se em um oceano de histórias de fantasia com a temática semelhante, sem contar que o subtítulo acaba vindo como um spoiler de antemão que poderia ter sido poupado. Com uma diagramação simples, o livro foca em uma leitura limpa que não cansa os olhos em suas quase 450 páginas. Por incrível que pareça, a capa não é do meu agrado — ela falha em se destacar dentre outras tantas capas de fantasias que conseguem vender a história só pela imagem, preservando-se em uma zona segura e misteriosa com tons em roxos. É um trabalho caprichoso, com pouquíssimos erros de digitação (na maioria dos casos acredito que por falta de atenção).

A fonte escolhida foi Garamond Pro, muito confortável de se ler e com bom espaçamento. Dou destaque para os pequenos brindes enviados pela autora, sendo um marca páginas e uma tatuagem que faz alusão à marca no braço da protagonista, um mimo super criativo para os leitores da obra.

Sobre os Personagens

Aqui vai um breve resuminho da história: Ao completar 16 anos, Selena descobre que é uma mutante. Ela passou os últimos anos vivendo ao lado de tios insuportáveis e sua irmã mais nova, Isabela, após a morte de seus pais em um acidente de carro. Toda a trama se desenrola para o momento em que ela é descoberta e levada para a academia dos mutantes, onde sua reputação como futura Protetora Lendária a antecede por conta de sua marca única no braço.

"[...] Se você se sentir como eu, não tiver muito contato com o resto da família e seus antepassados tiverem sido mutantes, ou se você tem alguma marca no braço que não se lembra de ter tatuado, pare de ler. Mas se quiser mais doses de adrenalina no sangue, então me dê sua mão, e eu te mostro tudo. Mas você precisa aceitar o desafio".

Selena é uma protagonista cativante, uma jovem repleta de problemas com quem é fácil se identificar. Ela é destemida quando precisa proteger aqueles que ama, mas ao mesmo tempo extremamente insegura de si mesma. Se ela precisasse se sacrificar para o bem do mundo, ela o faria; mas se fosse obrigada a passar por cima de alguém que ama, iria hesitar. Uma boa história de fantasia precisa de um protagonista forte, ou o leitor não terá a menor paciência de acompanhá-lo, sendo este um dos meus maiores medos com narrativas em primeira pessoa, mas Selena não desaponta.

Há três personagens na trama que merecem destaque — Isabela, Lucas e Daila. O segundo arco foca muito nas novas amizades de Selena na academia, mas enquanto a maioria delas cai no papel de um personagem de apoio, esses três guardam um enorme potencial para o futuro.

Lucas é o principal interesse amoroso, e uma das coisas que mais me diverti foram os pensamentos indelicados de uma adolescente ainda em fase de descoberta. Selena consegue ser doce e meiga, às vezes eu sentia como se lesse uma história colegial, e se tem algo que adoro em universos de fantasia é a aproximação com coisas mundanas e simples. Não é comum encontrar histórias de aventura que deem espaço para o romance conforme progride, geralmente acaba pendendo demais para um dos lados. Um de meus momentos favoritos do Lucas foi a cena da cachoeira, com direito a abraços apertados e companhia em momentos de necessidade.

Daila é uma das garotas que começa cumprindo seu papel como a "exibida que vai ser um pé no saco das garotas nerds". Essa imagem é destruída no momento em que Selena tem um encontro inusitado e passa a se perguntar: "Mas por que ela é assim? Como eu poderia ajudá-la?". Fiquei esperando que sua reconciliação com Daila chegasse até o fim do livro, mas pelo visto vai ficar para depois. Em alguns trechos cita-se a construção de um clã, então fico imaginando como seria tendo Selena como a líder de seu grupo de mutantes para enfrentar as forças do mal. Algumas coisas não podem faltar numa aventura épica!

E claro, Isabela, a pequena e doce irmãzinha da protagonista. O que torna essa personagem tão curiosa é o fato dela flutuar entre ser a maior força e a fraqueza de Selena. A força — ela faria tudo por ela, até mataria — e a fraqueza — enquanto Isabela está por perto, parece que tudo precisa ser contido. As grandes reviravoltas só acontecem quando a menina está longe e em segurança, é como se o potencial de Selena só fosse desperto longe da irmã que ela cuida com tanto afinco. Isso pode trazer uma reviravolta interessante nos próximos volumes, pois até quando ela será capaz de protegê-la?

Deixo aqui uma menção honrosa também para o vilão da história, que vai deixando algumas dicas pelo caminho que desafiam o leitor a adivinhar sua identidade antes do final. Selena e o vilão protagonizam uma batalha épica perto do fim que nos permite construir um forte vínculo através de suas motivações e presença. Se você tiver tido a chance de ler, qual foi seu palpite? Matou a charada antes da metade ou ainda foi pego completamente desprevenindo? Garanto que irá se surpreender!


Sobre a Obra e a Narrativa

A escrita da Gabriela é primorosa, tudo feito em primeira pessoa como se ouvíssemos a protagonista narrar suas aventuras já num futuro distante, mas empolgante o bastante para sentirmos seus dramas, dúvidas e medos no presente. Seu cuidado está em compartilhar os detalhes, a rotina e principalmente os pensamentos de uma adolescente que está passando por momentos difíceis.

A história se passa no Brasil, mas este é um detalhe que quase nos passa despercebido conforme tudo progride. Eu poderia separar a obra em três arcos — o primeiro narra a vida cotidiana de Selena ao lado dos tios, suas dificuldades e problemas na escola. O segundo arco se inicia quando Selena chega à Academia Mutante e passa conhecer mais sobre os elementos, seus novos estudos e companheiros de classe; somos apresentados a esse universo que não se parece tão diferente do nosso (lá eles também sofrem com química e matemática. Te entendo, Selena!). E enfim, o último arco é o que eleva a personagem ao seu ápice, uma sequência de reviravoltas e tragédias que a farão crescer de uma hora para a outra, ou sucumbir diante de seus medos.

