sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Passado dos Personagens - Auria (Parte 1)




Naquela noite Auria sonhou que era resgatada por um lindo príncipe em seu cavalo branco — ele era forte e bonito, trajava armadura cintilante e capa vermelha, igual às ilustrações dos livros de contos de fada que sua mãe lera semana passada. Lydia adorava realçar o fato de que já tinha idade para namorar, embora ainda se encantasse com a ideia de que algum dia aquele mesmo príncipe também viria buscá-la. Diana, por sua vez, nunca aceitava o desfecho da narrativa.
E se ela morresse de tédio até lá? Ela tinha tempo de sobra para bolar um plano — disse Diana, cheia de revolta. — E por que os príncipes são todos iguais? Mamãe, será que você não encontra algum livro onde o príncipe seja um gecko, um monstro ou até uma garota?
— Você sempre encontra defeito em tudo, Dia — contestou Lydia enquanto apoiava a cabeça sobre um amontoado de travesseiros confortáveis. — Se for para esperar um príncipe bonitão que nem esse — ela soltou um longo suspiro apaixonado —, eu faria qualquer coisa!
Lydia era a mais velha entre as irmãs Mercer, tinha onze anos e já se considerava uma menininha; embora não conseguisse esconder seu lado sonhador, nunca se cansaria de esperar pelo seu cavaleiro de armadura cintilante.
A pequena Auria chamou a atenção das duas para que parassem de fazer barulho.
— Continua a história, mamãe.
— Por hoje é só — respondeu a Srta. Floria Mercer. — Vocês não acham que já estão muito grandinhas para continuarem ouvindo contos de fadas?
As três gritaram “não” ao mesmo tempo, em alto e bom tom. Até mesmo os criados na mansão puderam ouvir as risadas de uma família concreta e feliz.

Aquela alegria durou até o ano 108, quando as tropas da Coroa de Ferro atacaram a capital de Cortina Escarlate. Desde a queda dos Três Soberanos, pequenos resquícios da guerra perduraram e prolongaram a disputa por território para além do tempo previsto. Os maiores guerreiros do mundo estavam mortos ou debilitados, as cidades próximas ainda se recuperavam da destruição, do fogo e das cinzas; porém, Cortina Escarlate permanecera intocada até então. Por situar-se no extremo leste da província de Myriad, o único meio de se alcançar a cidade era através do Estreito Etifil que tinha uma das mais eficientes guarnições em toda Sellure. Com astúcia e anos de preparo, o inimigo aproximou-se pelo mar, destruindo os portos que abasteciam a cidade e cercando-a para que não houvesse saída.
A família Mercer financiara a guerra durante muito tempo através de ouro, materiais e sua influência, mas não imaginavam que algum dia a batalha chegaria até seus portões. O Cavaleiro Negro deixava um rastro de destruição por onde passasse, alastrando-se como uma praga que a tudo consome — Cortina Escarlate estava em sua mira há anos, ele vinha coberto de ira e o desejo por vingança.
Auria pôde ouvir gritos e tumulto de sua janela, mas uma das governantas apressou-se em fechá-la. No quarto ao lado, Lydia tentava colocar o maior número de roupas e acessórios de valor em sua mala — já enchera três, mas não havia colocado nem metade do que gostaria. Diana separara apenas uma mochila com o essencial — mapas, bússola, cantis de água e até mesmo um canivete que ganhara de Tellum e tinha de esconder para que seus pais não lhe arrancassem dela.
— Meninas, vamos, depressa! — Sua mãe apressou-as da escada. Ela correu para o salão de entrada com outras duas serviçais, seus longos cabelos negros estavam despenteados e as olheiras não conseguiam ser apagadas pela maquiagem reforçada.
Um estrondo foi ouvido na porta e o teto estremeceu. Tellum atravessou o corredor apressado para dar a notícia.
