sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Passado dos Personagens - Ralph (Parte 2)


Ralph gostava de sentar-se na primeira carteira porque tinha dificuldade em concentrar-se. Raramente conseguia prestar atenção nas aulas, as conversas e sons vindos lá de fora o faziam pensar em todas as oportunidades de aventurar-se que estava perdendo. Ali pelo menos teria uma visão melhor da lousa, ouvindo com perfeição a voz de sua professora sem se distrair com o que não era importante no momento.
Após três semanas de aula, a Profª Clover chegou à conclusão de que Ralph sofria de algum tipo de dislexia, pois sua velocidade de aprendizado era mais lenta que a dos demais alunos. Ele tinha fraco desenvolvimento da atenção, além de certo atraso na escrita e coordenação motora. Provavelmente teria de inscrever o garoto em algumas aulas de reforço à tarde, mas até que essa medida fosse tomada, daria toda ajuda necessária.
Ralph não precisava mais aprontar-se com três horas de antecedência e pegar o trem para chegar até Campos Verdes, bastava sair do dormitório e descer as escadas para dar de cara no pátio da escola. Seus colegas de quarto reclamavam o tempo todo de cansaço, fariam de tudo por mais cinco minutos de sono. Carregava esse costume dos geckos de acordar cedo para caçar, trabalhar ou simplesmente armazenar calor durante o período da manhã, mas agora não tinha mais essas preocupações. Duas senhoras já serviam o café da manhã no refeitório, Ralph comeu leite com cereais e frutos o mais depressa possível para esperar os demais da turma.
Suas aulas começavam às sete e meia, mas às seis da manhã ainda não havia ninguém na classe.
Ele ficou sozinho na sala vazia por quase quinze minutos até que uma garota entrou. Ela era a mesma que elogiara sua armadura no primeiro dia, dificilmente ele iria esquecê-la, desde então não tivera a chance de sequer saber o seu nome. Ela tinha os cabelos longos que misturavam um tom castanho com fios loiros, ela os prendia numa longa trança improvisada com um laço vermelho gracioso em cima. Tinha olhos verdes absolutamente lindos e estava com um vestido de renda que cobria até seus pés, como se fosse uma camisola bem larga, o que a fazia andar meio desengonçada e até tropeçar de vez em quando. Seus ombros ficavam escondidos por uma longa capa branca que arrastava no chão, mas conseguia manter-se sempre limpa e bem passada.
Ralph, que não era nem um pouco discreto, quase subiu em cima da mesa para conversar:
— Olá! Ainda não sei o seu nome.
A garota mal tinha tirado seu material escolar. Ela se encolheu toda com a atenção exagerada que recebia, mal conseguia fazer contato visual e tentava se esconder atrás de seus óculos, embora não quisesse parecer rude.
— É Rebecca — ela falou com a voz tão para dentro de si que foi impossível entender.
— Herebeca?
— N-não... Só Rebecca.
— Ah, tá. Meu nome é Ralph, da Espada de Madeira! No meu primeiro dia de aula você disse que gostou da minha armadura, fui eu mesmo que fiz.
— Que bom... Você é habilidoso — disse Rebecca com seu jeito encabulado, lutando desesperadamente contra seu lado introvertido para manter a conversa fluindo.
— Meu sonho é ser um poderoso guerreiro, o herói mais forte de Sellure! E o seu? Quer ser uma heroína também?
— Eu não gosto muito de guerras...
— Do que você gosta, então?
— Desenhar — ela respondeu de forma tímida. Vendo que não havia mais ninguém na sala para julgá-la, levou sua mão com receio até sua pasta, sem ter muita certeza de que deveria mostrar seu trabalho. — Quer ver?
Ralph acenou com a cabeça diversas vezes demonstrando muito entusiasmo. A menina tirou uma pasta da mochila que continha seu trabalho, diversos papéis e cadernos com os mais diferentes desenhos. Ela era muito boa para alguém da sua idade, além de usar um tema completamente inesperado de uma garota. Rebecca gostava de desenhar criaturas pertencentes à raça dos Monstros, desde os mais fofinhos até os mais grotescos. Raramente mostrava seu trabalho para as amigas porque elas os achavam feios, tinham medo de monstros que eram conhecidos nas histórias por devorar criancinhas travessas. Ralph via neles uma das raças mais incríveis de Sellure.
— Uau, isso é demais! Você tem muito talento, olha só para esse dragão! Por um acaso já se deparou com um desses monstros de verdade?
A garota fez que não com a cabeça, sem tirar os olhos do chão.
— Eu acho legal que existam pessoas que os considerem bonitos...
Os dois conversavam baixinho e compartilhavam seus projetos pessoais quando um terceiro integrante entrou na classe. Claus ainda parecia sonolento, estava cansado de ficar até de madrugada conversando com seus amigos. Trajava vestes parecidas com as de sempre, camisa de manga longa, luvas e bandana. Sua expressão de mau humor nunca mudava.
— Bom dia — falou Rebecca, tratando-o com mais intimidade do que outras crianças.
— Ei — Claus emitiu um grunhido antes de esparramar-se na carteira ao lado. — O que pensa que está fazendo aí cantando a minha irmã?
Os dois realmente eram parecidos à sua própria maneira. Se eles estavam na mesma classe será que seriam gêmeos? Ralph não entendia muito de genética, mas acho que seria o máximo ter um irmão parecido consigo.
— A Rebecca faz uns desenhos muito legais.
— Ela te mostrou? — Claus só quis confirmar. — Considere-se sortudo.
Pouco a pouco, Ralph já não se sentia mais um peixe fora d’água em meio aos humanos. De fato era muito mais fácil ganhar a confiança deles à dos geckos, ele já contava com companhia na hora das refeições, Claus não deixava que Nefele e as outras veteranas perturbassem ninguém, mas diversas vezes tiveram de fugir da janta para comerem escondidos no quarto.
O único problema era na hora de formar duplas para os trabalhos. Bomba e Dello praticamente andavam de carteiras coladas e Claus só ficava com sua irmã porque ela fazia todas as tarefas sozinha.
— Muito bem, crianças. Dessa vez, vou juntá-los em ordem alfabética para que experimentem novos times, afinal, é importante saber trabalhar em equipe — anunciou a Profª Clover naquele dia. Ralph e Rebecca compartilhavam a letra R como inicial, por isso ficaram juntos.
 O trabalho era bem simples e dinâmico, só precisariam recortar algumas palavras de revistas.
— O que raios é um advérbio? — era possível ouvir Claus reclamar lá na carteira do fundo após fazer dupla com uma garota chamada Bianca. Sua irmã Rebecca já havia encontrado três quando virou-se para Ralph e perguntou:
— Está conseguindo?
Ralph estava muito entretido desenhando por cima da imagem de Lydia Mercer, uma loira belíssima que estampava a capa da revista mais famosa do reino, e agora tinha um bigode na cara.
Quando o assunto era chamada oral, Ralph até conseguia se sair bem. Ele gostava muito de se comunicar e não tinha vergonha alguma em estar na frente da classe. Nesse sentido ele compensava Rebecca que mal respondia “presente!” para marcar presença. Quando alguém esquecia uma fala, Bomba e Dello seguravam folhas de caderno lá no fundo com pequenos trechos da apresentação. A Srta. Clover fingia simplesmente não notar.
Uma das lições favoritas de Ralph foi plantar um pé de feijão em um copo com algodão e vê-lo crescer. Clover ensinava aquilo para todas as turmas porque adorava plantas, eram sua especialidade. Como tinha experiência no campo, o feijãozinho de Ralph cresceu mais do que os outros.
Numa segunda-feira de abril, os alunos foram pegos por uma tarefa surpresa que tinha o objetivo de listar o nome de quinze espécies de plantas diferentes. Ninguém sabia mais do que cinco. Clover que adorava botânica, nas horas vagas cultivava pequenas ervas medicinais, por isso teve a ideia de levar as crianças para fora dos portões da escola num dos parque de Campos Verdes.
A capital era conhecida por manter um forte contato com a natureza, o que caracterizava a região era a ausência de montanhas que a tornava uma vasta planície onde ventava muito e fazia sol o ano inteiro, por isso a sombra das árvores se revelava essencial. O parque ficava a menos de cinco minutos andando da Kylie Kalma, havia uma pequena banca de jornais e uma estação de trem. O espaço era amplo e havia e as crianças tinham muito o que explorar.
Rebecca analisava uma flor roxa sem arrancá-la quando a Srta. Clover agachou para observar também.
— Veja só que linda — disse Clover. — É uma hortênsia.
— Agora só faltam duas para mim — falou Rebecca, abraçando seu caderno. — Professora, posso fazer uma pergunta?
— À vontade, minha querida.
— É verdade que você pode se transformar em uma flor?
— De onde você tirou essa ideia? — Clover perguntou com um sorriso. — Bem, eu sou uma tótines, apesar da aparência humana. Diferente de outras raças, humanos e tótines conseguem se misturar muito bem, mas digamos que nós tenhamos alguns pequenos privilégios. Vou lhes mostrar, chame seus amigos.
Clover convocou sua classe perto da lagoa e pediu que todos se sentassem em um círculo. Ela ergueu seu cajado e várias folhas caídas das árvores se juntaram e começaram a formar desenhos no ar. Estava na hora de uma aula sobre os tótines, uma das raças mais primorosas e complexas do reino.
A professora listou as três características que definiam toda a base da magia:
— Ela se dá através da mana, uma energia emanada por todos os seres vivos. Apenas os tótines são capazes de manipulá-las, nossos descendentes foram os primeiros a canalizarem essa energia e a prenderem em pequenos objetos para que ela fosse compartilhada com outras raças. Dessa forma, humanos, monstros e geckos também tiveram acesso a elementos como o fogo para criar pequenas fogueiras, água para banhar-se e eletricidade para produzir energia. No começo, a mana era presa em pérolas, mas elas pesavam muito e eram difíceis de carrega-las na bolsa. Hoje utilizamos apenas selos.
— A senhora é confeccionadora de selos, não é? — perguntou Bomba lá no fundo.
— Por favor, senhora é a minha avó — brincou Clover. — E sim, tenho uma licença do próprio governo para fabricar, utilizar e distribuir meus selos. Eles podem ser usados em grandes quantidades para regar plantações, para fazer uma planta crescer mais forte e até mesmo armazená-la.
Clover aproximou-se da lagoa, onde tocou a água com a ponta de seu cajado. Uma bolha surgiu e ela flutuou até as mãos da professora que a levitou e estourou-a no ar, dando um banho nas crianças que riram sem parar.
— O processo de fabricação é um pouco mais demorado, mas precisa-se do instrumento original antes que se possa transformá-lo em um selo. Há confeccionadores que se especializam em objetos, outros preferem equipamentos de batalha e até barcos inteiros — contou-lhes Clover.
— Minha mãe sempre me dá um selo de guarda-chuva para que eu não seja pego de surpresa numa tempestade — disse Bomba.
As pequenas folhas voltaram a levitar no ar, assumindo o formato de três símbolos distintos.
— A magia dos tótines pode ser classificada em três áreas: Transformação, Manipulação e Elemental. Alguém sabe me dizer a diferença?
— Transformação serve para... se transformar? — perguntou Ralph, o que fez seus amigos rirem. Por mais óbvio que parecesse, ele estava certo.
— Exatamente. Alguns tótines nascem com a capacidade de se transformarem em animais, ou pequenos objetos. Eu, por exemplo, me transformo em uma flor.
Seus alunos se encheram de euforia, imploravam que a Profª Clover mostrasse um vislumbre de sua incrível habilidade. Seria uma flor meiga e esbelta?
— A magia de transformação deve ser lidada com cuidado, ainda mais quando o usuário conhece a magnitude de sua força — explicou-lhe Clover. — Pois bem, continuando a explicação, a segunda área é a Manipulação que confere o poder de manipular algo ligado ao seu elemento básico, o meu por exemplo me dá controle de elementos da natureza, desde que seja matéria prima básica; uma planta, madeira ou pequenas pedras. Se eu me concentrar muito, talvez eu consiga até levitar um de vocês.
— Até o Bomba? — brincou Claus, fazendo seus amigos darem risada. — É brincadeira, cara.
Um dos galhos da árvore ao lado moveu-se e deu um leve tapa no rosto de Claus. Aquele era o mais perfeito exemplo de manipulação.
— E por fim temos o Elemental, a área mais poderosa onde o tótines é capaz de gerar e controlar os elementos existentes em nosso reino. Alguns dizem que esta é a magia mais rara, mas a verdade é que todo poder é importante. Os tótines mais poderosos da história são aqueles capazes de manipular todas as três áreas, alguns descobrem essa capacidade logo cedo, enquanto outros levam uma vida inteira. Há quem acredite que certos tótines nascem sem determinadas habilidades, mas, eu sinceramente acredito que a magia exista dentro de cada um. Cabe a nós encontra-la e aperfeiçoá-la.
Assim que Clover terminou a explicação, seu quadro de folhas se desfez, sendo varrido pelo vento. Uma brisa leve soprou vinda do lago ali perto e seus alunos se encheram de conhecimento.
— Agora que vocês já me enrolaram bastante, como anda a pesquisa dos nomes de plantas? Já posso recolhê-las? — Clover viu no olhar de cada um que eles ainda estavam longe disso. — Vocês têm quinze minutos.
Os alunos se dispersaram no mesmo instante, desesperados para concluírem suas tarefas. A maioria precisava de apenas mais uma planta, mas não encontravam de jeito nenhum. Foi quando Dello apareceu gritando desengonçado com algo preso nos seus dedos da mão. Era uma pequena plantinha carnívora que mais parecia uma fruta magricela com olhos de jabuticaba e uma boca repleta de espinhos afiados. Quando Rebecca reconheceu aquele monstro de seus desenhos, não pôde deixar de comentar:
— Isso é um Dellonium!
— Um Dellonium que mordeu a mão do Dello — respondeu Claus num sinal de surpresa, Ralph e Bomba precisaram sentar no chão de tanto rir. — Esse dia vai entrar para a história!