Dentre algumas resenhas que li, me deparei mais de uma vez com leitores que se incomodaram com a história se estender demais. Como autor, também escutei muito de pessoas que olharam meu livro (com suas quase 390 páginas muito bem espremidas) e o consideraram grosso demais para uma leitura juvenil. Sendo esta uma história que a autora escreveu aos 12 anos, é de se esperar que sua escrita fosse evoluindo com o tempo. Não me entenda mal — a escrita da Gabriela é uma das melhores que tive o prazer de ler esse ano, tudo muito claro, bem explicado e pontuado —, consegui me imaginar em cada cena, mas alguns cortes no texto teriam feito bem, como em momentos onde a protagonista está sofrendo em meio a suas dúvidas e se pega pensando repetidas vezes no mesmo assunto ao invés de permitir as coisas acontecerem de uma vez. Um autor leva meses para escrever sua obra, às vezes até anos, então nesse intervalo perde-se a noção do que já foi mencionado há algumas poucas páginas. Quando um leitor devora um livro em questão de dias, é muito mais nítido para ele: "Mas ela já não repetiu isso nos últimos dois ou três capítulos?". Sei bem como dói ter que tirar qualquer linha de nosso tão árduo trabalho, porque tudo nos parece importante!

"O futuro é imprevisível e, sempre que olhamos para ele, pode mudar. Espero que mude. Você precisa descobrir seu próprio caminho. Descobrir e realizar a missão com a qual você mesma concordou. Não posso lhe dar um atalho, Selena, muito menos resolver as coisas por você. Mas saiba que nunca vamos abandoná-la."

A existência da magia nesse universo é simples e eficaz. Os jovens que nascem com a marca são os chamados mutantes, e geralmente sua cor é o que definirá sua aptidão — fogo, ar, água ou terra — aquele nascido com a marca roxa está fadado a se tornar o Protetor Lendário, abençoado pelo inédito elemento Universo. Pode-se dizer que esta é a mais pura Jornada do Herói que eu tanto amo. Já ouviu falar sobre esse conceito do monomito de Joseph Campbell? Com certeza vale uma lida para se aprofundar mais!

  • Selena está em seu Mundo Comum (sua insuportável rotina com os tios);
  • Ela é encontrada pelos agentes da academia ao descobrirem a marca roxa, o Chamado que a levará assim para o Mundo Especial (a Academia Mutante);
  • Ela passa a enfrentar seus novos desafios e testes, aprendendo a se tornar uma mutante como eles. Seu objetivo é treinar o máximo que puder para assumir seu manto como A Escolhida e proteger a todos, mas as coisas começam a dar errado;
  • É quando ela passa por sua primeira provação, a morte de um ente querido. Os Guardiões do Limiar começam a dar as caras;
  • O título "A Traição" deixa claro que haverá alguma traição — pasmem! — Ao finalmente confrontar seu inimigo, Selena percebe que já não é a mesma e carregará algumas marcas profundas para a sua vida durante o seu Retorno. Uma Jornada do Herói simples, mas que nos leva a perceber como ela está crescendo e ainda tem muito potencial para voltar transformada nos futuros volumes.
O livro sabe mesclar bem entre a fantasia mágica e até mesmo zumbis — tá virando o fim do mundo agora? *risos* — A autora ainda nos traz uma luta final maluca com a protagonista só de roupas de baixo destruindo tudo, com criaturas bizarras e seu poder sendo testado. 

Segundo a própria autora, serão 6 volumes tendo 4 deles já escritos. Esta me pareceu uma decisão ousada, visto que sagas longas de autores nacionais não são vistas com bons olhos aqui no Brasil. A maioria tem preguiça de ler, ou ama o primeiro volume e decide simplesmente não continuar "se envolvendo com uma história tão longa". Se tem uma frase da autora que eu amei em seu insta, é esta: "Os livros não são meus sonhos, são minha meta!"

Eu sinceramente desejo toda a sorte do mundo para a Gabriela nessa longa trajetória, que ela possa cultivar fãs assíduos e pessoas realmente interessadas em continuar conhecendo mais sobre o universo dos Quatro Elementos. Continue escrevendo, escrevendo, e escrevendo sempre, só para olhar para trás e ver o quanto progrediu! Se ela começou aos 12 anos e então somente 9 anos depois publicou o primeiro volume desta saga, que seja algo para a vida. É como costumo falar em minhas dedicatórias: Que você possa desfrutar da jornada tanto quanto o destino.


Considerações Finais

Já fazia um bom tempo que eu não escrevia nenhuma resenha para o blog, mas é sempre um prazer enorme falar do trabalho de outros autores nacionais. Conhecer a Gabriela Flumignan foi um desses prazeres, uma pessoa que está imersa nesse meio literário e mostra sua vontade em escrever, crescer, e ainda dar conta de todas as obrigações que a vida nos impõe. Eu sinto que Quatro Elementos tem um tremendo potencial, e enquanto a autora se mantiver firme ao seu projeto e seus ideais, os próximos volumes continuarão sendo lançados. Seus personagens são cativantes e cheios de potencial, dando a abertura para que sejam mais explorados e assim continuar surpreendendo. Que as surpresas não parem de vir, e nunca deixe a ousadia em criar cenas de tirar o fôlego!


terça-feira, 8 de junho de 2021

Resenha por Submundo Literário [Área do Leitor]

 

RESENHA DO LIVRO MATÉRIA - ESPADA DE MADEIRA
— por Ana Fernandes @submundo.literario

"Trecho da resenha: Matéria – Espada de Madeira é o livro que eu precisava e não sabia. Escrito e publicado de maneira independente pelo autor Nicolas Eroles, a obra me fez reviver minha infância, quando eu assistia animes, jogava videogame com meu irmão e pensava que eu poderia fazer tudo que eu quisesse na vida. Essa fantasia nacional me devolveu essa esperança.

Matéria – Espada de Madeira fala sobre encontrar o seu propósito na vida, amizade, família, persistência, coragem, incertezas, tudo isso com um toque de humor e inocência."

PALAVRAS DO AUTOR

— por Nícolas Eroles


Obrigado pelas palavras doces e todo o cuidado que você teve, Ana! Fico sem palavras para expressar todo meu carinho, você captou toda a alma da jornada, e as citações escolhidas foram incríveis. Eu amo o fato de que até hoje quase todos os parceiros escolheram frases diferentes, às vezes são momentos que até eu já tinha esquecido no livro. É a mesma história, mas que mexe com cada um de um jeito diferente, né? Eu vivo dizendo que meu maior desejo é que o livro chegue nas pessoas certas, e me senti realizado ao vê-la dizer: "É o livro que eu precisava e não sabia."