— Precisamos ser rápidos — disse o chefe da segurança das Mercer, quase sem fôlego. — Os portões da cidade já foram penetrados. Em menos de duas horas a cidade estará coberta.
Auria começou a chorar. Diana segurou sua mão e percebeu que uma criança de três anos jamais compreenderia pelo que elas estavam passando, ambas estavam muito assustadas e aquele trauma as acompanharia até o fim da vida, mas procurou ser forte por ela.
— Vou ter que deixar meus brinquedos? — lamentou Auria.
— Auria, querida, a gente compra tudo de novo — respondeu sua mãe do outro quarto. — Só se apresse e colabore, tábem? O papai já vai chegar e nos levar para um lugar seguro.
As serviçais Kamily e Kiera guiaram as três meninas até a porta de entrada onde  a Srta. Floria conversava com Tellum. A expressão de espanto em seu rosto denunciava um choque tremendo, como se ela tivesse sido atingida em cheio por uma flecha em seu ponto fraco.
— Onde está Dalson? — questionou a mulher. — Onde está o meu marido?
— Senhorita Mercer, procure manter a calma — repetiu Tellum. — Sir Dalson está combatendo o inimigo e cumprindo seu dever. Cabe a mim levá-las para fora da capital, há uma embarcação no sul que levará as crianças para a Ilha dos Geckos, eles percorrerão uma rota segura até Constantia. — O capitão distanciou seu olhar e avistou as três garotinhas que ouviam a conversa no topo da escada. — Nós precisamos protegê-las a todo custo.
A Srta. Floria respirou fundo enquanto massageava as têmporas.
— Céus, isso só irá realçar minhas linhas de expressão — disse ela com um sorriso travesso. — Tellum, leve-me até meu marido, esta é minha ordem. Eu preciso salvá-lo.
— Ele já esperava que dissesse isso — continuou Tellum —, mas Dalson pediu que se lembrasse de seu dever como mãe, não como esposa dessa vez. No momento, seus três maiores tesouros estão sob sua proteção.
Floria sabia que suas filhas estavam ouvindo, por isso chamou-as e pediu que descessem depressa. Era chegada a hora de deixar para trás os confortos de Cortina Escarlate rumo ao desconhecido.
Os boatos que se espalhavam na cidade eram de que a cavalaria real já estava a caminho, os reforços da Fortaleza Azul contavam com o poderio militar mais influente e bem preparado do reino, guiado pelo próprio Rei e seus generais. Entretanto, o povo Myridiano temia que fosse tarde demais até que eles chegassem.
O céu estava coberto por nuvens de fumaça preta e salpicado de vermelho, como se uma essência maligna assombrasse até mesmo o ar que se respira. Floria deixou a casa pelos fundos, em uma manhã normal teria alcançado o portão principal em vinte minutos, mas a cidade estava um caos tremendo com multidões que se aglomeravam entre empurrões e xingamentos para decidir quem ficaria para trás.
Diana tentava não demonstrar que estava morrendo de medo, mas seus olhos sempre tão expressivos denunciavam certa tensão. Auria abraçou com mais força a saia de sua mãe e chorou baixinho.
— Mamãe, o que está acontecendo?
Floria passou a mão em seus cabelos ondulados e sorriu, demonstrando serenidade ao tocar o rosto da garotinha e limpar suas lágrimas.
— Estamos indo procurar um novo lugar pra morarmos... Você trouxe a Rafaela?
Auria abriu sua mochila e retirou dali sua boneca favorita.
— Nós vamos encontrar uma casinha nova para a Rafaela, então você tem que protegê-la e ter muita paciência, ouviu? Ela é uma Mercer, como nós.
— E as Mercer nunca podem ser derrotadas! — Lydia repetiu o lema de sua família.
Auria acenou com a cabeça e prometeu não chorar mais. Tellum as guiou por passagens e ruelas estreitas longe do tumulto, pois sua prioridade era manter todos a salvo e impedir que se separassem a qualquer custo.
— Para onde estamos indo? — perguntou Diana.