i

Ralph estava sentado ao lado de Rebecca, vendo-a desenhar um Aukalaka numa manhã pacata de quinta-feira. Era um dia perfeitamente normal, mas a Profª Clover já estava atrasada quinze minutos, o que não era de seu feitio.
— O que acha desse, Claus? — Rebecca perguntou, mas ele era o menos interessado em comentar o avanço de sua irmã nos desenhos.
— A cabeça está muito grande.
— Você nem sabe como é um Aukalaka de verdade.
— Não deve ser pior do que você.
— Acho que ninguém sabe como é um Aukalaka — comentou Ralph. — O Narrador me contou que o último foi visto há muito, muito tempo. Ficou bem parecido com o que eu imaginava!
Rebecca mostrou a língua para seu irmão.
— Viu só? O Ralph gostou.
— O Ralph gosta de tudo
— Gosto mesmo. Sua irmã é muito boa, estou aprendendo a desenhar com ela — ele mostrou seu caderno de desenhos que já evoluíra de bonecos de palito para lagartixas com asas. Era uma melhora razoável.
Mais tarde, todos se assustaram quando Dello chegou na sala. Ele sempre era o último a chegar, e ainda não havia sinal da Profª Clover.
A classe inteira entrou num frenesi. Teriam um dia inteiro para fazerem o que quisessem! Clover era tão pontual que, se até agora não aparecera, provavelmente ela não viria mais. O próprio relógio parecia andar mais devagar a seu favor. A sala encontrava-se num estado de baderna tão descomunal que as crianças já saíam para o pátio e brincavam lá fora sem medo de receber uma punição. Ralph estava apreensivo, mas continuou sentado em sua carteira aguardando pacientemente.
— Vocês acham que aconteceu alguma coisa com a bruxa? — perguntou Claus. — De repente ela tomou um balde de água fria e se desfez.
— Não a chame assim. Talvez ela esteja doente — respondeu Rebecca.
— Deveríamos ir visita-la — sugeriu Ralph. — A Srta. Clover mora aqui na escola mesmo, não deve ser difícil encontrarmos o quarto dela. Podemos levar flores, ela as adora!
Seus amigos concordaram. Claus e Rebecca o acompanhariam pelos corredores da Kylie Kalma, mas era melhor que evitassem o olhar atento de outros professores que não hesitariam em passar-lhes tarefas extras caso visse alunos vagando pela escola.
Eles alcançaram o andar do dormitório quando ouviram dois adultos discutirem:
— Então o líder deles se chama Goldo — concluiu o professor de matemática. — Eles estão hospedados naquela pousada que está caindo aos pedaços perto do museu, mas segundo a polícia não há como incriminá-los porque eles acabaram de sair da prisão e cumprir sua pena.
— Lamentável. É melhor redobrarmos a atenção nos arredores e não deixarmos mais que os professores levem os alunos para excursões pela cidade. Principalmente a Clover que adora dar aulas ao ar livre. Não seria interessante topar de frente com uma gangue de bandidos e piratas.
— Você tem razão... — respondeu o segundo. — E, por sinal, viu o rosto dela depois do acidente? Parece péssima.
— Nem me fale. O diretor quis dar uma folga para ela de uma semana, mas ela insistiu em continuar suas aulas para não atrasar o aprendizado seus alunos. Essa mulher é muito competente.
Ralph, Claus e Rebecca ouviram o suficiente para que sua curiosidade fosse atiçada. Eles voltaram no instante em que Bomba assobio lá do pátio, aquele era o aviso de que a Srta. Clover estava a caminho e que todos deveriam se comportar. Os alunos correram de volta para a sala e se posicionaram como se nada tivesse acontecido.
Clover entrou de costas empurrando a porta com sua parte traseira, carregando uma pilha de livros pesados entre osbraços.
— Desculpem-me o atraso, meus queridos... Aconteceram alguns imprevistos.
— Por que demorou, professora? — Ralph perguntou, incapaz de conter sua ansiedade.
— Eu... Bem, tive problemas no caminho. Coisa de adultos.
Ralph percebeu que os livros dela estavam abarrotados, seu vestido parecia amassado e o longo chapéu pontudo tampava seu rosto. Ela vinha evitando contato visual. Estava sem sua capa e inclusive sem o cajado, era como se tivesse saído de casas às pressas e esquecido completamente de que daria aula naquela semana.
Clover começou a escrever na lousa usando a própria a mão, sem magia e nem giz mágicos. As outras crianças fofocavam baixinho. Algo ainda não estava certo.
Sem erguer a mão, Ralph perguntou, alterado:
— Professora, aconteceu alguma coisa?
Clover parou de escrever na lousa, mas continuou de costas.
Ela demorou em virar-se, mas quando reuniu forças, revelou a todos que seu rosto estava muito machucado e inchado, quase como se ela tivesse sido agredida. Um de seus olhos estava avermelhado e a bochecha esquerda era coberta por esparadrapo. Ela parecia ter chorado no banheiro durante horas, mas mostrava-se uma mulher forte quando retornara para a sala disposta a seguir com a aula para seus adorados alunos.
Após um longo suspiro, Clover sorriu e acenou com a cabeça:
— Está tudo bem, querido. Vamos continuar a aula.
Ralph sentiu seu sangue ferver e as veias pulsarem. Como uma pessoa tão maravilhosa quanto sua adorada professora poderia sofrer daquela maneira? Ele era incapaz de perdoar injustiças. Tinha certeza que o ocorrido tinha algo a ver os ladrões hospedados ali perto, e cometera um grave erro por não tê-la protegido quando ela precisou.
Quis levantar-se e sair correndo, mas não queria que Clover se assustasse. Assim que o sinal tocou anunciando o horário do intervalo, Ralph saiu correndo e dessa vez não foi para tomar sol no pátio.
Rebecca foi a única que percebeu que algo não parecia certo, por isso o chamou para conversar na saída.
— Ralph, você não está pensando em ir procurar aqueles piratas, né?
— Não, claro que não — Ralph mentiu. Era péssimo em mentir, estava tão na cara. — É que eu estou com uma tremenda dor de barriga, nem posso parar pra conversar.
— Nossa, me desculpe, dor de barriga é terrível mesmo... eu... não consigo fazer na escola, prefiro voltar pra casa, sabe? Me sinto meio estranha naqueles toaletes que dá pra ver os pés das pessoas por baixo...
Ralph era um péssimo mentiroso, mas para sorte Rebecca era a garota mais ingênua da escola.
— Por favor, não conte para ninguém — Ralph pediu mais uma vez.
— Não contarei. Anda, vai logo!
Ralph contornou os portões da escola e seguiu as instruções que ouvira da conversa dos professores. Nenhum segurança estranhou uma criança que corria apressada pela rua, afinal, ele poderia estar apenas ansioso para chegar em casa. Ralph encontrou a pousada que mais parecia uma taverna velha e mal cheirosa. Entrou lá causando o maior alvoroço que conseguiu, mas nem isso foi o suficiente para superar a música alta e a gritaria vinda lá de dentro.
Havia um homem enorme sentado de costas, sua cadeira parecia poder quebrar a qualquer instante e despedaçar-se. Seguindo as descrições, só poderia ser ele, o tal de Goldo. Ralph puxou suas calças e certificou-se de estar trajado com sua armadura de papelão.
O homem estava ainda meio embriagado. Quando olhou para baixo, viu apenas uma criança com sua espada de madeira nas costas.
— Por acaso você é o Goldo? — perguntou Ralph.
Os demais membros que estavam sentados na mesa começaram a rir histericamente.
— Ih, chefe, encontrou mais um filho perdido no mundo? — o de nariz arrebitado caçoou. Goldo ajeitou o cinto da calça sobre a barriga virou-se para o garoto ao seu lado, soltando uma baforada de cerveja na sua cara:
— Dá o fora daqui, moleque.
— Antes que eu atribua a sua devida punição, me diga, foi você quem atacou a minha querida professora hoje antes de ir para a escola? — Ralph o intimidou de maneira séria. Precisava ter um julgamento para saber se Goldo era realmente bom ou mau.
O pirata virou-se para ele, erguendo as mãos para o alto e insinuando que era inocente.
— Tá vendo alguma arma aqui? Essa vida de bandido não é para mim. Eu não sou culpado de nada, não vê que estou apenas bebendo tranquilamente com meus amigos?
Ralph o analisou bem. Apesar da aparência estranha, o ex-bandido (o que o deixava confuso, porque para ele um ladrão sempre roubaria de novo se tivesse a oportunidade) parecia realmente não saber do que ele estava falando.
— Então o senhor jura que não atacou a Srta. Clover antes dela vir para a aula de hoje?
Goldo o encarou e riu, mostrando alguns dentes que faltavam.
— Toma — ele lançou uma moeda de ouro nas mãos de Ralph. — Compra uma bala e volta para a escola. Lá você rende mais.
Ralph concordou e foi embora marchando. Goldo e seus comparsas riam sem parar. Quando o menino estava perto da porta, ouviu Quando o jovem estava para deixar a taverna, ouviu o velho pirata chama-lo uma última vez:
— Ei, garoto, espera aí — Goldo virou-se na cadeira e o encarou, arqueando uma das sobrancelhas. — E se eu dissesse que fui eu que bati nela? O que você faria?
Ralph pegou impulso e avançou contra Goldo no mesmo instante, pulando em sua cara e acertando um soco tão forte no rosto que o machucou um bocado. Seus capangas se levantaram da mesa e a cadeira de Goldo partiu ao meio com o peso. Ele levantou-se mais irritado do que nunca.
— Moleque, agora você vai pagar.
Ralph sacou sua espada de madeira para defender-se, mas o criminoso acertou-lhe um chute tão forte que o arremessou para longe. A festança na taverna parou e os clientes saíram às pressas. Não havia como uma criança lidar contra quatro adultos perigosos, ainda mais sozinho.
Mas nem por isso Ralph desistiu. Agora que sabia quem era o seu inimigo, não iria permitir que ele saísse impune.
Algumas pessoas não estão dispostas a brincar com crianças. Não havia honra entre os foras da lei, e Goldo tinha um histórico de violência como encrenqueiro, arruaceiro e ladrão em cada uma das quatro províncias do reino. Ele não obedecia a ninguém. Ralph era apenas um garoto de dez anos com uma simples espada de madeira, mas isso não impediu Goldo de tirar um facão afiado escondido em sua bota
— Ei, chefe, vai com calma... Ele é só uma criança — disse um de seus capangas.
— Não importa a idade. Se tem uma dívida comigo, eu o farei pagar.
Ralph sentiu-se atordoado e com medo, mas de repente sua espada de madeira emitiu um estranho brilho branco. Goldo partiu furioso em sua direção, a tempo do garoto segurar Lignum com força e a erguer. Tudo aconteceu muito rápido, Ralph teve certeza de que viu uma garota levantar-se e defende-lo, avançando com a coragem de mil homens. Ela tinha os cabelos em tons claros e lindos olhos cor de mel. A garota acertou o estômago do pirata com tanta força que ele caiu ajoelhado no chão, vomitando toda a cerveja que consumira havia pouco.
Ralph piscou várias vezes para saber se estava sonhando. Pensou tratar-se de Rebecca, mas a menina aparentava ter por volta de quatorze anos. Também passava longe de Nefele, alguém como ela jamais o protegeria com tanta vontade e determinação. Ainda de costas para ele, a imagem da menina começou a se desfazer no ar e, quando ela finalmente virou-se, estava sorrindo.
Tente não meter-se em apuros, está bem?, ele ouviu uma voz feminina. Mas, se acontecer, eu sempre estarei aqui para protegê-lo. Vamos lutar juntos.
Quando Ralph esfregou os olhos, tinha apenas sua espada de madeira em mãos.
Goldo e seus comparsas ainda não tinham desistido. Eles sacaram suas armas escondidas entre as vestes desgastadas, mas assim que o fizeram os equipamentos misteriosamente levitaram no ar para longe deles. Na entrada da taverna estava a Profª Clover junto de Rebecca, Claus, Bomba, Dello e todos os demais alunos de sua classe.
— Que feio. Armas não são permitidas nos arredores da escola — disse Clover, vestindo seu chapéu pontudo e utilizando sua magia para afugentar seus inimigos.
Goldo e seus comparsas foram devidamente imobilizados até que as autoridades chegassem. Antes dos soldados os levarem para o julgamento, o pirata cuspiu no chão e prometeu um dia dar uma lição naquele garoto da espada de madeira, somente então quitaria as dívidas deixadas entre os dois.
Clover ajoelhou-se em frente a Ralph e o abraçou com tanta força que parecia nunca mais poder larga-lo. Estava agradecida pela intenção, mas também o repreendeu diversas vezes e usou-o como exemplo para que as outras crianças nunca mais se intrometessem no assunto dos adultos, ou pior ainda, que tentassem fazer justiça com as próprias mãos. Ralph teve de ouvir o longo discurso na frente da classe que ria baixinho dele. Seus amigos o parabenizavam pela coragem, gostavam de uma boa baderna e estavam aliviados de vê-lo bem.
— Cara, por que não nos chamou também? Nós quatro daríamos uma surra neles! — falou Claus.
— É, se o Bomba sentasse em cima deles ninguém aguentaria — respondeu Dello.
— Ralph, nunca mais faça isso, você é precioso demais para que possamos perdê-lo. Para quem eu mostraria meus desenhos?— disse Rebecca com imensa preocupação. — E a sua dor de barriga, passou?
No final, Clover o abraçou só para ter certeza de que ele ainda estava ali, inteiro em sua frente.
— Nunca mais faça isso comigo, mocinho — sussurrou a Srta. Clover, aliviada. — Por favor, não me faça passar por isso de novo.