Não escondo que sempre gostei mais de resenhas feitas em sites e blogs do que aquelas do instagram. O limite de palavras e alcance são coisas que me incomodam, uma semana depois e o post já caiu no esquecimento, mas sempre que recebo uma mensagem de alguém mostrando a resenha no blog me encho de empolgação! Tenho certeza que mesmo dentro de alguns anos muitas pessoas acabarão conhecendo Matéria através de você, afinal, as aventuras do Ralph estão apenas começando!

Você pode conferir a postagem completa no blog do Submundo Literário clicando no link!

domingo, 6 de junho de 2021

Seus 10 anos de criatividade passaram?


Noite passada sentei para assistir pela segunda vez o filme The Wind Rises, lançado em 2013 pelo Studio Ghibli. Diante da cobrança daquele ser o "último" longa-metragem animado do estimado diretor Hayao Miyazaki, eu esperava sair de lá transformado.

Nada aconteceu.
8 anos se passaram desde a primeira vez que contemplei essa obra. Precisei passar por mil transformações em minha vida para finalmente dizer: "Ah, agora eu compreendo."

Vidas ao Vento conta a história de Jiro Horikoshi, o engenheiro que projetou o Mitsubishi Zero que deu a superioridade aérea japonesa no início da Segunda Guerra Mundial. Durante um sonho com o fabricante de aviões italiano Caproni, o projetista lhe diz:

"Artistas só são criativos por 10 anos... nós engenheiros não somos diferentes. Viva seus 10 anos ao máximo."

Precisei pausar o filme assim que escutei essa frase. O que ela significava? Como não a percebi na primeira vez? Se temos mesmo apenas 10 anos, isso significa que já alcancei o meu limite?

Se você não me conhece, vou contar um pouco sobre a minha história. Descobri a paixão pela escrita em Março de 2010 através das fanfictions. O que começou com um simples hobby foi tomando todo o tempo livre que eu tinha. De lá para cá foram 1 milhão de palavras através do trabalho do qual mais me orgulho, o Aventuras em Sinnoh que terminou em 2015; naquela época eu senti como se tivesse acabado de descobrir um tesouro, era o que eu mais queria fazer da vida, eu simplesmente respirei essa história durante cinco anos. A jornada não acabou ali: hoje tenho 4 livros escritos, sendo que o primeiro deles foi publicado em 2019. Estou me programando para dar continuidade à publicação enquanto escrevo, reviso e crio histórias novas. Eu não poderia estar mais orgulhoso, correto?

10 anos mais tarde, eu sinto o cansaço e o esgotamento aparente. É como se eu tivesse alcançado meu auge quando ainda era um adolescente cheio de expectativas e vontade. Há dias que acordo sem energia para fazer o que mais amo — e foi justamente isso que me levou a reprisar um filme que eu tanto queria rever.

Se você também trabalha no campo criativo, já deve ter sentido o mesmo. Nos preocupamos que os melhores dias tenham ficado lá atrás. A indústria está em constante mudança, e acompanhá-la faz parte do nosso trabalho como escritores, designers, ou qualquer que seja a sua área. Eu já não consigo acompanhar as tendências, não sou fã de Youtube, não passo mais do que dez minutos diários no Instagram e tenho pavor dos vídeos de TikTok com dancinhas coreografadas. Devo parecer um velho caduco que parou no tempo, e sinto que nunca mais conseguirei me atualizar. Me falta vontade para isso.

Em 2021 esse estranhamento se tornou mais forte do que nunca, e eu não compreendia o motivo. Por vezes pensei que meu auge foi escrevendo a Liga Pokémon que ainda mexe com o coração dos leitores que fizeram parte disso comigo, mas desde então me pego pensando: O que virá a seguir? Será que meu auge foi quando publiquei o meu livro? Será que estou destinado a continuar escrevendo por mais 10 anos sem nunca me sentir inteiramente satisfeito?

Finalmente pude parar e refletir sobre a pergunta de Caproni. Será que fiz o melhor uso que pude desses 10 anos?

"Esses 10 anos não necessariamente significam que você chegou ao fim da linha. É um ciclo  um ciclo constante, através do qual nos reinventamos. Criatividade não é como habilidade atlética, ela não vai desaparecer à medida que envelhecemos e nosso corpo nos trai. Em vez disso, é uma reinvenção constante, uma renovação que transita entre a morte e a vida de ideias, conceitos, carreiras. Estamos constantemente viajando neste ciclo, trabalhando entre inspirar a criatividade e expirar a criatividade. Mas é como oxigênio. Expire demais, começamos a ficar azuis. Isso é esgotamento." — Wilbanks, da The Pestry Box Project.

Meu auge como escritor pode ter passado, ou talvez eu esteja apenas no começo de minha jornada como autor de livros. Os blogs provavelmente nunca mais voltarão a ter o sucesso de antigamente até que chegará um dia que deixarão de funcionar.
Mas ainda há inúmeras coisas a se descobrir e que ainda estão por vir. Talvez eu e você só precisemos desse fôlego novo, é hora de se reinventar e renovar.

Você pode descobrir uma paixão antes até de completar seus 10 anos de idade, ou talvez ela possa vir quando você já é velho, formado e desempregado. Talvez esses 10 anos de inspiração não sejam consecutivos, e nem dentro do mesmo campo. Talvez o relógio reinicie toda vez que mudamos de vocação, mudamos de meio. Talvez seja esse o ponto de Miyazaki  ele nunca parou de mudar, nunca parou de se reinventar e simplesmente continuou criando.

Em 2013 eu ainda não estava pronto para sentar e refletir sobre Vidas ao Vento. Talvez ainda não fosse o tempo certo na minha vida.

Posso não estar onde imaginei estar em 10 anos, mas esse tempo de aprendizado me ensinou a apreciar as coisas de outra forma. Estou aproveitando tudo no meu ritmo. Após a conclusão desse arco não sei onde essa história vai me levar, mas tenho a certeza de que tudo tem seu tempo. Como na lista de metas que meu amigo Shadz traçou para 2021: "Espero ser melhor do que eu era naquilo que eu escolher fazer".