— Para o porto — disse o capitão da guarda com o olhar disperso.
— Tellum, mas o inimigo está vindo pela água, será que não cairemos em uma armadilha? — reclamou a irmã do meio.
— Devo discordar, Srta. Diana. O portão da cidade é um alvo iminente, o Cavaleiro Negro e seu exército está tirando a vida de qualquer um que tente entrar ou sair. Ele está contando com o caos e a desordem para que a cidade sucumba a seus pés. As pessoas tendem a cometer erros idiotas quando estão sob pressão, o desespero e o medo são armas perigosas nessas circunstâncias.
Diana sempre escutava os conselhos de Tellum com atenção, pois além de chefiar a guarda em sua casa, ele era também o estrategista e braço direito de seu pai.
Foi possível ouvir o que parecia ser o som de tambores, a terra tremia com o avanço dos exércitos de Rudsi que se aproximavam mesmo à distância. Kiera precisou carregar Auria no colo já que a criança não conseguia acompanhar o ritmo dos demais, Diana tentava correr quando tropeçou em um monte de entulhos e foi de cara no chão de barro.
— Eu odeio esses sapatos chiques! — reclamou Diana, arrancando-os ali mesmo.
Tellum aproximou-se e ofereceu-se para carregá-la em suas costas, mas a menina recusou.
— Não, eu... preciso aprender a caminhar com minhas próprias pernas.
 Tellum acenou compreensiva, pois respeitava a decisão da garota. De seu peito ele retirou uma medalha prata com a fita azul e prendeu-a no vestido preto de Diana.
— Essa é a primeira medalha que ganhei no exército. Ela não me foi concedida por bravura, nem por tirar vidas, mas por excelência. “Sirva, e guie nosso povo à vitória”, é o que está escrito ao redor dela. Guarde-a e devolva-me quando tudo isso acabar, tudo bem?
Diana corou e concordou diversas vezes, jurando proteger aquele tesouro com sua vida.
A família Mercer retomou sua fuga, o badalar do sino ecoava como um prelúdio do desastre, era como se o céu estivesse prestes a cair e não havia nada que pudessem fazer para impedir.
O centro estava um alvoroço completo — pobres e burgueses, as quatro raças que viviam na capital tentavam sair ao mesmo tempo carregando pertences e tesouros em suas carruagens, enquanto outros simplesmente lutavam por uma sacola de pães.
Foi então que um grito estridente rompeu a muralha. A cidade inteira se abaixou no instante que uma sombra negra cobriu a luz do sol. O que parecia ser um enorme dragão acabara de cruzar o céu, sobrevoando bem alto e estudando o território. Sua mera imagem causara terror e pânico naqueles de coração fraco.
Mais um grito surgiu quando uma enorme pedra foi atirada de uma das catapultas, colidindo contra a torre do templo de Araya que desmoronou soterrando uma família de tótines. Os arqueiros puderam avistar os primeiros sinais das criaturas horrendas que se aproximavam, um exército sem face criado com o único propósito de lutar e destruir seus inimigos. Os Anons vinham avançando, cavaleiros corrompidos cavalgavam em lobos gigantes e um monstruoso Metarros pisoteava as pessoas como se fossem insetos insignificantes. A praça principal fora completamente tomada.
Auria prometera que não iria mais chorar, mas agora ela transbordava de lágrimas e soluçava alto, aqueles mesmos monstros assombrariam seus sonhos mesmo depois de crescida.
— Mamãe, o papai vai ficar bem? — perguntou Lydia.
— Ele está protegendo todos nós, querida. Fique tranquila — disse Floria.
— Eu sei, mas... quem é que vai protegê-lo?
As meninas olharam para cima quando o sol pareceu ser coberto por uma peneira. Imaginaram tratar-se do monstruoso dragão, mas a sombra mais parecia uma nuvem de pássaros pretos voando na direção do vento. Tellum foi o primeiro a reconhecer o ataque e bradou com alarde:
Escondam-se!