ii

— O QUÊÊÊÊÊÊÊ?! Então quer dizer que na verdade a senhorita derrubou os armários da biblioteca em cima de você, sua magia falhou, os livros bateram na sua cara, você ficou presa ali em baixo e acabou entalada até alguém vir resgatá-la?!
— E com vergonha de admitir para os alunos, sim — Clover confirmou a história. — Até mesmo os tótines mais poderosos estão sujeitos a falhas. Eu não fazia ideia que algum de vocês pensaria que fui agredida, querido. Sou uma mulher forte, eu saberia defender-me caso eu fosse atacada na rua e daria uma lição em qualquer impostor. Sou professora de alunos muito talentosos, preciso servir de exemplo! Mas enquanto estiverem sob meus cuidados, sou eu quem irá protegê-los.
Clover falava de maneira mansa e carinhosa na maioria das vezes, mas quando estava irritada fazia jus ao medo que seus alunos sentiam dela, e com fundamento. A cabeça de Ralph quase afundou na mesa de tão forte que ela o pressionava.
— E quem mandou o senhor sair na rua sozinho aprontando com gente que você nem conhece, hein? Foi isso que te ensinei? É para isso que lhe dou aulas de reforço? Ou prefere que eu insira também a matéria de boas maneiras à grade curricular?
— D-desculpa, senhora!
— Não me chame de senhora, eu envelheço um ano cada vez que um de vocês me chama assim! Pela graça de Araya, esse emprego ainda vai me deixar com cabelos brancos...


   

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Arte #15 - Sombras Coloridas

Eu adoro imagens que trabalham com luz e sombras, mas admito que esse não é bem o meu forte. A última vez que fiz um desenho do tipo foi lá no Aventuras em Sinnoh, ilustrando a Wiki, Aerus, Titânia e Mikau, isso ainda em 2012. Até hoje ela é uma das minhas favoritas, eu precisava fazer algo do tipo para a galera de Sellure também!

Quando peguei no papel para tentar repetir a proeza, acabei ficando com tanta raiva que o amassei e joguei fora. Durante a madrugada, fui até o lixo e peguei a folha toda amassada só para ver se estava ficando legal... E o pior é que estava! *risos* No fim das contas usei uma mesa de luz para passar os traços enquanto fui experimentando jogar algumas sombras, depois que passei para o Photoshop foi só acrescentar a cor e os detalhes. Quase que esse desenho não sai, mas particularmente adorei o resultado, bem diferente do que estou acostumado a trabalhar.

E aí? Quem se destaca mais? Quem parece mais ameaçador? Quem será o preferido da galera quando o livro lançar?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Profª Clover


"[...] Seu nome era Clover, uma das turmas antigas a apelidara de “Trevo da Má Sorte”, porque ela adorava usar acessórios com o formato de trevos de quatro folhas para insinuar boa sorte nas provas e depois acabava reprovando metade da sala. Quando as notas chegavam, não havia quem os salvasse. Tudo estava nas mãos de Bad Lucky Clover."  O Passado dos Personagens: O Aprendizado da Vida.

Clover é uma professora nativa de Helvetica que dá aulas para crianças na escola Kylie Kalma. Muito intuitiva e compreensiva, desenvolve um papel fundamental no amadurecimento de Ralph depois que ele deixa a casa de seus pais no Vale dos Ventos. Clover é uma tótines que possui poderes mágicos que a auxiliam em sala de aula, para o fascínio de seus alunos. Eles encontram em seus ensinamentos uma introdução para as raças fantásticas do Reino de Sellure, além de uma grande conselheira para problemas, relacionamentos e os desafios da vida.

Alguns de seus alunos alegam que ela é extremamente severa e não hesita em punir os que saem da linha, mas Clover revela seu lado paciente quando tem de dar toda atenção necessária para quem precisa de sua ajuda. Naturalmente, prefere evitar batalhas e violência.

Suas habilidades focam o lado defensivo e de apoio. Clover é uma maga extremamente poderosa e concentrada, mas esconde seus defeitos por trás da insegurança de ter perdido um amor no passado.

Nas horas vagas, Clover cuida de plantas e flores, sendo uma especialista em botânica e biologia. Ela mora na própria escola, onde cuida de sua avó que tem mais de 100 anos. Após Ralph completar 15 anos e sair em viagem, Clover é promovida para diretora da Kalma.