Baseado no texto de Dylan Wilbanks, do The Pastry Box Projects.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Atualização de Vendas e Avaliações

Matéria - Espada de Madeira segue para o seu segundo ano de lançamento. Como sempre gostei de registrar minhas pequenas conquistas, criei esse post no dia 4 de Junho de 2021 com o intuito de comparação para o futuro. Digamos que esta será a nossa pequena máquina do tempo, vai que acabamos esbarrando nela daqui uns 5 ou 10 anos (isso se o Blogger continuar vivo até lá). Segue alguns dados:

 Foram vendidos 163 livros físicos;

 Foram baixados um total de 109 ebooks pela Amazon;

 A Amazon totalizou 10 avaliações com uma nota média de 4.9 de 5.0;

 O Skoob registrou um total de 43 leitores, com 9 resenhas e 21 avaliações com nota média de 4.8 de 5.0;

 O instagram conta um total de 1690 seguidores;

 Há 53 marcações de leitores, dentre resenhas, fanarts, quotes e fotos junto do livro;

 O blog consta com um total de 334 postagens, 1218 comentários e 26 seguidores;

➜ Os Livros 2, 3 e 4 já foram inteiramente escritos, mas não publicados. A revisão do Livro 3 está em andamento, tendo sido revisado até o Capítulo 20;

➜ A capa, diagramação e revisão do Livro 2 já foram concluídas. As ilustrações ainda não tiveram início;

 Estamos há apenas uma semana da E3 de 2021 e não sabemos o que a Nintendo está escondendo debaixo das mangas;

 Em 5 dias irá estrear a série Loki no Disney+;

 O Brasil registrou 469 mil mortes por COVID. 21,83% da população está vacinada com a primeira dose;

 Ainda não temos nenhum trailer sobre sobre a série derivada de Senhor dos Anéis da Amazon;

 Ansioso para o lançamento de Pokémon Brilliant Diamond & Shining Pearl, assim como Pokémon Legends. New Pokémon Snap foi maravilhoso e passamos 70 horas jogando em 5 dias;

 Se você estiver lendo isso no futuro é porque sobreviveu à pandemia;

➜ Acabou de chegar pelos correios a minha pequena figure da Marnie da série Pokémon Scale World. Ela não é linda? Será que vou conseguir aumentar a coleção no futuro?

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Participação na Antologia "Alternando Entre Mundos"

Alternando Entre Mundos é uma antologia organizada por Gabriela Resende e Giovanna Lima lançada no dia 12 de Maio de 2021. Eu fui convidado pela Gabriela para escrever com a temática viagem no tempo, uma ideia bem louca surgiu no meio da madrugada, e aqui estou eu falando sobre uma capivara que bebe café.

Em “O Último Dia do Inverno” todos os personagens são animais, acompanhamos a história do Sr. Inverno no dia em que ele recebe a inusitada visita dos renomados pesquisadores Dr. Sapiência e Dra. Liza R.D. da Agência Praeteritum, que alegam ser capazes de levá-lo numa viagem no tempo para o passado para uma última visita.

O livro já está disponível para compra na Amazon no formato digital, e mais tarde será possível adquirir alguns exemplares físicos sob encomenda conosco. Essa é a segunda antologia da qual faço parte, sendo que a primeira foi "As Lendas de Colina" lá em 2017, mal posso esperar pelo lançamento e tê-la na estante!

sábado, 8 de maio de 2021

Henry


"[...] Desde então, eu escolhi ajudar todas as pessoas que eu pudesse. Sei que estamos em guerra, isso é inevitável, mas existem formas de lutar por um mundo melhor que não seja carregando uma arma." — Henry, Capítulo 9 - Alma de Diamante.

Henry é um curandeiro nascido em Helvetica que entrou para o exército da Fortaleza Azul. Destacando-se como o Nº 1 de sua turma no Bosque Peridota  uma das escolas mais consagradas no ramo das artes da cura  ele se tornou um dos quatro alunos excepcionais de Volker King. Sua saúde debilitada prejudica seu rendimento em outras áreas, pois a magia branca tende a drenar grande parte da energia do usuário. Apesar de ser apenas um humano, Henry é um dos raros casos de humanos abençoados pela mana.

É um rapaz tímido, de temperamento tranquilo e reservado, mas se esforça ao máximo por seus amigos. É também um grande cozinheiro e especialista em tarefas domésticas, tendendo a agir como a "mãe da casa" mesmo entre seus companheiros de equipe. Possui um vasto conhecimento em história e ervas medicinais, tendo crescido em diversos templos e conventos onde estudou a religião do Totinismo, canto e magias de apoio.


Henry teve sua introdução no Support "Quando eu sair por aquela porta...", lançado em Maio de 2021. Sua primeira aparição no Livro 2 se dá no Capítulo 3 de Matéria - Alma de Diamante, onde ele participa da seleção de soldados junto de Auria Mercer. Como o Livro 2 funciona com capítulos alternados, a presença de Henry é frequente na história e ele sempre é visto ao lado de seus companheiros durante o treinamento.


  • Cura [Support] – Recupera os danos de seus aliados em troca de energia mágica;
  • Recuperação Divina [Support] - Cura status como envenenamento, queimadura, silenciamento, petrificação, sono ou paralisia;
  • Luz de Araya [Support] - Garante um bônus de +MAG para o usuário e companheiros;
  • Parede Protetora [Defensivo] - Cria uma barreira resistente à qualquer magia por um curto período de tempo;
  • Santuário da Lua [Defensivo] - Cria uma área ampla de proteção e cura contínua para todos que estiverem dentro do limite de seu alcance;
  • Benção de Araya [Habilidade Passiva] - Confere um bônus em sorte e mana;
  • Magia Sugadora [Habilidade Passiva] – O uso excessivo de suas habilidades leva ao esgotamento.
"Eu me recuso a acreditar que alguém como você não tenha nenhuma habilidade. Vamos lá, mostre-me suas perícias, suas qualidades. Todo mundo é bom em alguma coisa!"
— Volker King sobre Henry, Capítulo 7 - Alma de Diamante.

"Eu fiz tudo que eu podia".
— Henry, Capítulo 18 - Alma de Diamante.

  • Assim como Zeth, Henry é um personagem que foi criado exclusivamente para os livros. Ele não possuía nenhuma base nos gibis do autor, mas conquistou um enorme carinho dos leitores;
  • Suas vestes são baseadas nos curandeiros de Fire Emblem;
  • O significado do nome Henry é "o que manda em casa", o que é uma tremenda ironia tendo em conta que ele é um rapaz obediente e tímido.



sexta-feira, 7 de maio de 2021

Zeth


"Fico feliz que você ainda tenha alguém te esperando quando voltar. "
— Zeth, Capítulo 30 - Alma de Diamante.

Zeth é um dos novos integrantes que compõe o grupo de Auria no exército, e também um dos mais importantes no Livro 2. Pouco se sabe sobre o seu passado, mas dizem que ele é um garoto órfão que foi acolhido pelo Rei e por isso recebe prestígio ao ser considerado "seu sobrinho", apesar de não usufruir desta posição.