Os pássaros transformaram-se em flechas que passaram zunindo pelas muralhas, acertando soldados e inocentes em seu caminho. Auria fechou os olhos e tampou as orelhas, abrigando-se nos braços de Kiera que usou o próprio corpo para protegê-la. Kamily começou a chorar desesperadamente ao ver sua irmã morta com uma flecha atravessada em seu pescoço. As duas serviçais cuidavam da família Mercer havia pelo menos treze anos, antes mesmo da chegada da primogênita. Floria percebeu que precisava tirar suas crianças dali o quanto antes.
— Tellum, ouça-me — disse a matriarca. — Durante todos esses anos, eu confiei a segurança de minha família a você. Jure por tudo que há de sagrado nessa boa terra que você irá cuidar delas por mim caso algo aconteça comigo.
— A senhora sabe que eu daria a minha vida por elas — respondeu Tellum com convicção. — Quando eu não tinha nada, os Mercer me adotaram como se eu fosse um de vocês; arrancaram-me do lixo e deram-me dignidade, compartilharam um espaço à sua mesa e deram do que comer. O que vocês fizeram por mim, eu só poderia retribuir em outra vida.
Floria fez um aceno breve e voltou-se para a serviçal sobrevivente:
— Quer vingar a sua irmã ou fugir e salvar sua própria vida?
A empregada tinha um semblante completamente diferente agora. Kamily limpou o rosto sujo de vermelho e sacou uma adaga escondida que carregava consigo.
— Só vou descansar quando encontrar esses vermes no Unferis!
Antes de partir em uma empreitada sem volta, Floria agachou para ficar na altura de suas três filhas. As três desabaram a chorar, somente o olhar severo de sua mãe teria intimidado um exército inteiro.
— Auria, Diana e Lydia. Cuidem uma da outra. Não me importa se escolherem um marido ou terminarem solteiras, nem que mudem de casa ou terminem perdendo contato com o passar dos anos; vocês jamais deixarão de serem irmãs. Quero que zelem pelo próximo nas horas difíceis, que opinem e compartilhem experiências para que as três cheguem muito longe e tornem-se mulheres formidáveis quando se tornarem adultas. Vocês são Mercer e o futuro será sempre brilhante.
Floria esticou os braços e as abraçou com carinho. Por um instante foi como se o som da guerra fosse abafado, em meio àquele abraço elas já não podiam mais ouvir os gritos de desespero e nenhum perigo teria rompido a magia por trás daquele escudo protetor.  Se pudesse, nunca mais teriam saído daquele abraço que tanto lhes trouxera conforto, mas o dever chamava.
— Eu e o papai estamos muito orgulhosos de vocês três. Sejam corajosas. Mamãe ama tanto vocês que nem cabe no meu coração!
— Por que você está falando isso? — disse Lydia com a voz entristecida. — Parece que nós nunca mais vamos nos ver...
— Você já é uma mocinha — respondeu Floria, acariciando seus cabelos. — Como mais velha, tome conta dessas duas sapequinhas. É a sua obrigação. Se não fizer isso, vou jogar uma maldição que fará o príncipe encantado nunca mais querer sair com você.
Lydia arregalou os olhos e se recompôs, prometendo que iria fazer de tudo para protegê-las.
Tellum pegou Auria no colo e correu na direção oposta, seguido por Lydia e Diana que não parava de olhar para trás. Floria levantou-se por fim e contemplou sua família uma última vez.
— Minhas pequenas pedras preciosas.