Pouco sobre seu passado e sua família foi revelado, mas Clover mora com sua avó, Dona Hortência, uma senhora pouco sã que aparenta ter cem anos. Ela ela se casou com um homem e teve um filho chamado Trevor, mas ambos foram mortos durante a Caça aos Tótines.


Clover teve uma importante participação na infância de Ralph, seu nome é apenas citado brevemente por seu aluno durante o Livro 1. Por conta de sua ausência, é possível acompanhar O Passado dos Personagens pelo blog, com três capítulos exclusivos que contam parte da juventude de Ralph em seus tempos de escola ao lado de sua professora. Clover tem a sua estreia prevista para o Livro 2 - Alma de Diamante.

  • Confeccionadora de Selos [Support] – A usuária é capaz de fabricar selos e têm a permissão do governo para vendê-los, distribuí-los ou utilizá-los;
  • Primeiros Socorros [Support] – Recupera a energia de um aliado em uma quantidade pequena; 
  • Barreira de Plantas [Defensivo] – Cria uma barreira defensiva utilizando o meio ambiente ao seu redor e garante a proteção de seus aliados;
  • Protetora da Vida [Defensivo] – Protege um aliado que esteja gravemente ferido e garante um bônus em defesa, ataque e velocidade;
  • Leitura Avançada [Habilidade Passiva] – Garante aos seus companheiros a habilidade de adquirir experiência e aprimorar  poderes duas vezes mais depressa;
  • Boa Sorte [Habilidade Passiva] – Aumenta a chance de causar e resistir a danos críticos. Aumenta também a sorte de adquirir itens raros;
  • Domínio Sobre Elemento [Tríade Mágica dos Tótines] – Um dos três poderes primários dos Tótines. O elemento do usuário é o vento; 
  • Manipulação [Tríade Mágica dos Tótines] – O usuário é capaz de manipular pequenos objetos e instrumentos feitos de matéria prima básica, como madeira ou pequenas pedras (não exerce controle sobre metais); 
  • Transformação [Tríade Mágica dos Tótines] – As transformações de Clover envolvem flores em geral, mas ela também pode assumir a forma de uma planta carnívora gigante.
"Ouça, querido [...] Um dia você será capaz de aprender técnicas avançadas de batalha e até algumas magias, caso tenha aptidão. Não importa se você é menino ou menina, um gecko ou até um monstro; o que você escolher ser, assim será. Então quero que saiba que, se precisar de algo, você sempre poderá recorrer a mim, tudo bem?
 Clover, O Passado dos Personages: O Aprendizado da Vida.

"[...] Enquanto estiverem sob meus cuidados, sou eu quem irá protegê-los."
 Clover, O Passado dos Personagens: Flores da Amizade.

"
Querido, eu escolhi essa profissão, minha maior paixão é ensinar crianças. Não pense que estou aqui por obrigação, porque nem sou remunerada para isso, mas ensinar é a minha vida! Já não tenho mais idade para sair e me aventurar pelo mundo, mas faço questão de passar adiante o aprendizado para que vocês tenham essa oportunidade."

 Clover, O Passado dos Personagens: Minha Querida Professora.

"De pequenos filhotes, as criaturas com asas se tornam pássaros. É o seu destino. Então não tenha medo de crescer. Você precisa crescer bem para ser um adulto bom, uma pessoa que sabe qual é sua verdadeira identidade, superando medos e ultrapassando obstáculos em cada etapa de sua vida."
 Clover, O Passado dos Personagens: Minha Querida Professora.

"Vocês são o meu maior tesouro, sabiam disso? [...] Eu sou sua professora e vou cuidar de vocês." 
 Clover, O Passado dos Personagens: Minha Querida Professora.


  • No capítulo especial dO Passado dos Personagens em que é introduzida, é dito que Clover tinha os cabelos longos e os prendia em um coque. Mais tarde no livro, após completar 40 anos, ela corta o cabelo curto conforme seu desenho;
  • Quando foi planejada para a história, Clover seria uma garota de quinze anos que é impedida de sair em uma aventura pelos pais. Ela faria parte da equipe principal de Ralph, mas por não ter muita relevância para o enredo, acabou sendo deixada de lado;
  • Clover já foi desenhada com cabelos pretos, loiros e ruivos. O oficial se tornou o ruivo;
  • Sua aparência foi baseada na personagem Bayonetta, do jogo de mesmo nome lançado para o Wii U e Switch;
  • Apesar de não aparecer no primeiro livro, seu nome é citado por Ralph três vezes nos Capítulos 3, 11 e 17;
  • O nome Clover foi escolhido antes dos trevos se tornarem símbolo da personagem. Coincidentemente, o nome de seu cajado é Trevor;
  • As cores de suas vestes foram baseadas na lenda do Leprechaun, comum na Irlanda;
  • A personagem foi indiretamente baseada em uma professora real do autor (a professorinha mais linda de todas! ).
Sketch da Srta. Clover, de Novembro de 2018.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O Passado dos Personagens - Ralph (Parte 1)


