quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Capítulo 19.5 - Seus Amigos? [Cena Deletada]

Onde a cena se encaixava?
Entre os Capítulos 19 e 20, logo após recrutarem Elma, os protagonistas passavam um tempo na cidade de Bausonne fazendo os preparativos para seguirem em jornada. Este era para ter sido o fechamento do arco da busca pelas Pérolas Sagradas antes dos personagens partirem pra a Ilha-S.

Sobre o que falava?
Após a conclusão do livro, o autor sentia que Lesten era o único personagem entre os protagonistas que não tinha um "arco de desenvolvimento". O principal intuito desse capítulo era mostrar o entrosamento entre Lesten e Tootie, uma amizade inesperada formada desde os gibis do autor, e também dar destaque para Bill e Elma, os integrantes da Ordem do Selamento que mais sofreram com os cortes.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 3000 palavras, combinadas a Parte 1 e 2 totalizavam quase 20 páginas de manuscrito. Depois de mostrar para os betas, as reações foram extremamente negativas, os capítulos foram considerados desnecessários e com uma antagonista esquecível. Pobre Canas... ele guardou esse capítulo com todo carinho para postar no blog quase 3 anos mais tarde.


Seus Amigos? (Parte 1)
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas

Sentada em seu aposento no Castelo da Fachada, Auria baixou a alça da blusa e concluiu que a ferida causada pelo Capiruchi no Pântano Enferrujado não dava sinais de melhora. Por mais que Facade a aconselhasse a procurar um médico, não estava muito disposta a ir sozinha. Ralph bateu à porta do quarto trazendo uma bandeja com alguns pães amanteigados e um copo de leite, mas corou ao ver Auria com os ombros expostos e tampou o rosto, como se tivesse visto algo proibido.
— Desculpa, eu devia ter batido na porta!
— Não esquenta... você não está ocupado, está? — ela perguntou com um tom autoritário. — Venha comigo, quero que me acompanhe até a cidade.
— Ah, pode ser — Ralph concordou de imediato. — Gosto de sair com você!
Enquanto passavam pelo corredor em direção da saída, Lesten perguntou:
— Opa, tão indo pra onde? Posso ir também?
— Você não, lagartixa — brincou Auria. — Ninguém gosta de você.
Lesten saiu dali murmurando coisas sem sentido e foi dormir em algum canto escuro da biblioteca.

Enfim, paz. O silêncio voltava a reinar no Castelo da Fachada, Facade poderia ler tranquilamente sem ser perturbado enquanto os demais estavam fora ou ocupados com suas próprias tarefas. Bill não retornara das ruas desde a noite passada, Elma trabalhava cautelosa em sua mais nova obra e Lesten dormia no sofá da entrada principal próximo à lareira apagada. Tootie era a única que passava de sala em sala observando o que cada um fazia, avaliando a disposição dos colegas. Quando chegou à serralheria, Elma moldava cada detalhe de sua armadura manualmente.
— Com licença — Tootie chamou-a de forma tímida, aparecendo de relance na porta.
— Entre, criança — Elma convidou-a gentilmente. — Você é a menina do deserto, não é? Aprendiz da Srta. Cléo, eu me lembro de você, uma garotinha que tentava copiar todos os passos de sua mestra. E veja só, hoje já é uma mulher!
— Agradeço os elogios sinceros, senhorita Elma. Por um acaso você está ocupada agora? Eu precisava de uma escolta até o centro da cidade, tenho um compromisso que requer minha atenção.
Elma estranhou o pedido, mas continuou trabalhando em seu projeto sabendo que um clima suspeito pairava no ar. Como não era de se deixar enganar, decidiu confrontá-la num tom complacente:
— O que você está planejando, mocinha?
Tootie levou as mãos à cabeça em sinal de desespero, estragando qualquer disfarce que estivesse prestes a criar
— M-me perdoe, eu juro que não é nada perigoso! Eu nem devia estar aqui te incomodando!
— Acalme-se, ninguém aqui quer te machucar — respondeu Elma. — Somos parte da mesma equipe, querida. Independente de quais sejam suas intenções, é importante confiar nos companheiros.