i

Assim que Floria alcançou a praça principal da capital, as tropas de Cortina Escarlate já encontravam dificuldades em repelir o exército dos sem face. Os Anons eram numerosos demais, e mesmo que desabassem aos montes e deixassem para trás uma pilha de corpos feitos de madeira e palha, uma legião dessas mesmas criaturas apoiava-se nos cadáveres para escalar as muralhas e invadir a cidade. Sua resistência fraca era compensada por uma armadura rígida e a sede insaciável de cumprir com seu objetivo. Se lhes fosse ordenado invadir a cidade, eles não parariam até que não sobrasse nada — não sentiam medo para recuar, não precisavam alimentar-se e nem conheciam compaixão, uma das criações mais cruéis e ingênuas daquele mundo, podendo ser moldadas de acordo com as necessidades daquele que os liderasse.
Floria avistou seu marido entre os combatentes, Dalson erguia-se como líder absoluto portando o estandarte vermelho de sua cidade. Enquanto aquela bandeira estivesse de pé, Cortina Escarlate resistiria.
— Querido! — Floria beijou-o de forma doce na testa ao alcançá-lo. — Não importa o que você dissesse, eu viria para protegê-lo! Nem mesmo diante da ordem do Rei ou da vontade das entidades divinas eu me afastaria de você.
— Onde estão nossas filhas? — perguntou Dalson.
— Seguras e a salvo.
O homem revelou um sorriso discreto.
— Então podemos lutar com tudo que temos. Venha, minha esposa, você é a inspiração que me faltava!
Floria sacou sua aljava e um arco dourado encrustado com pedras prateadas, a famosa arma passada de geração em geração pela família Mercer. Dalson brandiu sua espada e vestiu o capacete, quando olhou para o lado e viu a mulher, perdeu-se completamente em sua beleza e sentiu sua motivação crescer.
Um baque veio do portão. Os soldados se posicionaram com suas lanças. Uma nova saraivada de flechas foi disparada, mas dessa vez eles estavam bem protegidos com seus escudos. Kamily certificara-se de que sobreviveria tempo o suficiente para saciar sua sede de vingança. Outra pancada irrompeu pelo portão diante da força esmagadora de um exército que não conhecia limites. Flechas com a ponta vermelha zuniram pelo vento e derrubaram toda a linha de frente das marionetes sem face, mas outras logo as substituíram e elas continuaram a correr num frenesi incontido.
Os soldados de Cortina Vermelha repeliram as três primeiras ondas do exército do Cavaleiro Negro. A bandeira escarlate se agitava diante das cortinas que ardiam em chamas e contornavam as muralhas da cidade. O Metarros prostrou-se diante do portão, avançando com fúria e descontrole. Aquela espécie ameaçada em extinção descendia dos antigos Dinorros, mas estava armado para a guerra tinha a força para derrubar uma casa com suas patas gigantescas.
Atirem! — ordenou Floria.
Outra saraivada de flechas zuniu contra o inimigo, criando um cobertor pontiagudo que penetrou fundo na pele espessa do Metarros, porém, a criatura não parou de avançar. Com seus mais de oito metros, ele continuou a disparar contra a linha de frente e romper escudos, abrindo uma fresta nas defesas do batalhão dos Mercer.
— Você acha que irão lembrar-se de nossos nomes na história? — perguntou Dalson.
— Querido, nós seremos lembrados de qualquer maneira. Somos Mercer.
Floria atirou sua flecha dourada que penetrou fundo na couraça do Metarros. O projétil encantado ia e voltava para sua senhora, podendo ser disparado mil vezes. Diziam que a alma de um tótines habitava em seu interior e a flecha não obedeceria nenhum outro mestre que não pertencesse à família.
O monstro cambaleou antes de tombar para frente, uma trágica fatalidade para uma espécie tão rara. Os soldados mal tiveram tempo de comemorar, pois a chegada de um novo inimigo ofuscou as comemorações — ele revelou-se diante da cidade inteira, monstruoso e assustador com sua clava de metal grossa e espessa feita um tronco de árvore. Sua máscara deixava exposta apenas um pequeno par de olhos vermelhos, muitos alegavam ser impossível matá-lo porque seu coração lhe fora arrancado havia muito tempo. Ele era Vias Cruzadas, o líder dos Anon e braço direito do Cavaleiro Negro na guerra, um Sem Rosto que a própria morte provavelmente já se esquecera de levar.