Era seu primeiro ano na escola do ensino fundamental para humanos de Helvetica. Ralph trabalhara duro durante dois meses para finalizar uma armadura de papelão a tempo de inaugurá-la. Nunca antes estivera tão longe de casa, devia muito aos seus pais que deram seu melhor para que ele entrasse em uma escola onde receberia cuidados e estudo adequado para um humano. Sentiria muita saudade do Vale do Vento. Ainda não sabia quando teria a chance de voltar, por isso Ralph fez tudo que tinha direito antes de partir: brincou, correu, sentiu o toque da grama, a brisa do final da tarde e o pôr do sol por trás das montanhas. Aquele pequeno vilarejo sempre seria o começo de seu mundo.
Seus pais não passavam de fazendeiros da região rural, mas a vida toda ouvira histórias sobre heróis que fazem parte de algo maior. Com apenas dez anos não há muito que se possa fazer sem a supervisão dos mais velhos, nunca lhe pareceu fazer sentido que outros decidissem seu futuro. A maioria das crianças temia o dia do chamado para a guerra, por isso preferiam não crescer. Viviam como se aquela fosse uma realidade muito distante, crescer era um compromisso árduo por si só, mas Ralph aprendeu a dar seu melhor desde cedo.
Sua rotina se baseava em ajudar o pai e a mãe nos afazeres da fazenda durante a manhã, dessa forma podia tirar o período da tarde para se divertir e brincar. Era a primeira vez que estaria no meio de tantos humanos sua segunda raça, era o que sua mãe dizia — apesar de sempre estranhar que sua pele era curiosamente mais macia do que a dos geckos, além de não ser nem um pouco verde; os olhos não eram tão separados e grandes, e ele também não tinha um longo rabo que o acompanhava aonde fosse. Dos humanos que conhecera até hoje, lembrava-se apenas de um viajante que lhe contava histórias quando estava de passagem pela vila, além de uma mãe muito bonita que tomava conta da padaria vendendo pães e leite. Ela tinha uma filha que era muito levada e vivia aproveitando-se de Ralph por ele ser mais baixo e mais novo.
Quando finalmente chegou o dia das aulas começarem, Ralph pegou o trem e partiu para a capital de Campos Verdes. Ele não esperava que a viagem fosse tão rápida, por ter pego no sono acabou indo parar nos limites de uma província vizinha e precisou esperar mais cinco horas até voltar à cidade.
Ele havia pedido o primeiro dia de aula e atrasou-se no segundo.
 A escola certificou-se de ceder-lhe uma cama no dormitório onde teria direito ao café da manhã, almoço e janta; além de acessos a áreas de recreação e atividades extra-classes após o término do expediente.
Ralph tinha vergonha de pedir informações para os adultos, mas seu instinto o fez seguir outras crianças uniformizadas até o prédio da escola. Ali estava a longa escadaria da Kylie Kalma, era chegada a hora de abraçar as surpresas que o destino lhe reservasse. Ralph respirou fundo e seguiu em frente.
A escola era antiga, mas contava com uma infraestrutura bem acabada. Os professores eram experientes e dispostos a passar adiante não apenas fórmulas e textos decorados, mas conhecimento e lições para a vida. Os corredores amplos de tijolos entrepostos davam num pátio amplo e aberto, onde se podia observar uma bela fonte no centro onde as crianças adoravam fazer piquenique, em outros momentos tinham aulas recreativas ao ar livre. O contato com a grama e a natureza era constate, acreditava-se ser fundamental para o desenvolvimento intelectual.
Ao chegar à sala de aula, os outros alunos não prestavam muita atenção no que acontecia ao redor. Muitos vinham de famílias vizinhas e estavam acostumados uns com os outros, mas para Ralph muito daquilo era novidade — a última vez que vira tantos humanos juntos foi na estação de trem, onde se perdeu e começou a chorar até que dois guardas o ajudassem.
Ele sentou-se meio desengonçado em uma cadeira próxima à janela, entre a terceira e a última fileira. Continuava aguardando ansiosamente alguma coisa que ainda não entendia muito bem o que era, mas estava ansioso. Foi quando ouviu alguém sussurrar na fileira de trás:
— Cadê seu material?
— Material? — Ralph perguntou, virando-se para o garoto. Estaria ele se referindo a mantimentos necessários para sobrevivência? Porque se fosse, tinha o suficiente para compartilhar com ele por um ou dois dias. Quando finalmente entendeu a pergunta, mostrou que carregava uma espada de madeira nas costas. — Eu trouxe a Lignum, minha companheira.
A outra criança fez uma careta e começou a rir.
— A professora vai te colocar de castigo — foi o alerta. — Ela é assustadora! Dizem até que é uma bruxa de verdade, mas nas horas vagas gosta de cultivar plantas carnívoras e atormentar criancinhas. Dizem até que ela cozinha alunos na casa dela!
— Deixe de ser mentiroso. A professora Clover só é severa com quem sai da linha, mas ela é atenciosa e gentil com os mais dedicados, principalmente com quem mais precisa — respondeu a garota da direita, que inclusive estava muito admirada com o trabalho manual de seu companheiro de classe. — E por sinal, adorei a sua armadura — ela cochichou baixinho e ajeitou os óculos antes de virar-se.
— Obrigado, eu quero muito me tornar um herói para proteger as pessoas! Vou entrar no exército, por isso devo estar preparado — falou Ralph.
Ele estava para explicar como havia construído os detalhes de sua armadura quando uma dúzia de outras crianças se aglomerou em volta dele ao descobrirem que ali estava o tão aguardado aluno novo. Pelo visto agora teriam o que discutir pelas próximas semanas.
— Quer dizer que você vai mesmo entrar no exército? — falou um menino magricela. — Você é louco?
— Qual é o seu nome? — indagou outro de cabeça achatada e nariz grande. — É verdade que você nunca tinha estudado em uma escola? Sorte a sua!
As perguntas vinham atropeladas umas pelas outras, foi quando um deles — aparentemente o líder da turma que não gostava que toda a atenção estivesse no aluno novo — cruzou os braços e deu um passo à frente:
— Pode ter certeza que vão te chamar para o exército, esquisitão — falou o garoto que usava uma bandana na cabeça para esconder a franja, ele estava de camisa azul com manga longa e usava luvas, mesmo estando abafado lá fora. Apesar de estarem na mesma classe, ele também parecia ser um ano mais velho que os demais.
— Mas é isso mesmo que eu quero — Ralph confirmou com a cabeça. — Entrar no exército e me tornar um guerreiro Classe S!
— Com essa espada de madeira boba? — o garoto retirou Lignum da bainha sem que Ralph percebesse e a apontou em sua direção. — Isso aqui não consegue nem fazer cócegas!
As crianças abriram um círculo ao redor dos dois, algumas riram e outras se preocuparam. Foi neste instante que uma mulher entrou na sala carregando alguns livros debaixo do braço esquerdo e um longo cajado na outra mão. Ela viu a cena nos fundos da classe e não gostou nem um pouco. Com o simples mover do indicador, a espada de madeira começou a levitar enquanto Ralph tentava desesperadamente recuperá-la. Ele ficou de pé sobre seu acento e foi saltando de mesa em mesa até arranjar impulso para pular e agarrá-la no ar, onde acabou dando de cara com a professora que devolveu-lhe um olhar severo por trás de seus óculos finos na ponta do nariz.