— Tudo bem, eu falo... É que eu preciso comprar um presente para um admirador secreto — Tootie ergueu a voz, sentindo seu rosto ficar avermelhado. Ela respirou fundo e exalou o ar, satisfeita por ter dito aquilo em voz alta.
Elma revelou uma risada ligeira e jogou no verde para tirar suas suspeitas à prova.
— Oh, entendo, um admirador secreto. Eu acho que você deveria pedir ajuda ao Bill, ele tem bom gosto para presentes.
Tootie arregalou os olhos e começou a suar frio.
— Ah, estou começando a entender — Elma balançou a cabeça como se insinuasse “esses jovens...” — Escute, Tootie... eu não sou das melhores companhias para esse tipo de evento, acredite, meus dias de romance já passaram. Hoje entendo de ferro e brasas, são mais fáceis de moldar do que os homens.
— Eu é que peço desculpas, não deveria sequer estar aqui a incomodá-la com essas tolices... — disse Tootie, realizando um cumprimento cortês conforme saía da sala devagarzinho. — Com licença...
Elma suspirou chateada, queria muito poder ajudar e prolongar sua conversa com a garota, mas falar sobre encontros lhe trazia tantas memórias dolorosas que ela precisou manter a mente ocupada na oficina pelas próximas três horas para esquecer as lembranças de oito anos atrás.
Tootie continuou sua busca pelo castelo, mas não restavam muitas opções. Espiou de relance a sala de Facade e não o encontrou ali, o espírito ainda devia estar escondido em algum livro onde ninguém pudesse interrompê-lo. Deveria ter acompanhado Ralph e Auria quando a convidaram a sair, mas a mistura de alegria e vergonha foi tão grande que acabou por recusar, agora se arrependia amargamente. Restava um único indivíduo presente e, de todos que aprendera a conviver, era com quem menos tinha intimidade.
Chegou de fininho perto de Lesten, o lagarto roncava de barriga para cima com a língua de fora, devia estar sonhando com algo muito suculento porque sua baba já se acumulava no encosto do sofá. Tootie o cutucou com a ponta do dedo, mas não houve resposta. Quando tentou observá-lo de perto, viu que seus dentes eram afiados e grandes o suficiente para rasgar a pele de um animal. Enquanto o fitava imersa em pensamentos, o gecko despertou e saltou sobre ela, derrubando-a no chão com seus braços estirados de modo que não pudesse fugir.
— O que tu quer comigo, hein? Aposto que estava tentando roubar as pérolas e me matar enquanto estava desatento, acertei? — Lesten grunhiu entre os dentes. — Vai, desembucha logo! O que vocês da Ordem estão planejando agora que se reuniu com seus amigos?
— D-desculpe-me, senhor lagarto... — Tootie falou com a voz chorosa.
O lagarto afastou-se depressa assim que viu uma lágrima rolar no rosto da menina. Mais uma vez, ultrapassara todos os limites.
— Ih, era só brincadeira... Foi mal, chanel... chora não.
Havia um pouco de verdade no que dissera — ainda tinha desconfiança quanto aos membros da Ordem do Selamento e não compreendia como do dia para a noite poderia conviver em harmonia com seus inimigos debaixo do mesmo teto. O mundo o ensinara a nunca confiar plenamente em ninguém, nem mesmo nos amigos, pois quem poderia dizer que o outro lado o estimava da mesma forma?
Tootie esfregava os olhos, manchando a maquiagem. Lesten a rodeava aturdido, se Auria descobrisse que ele fizera uma garotinha indefesa chorar, com toda certeza estaria sem alguns dentes na manhã seguinte.
— Ei, ei, quer ouvir uma história legal? Vou te contar sobre um guerreiro lendário do exército da Fortaleza Azul, ele e o irmão gêmeo confrontavam as tropas inimigas e eram conhecidos como os Irmãos do Vento!
Tootie fungou o nariz e olhou para Lesten com os olhos inchados.
— E o que aconteceu com eles?
— Bom, eles lutaram muitas batalhas até que um acabou morrendo... só que aí não faz mais sentido ter o título de “irmãos” se só sobrou um — Lesten pegou-se rindo. — Dizem que o outro afastou-se e passou a viver em uma ilha reclusa, mas ninguém nunca mais ouviu falar dele.
— Isso é tão triste... dói muito perder pessoas que amamos — falou Tootie.
