quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Passado da Ordem - A Silenciadora (Parte 1)

A Silenciadora
– Bill 

Bill adorava os domingos, era uma das raras ocasiões na semana onde sua família se reunia em casa e tinha a chance de passar a tarde inteira com seus pais. A mesa do jantar estava posta, o cheiro do risoto preenchia a cozinha — sua mãe sempre fora uma cozinheira de mão cheia, mas quando seu pai inventava de testar alguma receita nova, o resultado era ainda mais surpreendente —, o caçula dos Altenburg ansiava por repetir o prato pelo menos duas vezes, talvez até uma terceira se ninguém lhe desse uma bronca.
Bill estava espremido entre seus quatro irmãos no sofá — Velouria, Xavier, Yan e Zack — todos mais velhos que ele por alguns bons anos de diferença. Zack, o primogênito, tinha vinte e cinco anos e deveria ser considerado o herdeiro principal dos Von Altenburg, mas sua falta de interesse com as responsabilidades deixava claro que não era uma boa ideia; Yan e Xavier também preferiam uma vida boêmia a ter de cuidar dos negócios do pai em Bausonne; Velouria acabara de completar dezoito e estava ansiosa por seguir os passos do pai, mas sua mãe tinha outros planos para a única herdeira mulher da família — esperava que sua filha encontrasse um bom marido na capital de Bodoni e seguisse os estudos que ela nunca tivera a chance de completar.
Sobrava para o pequeno William, que mal completara seus dez anos, para garantir o futuro de sua família.
— Certo, estão todos em seus devidos lugares? — perguntou Amélia. — Gregor, querido, venha logo porque só falta você!
Bill ria alto sempre que via seu pai aparecer da cozinha vestindo um avental apertado. O Sr. Gregor posicionou-se à direita do sofá com sua esposa à esquerda; todos observavam um estranho objeto de formato retangular emparelhado sobre a mesa de centro com diversos apetrechos que o mantinham em perfeito equilíbrio, no aguardo de alguma surpresa excepcional.
— E o que fazemos agora? — perguntou Zack, já entediado. — Estou morto de fome.
— O vendedor disse que essa caixa mágica registrava qualquer momento pela eternidade — respondeu sua mãe. — Talvez ela ainda esteja processando, eu realmente não entendo dessas tecnologias... Isso porque custou uma nota, não é fácil encontrar esse tipo de instrumento longe das Cidades Cinzentas.
— Espera aí, deixa eu experimentar uma coisa — falou Velouria.
A garota apontou o dedo indicador que esticou como se fosse um cipó, pressionando o botão vermelho em cima do equipamento. Uma forte descarga de luz cegou-lhes por um breve instante, Zack resmungou alto ao afirmar que se tratava de uma armadilha enquanto os demais iam correndo lavar o rosto para ter certeza de que o feitiço não contaminaria sua visão. A caixa mágica começou a tremer até cuspir para fora uma folha de papel em branco que aos poucos começou a formar imagens coloridas — uma representação idêntica do momento que acontecera havia poucos minutos.
— Uau, funciona mesmo — disse Velouria, impressionada.
Sua mãe pegou a foto e começou a rir.
— Yan, querido, você saiu de olhos fechados! — disse Amélia com um sorriso adorável.
— Ih, olha só, o Xavier tava cutucando o nariz — brincou o segundo irmão.
— Nossa, agora que parei para olhar, eu fiquei horrível! — resmungou Velouria com frustração. — Vamos descartar isso e tirar outra, pelo amor de Araya!
— Deixa eu ver, deixa eu ver! — Bill implorava de braços estendidos para o alto, mas ninguém nunca lhe dava atenção.
Reunir todos no sofá uma segunda vez se mostrou uma tarefa impossível, apesar de que Amélia também não obteve sucesso em fazer a caixa mágica voltar a funcionar (o vendedor omitira completamente a informação de que a câmera só tinha filme para uma única foto), mas estava satisfeita com o resultado.
Seria a primeira e única foto da família Von Altenburg, um registro para a posterioridade.
Gregor voltou para cozinha para dar os toques finais em seu prato, o cheiro preenchia do corredor à sala de jantar. A mesa foi servida, os Altenburg se sentaram todos juntos com o pai na ponta da mesa, eles riam e conversavam sobre suas mais recentes jornadas, discutindo as últimas notícias que aconteciam em Sellure ou simplesmente compartilhando histórias de quando eram mais novos e Bill ainda nem era nascido. Amélia serviu o mais novo primeiro, Zack brincava ao dizer que ela o mimava demais, o que resultava em intermináveis provocações por parte dos demais.
— Você sente é saudade de ter a mamãe tomando conta de você o tempo inteiro! — brincou Xavier.