— Ninguém brinca com armas em nenhum lugar dentro de minha sala de aula. Nem mesmo uma representação delas.
— D-desculpa... — Ralph falou todo encolhido.
Imediatamente os outros alunos se dispersaram e voltaram para seus lugares. A professora caminhou até sua mesa e deixou os livros ali em cima, apoiando o cajado num dos cantos próximo à lousa.
Ela era bem alta e tinha um porte elegante apesar da idade. Vestia roupas formais e um chapéu pontudo verde que lhe cabia muito bem, mas tirou-o por causa do calor. Ela era ruiva, com cabelos bem longos presos em um coque que lhe davam uma impressão de seriedade e dedicação quando combinados com os óculos. Seus lábios eram bem desenhados e, pela maneira como a sala inteira aquietou-se, concluía-se que ela era respeitada — ou talvez muito brava.
Podia não parecer, mas um dos alunos espalhara que ela já tinha mais de quarenta anos. Seu nome era Clover, uma das turmas antigas a apelidaram de “Trevo da Má Sorte”, porque ela adorava usar acessórios com o formato de trevos de quatro folhas para insinuar boa sorte nas provas e depois acabava reprovando metade da sala. Quando as notas chegavam, não havia quem os salvasse. Tudo estava nas mãos de Bad Lucky Clover.
— De quem é essa espada? — A professora perguntou uma única vez, por mais que já soubesse a resposta. Ela examinava os detalhes do equipamento com cuidado quando Ralph ficou de pé em sua frente.
— É minha, professora!
Clover riu. Achou que demoraria um pouco mais.
— A direção não permite este tipo de objeto em sala de aula. Vocês estão aqui para aprender, e não para treinar.
— É que ela é especial.
Clover revelou um sorriso de canto, compadecida com a inocência da criança. Segurou a espada pelo cabo e devolveu-a para seu verdadeiro dono.
— Acredito que realmente seja.
Quem esperava uma advertência logo no primeiro dia acabou se decepcionando.
— Muito bem, turma, acredito que já tenham conhecido nosso novo aluno. Este é o Ralph, ele veio do Vale dos Ventos e recebeu uma educação diferente da de vocês. Peço que se enturmem com ele e o ajudem a se adaptar, estamos entendidos? — disse Clover de forma breve, sem dar maiores detalhes. — Agora, eu gostaria que você se sentasse próximo à lousa, para que eu fique de olho em você. A introdução foi feita ontem, então vou ter de pedir para você copiar a lição do caderno de alguém, está bem?
Ralph concordou com a cabeça. Não compreendia porque todos tinham tanto medo da Sra. Clover. Para ele, seus trevos sempre trouxeram boa sorte.
— Hoje vamos começamos a discutir as quatro grandes raças do reino. Continuaremos falando sobre os geckos.
Ralph tentou participar das chamadas e enturmar-se, mas não se saiu tão bem quanto gostaria. Ele estava obviamente mais atrasado que os demais, era como se tivesse ficado recluso durante anos.
Clover ergueu o indicador de forma que um pequeno giz levitasse até o quadro negro e começasse a escrever sozinho. Enquanto um lado da lousa fazia as anotações sobre a aula, o outro rabiscava desenhos que ilustravam perfeitamente o assunto a ser tratado. Clover não precisava tirar os olhos de seus alunos nem por um segundo, pois ficava encantada com os maravilhados das crianças diante de seus poderes mágicos.
— Gecko é nome dado à espécie de homens-lagartos que representam uma das quatro principais raças que dominam nosso reino — explicou a Sra. Clover, apontando para o quadro negro com a ponta de seu cajado. — São naturalmente hábeis guerreiros, rápidos e astutos como caçadores, mas também um pouco precipitados em suas decisões. Algum de vocês já viu ou conviveu com um gecko?
— São horríveis! — disse uma menina.
— Meu tio falou que são muito perigosos e agressivos — respondeu outro. — Sorte que eles não podem entrar na cidade e ficam presos nos subúrbios.
Ralph apontou para os desenhos na lousa e gritou:
— São os meus pais!
Toda a sala de aula riu do comentário dele, mas Ralph não entendeu o motivo. Clover piscou ligeiramente. Então era verdade. Teria mesmo de ficar de olho naquela criança.
Quando o sinal soou às dez e meia, as crianças correram para fora, aliviadas com os trinta minutos de intervalo que teriam para descansar. Clover ficou dentro da sala observando o pátio de relance quando viu Ralph subir na fonte de pedra e esticar os braços para o alto.
Alguns de seus colegas riram, pois o achavam muito estranho.
Quando ele enfim sentou-se e ficou parado, a professora apoiou-se no vão da janela e moveu seu indicador, como se insinuasse que ele se aproximasse.
— Posso ajuda-la, Profª Clover? — indagou Ralph, meio receoso de levar alguma bronca por algo que nem sabia se tinha feito.
— O que exatamente você está fazendo aí fora?
— Guardando calor, que nem os geckos fazem. Lagartos têm o sangue frio.
— Muito bem, vejo que prestou atenção na aula — Clover respondeu de forma meiga, mas sabia que não poderia simplesmente incentivá-lo a acreditar naquilo. — Mas você não é um lagarto, sabe disso, não é?
— Sei, sim. Mas é assim que fui criado, eu não tenho vergonha do que aprendi. O sol faz bem pra todo mundo, a senhora também disse que ele é cheio de vitaminas, né?
— “Uma substância essencial para o corpo humano, sua ausência pode proporcionar uma série de complicações.” — Clover revelou um sorriso gracioso, admirada com o fato de que ele realmente tinha prestado atenção nas aulas, apesar de parecer sempre aéreo e estar mais impressionado com o giz voador do que a matéria em si. Ele se esforçava do seu jeitinho, mas vinha fazendo o possível.
Ralph podia pensar ser o que quisesse enquanto isso não intervisse em seu crescimento. Já deveria estar bem acostumado a longos discursos de adultos que tentavam impor algo em sua mente.
— Ouça, querido — Clover falou de uma maneira que o lembrava de sua mãe. — Um dia você será capaz de aprender técnicas de batalha avançada e até algumas magias, caso tenha aptidão. Não importa se você é menino ou menina, um gecko ou até um monstro; o que você escolher ser, assim será. Então quero que saiba que, se precisar de algo, você sempre poderá recorrer a mim, tudo bem?
— Tudo bem! — o menino falou contente antes de ir embora. — Senhora, é verdade que você traz sorte para os seus alunos?
— Você deve se considerar afortunado todos os dias, Ralph, da Espada de Madeira. Você é bonito, saudável e tem pessoas que se preocupam com seu bem estar. Além de ter um sorriso lindo — ela falou ao dar um puxão em sua bochecha. Geralmente era vista muito concentrada em seus afazeres e raramente lembrava-se de sorrir, mas Ralph adorava conhecer aquele lado descontraído de sua professora.
— Quando eu crescer, quero que você entre no meu time.
— Como assim? — Clover pediu que ele repetisse.
— O meu time dos sonhos. Das pessoas que vão mudar o mundo comigo. Vou te esperar!
Ela concordou com um aceno gentil e Ralph virou-se para ir embora.
— Só pare de me chamar de senhora! Eu me sinto mais velha do que já sou.
— Velha? Para mim a senhora só tinha uns vinte anos!
Os dois riram e Ralph correu pelo pátio para tentar brincar com as outras crianças. Ele continuou o período do intervalo inteiro retendo calor perto da fonte porque mais ninguém teve coragem de conversar com ele naquela manhã.