— Nem me fale... Acho que pior do que perder alguém é ver essa pessoa ir morrendo aos poucos para o mundo. Um dia tu é considerado um herói, e no outro se transformou em alívio cômico secundário de uma história qualquer.
— Senhor lagarto — Tootie falou baixinho —, por que você está aqui também?
Ninguém jamais lhe fizera uma pergunta tão pessoal.
— Quando teu foco é atingir o topo da montanha, chega um dia que é preciso dar espaço para que a nova geração também alcance o cume. A glória nunca se vai, o respeito não muda e tua bandeira continua lá, entende? — contou-lhe Lesten. Tootie ouvia a história com tanta atenção que parecia hipnotizada.
— Não entendi — disse a menina.
— Não entendeu o que, criatura?
— D-desculpa, eu não queria te ofender! — ela reagiu de imediato com a voz chorosa.
— Calma, chanel, vem cá. Nem todo mundo quer o seu mal.
— Tá bem... mas o que é chanel?
— Ah, é esse corte de cabelo da sua peruca.
Tootie voltou a chorar, porque aquilo era para ser segredo.
— Ô porra, já vi que não vou conseguir dormir em paz...
Apesar da reputação, Lesten sempre fora muito paciente com as pessoas, ainda mais as que precisavam de ajuda. Estava contente em ter uma companhia para conversar a tarde toda, sentira falta disso. Chegou a terminar de contar toda a história dos Irmãos do Vento quando Tootie voltou a fazer seu pedido:
— Senhor lagarto, eu gostaria muito que você me acompanhasse até o mercado como uma espécie de escolta. Sei que você é muito poderoso e sinto que poderá me ajudar.
— Opa, contratou o cara certo! — disse Lesten que adorava elogios e não perdeu tempo em agarrar sua lança. — Pra um rostinho desses, nenhuma criatura na face da terra poderia dizer não!
Os dois deixaram o Castelo da Fachada em direção ao centro próximo da Torre Laranja, as barracas se amontoavam em fileiras ao redor de uma fonte de pedra que jorrava água, os comerciantes travavam sua própria batalha por consumidores.
O mercado estava movimentado e cheio de viajantes curiosos, o sol ardia e mesmo assim Tootie se escondia por baixo de mantos velhos, observando cada loja durante vários minutos e sempre saindo sem comprar nada. Lesten a acompanhava dois passos atrás, já estava começando a se entediar. Não havia nenhuma ameaça nos arredores, só um bando de estudiosos e entusiastas por livros que não fariam mal a ninguém contanto que não matassem seu personagem predileto.
— O que estamos fazendo aqui mesmo? — perguntou Lesten.
Tootie virou-se para o lagarto e mostrou uma moeda da primeira geração do mundo, prensada com o perfil do Rei. Ela era apaixonada por objetos antigos, mesmo que para muita gente não passasse de um monte de sucata velha.
— Não creio que tu também gosta de colecionar coisas! — falou Lesten.
— Sim, eu adoro. Você iria gostar de ganhar essa moeda, senhor lagarto?
— Com toda certeza do mundo, imagine na mão de quantas pessoas essa moeda já passou! Mesmo que ela não tenha mais valor comercial nos dias atuais, só o fato de ter sido um presente seu faria toda a diferença.
Tootie encolheu os ombros e corou de leve, ajeitando a franja.
— Eu gosto de dar presentes, mas nunca sei se a pessoa vai gostar, porque tendo a dar coisas que eu gostaria de receber... — falou a menina.
— Sempre que tu pensar em presentear um macho, procure algo que seja útil para ele. Se dá pra comer, então é bom — brincou Lesten. — Olha, eu não sei quem é o sortudo que vai receber algo de você, mas ele já ganhou na loteria.
 — Eu fico surpresa de você não estar em nenhum relacionamento, senhor lagarto!
— Chanel, tu tá olhando para o imperador dos flertes. Na minha terra natal não havia uma fêmea sequer que resistisse aos meus encantos, eu sinto o cheiro de paquera há milhas de distância.