Um único golpe de sua clava abriu uma cratera no chão, esmagando um homem como se ele fosse feito de massinha. O monstro bateu as mãos enormes contra o peito feito um gorila e avançou contra a barreira de soldados com ferocidade. Cem lanças e espadas não puderam atravessar sua armadura, ele rompeu a linha defensiva dos Myridianos, quebrando e destroçando tudo ao seu redor. Ao seu lado havia também um assassino contratado vestindo chapéu coco, ele era ágil e agia nas sombras, atacando desatentos, cortando gargantas e deixando para trás corpos como um alerta de que o Cirurgião Letal fizera sua passagem por ali.
Dalson e Floria continuavam a combater a horda de monstros que atravessavam pelo portão. Seus homens eram corajosos, mas não aguentariam por muito tempo.
— Kamily, chame a atenção daquela besta! — ordenou Floria.
A serviçal colocou-se de frente ao general inimigo. O líder dos Anon não deu indícios de que iria parar, Kamily retirou um selo de seu avental e posicionou-o no chão de forma que um escudo mágico projetou-se em sua frente, disparando uma explosão de energia que impediu a passagem de seus inimigos momentaneamente. Vias Cruzadas ficou atordoado tempo o suficiente para que Kamily escalasse sua clava, correndo sobre ela com a precisão de um artista de circo. A serviçal enfiou sua adaga inúmeras vezes na máscara da criatura que urrou de dor, incapaz de arrancar aquele parasita indesejado de suas costas
Cuidado! — gritou Floria apavorada.
Vias agarrou o corpo da empregada e o arremessou contra uma parede. Kamily colidiu com força e sentiu seus ossos se partirem, não houve tempo sequer para que ela fosse resgatada, pois o assassino de chapéu coco se alastrou por trás dela e a apunhalou com um único golpe mortal, cortando sua garganta na sequência. Kamily tossiu sangue e seus olhos perderam foco, ela sorriu satisfeita, pois em breve se juntaria a sua irmã.
— Eu detesto essas armas pequenas, nunca as vemos chegando até que seja feito um estrago — disse Somenar enquanto verificava a qualidade da adaga roubada de Kamily. — Ora essa, de que estou falando? São as minhas preferidas!
Somenar provou o sangue com a ponta da língua, voltando a atenção a Floria Mercer e seu marido que se recompunham do choque em perder uma amiga tão antiga.
Dalson sentiu seu coração bater mais depressa. Sua mulher estava exausta, embora ainda exalasse coragem e determinação. Quanto maior o desafio, mais uma Mercer se impunha perante ele.
— Mulher — chamou Dalson.
— O que foi? — ela perguntou, aturdida.
— Você sabe que eu te amo, não é?
— Tem que ser agora? Você sabe como fico quando o ouço falar assim comigo!
Em seus olhos, Floria ainda era a menininha que corria de saia e lhe trazia pão na janela. Os anos passaram e seu amor por ela não mudava. Os anos pareciam lhe fazer bem, com a idade vinha também novas responsabilidades e marquinhas de expressão; Floria podia estar descabelada e imunda que seu marido sempre a acharia a mulher mais maravilhosa do reino.
— Eu não acredito no que estou vendo. É a família Mercer! — berrou Somenar. — Isso não é romântico, Vias? Vir para a guerra com sua pessoa amada e morrer do lado dela?
— Vias não gosta de romance — respondeu o monstro com a voz gutural.
— Pois eu amo. O sabor é sempre — o assassino lambeu os beiços e limpou o sangue da adaga em seu jaleco escuro — diferenciado.
Floria não era o tipo de mulher que levava ameaças para casa. Ela sacou a flecha dourada e disparou-a em direção de Somenar que só sentiu o vento passar na altura de seu bigode. O tiro de alerta atingira Vias em cheio no ombro, aquele fora o disparo mais rápido que vira em sua vida.