i

Ralph parecia adaptar-se bem à vida em Kylie Kalma. Seu dormitório ficava perto do refeitório, o que era uma benção, seria fácil fazer um lanche rápido caso a fome batesse de madrugada.
Ele teria de compartilhar espaço com outros três garotos da sua turma com quem esperava fazer amizade, mas no instante que entrou no quarto foi pego de surpresa por um balde de água fria preso em cima da porta. Por reflexo — ou simplesmente sorte — o balde caiu bem em frente à ele e somente os respingos molharam parte de sua armadura de papelão que o salvara da água. Os outros três garotos estavam prontos para rirem até chorar, mas logo seu trote com o novo companheiro revelou-se uma decepção.
— Por que vocês tentaram me molhar? Eu estou cheirando ruim? — perguntou Ralph, cheirando sua camisa em baixo do braço. — Eita, credo, estou mesmo precisando de um banho! Obrigado por me avisarem.
Ralph carregava apenas uma mochila, era de se impressionar que todos seus pertences coubessem ali dentro. Ele colocou-a em cima da cama vazia, retirou as botas apertadas e procurou relaxar após um longo dia de estudo.
Os três garotos já eram conhecidos seus da sala de aula, ainda que não tivessem sido devidamente apresentados.
— Tá brincando que o menino lagarto vai ficar no nosso dormitório? — disse o mais gordinho. Ele vestia uma boina azul, um lenço no pescoço e suspensórios sobre a barriga. — Affe, tanto faz, a gente pode dividir nossos tesouros com você depois da caçada.
— Que tipo de tesouros?
— Doces — confirmou ele. — Prazer, eu sou o Bartolomeu, mas meus amigos me chamam de Bomba porque são meu doces preferidos.
— E também porque ele consegue derrubar qualquer um no pega-pega, ainda mais quando pega impulso e se joga em cima dos outros nas barreira — respondeu o segundo, um magricela que poderia ser levado pelo vento em caso de tempestade. — Eu sou o Timóteo.
Ele era o mais alto da turma, mas compensava por não ter músculo nenhum; o jeitão desengonçado acabava sendo cômico porque ele andava meio corcunda e com o pescoço voltado para frente, os dentes da frente eram mais protuberantes sem contar o espaço entre os incisivos frontais que deixavam uma janelinha; atendia pelo apelido de Dello, porque existia uma espécie de monstro em Sellure chamado Dellonium que eram pequenas plantas com corpo fino e cabeças de fruta enormes.
— Eu só quero saber quem é que vai limpar esse chão agora que o nosso trote não teve graça alguma — respondeu o garoto que acabara se encrencando com Ralph no primeiro instante que o viu. Seu nome era Claus e ele não tinha apelidos — talvez o respeito afastasse qualquer um de inventar um nome tosco com o intuito de ofendê-lo.
Claus acenou com a luva para Ralph, mas não se levantou para cumprimenta-lo.
— Dá pra tirar essa armadura de papelão? Ninguém vai te bater aqui, cara. Não estamos muito a fim de encarar uma advertência, perde a graça na terceira ou quarta vez.
— Vocês estudam aqui faz tempo? — Ralph perguntou.
— Meus pais estão na guerra e não têm muito tempo para cuidarem de mim, por isso fico aqui na escola para estudar, mas nos fins de semana costumo voltar para casa — respondeu Dello. — Já moro na escola faz uns três anos, até os professores me chamam pelo meu apelido Dello e concordam que eu me pareço com um.
— Tive que vir pra cá recentemente. Minha mãe sempre deu tudo que eu pedi, mas algumas tias disseram que isso me tornou mimado e que eu precisava aprender a me virar sozinho — respondeu Bomba, deitando-se em sua cama de braços esticados. — Mal posso esperar para que esse ano acabe logo... Tipo, não que eu não goste de vocês, mas é que sinto saudade da minha casa.
— Isso é muito bacana. Todos vocês têm histórias e motivos para estarem aqui! Nós somos como um time de guerreiros renegados — falou Ralph com entusiasmo, o que fez os demais rirem. — E você, Claus? Me conte sobre você.
— Não tem nada a se saber — respondeu Claus com um sorriso de canto.
— Ah, ele está tentando pagar de anti-herói! — Bomba o entregou, o que fez o garoto ruborizar de vergonha. — Apesar dessa cara de malvado, o Claus é super gente boa. Está sempre cuidando da irmãzinha e gosta de música.
Claus o fuzilava tão intensamente com o olhar que fez Bomba esconder-se por baixo de seus cobertores. Vendo que não teria outra alternativa, decidiu enturmar-se.
— Na real, não tenho muita coisa para contar sobre minha vida, só que minha mãe é uma chata e me mandou estudar aqui com minha irmã para ter uns tempos de tranquilidade. Eu gosto sim de música e tento tocar violão. Também gosto de educação física e sou terrível em matemática. É isso... Acho que sou só um garoto normal sem grandes expectativas.
— Ah, qual é, todo mundo é único! — respondeu Ralph. — Ainda não o conheço muito bem, mas vou descobrir algo que o torne especial.
Era possível ouvir o som dos grilos lá fora. Por mais que a paisagem da janela não fosse tão bonita quanto no Vale dos Ventos, Ralph estava feliz por morar em um lugar agradável como Kylie Kalma. Podia dizer que sentia-se em casa.
— Ei, não me leve a mal pela pergunta, mas... é verdade que seus pais são geckos? — perguntou Claus.
— Ouvi dizer que eles comem gente quando passam fome — afirmou Bomba.
— Às vezes eles comem insetos e outros animais menores, mas nunca vi nenhum gecko atacar humanos. Pelo menos eu estou inteiro — respondeu Ralph com uma risada. — Bem, meus pais são geckos, sim, mas quem contou para vocês?
— Fomos informados ontem. Disseram para nos enturmarmos com o colega novo, como se você precisasse de cuidados — disse Claus, meio constrangido. — Foi mal por pegar sua espada. Acho que eu só estava tentando chamar atenção, e... achei bizarro seus pais serem geckos. É, tipo, muito bizarro.
— Vocês moravam em uma caverna ou no topo de uma árvore? — perguntou Dello.
— Nada disso, moramos em cabanas feitas de madeira, palha e argila. Tudo bem que as nossas são um pouco mais simples, precisamos reforçar as paredes com pedras e barro para que resistam aos ventos fortes no período de chuva. Alguns gostam de usar fogo e lampiões depois que anoitece, mas em alguns lugares da vila já chegou magia elétrica, pode acreditar!
Bomba e Dello viam em Ralph uma figura extremamente inusitada. Estavam felizes por estarem no mesmo dormitório com alguém tão diferente, poderiam passar a noite inteira conversando e compartilhando histórias, mas Claus ainda parecia receoso com a companhia.
— Geckos são detestáveis — ele respondeu de braços cruzados. — Como você pôde conviver com eles? Eles agem feito animais que não se importam com os outros.
— Não os meus pais. Sempre recebi muito carinho e afeto, sem contar que minha mãe faz um pão com mortadela delicioso!
         Claus negou várias vezes com a cabeça antes de se levantar e sair. No caminho ele escorregou no chão ainda molhado pelo balde de água e quase levou um tremendo tombo, mas conseguiu apoiar-se no encosto da porta. Ele ergueu o queixo e marchou sem olhar para trás, tentando manter o resto de dignidade que lhe sobrara.
Ralph não compreendia aquela rixa antiga entre humanos e geckos, mas compreendia que Claus deveria ter um bom motivo para odiá-los. Se conhecesse algum gecko que realmente valesse a pena, como seus pais, o carteiro ou o ancião da vila talvez fosse convencido do contrário.
— Vamos atrás dele, está quase na hora do jantar — falou Bomba.
— Você só pensa em comida, cara... — respondeu Dello.
— Tem razão. Primeiro jantamos, depois vamos atrás dele.