— Nem me fale, os mais velhos sempre se ferram... — respondeu Zack de boca cheia. — Precisei descobrir meus poderes mágicos sozinho, papai estava sempre ocupado no trabalho. Acho que eles só começaram a se manifestar quando eu tinha uns sete ou oito anos.
— Sempre me diziam na escola que eu seria uma menina-prodígio, tanto que os meus apareceram antes mesmo de eu começar a andar — gabou-se Velouria.
— Poder elemental da natureza, grande coisa! — respondeu Yan. — Bem que algum de nós poderia ter tido fogo ou água. O único aqui que ainda tem esperança de despertar um dos grandes elementos é o Bill.
— Ou quem sabe ele possa ter uma forma mágica esplêndida, como um elefante! — falou Velouria. — Sério, transformar-se em borboleta não vai te levar a nenhum lugar na vida.
— O Bill já descobriu qual a forma mágica dele, não é, filhão? — brincou seu pai, dando-lhe uns tapinhas nas costas.
O garotinho revirou-se meio tímido. Somente aos dez anos é que seus poderes estavam começando a se revelar, mas odiava ter que compartilhar aquilo com os irmãos que viviam a caçoá-lo. Zack apontou o garfo em sua direção e ordenou cheio de euforia:
— Mostra pra gente!
— E-eu ainda estou praticando... — lamentou-se Bill.
— Qual é, prometemos não rir — caçoou Velouria. — A menos que seja muito idiota.
Amélia lhes deu uma bronca e pediu que voltassem a atenção para outro assunto, deixando o pobre garoto em paz. Bill ainda era muito novo para falar sobre a magia dos tótines, e aquele assunto vinha sendo evitado na casa há algumas semanas.
— Lembram daquele sujeito que eu falei que parou de frequentar a academia faz umas três semanas? — perguntou Zack, concentrado na comida. — Encontraram o corpo dele.
— Tá brincando — comentou Velouria. — Duas colegas minhas da escola também sumiram, mas ainda não há informações sobre elas. De uns tempos para cá têm acontecido tanta coisa estranha no reino, até mesmo nas capitais que julgávamos serem tão seguras...
— O que acham que se trata? Algum assassino de aluguel, como o Ceifador? — perguntou Xavier.
— Duvido muito — ponderou Zack que sempre se interessara pelos figurões criminosos de Sellure. — O Ceifador só pune outros criminosos, ele é como um justiceiro. Mas as pessoas que estão sumindo são apenas... gente comum. Não são guerreiros, não há diferença de classes sociais, qualquer um pode ser vítima. É bom ficarmos alertas.
— Será que vocês poderiam discutir outra coisa? — perguntou sua mãe de maneira educada, dirigindo um olhar discreto para Bill. Ela sempre odiara violência.
A noite seguiu tranquila, a sala foi preenchida de risadas e um ar descontraído, ninguém deixou a mesa até que todos tivessem terminado lá para as seis da tarde. Gregor estava sempre tão cansado do trabalho que se esparramou no sofá para tirar um cochilo, a condição era que os filhos que não ajudaram a preparar a mesa se juntassem para lavar a pilha de louças que fora deixada na cozinha, tarefa esta que se provou mais exaustiva do que aparentava.
Com a chegada da noite, todos se reuniram em volta da lareira, aproveitando do conforto com a sensação que as semanas deveriam ter pelo menos três ou quatro domingos e menos segundas-feiras. O fim de semana terminava e logo todos voltariam para suas respectivas rotinas. Velouria estava namorando um rapaz de sua classe de magia, mas se negava a terminar como uma dona de casa que viveria o resto de sua vida limpando e cozinhando. Infelizmente, não podia se espelhar no relacionamento de seus pais, sua mãe abrira mão de muitas oportunidades na vida para tomar conta das crianças enquanto o marido se dedicava ao trabalho. Yan e Xavier abriram uma loja de itens raros no centro, enquanto Zack trabalhava na polícia de Bausonne como detetive. Bill era o único que ainda morava com os pais.
— Eu não quero trabalhar amanhã — resmungou Zack. — Aproveite enquanto você tem tudo de mão beijada, Bill, porque crescer é uma merda. Ninguém mais liga para você.
— O Bill vai ter a mamãe pra tomar conta dele pra sempre — caçoou Velouria, fazendo um biquinho e afinando a voz para provocá-lo.
A verdade é que Bill já estava farto de ser tratado como criança. Queria completar dezoito anos logo e ir embora, explorar o mundo, desvendar os mistérios de Sellure e ganhar muito dinheiro vendendo brinquedos. A começar, precisava convencer seus irmãos a pararem de chamá-lo de Bill, porque nenhum comerciante de sucesso poderia ter um apelido assim. Quando as cortinas fossem abertas para lhe darem as boas vindas, só queria ouvir o nome de William Von Altenburg sendo recebido com uma sucessão de aplausos!
Mal podia esperar para crescer... e sequer imaginava naquela época que sentiria tanta falta daquelas reuniões em família.