Um rapaz calado e observador, Zeth detesta ser tratado com exclusividade e por isso se comporta como um nobre comum que vive na Cidadela. Como o Rei nunca teve paciência e nem tempo para lidar com crianças, Zeth cresceu sozinho sendo enviado de uma província para a outra até completar a idade de ingressar nas academias. Recebeu cuidados dos monges no Templo da Lua onde aprendeu etiqueta, estratégias militares e noções básicas de treinamento para ingressar em uma patente elevada, ainda que essa não fosse a sua vontade, o que o levou a fazer o teste como qualquer outro soldado.


A introdução de Zeth aos leitores se deu no Support "Quando eu sair por aquela porta...", lançado em Maio de 2021. Sua primeira aparição nos livros é no Capítulo 3 de Matéria - Alma de Diamante, participando da seleção de soldados junto de Auria Mercer. Como o Livro 2 funciona com capítulos alternados, a presença de Zeth é frequente na história e ele sempre é visto ao lado de seus companheiros durante o treinamento.

  • Boa pontaria [Habilidade Passiva] – Garante um bônus em precisão com armas de longa distância;
  • Influência [Habilidade Passiva] – Sua posição permite que dê ordens para soldados e oficiais no exército de Constantia;
  • Liderança [Habilidade Passiva] - Garante um bônus em ataque e defesa para os companheiros em batalha.
"Bem, se fôssemos capturados pelo inimigo e ele for inteligente o bastante para usar isso a seu favor, ele tentará nos persuadir para obter informações. O intuito é que passemos para seu lado ou auxiliemos com qualquer tipo de notícia sigilosa que possa ser usada em futuros combates. É uma das principais artes da guerra: trate muito bem seus prisioneiros."
— Zeth, Capítulo 9 - Alma de Diamante.

"Veja só como você está crescido, meu garoto... Sua mãe estaria orgulhosa. Ela era uma das poucas pessoas nesse mundo que eu pude confiar, e lamento muito tê-la perdido na mesma data de hoje."
— conversa entre o Rei e Zeth, Capítulo 15 - Alma de Diamante.

  • O nome de Zeth surgiu como um comparativo de Seth, que carrega uma enorme importância na vida do autor, tendo surgido em 2003;
  • Zeth é um dos poucos personagens que não foram planejados nos gibis da infância do autor. Ele foi criado inteiramente para a saga dos livros.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Quando eu sair por aquela porta... [Support]

Quando eu sair por aquela porta...


Support Conversation [Auria e Courtney]

Gênero: Drama;

Tema: Banheiras e o passado de Courtney;

Sugestão da leitora: Shii.

 

Notas do Autor:

Há alguns anos uma amiga me pediu para escrever um especial que mostrasse como a amizade entre o grupo da Auria é divertida e respeitosa. Àqueles que ainda não conhecem os personagens, eles são introduzidos no Vol. 2 de Matéria – Alma de Diamante que nem foi lançado, mas mesmo que você ainda não saiba quem eles são, esse capítulo pode ser uma oportunidade bacana de conhecê-los. Apesar de a ideia original ser que ele fosse voltado para a comédia e até um pouco de ecchi com fanservice de sobra, acabei sentindo que era a chance perfeita de explorar mais sobre o passado da Courtney, e aí a ideia tomou um rumo que eu não imaginava. Por isso, deixo aqui o aviso de que pode conter alguns gatilhos sobre abuso, então leia com cuidado. De resto, espero que se divirta, e também reflita. Como sempre, que cause um amontoado de sensações!



A chuva piorou e agora as violentava com força incessante. Auria e Courtney corriam às pressas em busca de algum abrigo entre as ruelas estreitas da capital. As chuvas torrenciais eram intensas durante o verão e logo não havia mais nenhum rastro do calor quente e aconchegante de horas atrás, apesar da certeza de que aquele clima desagradável também iria passar.

Suas roupas estavam encharcadas até os sapatos. Não deviam ter se desviado tanto de seu percurso, mas Courtney era a culpada por parar em toda e qualquer loja pelo caminho — primeiro em uma de pingentes, acessórios, chapéus exóticos e por último a sorveteria antes de fechar. As duas garotas se abrigaram debaixo de uma construção baixa com o teto em forma de cúpula na praça, aguardando que o tempo desse sinal de melhora. Ainda estavam a pelo menos vinte minutos de caminhada até seu dormitório nos limites da fortaleza.

As duas se entreolharam ensopadas, morrendo de frio, e agora rindo sem parar. A maquiagem de Courtney estava toda borrada e os cabelos de Auria pareciam um porco espinho selvagem quando mexidos. A morena deu uma espiada por cima do ombro e notou que Courtney tentava tirar a água de sua camisa que estava levemente transparente, deixando à mostra o sutiã azul-bebê com rendinhas. Corou de nervoso, retirou a própria jaqueta e cobriu-a para protegê-la do frio.

— Ah, obrigadinha. Mesmo molhada, assim fica bem mais quentinho — agradeceu Courtney, encostando o rosto na jaqueta. — Ainda dá pra sentir o seu cheiro.

Elas ficaram bem perto uma da outra para se aquecerem. De repente suportar aquela chuva não lhes pareceu tão ruim.

Mas a paciência se esvaia lentamente, e logo descobriram que sorvete não sustentava o estômago. Estava escurecendo e os postes começaram a ser acesos nas ruas; àquela hora Henry devia estar preparando seu ensopado de lentilhas com bacon delicioso; se dessem sorte, teria também um balde cheio de pipoca para passarem a noite inteira conversando e fofocando sobre a vida alheia.

Auria virou-se aturdida quando notou que Courtney tocou seu rosto de leve, seus dedos deslizaram próximo aos lábios dela.

— Pronto — disse Courtney, lambendo os beiços. — Você estava com uma manchinha de sorvete. E pelo gosto era brigadeiro.

Auria a surpreendeu com um beijo repentino que fez Courtney derreter por dentro.

— E o seu era de morango.

Ainda atordoada e com as bochechas coradas, Courtney levantou-se num salto para olhar os arredores. Não havia ninguém na rua e a chuva não dava sinais de que iria parar.

— Quer dar uma passadinha em casa? — ela sugeriu.

— E você tem casa? — Auria perguntou intrigada.