Os dois riram e continuaram sua caminhada pelo mercado. Estavam se dando muito bem, por mais que fossem de duas culturas completamente diferentes ainda compartilhavam o interesse por criaturas do mundo antigo e adoravam colecionar objetos sem valor algum. Tootie encontrou um ursinho de pelúcia no formato de um Dinorros e Lesten abriu a boca, maravilhado.
— Que. Coisa. Mais. FOFA! — Lesten apertava tanto o bichinho até os olhos saltarem para fora. Tootie o pegou no braço, afagando a cabeça.
— Será que ele iria gostar?
— Pare de se preocupar tanto com o que os outros vão pensar, se for de coração tá valendo, sacou? Olha, se não quiser comprar para esse seu admirador secreto, então eu compro e dou para você.
Tootie agradeceu com um aceno gentil. Andava de lá para cá com o ursinho de pelúcia entre os braços, adorava brinquedos e sempre sentira um pouco de inveja das outras crianças que tinham tantos e muitas vezes não brincavam com nenhum deles. Lesten era um sujeito curioso, sempre o enxergara como um cara despojado e irreverente, mas Tootie agora via um lado carinhoso e divertido dele.
— Eu amo brinquedos — ela encolheu os ombros. — Eles nunca te abandonam, a menos que você o faça.
— Eu também me amarro nessas tranqueiras, sabe? Gosto de valorizar coisas que para a maioria não dá valor algum, mas para mim são especiais. Eu brinco ao dizer que sou um colecionador de memórias, pois cada um desses objetos representam pessoas e lugares que passei. Enquanto eu ainda estiver aqui, significa muita coisa — disse Lesten, percebendo que já falava demais. — Saca só, chanel.
Ele retirou de seu alforje a escama original do Dinorros que enfrentaram na Ilha dos Geckos. Nem mesmo Tootie pôde acreditar.
— Uau, é autêntica. O senhor é um verdadeiro caçador de monstros!
Lesten adorava gabar-se de suas conquistas, mas raramente compartilhava deste sentimento com alguém, pois poucos se importavam. Estava muito contente com sua nova amizade, Tootie era interessante e meiga. Quem seria seu misterioso admirador secreto?
— Pode me dar um minuto? — perguntou Lesten.
— Aonde vai?
— Vou ali entrar em contato com a mãe natureza, se é que me entende.
Tootie riu e disse que não se importaria. Lesten saiu para fazer suas necessidades em algum lugar e a deixou sozinha. A garota continuou sua busca pelo presente ideal quando alguém muito alto parou atrás dela, observando a tenda de cima. Tootie segurou um espelho com bordas douradas e espantou-se pelo reflexo com os olhos lilases de uma mulher sobre ela.
— Se olhar bem é como se pudesse enxergar um universo paralelo, não? — disse a figura feminina encapuzada, suas mãos gentilmente tocando os ombros de Tootie.
A moça tinha os cabelos longos e ondulados da cor púrpura, e por sua excentricidade se escondia atrás de um manto assim como Tootie. Seus olhos brilhavam como duas ametistas perdidas em um oceano sem cor, um tesouro intocado e repleto de seus próprios mistérios que imploravam para ser desvendados. Tootie virou-se envergonhada, não gostava de ser tocada ou sequer manter contato com pessoas desconhecidas, por mais bem intencionadas que aparentassem.
Quando tentou distanciar-se, a moça a segurou pelo braço com força e falou:
— Aonde pensa que vai, mocinha? Não vamos nos conhecer melhor?
— Me solta — Tootie implorou com educação. — Por favor...
Ela chegou bem perto de seu ouvido e sussurrou bem baixinho:
— É melhor fazer o que estou mandando, ou não vai gostar do que acontecerá se tentar me desobedecer, guardiã. — Elas deram as mãos e saíram para caminhar, como mãe e filha. — Não se preocupe, vamos passar alguns bons momentos juntas.

i

Nuvens escuras vinham do mar e anunciavam a chegada de uma forte chuva. Os mercadores aprontaram suas barracas às pressas, as atividades no centro de Bausonne se encerraram e era hora de voltar para casa. Ralph e Auria voltavam tranquilos debaixo de Lignum em sua forma de guarda-chuva, cada um levava três sacolas de suprimentos para a viagem que fariam no dia seguinte.
— Obrigada por me acompanhar hoje, Ralph — falou Auria. — Sua companhia me faz bem.