i

Duas e quarenta da manhã. Bill levantou-se de sua cama e caminhou na ponta dos pés pelos corredores de casa para se certificar de que alguém estava acordado. Passou primeiro pelo quarto de Yan e Xavier que disputavam um duelo de roncos tão alto que fazia o chão tremer, já a porta do quarto de Velouria estava entreaberta, ele só conseguia enxergar as silhuetas da irmã no cômodo pouco iluminado pelo abajur. A forma como ela se mexia e emitia murmúrios denunciava que devia estar acordada, sua respiração era densa e contínua. Bill se enrolou no cobertor e aproximou-se devagar, o que fez a irmã levar um tremendo susto ao perceber que tinha companhia.
— O que pensa que está fazendo aqui, seu intrometido? Não sabe bater na porta?! — berrou Velouria.
— É que eu...
— Não quero ouvir suas desculpas, sai do meu quarto agora!
Bill fechou a porta às pressas antes que uma almofada o acertasse, desejando que aquela barulheira não acordasse seus pais que deviam estar exaustos e precisavam acordar cedo no dia seguinte.
Ainda estava sem sono. Pelas sombras que se projetavam na parede, percebeu que a lareira devia estar acesa e por isso desceu para apagá-la, mas qual foi sua surpresa ao se deparar com Zack sentado na poltrona de seu pai com as pernas estiradas sobre a mesinha de centro com a velha câmera Polaroid ao lado, fumando um cigarro enquanto observava o retrato da família.
Zack não precisou virar-se para identificar a origem do som vindo da escada.
— A Velouria é muito escandalosa — disse ele com uma risada abafada. — Ela nunca aprende a trancar a porta.
Ao virar-se, Zack observou a luz iluminar o rosto umedecido de Bill. Ele estendeu o braço para o irmão mais novo, sugerindo que viesse se sentar.
— William, se tem uma coisa que você precisa entender sobre as mulheres é que elas são, como eu poderia dizer... temperamentais, mas também muito fáceis de se agradar, contanto que não faça nenhuma besteira. Não tem jeito, elas sempre conseguem roubar um espaço no nosso coração, não é?
Bill sentiu-se importante, pois era a primeira vez que ouvia seu irmão chamá-lo pelo nome. Mal podia esperar para começar os estudos e frequentar a escola, sempre ouvira os irmãos dizerem que naquele ambiente eles encontraram amigos para toda a vida.
— E por que você está acordado a uma hora dessas, hein? — perguntou Zack.
— Eu fiquei pensando no que vocês falaram na mesa, sobre os tótines estarem sumindo... — mencionou o garoto. — E se vocês forem embora também?
Zack revelou um sorriso gentil que lhe era raro, Bill estava acostumado a sempre ouvi-lo gritar, fazer gestos obscenos e provocar todo mundo, mas sentia-se protegido ao lado dele. Como passava tempo demais dentro de casa aos cuidados da mãe, a companhia dos irmãos mais velhos era o evento mais aguardado em sua pacata rotina.
— Estou acordado pelo mesmo motivo, se quiser saber — disse Zack. — Mas não se preocupe, porque nós não vamos a lugar nenhum. Somos uma família, e um protege o outro!
Bill encostou a cabeça no peito dele e respirou fundo antes de dizer:
— Às vezes eu queria não ser um tótines — lamentou o menino. — Todo mundo só se interessa em nossa mana, no que dominamos e podemos nos transformar. Ninguém pergunta no que eu sou bom ou o que gosto de fazer.
Zack ficou quieto diante daquela frase. Será que sentia a mesma coisa?
— Olha, o meu poder não é grande coisa também... quando eu tinha a sua idade, as outras crianças diziam que eu era fofoqueiro porque conhecia todos os segredos da escola, mas eles não entendiam que era porque minha audição era mais aguçada do que o normal. Hoje, foi graças a esse poder que conquistei meu cargo com destaque na delegacia. Então lembre-se do que papai sempre diz: “Você é o senhor de si próprio”.
— Eu me transformo num guaxinim.
Zack soltou uma risada alta e histérica que por pouco não acordou a casa inteira.
— Sério? Um guaxinim? É a sua cara.
— Não é, não! É idiota, ninguém nunca vai me levar a sério!
— Seus poderes não importam, é a forma como você age perante os outros — respondeu Zack. — Não lhes dê espaço para explorar suas inseguranças.
Bill passou mais alguns minutos na companhia de Zack antes de decidir subir de volta para seu quarto, mas os pensamentos sobre o Ceifador ainda assombravam sua imaginação infantil, portanto entrou na ponta dos pés no quarto dos pais, espremeu-se entre os dois no cobertor e ficou ali em silêncio onde nada no mundo poderia feri-lo.