— Óbvio que tenho, sua boba. Pensou que eu morasse numa caverna antes de entrar no exército? — disse Courtney rindo. — Eu acho que minha mãe ainda não voltou do trabalho à uma hora dessas, então temos meia horinha para dar um pulo lá, nos secarmos e colocar roupas limpas. Ainda tenho as chaves, mas vai ter que ser bem rápido porque não quero que ninguém me veja lá.

— Você é quem manda.

— Eu amo quando você me deixa no controle.

As duas saíram apressadas por entre os pingos gelados, a casa de Courtney era tão perto que realmente dava para enxergar o telhado. Localizada na zona dos humanos, era um sobrado apertado entre tantas outras casas idênticas em um bairro pobre da região. Precisaram entrar pelo quintal nos fundos, porque a tranca na frente havia sido trocada.

O interior era abafado e ainda mais estreito, com um longo corredor escuro que dava para outros cômodos menores. Só se escutava o barulho dos pingos lá fora.

— Vou pegar toalhas e trocar de roupa rapidão — falou Courtney. — Só não falo pra você se sentir à vontade porque, bem, já tem um tempo que eu não moro aqui.

Auria se moveu pouco e mal saiu da entrada. Tinha a impressão de que de alguma daquelas portas sairia um monstro assustador prestes a devorá-la. Sempre tivera curiosidade em conhecer a família dela, mas preocupou-se com o que via e não soube dizer como alguém tão alegre como Courtney poderia ter vivido tanto tempo trancafiada naquele lugar escuro e denso.

— Prontinho! — disse Courtney, vestindo um camisetão largo que lhe caía como um vestido. Ela ainda usava a jaqueta que já estava completamente seca, como se possuísse alguma propriedade mágica impermeável. — Aqui estão as toalhas. Vou só dar uma espiadela na geladeira, porque minha mãe costumava fazer uma gelatina de frutas deliciosa que eu sou apaixonada...

Assim que Courtney entrou na cozinha, deparou-se com um homem de roupão lavando a louça. O susto foi tão grande que a armadura de Auria ativou-se sozinha no corpo da pequena como um método de defesa, a garota tropeçou e caiu para trás de bunda no chão. O homem virou-se devagar para elas, sem demonstrar reação alguma diante dos estranhos em sua casa.

— Courtney? — ele perguntou com a voz baixa, porém rígida. — Quanto tempo.

— P-papai — ela murmurou, quase que inaudível.

Courtney recuou e escondeu-se atrás de Auria de forma involuntária. A forma como suas mãos puxavam as vestes dela demonstrava desconforto e inquietação. Suas pernas tremiam. Aquele velho senhor de idade não demonstrava perigo algum, mas sua presença parecia ocupar o cômodo inteiro como se ele cobrisse todas as paredes até o teto e não houvesse saída. Ele virou-se e ofereceu o café que estivera preparando.

— Eu não sabia que você viria — disse o homem.

— Eu não sabia que você tinha sido solto — respondeu Courtney.

— Fiquei surpreso quando sua mãe disse que você tinha saído de casa. — A fala do homem era mansa e tranquila, como quem não tem pressa alguma. Courtney mordia o beiço com tanta força que chegava a machucar. — Você vai ficar um tempo? Sua mãe está preocupada, porque você não mandou mais notícias.

— Estou servindo o exército, papai. Não tenho tempo para essas coisas — respondeu a garota. — Eu só vim aqui para me abrigar da chuva e buscar algumas coisas, mas já estamos de saída.

— Quem é a sua amiga? — perguntou o pai. — Ela é muito bonita.

— Auria Mercer, senhor — ela respondeu por si só com as sobrancelhas franzidas.

Courtney a segurou pela mão, implorando que partissem logo. O homem solitário bebericou um pouco de seu café e as vigiou silenciosamente.

— Ainda tem um pouco daquela gelatina que você adora — disse seu pai.

— Eu não quero.

Courtney destrancou a porta da frente e saiu às pressas sem olhar para trás. Até mesmo Auria teve dificuldades em acompanhar seu passado rápido, apesar de seus amigos sempre brincarem que ela tinha perninhas curtas e por isso precisava andar duas vezes mais depressa. O céu estava cinzento e sem graça, os cabelos rosados de Courtney eram o único vestígio de cor naquele mar de concreto. Auria percebeu que a água no rosto dela não era da chuva.

— Eu posso estar enganada, mas alguma coisa aconteceu naquela casa.

— Tudo aconteceu naquela casa, Auria — respondeu Courtney com a voz embargada. — Eu nunca deveria ter voltado lá, que ideia besta essa minha! Eu jurei que quando saísse por aquela porta eu seria uma pessoa nova, que nada mais disso iria me afetar, mas pelo visto eu continuo sendo uma idiota, estúpida, sempre me rastejando para onde está o perigo, sempre, sempre.

Ela começou a se judiar batendo na própria cabeça, mas Auria a segurou pelos ombros e a fez parar. Puxou-a mais perto de si e a abraçou, tentando transmitir algum consolo. Courtney chorava compulsivamente, seus braços tremiam e ela ia à direção oposta do dormitório como se apenas vagasse na chuva sem destino algum. Precisou ser guiada pelo caminho certo, tão antes chegassem, melhor.

A porta do dormitório se escancarou e Henry levou um tremendo susto da cozinha. Zeth pensou que as duas pudessem estar feridas pela forma como Courtney era praticamente arrastada porta à dentro. Auria a levou direto para o banheiro, onde as duas se trancaram. Seus amigos espreitavam do lado de fora, ansiosos e apreensivos por alguma explicação.

— Meninas, está tudo bem? — Zeth perguntou do outro lado da porta.

— Sim, sim — Auria respondeu brevemente . — Só nos dê um pouquinho de privacidade.

Henry e Zeth se entreolharam e retomaram seus afazeres, mas nada mais rendeu naquela tarde. Auria tentava controlar a ansiedade de sua amiga que balançava a cabeça constantemente em estado de negação, mordendo a língua para que ninguém lá fora escutasse seu choro.

— E-eu chamei ele de papai de novo. Foi sem querer — Courtney lamentava repetidas vezes. — Eu jurei a mim mesma que nunca mais o chamaria assim, mas ele me obrigava. Ele sempre me obrigou a fazer o que eu não queria.