— Disponha. Foi bom irmos ao médico, vamos tomar conta dessa ferida. Buscamos os remédios amanhã cedo antes de partirmos, tudo bem? E não esqueça: repouso. Se necessário, vou deixa-la trancada no quarto e te alimentar com macarrão instantâneo até que volte ao normal.
— Se for você cuidando de mim, talvez eu até deixe — respondeu a guerreira com uma risada, trazendo-o para mais perto de si para que a chuva não o molhasse. Bem que gostaria de estar com sua jaqueta à uma hora daquelas, poderia esquentá-lo quando sentisse frio, garantiria alguns pontos extras.
 Ao retornarem ao Castelo da Fachada, um clima tenso cobria o local, e não era por causa da chuva. Bill discutia em voz alta com Elma que tentava defender-se, Facade procurava a melhor maneira de manter a ordem, embora sem muito sucesso. Quando os dois chegaram e deixaram as compras na entrada, logo tentaram compreender o que estava acontecendo.
— Como é que vocês não sabem? — Bill reclamava impaciente, a mão constantemente ia até o rosto e ele não parava de olhar para a janela. — Por que a deixaram sair sozinha? Bausonne sempre alaga em temporada de chuva, a Tootie não faz ideia de como se virar no mundo atual!
— Ela não é sua filha, Bill — Elma respondeu de forma rígida. — Tootie é uma garota crescida e sabe se cuidar. Hoje cedo ela pediu para que eu a acompanhasse em uma... tarefa especial, mas eu não pude comparecer, e estou arrependida.
— Perceberam como o lugar está excepcionalmente tranquilo? — começou Facade. — O jovem Lesten também não está presente, talvez eles tenham saído juntos.
— A lagartixa não sabe cuidar nem de si própria — Auria deu risada ali perto.
Bill começava a perder a paciência.
— Como vocês conseguem ser tão imprestáveis? Eu não posso deixar esse lugar por uns dias que tudo sai do controle! Vamos sair e procurá-la agora mesmo.
— Vai com calma, Bill — foi a vez de Ralph falar —, chega a parecer que você está preocupado com algo que ainda não sabemos...
Um trovão rimbombou no céu distante, o mar estava agitado e Bausonne preparava-se para uma tempestade vinda do noroeste. Elma sentia-se culpada por ter menosprezado sua companheira em um momento de descuido e Bill continuava calado. Dessa vez foi Auria quem decidiu perguntar:
— O que foi que você fez, Bill?
— Está me acusando de que? — indagou o gatuno inconformado.
— Quando uma pessoa fica agressiva, ela deve estar escondendo alguma coisa. Fala alto, perde a paciência... Não estou acusando ninguém, só estou esperando que você me diga o que está acontecendo.
A atenção voltou-se para o gatuno. Ele continuou de braços cruzados, uma gota de suor escorreu por seu rosto. Não fizera por mal — ou melhor, não sabia que atingiria alguém que lhe era tão especial. Respirou fundo e, enfim, admitiu:
— Tá, eu vendi uma informação. Estava precisando de dinheiro para uns negócios particulares. Mas como eu ia saber? Foi apenas uma conversa rápida, quem poderia saber que eles iriam atrás da Tootie?
Auria fechou os olhos e massageou as têmporas. Era a última notícia que gostaria de ouvir.
— Que informação tão importante era essa? O que você contou?
Bill ignorou a conversa, olhava para o tempo lá fora e fingia que não era com ele.
— Bom, eu... eu precisava saber se mais alguém estava tentando reunir as Pérolas Sagradas. Só isso, sem maiores detalhes. Foi só uma informação mesmo.
Bill não teve nem tempo de ver de onde veio um soco que o acertou com tanta força que o arremessou no chão. Sua cabeça rodopiava, levara muitos tapas na vida, mas nenhum como aquele;  imaginou tratar-se de Auria, mas notou que havia certo desapontamento no gesto, sem contar que a guerreira estava do outro lado da sala. Quando retirou sua máscara, seu cachecol agora estava com uma mancha marrom avermelhada. Em sua frente, Ralph mantinha sua expressão inalterada.
— Você não vendeu uma informação, Bill — disse o garoto. — Você vendeu um amigo. E isso eu não posso perdoar.

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