Pelo resto da noite, Zack continuou com os olhos fixos na lareira. Como queria ter tido a chance de dominar um elemento como fogo, igual aos maiores feiticeiros e generais de Sellure, mas seu poder jamais lhe dera nenhuma serventia — audição aguçada, escutar o que as pessoas fazem atrás das paredes, aquilo lhe rendera uma vaga no instituto de crimes, mas bem que preferia não ouvir certas coisas.
Levantou-se para tomar um copo de licor na adega do pai quando algo chamou sua atenção. A maçaneta da porta principal estava girando, mas não fazia som algum. Se houvesse alguém do outro lado, com toda certeza teria ouvido os passos se aproximando minutos atrás. Zack deixou a garrafa de lado e movimentou-se devagar, na ponta dos pés. Permaneceu estático diante da porta, a maçaneta rodando devagar como se estivesse enfeitiçada. Sacou o punhal da família e preparou para manuseá-lo se fosse preciso, não seria a primeira vez que investia contra alguém. Se pudesse evitar um confronto, assim o faria, mas a ideia de que alguém rondava o quintal de sua família elevou sua adrenalina.
Zack empurrou a porta com força, mas não havia ninguém do outro lado. De fato, estranhou que a porta também não fizera seu rangido característico. Soltou um suspiro sem som.
Nada fazia barulho.
Zack levou a mão à garganta ao perceber que também estava sem voz, não escutava o crepitar do fogo na lareira e nem o barulho costumeiro dos insetos no quintal. Para alguém que sempre ouvira os mínimos detalhes, era uma situação assombrosa.
Ele se virou e deu de cara com uma figura taciturna sentada na poltrona no escuro. Pelo semblante do rosto notou tratar-se de uma mulher de cabelos brancos curtos, seus olhos brilhavam feito um par de faróis, ela usava um pano para ocultar a boca e suas roupas eram apropriadas para alguém que se esgueirava em tarefas furtivas. Zack sempre fora um cavalheiro com as damas, mas não se deixou levar pela invasora em sua morada, mergulhou o punhal em direção dela que se desviou para a esquerda e puxou seu braço, derrubando-o no chão. O impacto teria sido o suficiente para despertar seus pais no piso superior, mas a ausência de barulho mostrava o quão qualificada era a invasora.
Zack girou para o lado quando percebeu que ela também combatia com uma adaga, atacando para matar. Tentou gritar e chamar pelos outros, mas percebeu que estaria sozinho naquela luta. Os dois trocaram mais uma dúzia de golpes no escuro, a assassina empurrando-o cada vez mais contra um dos cantos da sala onde comprometesse seu movimento. Zack saltou por cima do sofá para se proteger, mas surpreendeu-se ao notar que a mulher o atacou com uma ventania que fez os objetos no aposento colidirem uns nos outros.
“Duas magias?”, perguntou-se Zack. Pouquíssimos tótines em Sellure eram capazes de dominar dois poderes tão contraditórios.
Julgou que ela também fosse um, mas a ausência quase total de mana vindo da adversária o confundia. Como alguém poderia manusear tanto poder completamente drenado? Ela era uma adversária contraditória e ia contra tudo que ele sabia sobre tótines ou qualquer outra raça no reino.
Um descuido seu fez com que a oponente o desarmasse. Ela parou diante dele com a adaga a um palmo do seu coração. Se a invasora fosse mesmo a responsável pelos inúmeros sumiços de tótines nos últimos meses, então ela precisaria dele vivo, mas a mulher retirou o pano de seu rosto, revelando lábios curvos e traiçoeiros. Ela fez sinal de silêncio, e assim, a adaga penetrou fundo em seu peito. Zack sentiu uma dor agonizante, mas o mais assustador era que, pela primeira vez ninguém o ouvia. Seu corpo escorregou para trás, deixando uma marca vermelha na parede. Sua visão ficava turva quando ele viu a assassina aproximar-se e prender um singelo amuleto em seu pescoço, um antigo objeto usado em funerais por tribos reclusas do norte.
“Esteja em paz”.
Seus olhos se fecharam e ele não escutou mais nada.
A Silenciadora olhou para a escadaria, onde sabia que suas próximas vítimas a aguardavam. Seus passos não emitiam barulho na madeira, ela vinha estudando a morada dos Altenburg nas últimas semanas e sabia precisamente onde cada membro da família repousava, que horário iam dormir e quando acordavam.