Auria ficou sem reação, pois era a primeira vez que se deparava com alguém tão próximo que sofria abusos nas mãos de um familiar. Até então aquilo soava como uma história longínqua, como aquelas que só chegavam aos seus ouvidos vindos de outras garotas com quem não tinha contato algum. Pensou no próprio pai, que sempre fora tão compreensivo e acolhedor, e não conseguiu distorcer sua imagem de forma a torná-lo alguém ruim; mas a reação de sua amiga a faziam enxergar aquele velho senhor de roupão bebericando café numa imagem deformada e aterrorizante.

As duas permaneceram quase uma hora trancadas no banheiro até que Courtney recuperasse a compostura e estivesse em condições de conversar com seus amigos. Já estava antecipando o climão que ficaria entre eles, as perguntas incessantes, os olhares de pena.

No momento em que as duas saíram, havia quatro xícaras de chocolate quente esperando. Zeth estava estirando no chão comendo pipoca e estudando um livro de história sobre a Guerra das Espadas. Seus amigos agiram com toda a naturalidade e espaço que ela necessitava no momento.

— Eu não acredito que vocês tomaram essa chuva! Eu disse que a previsão dos magos hoje era de chuva, chuva e mais chuva — lamentou Henry.

— A gente meio que se perdeu no caminho — mentiu Courtney, seguido de um espirro.

Henry balançou a cabeça em sinal de negação. Foi até a bancada e preparou dois copos com líquido fervescente e duas pílulas na cor vermelha e amarela.

— Lamentável. Aqui. Tomem essa Vitamina C e engulam junto esse remédio de ervas para evitar de pegarem uma gripe. Vocês vão sentir sonolência e um pouco de cansaço, então quero que tomem um banho bem quente e só depois voltem aqui para beber o chocolate quente.

— Mas até lá vai ter virado chocolate frio — resmungou Auria.

— É só esquentar de novo, mané — disse Henry. Seus amigos achavam hilária a forma como o curandeiro agia com seriedade quando alguém estava doente, parecia até outra pessoa; sempre se preocupando com o bem estar e agindo como uma mãe observadora se certifica de que seus filhos permanecerão fortes e saudáveis.

— Eu não quero tomar banho — foi a vez de Courtney reclamar. — Pra mim já chega de água por hoje!

— Ah, não. Nem pensar — Henry tomou frente. — Quem lava as roupas aqui sou eu, e vocês não vão ficar zanzando por aí e molhando o assoalho que é de madeira. Quando o capitão voltar e o dormitório estiver cheirando a cachorro molhado, vocês vão ver o que é bom pra tosse!

Mesmo quando o curandeiro tentava parecer bravo ele falhava miseravelmente, mas sua ordem se tratando de enfermos era absoluta. As duas derrotadas estavam voltando para o banheiro quando se depararam com Zeth já com a toalha nas costas.

— Ei. Agora é a nossa vez — reclamou Auria.

— Nem vem. Vocês ficaram lá dentro cagando ou fazendo sei lá o que por uma hora, agora eu preciso usar também — retrucou Zeth entre risadas.

— Ô mãeeeee, olha ele! — brincou Courtney.

— Eu mereço... — lamentou Henry.

No fim das contas, alguém teve a brilhante ideia de entrarem todos juntos. Não se sabe dizer quem surgiu com o assunto, mas a banheira foi enchida com água quente até quase transbordar e logo todos os espelhos se viram embaçados com desenhos de corações, monstrinhos, uma árvore e algo de formato fálico duvidoso. Para preservar suas intimidades eles permaneceram de toalha, mas não havia vergonha alguma entre os quatro amigos que vinham treinando juntos já há alguns meses na Fortaleza Azul.

Auria lembrou-se de sua estadia na Pequena Colina, uma das mais famosas Casas de Banho em Century, onde as banheiras eram preparadas com água natural e sua única companhia feminina era Tootie na época. Courtney se ofereceu para lavar as costas de Auria e não perdeu a chance de provocar seus amigos insinuando gestos e toques com as mãos.

— Ai, gente, vocês agem como uns tremendos virjões! Desse jeito nunca vão conquistar uma garota — lamentou Courtney.

— E quem disse que eu quero um relacionamento agora? — indagou Zeth. — Essas coisas só complicam.

— Mas a vida é sobre lavar as costas um dia e ser lavado no outro! Vai, vira aí. Deixa que eu faço o serviço porque dizem que sou boa com as mãos — ordenou Courtney, Zeth não encontrou outra alternativa senão obedecer. — Essas suas cicatrizes... elas doem?

— Não são cicatrizes. São só marcas de nascença — respondeu ele com a voz séria. — E não, não sinto dor alguma. Acho que só dói quando escuto as pessoas fazendo comentários maldosos. Não é o tipo de coisa que gosto que as pessoas vejam.

— Puxa, e você não hesitou em mostrar pra gente. Isso que é confiança. — O sorriso de Courtney era sincero enquanto ela o enxaguava devagar. — Sabe, eu também não ligo de estar aqui compartilhando uma banheira com vocês. Em outros tempos isso seria impossível, e algumas pessoas podem até achar um tremendo absurdo, mas é que eu confio em vocês.

— Admito que eu também estranhei essa ideia do capitão de nos colocar para viver em um dormitório misto no começo — comentou Henry —, mas, vendo as coisas como são agora, eu não mudaria nada. Aprendi muito com vocês.

— Tipo o quê? — perguntou Auria.

— Que vocês também podem ser nojentas — falou Henry.  Eu odeio, odeio, odeio, odeio, odeio tirar cabelo do ralo. Que Araya me perdoe por essa ofensa, mas se eu precisar tirar outra vez sou capaz de ferir alguém.

— Para um padre você têm andado bem estressado — brincou Zeth. — Essa não. Será que estamos começando a ficar igualzinho ao capitão?

— Cruz credo, bate três vezes na madeira! — proclamou Courtney. — Por sinal, alguém sabe quando ele volta?

— Acho que só daqui uns três dias — explicou Henry. — Ele disse que foi escalado para uma missão de reconhecimento na costa que contorna o Monte Rochoso e a Caverna dos Aukalakas, mas não encontraram nada. Mas isso vocês já deviam saber, ninguém presta atenção no que o capitão diz?

— Só quando dá vontade — disse Zeth em tom zombeteiro. — Ele é como um pai pra gente, então, como bons filhos só escutamos o que queremos.