Às oito horas o jantar era servido. Havia frutas, pães, queijo e leite que era servido em uma mesa à disposição dos alunos e professores que passavam a noite na escola. Ralph reconheceu muitos daqueles alimentos das fazendas de seus pais, não duvidava que a comida servida na cidade fosse fruto de seu esforço, aquilo só fez com que a refeição ficasse ainda melhor.
Adorava a comida de sua mãe, mas também não escondia a felicidade em provar de algo diferente. A escola tinha requeijão e cereais que não se encontrava com tanta facilidade na vila, além de serem mais caros. Após preparar sua bandeja com tudo que tinha direito, ele estava para ir sentar-se com seus colegas Bomba e Dello quando ouviu alguém chama-lo.
— Não acredito que você está aqui! — era a voz de uma garota. — Ei, Ralph! Olhe para trás, seu cabeção!
Ele apressou seu passo, mas sentiu alguém puxá-lo pela gola da camisa. Era a filha do padeiro, uma garota que adorava importuná-lo pela manhã. Seu nome era Nefele, tinha quatorze anos, o cabelo castanho repicado e vivia agitada, quase não conseguia parar num mesmo lugar.
— O-oi, Neffie...
— Eu não sabia que você também seria transferido aqui para a Kalma! Está com quantos anos, dez? Isso é ótimo, agora posso encher seu saco aqui também. Tem passado na padaria para visitar a meu pai? Ele fica tempo demais sozinho, espero que esteja bem.
Os ouvidos de Ralph já se cansavam, poderiam colocar um espantalho em seu lugar que Nefele falaria sozinha. Sua mãe o ensinara a ser educado em todas as circunstâncias, mas algo simplesmente o afastava daquela garota.
— Estou sentado ali com meus amigos, se me der licença...
— Ah, não, você vai ficar com a gente! — respondeu Nefele, puxando Ralph para a mesa das veteranas. Todas elas eram mais velhas do que ele, dentro de alguns meses seu tempo na escola acabaria e elas seriam enviadas para as academias de treinamento espalhadas pelo reino, logo, esperavam aproveitar ao máximo.
Ralph precisou espremer-se entre Nefele e outra garota com coxas largas. Elas eram todas muito bonitas; loiras, morenas, altas e cheias de maquiagem, mas seguiam um padrão de beleza parecido. Elas mandavam naquela escola como se fossem donas dela, falavam alto e ninguém se importava.
— Olhem só o que eu achei — Nefele acariciou o cabelo de Ralph e suas amigas se encheram de interesse.
— Ohhhhh! — As garotas emitiram o mesmo som de fascínio juntas. Ainda nem o conheciam, mas já enchiam o garoto de carinho e interesse. — Ele é o seu irmãozinho?
— Que nada, é só um dos garotos do vale. E um dos poucos humanos de lá, a maioria são geckos, mas é sempre bom ver um rostinho bonito — respondeu Nefele. — Estou pensando em adotar ele como meu capacho.
— Essa é uma ótima ideia, Neffie. Ele poderia ser o capacho do nosso time — respondeu outra loira.
— O que exatamente é um capacho? — perguntou Ralph.
— É bem simples, vou tentar te explicar da maneira mais óbvia para você entender, já que você é meio lerdinho.
 Nefele pegou o copo de suco da bandeja de Ralph e jogou-o no chão propositalmente.
As conversas paralelas e burburinhos no refeitório cessaram. Alguns viraram o rosto e outros tentaram dar uma espiada. Ralph olhou para sua bebida desperdiçada enquanto Nefele continuava com as mãos na cintura, sem mover um músculo para ajuda-lo.
— Agora você pega e limpa.
Ralph deixou sua bandeja sobre o balcão e agachou para limpar o que havia sobrado de seu suco de laranja. Quando terminou sua tarefa, ainda não havia entendido o que era um capacho.
— Você faz o que os outros mandam, ainda não entendeu? — Nefele argumentou com a voz autoritária. — Simples, não é?
— Mas eu limpei o chão porque estava sujo e precisava ser limpo. Não tem nada a ver com mandar, tem a ver com... bom senso e humildade, eu acho.
As outras garotas riram da inocência do garoto.
Dessa vez Ralph sentiu alguém puxá-lo pela mão, tanto que nem teve tempo de pegar sua bandeja de volta. Claus surgira de algum lugar e fizera questão de tirá-lo dali, só queria vê-lo longe das veteranas que adoravam aproveitar-se dos novatos na escola para satisfazerem suas vontades. Dava para sentir a textura da luva Claus apertando-o tanto que chegava a machucar.
— Onde estamos indo? — perguntou Ralph com inocência.
— Você tem muito a aprender — respondeu o garoto.


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