Seu primeiro alvo foi o quarto de Velouria. Ela abriu a porta com discrição, pois esperava encontrar a cama desarrumada. Velouria surpreendeu-lhe por trás e a chutou para dentro, usou seus poderes de planta para prendê-la pelos braços, obrigando-a a largar a adaga.
Não era possível escutar o que Velouria dizia, mas não houve dificuldades em distinguir sua expressão de fúria que insinuava: “Eu vou acabar com você, sua vadia!”
De repente, o corpo da Silenciadora começou a esquentar. Ela também parecia ter uma magia de fogo escondida, já somavam três. Os poderes de Velouria se enfraqueciam com o calor, não havia nada que pudesse fazer para detê-la. Reuniu toda mana que pôde para criar uma parede de vinhas espessa que restringisse a travessia da invasora. Por algum motivo seu corpo a fez correr para a esquerda na direção do quarto de Bill, Velouria empurrou a porta e parou diante da cama vazia. Ela esboçou um sorriso de alívio e fechou os olhos. Não teve tempo para avisar mais ninguém, atrás dela a assassina sacava uma katana da bainha, feita para desferir um golpe limpo. Velouria virou-se para que o golpe não fosse desferido pelas costas e encarou aquele par de olhos hipnotizantes. Ela fechou os olhos e seu sangue escorreu pela cama de Bill, manchando o edredom até pingar no chão. A Silenciadora tomou a garota nos braços e deitou-a com leveza na cama, colocando o amuleto sobre seu pescoço.
Yan e Xavier mal chegaram a despertar e tiveram suas gargantas rasgadas. O gesto de despedida se repetiu, cada um deles recebera um amuleto sobre seus corpos inertes.
Agora só faltava um quarto.
No instante em que a Silenciadora abriu a porta, foi surpreendida por um soco com o impacto de uma pedra na cara. Ela caiu e rolou escada abaixo, sentindo a cabeça girar. O pai de Bill ainda estava vestido com o pijama listrado, mas faria de tudo para proteger o que restara de sua família assim que se dera conta da invasão. Fechou a porta e começou a empurrar móveis para impedir o avanço, sua magia de terra lhe conferia a força de um gigante de pedra. Ele olhava para a a carinha chorosa de Bill que não entendia o que estava acontecendo, mas estava claramente amedrontado. Sua esposa apertava a criança em seus braços com o rosto cheio de lágrimas, àquela altura ela devia imaginar o que acontecera aos demais.
“Esconda-se no armário”, Gregor fez menção, apontando para o único esconderijo que conseguira pensar no aposento. “Eu voltarei para buscá-los”
Amélia espremeu-se ao lado de Bill. Os dois permaneceram em absoluto silêncio, o que tornava tudo ainda mais aterrorizante. Eles se recusavam a espiar para descobrir o que acontecia do lado de fora e tudo que podiam fazer era aguardar que logo Gregor retornasse, indicando que era seguro sair.
Bill aninhou-se no peito da mãe e começou a chorar. Sentia sua mana emanar do corpo, queria transformar-se em um guaxinim e escapar pela janela, mas como levaria sua mãe consigo? Sua mãe beijava sua testa na tentativa de consolá-lo. Os dois esperaram pelo que pareceram horas angustiantes que na verdade só levaram alguns minutos.
A porta do armário se abriu.
A Silenciadora parou diante dos dois, mas não os viu. Amélia encarou aqueles olhos impiedosos, mas não conseguia entender como ela não podia enxergá-los. A assassina deixou o armário aberto e olhou para a janela aberta, alheia às duas vítimas que restaram. Ela bateu com força em um móvel que tombou para frente, de onde escorregou uma singela pérola.
A invasora apanhou o objeto e declarou aquela missão como encerrada, limpou a katana ensanguentada na roupa de cama e desapareceu no escuro para longe dali.
Amélia sentia o coração na garganta, olhou para as próprias mãos e percebeu que algo estava estranho — era como se fossem feitas de fumaça. A criança em seu colo estava de olhos fechados, emanando uma quantia incrível de mana. Sem se dar conta, o pequeno Bill descobrira qual era sua aptidão mágica e aquilo salvara suas vidas.
Mas não fora o suficiente para impedir a tragédia que assolou a vida dos Altenburg naquela noite.