O semblante de Courtney se fechou na mesma hora ao escutar aquela comparação. Ela sentiu o sabor férreo de sangue no machucado em seu beiço quando o mordiscou. Auria segurou a sua mão, seu gesto por si só deixou claro que ela não era obrigada a dizer nada que a deixasse desconfortável. Por algum motivo, Courtney sentia que não queria mais esconder nada de seus amigos, por isso vestiu seu melhor sorriso e falou em voz alta:

— Eu tenho algo a contar para vocês. Mas não é bonito e nem engraçado, então me desculpem se eu cortar o clima, mas é porque não aguento mais manter isso guardado dentro de mim.

Courtney contou sua história. Contou detalhes que nem mesmo ela se lembrava até então, como se sua memória tivesse se certificado de apagá-los para evitar que voltasse a sofrer. Auria escutou angustiada, seu punho se fechava cada vez que ouvia um relato inédito de tudo que sua amiga passara nas mãos daquele homem. Henry cobriu os olhos e chorou baixinho, e todos eles se admiraram pela forma como Courtney contava tudo sem demonstrar tristeza ou mágoas.

Quando a história terminou, os quatro permaneceram quietos e desnorteados, ainda tentando assimilar tudo que havia acontecido. Era diferente de escutar relatos e acontecer com alguém do seu lado, e eles se sentiram péssimos por nunca ter perguntado ou oferecido ajuda.

— Nós demos sorte que o capitão não está aqui para ouvir isso — falou Zeth de repente. — Eu juro que ele iria atrás do seu pai para espancá-lo, quem sabe até matá-lo.

— E que ele continue sem saber, então, zíper na boca — respondeu Courtney, fazendo um sinal com as mãos. — Não quero arranjar mais dor de cabeça. Eu só fiquei muito assustada quando passei em casa hoje e descobri que ele voltou a morar com minha mãe. Ela é uma tremenda idiota por aceitar viver com ele depois de tudo o que fez conosco.

— Às vezes ela não tinha outra opção, Courtney — respondeu Henry, compreensivo. — Muitas mulheres se veem nessa situação e optam por não agir com o medo da punição. E tenho certeza que ela lamenta muito por tudo que aconteceu.

Courtney concordou com a cabeça. Seu único desejo era que sua mãe ficasse bem. Colocar tudo aquilo para fora a fez sentir-se mais leve, e então, pela primeira vez ela se viu derrotada e não pôde mais suportar o choro. Beliscou-se discreta, tentando se machucar de qualquer maneira para impedir que seus amigos a vissem naquelas condições como uma criança que teme ser apanhada.

— O papai... meu pai não é uma pessoa má, sabe? — ela indagou entre lágrimas, ainda sofrendo com a dúvida. — Ele está tentando melhorar, eu vi. Será que eu deveria dar uma nova chance para ele?

Zeth levantou-se aturdido e não escondeu seu constrangimento e fúria diante daquela declaração.

— Você consegue escutar o absurdo que está dizendo? Por Yllata, Courtney! Se eu visse esse homem na minha frente eu nem sei do que sou capaz de fazer. E pode ter certeza que, ao invés da prisão, ele iria direto para um hospital ou coisa pior.

— Não! — rogou a garota. — Não faça nada contra ele, por favor!

— Courtney, pare, você o está protegendo — retrucou Auria.

— Pessoal, vai com calma — suplicou Henry, tentando soar razoável. — Esse é um assunto delicado. Essa reação pode ser instintiva, e ela diz isso como forma de defesa diante de uma punição evidente.

Seus amigos se deram conta de que Courtney chorava abraçada aos próprios joelhos. Ela não mereceria ter de passar por toda aquela situação outra vez. Entre palavras desconexas ainda era possível distingui-la dizer: “Ele vai me achar. Ele vai saber que fui eu que contei. É tudo culpa minha por eu ser muito dada.” Auria ajoelhou-se e a abraçou, seguida por Henry e Zeth.

— Já chega — disse Auria com um suspiro. — Chega dessa história, chega dessas lembranças. A Courtney que conhecemos é uma versão nova, longe dos fantasmas que a assombraram em seu passado. Você nunca mais vai passar por aquela porta. Nós estamos aqui, e jamais permitiremos que isso volte a se repetir.

A respiração da garota aos poucos estabilizou e ela se permitiu relaxar. Quando saíram do banho, o chocolate quente estava frio e espesso, mas bastou esquentá-lo para que voltasse a ficar saboroso.

 

O dia seguinte amanheceu claro e com muito sol, mas Courtney acordou com um tremendo resfriado e precisou ficar de cama. Não tinha o que reclamar, afinal, seus amigos fizeram de tudo para que ficasse confortável  ganhou massagem nos pés, comida na cama e um cafuné gostoso antes de dormir às quatro da tarde.

Auria aproveitou a deixa e voltou à cidade para uma visita rápida. Lembrava-se de cabeça onde se situava a casa espremida que agora lhe causava um desconforto ainda maior. Tocou a campainha da frente e aguardou até que alguém a atendesse. Quem abriu a porta foi o pai de Courtney, vestido com o mesmo roupão cinza e uma caneca de café amarela na mão. O homem a reconheceu de imediato, mas seu rosto era incapaz de demonstrar reações.

— Ah, você voltou... 

Em outros tempos, Auria o teria dado um soco bem dado na boca. Pensou naquele pirata na Ilha dos Geckos que apanhara e perdera um dente por muito menos, e diziam que seu punho poderia colocar qualquer homem de joelhos; mas naquele momento, encarando a pobre e miserável figura em sua frente, percebeu que ela já estava destruída por dentro sem chance de conserto. Havia pouco que pudesse fazer para dar-lhe uma lição, e qualquer atitude inadvertida de sua parte logo espalharia os boatos por todo o bairro de que os alunos de Volker King eram um bando de arruaceiros violentos e arrogantes.

Auria ergueu um único dedo e o aproximou bem perto do nariz do homem antes de lhe dar a seguinte ordem:

— Eu gostaria que o senhor nunca mais chegasse perto da Courtney. Eu quero que saiba que ela está muito melhor conosco agora.

O homem fungou com o nariz e balançou a cabeça devagar, como quem faz uma promessa sem significado algum. Assim que Auria se distanciou, ele ergueu o tom de voz e fez seu pedido:

— Cuida da minha menina.

Auria precisou voltar só para deixar claro as suas intenções.

— Ela não é sua. A Courtney não pertence a ninguém.

Quando voltou para casa, Henry estava preparando uma sobremesa sem igual — gelatina colorida com frutas variadas, pois eram as favoritas de sua amiga.



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