  2 comentários:

  1. Yo Canas! Muito boa madrugada, mano.

    Finalmente vim aqui ler, e porra, aqui vemos que nosso Bill da Ordem do Selamento tem um passado meio conturbado.

    Primeiro temos ali uma reunião familiar, com a família Von Altenburg usando e depois ficando maravilhados com uma câmera. Logo mais temos o jantar e a discussão dos poderes de cada um, além do rápido comentário de Zack sobre os eventos que estavam a ocorrer, os desaparecimentos.

    Mais tarde, vamos encontrar Bill com dificuldades em relação ao sono, fazendo com que o garotinho saia caminhando pela casa, e surpreendendo algumas pessoas, ou melhor, Velouria ( o que será que ela estava fazendo? :gugu: ) e depois Zack, com quem fala os motivos de sua falta de sono, estes aos quais o mais velho, em parte, compartilha.

    Por fim, mas não menos importante, temos o ataque da Silenciadora, que vai surpreender a Zack por fazer com que sua maior arma se torne inútil em face da assassina. Os membros da família vão sendo assassinados, e isso leva Gregor a mandar sua esposa e seu filho mais novo se esconderem num armário. Não tarda e a Silenciadora alcança o cômodo no qual o móvel estava, e começa a revirá-lo. Ela acaba por não notar a presença dos dois que se escondiam, e ao achar uma pérola num móvel qualquer que ela derruba, ela a pega e ai embora, deixando sem saber uma mãe e uma criança vivas, vivas por causa de um poder recém despertado por parte do mais jovem.

    É interessante ver como tudo mudou muito rápido pro Bill, mano, foi muito drástica a sequência de eventos.

    Valeu aí, Canas, e até depois!

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    1. E aí, Napo! Cara, esses dias eu estava terminando de desenhar a mãe do Bill e prestei atenção na data que marquei no rascunho. Junho de 2017, já fazem 2 anos que eu planejava escrever esse especial, mas nada saía. Tipo, era engraçado que estava tudo muito bem elaborado na minha mente, o fato de que eles morreriam e só sobraria o Bill e a mãe dele, mas eu sentia que faltava alguma coisa para interligar todos os membros da Ordem. No fim das contas, a Sheena literalmente caiu do céu para mim, então te agradeço por também ter participado na criação dela.

      Se eu pudesse (e tivesse paciência) acho que eu tentaria ilustrar todos os membros. Acabei gostando muito do Zack e da Velouria (que sofreu uma mudança no nome, antes era Valentina), mesmo com um único capítulo eles conseguiram ter mais personalidade que a Akebia e o Panetto hahaae

      O Bill realmente se transformou do personagem que conhecemos no livro. De filhinho da mamãe dá para notar como o mundo foi cruel com ele, tornando-o um cara desconfiado e que tenta sempre tirar proveito dos outros. Naquele support dele com o Lesten ele inclusive nem gosta que falem da família, como se sentisse vergonha do que aconteceu. Eu curto demais o Bill, e fico muito feliz quando posso compartilhar um pouco mais dos personagens da Ordem com vocês aqui no blog. Te espero no próximo! Grande abraço.

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