— Uau. Minha nossa. Isso foi incrível — admitiu Somenar com uma risada histérica. — Vias, meu bom amigo, encontramos adversários a nossa altura. Papai vai ficar tão orgulhoso!

ii

O barco que levaria as filhas dos Mercer em segurança para a Ilha dos Geckos já estava atracado na costa, Tellum traçava um plano de busca atrás de um refúgio secreto onde pudesse repousar até que a batalha em Cortina Escarlate fosse decidida. A vida das crianças estava em suas mãos e ele faria o possível para que elas crescessem longe de conflitos.
Auria abraçava sua boneca Rafaela, seu único consolo no momento; Lydia esperava que a nova casa fosse perto de algum shopping ou que ao menos tivesse uma banheira tão grande quanto a antiga; Diana ainda observava o fogo e a fumaça subir da cidade onde vivera toda a infância. Cada uma das meninas encarava a dificuldade à sua própria maneira, dada a circunstância e a maturidade que a ocasião permitisse.
Tellum exalava tensão quando Diana sentou-se ao seu lado e tocou sua mão, oferecendo-lhe um olhar cheio de esperança.
— Quando papai e mamãe voltarem, vou pedir para que eles deem menos trabalho pra você — disse Diana. — Você está muito cansado, Tellum, precisa dormir mais.
— Você tem razão, devo parecer mais velho do que sou — respondeu o rapaz com um sorriso. — Não se preocupe, mesmo com todo o trabalho e obrigações, prometo arranjar tempo para brincar de boneca com vocês.
— Eu não quero que você brinque de boneca, quero que você me treine! — afirmou Diana com convicção. — Eu quero lutar como papai e mamãe para defender as pessoas que precisam!
— Uau, ainda há pouco lembro-me de vê-la pedir brinquedos e livros de aniversário, e de repente você está tão... crescida! — falou Tellum. — Ouça, eu não preciso colocar uma arma em sua mão para treiná-la, mas prometo que irei ensinar tudo que sei, aprimorar seus estudos e cuidar para que façam a escolha certa. Vocês três serão formidáveis quando crescerem, cada uma com suas respectivas habilidades e sua própria maneira de ajudar. Vocês podem ser princesas, guerreiras ou heroínas, pois garanto que farão seus pais orgulhosos.
Neste instante, um pequeno raio percorreu o céu e aterrissou no chão de terra como se fosse uma estrela cadente no céu escuro de fumaça e cinzas. Lydia foi a primeira a levantar-se correndo para ver o que se tratava aquela joia tão brilhante e percebeu se tratar de uma flecha dourada que ainda tremeluzia como se tivesse vida própria.
— É da mamãe — disse Lydia para suas irmãs.
As três voltaram a atenção para a cidade. Aquele Amuleto Sagrado era um presente que deveria ser herdado pelo primogênito caso algo de grave lhe acontecesse, e Floria sabia que onde quer que elas estivessem, a flecha encontraria seu novo dono.
Naquela época, Auria não compreendia porque suas irmãs desataram a chorar compulsivamente. Ela apenas jurou que nunca mais pegaria em um arco e flecha.


 


NOTAS DO AUTOR

Este especial foi escrito em meados de 2017, antes mesmo que o Livro 2 tivesse sido finalizado. É curioso pensar que todos os capítulos dO Passado dos Personagens já foram postados, mas alguma coisa me impedia de compartilhar o da Auria. A Parte 2 para vocês terem ideia foi escrita em 2015. Noite passada, dia 14 de Maio de 2020, eu reescrevi a Parte 3 completamente. Dessa vez o resultado ficou do meu agrado. Ufa!

Sendo separado em três partes, eu nunca me senti satisfeito com o peso emocional que esse especial teria na vida da Auria, tentei falar das dificuldades da infância dela e me vi constantemente falando sobre bullying, mas parei para pensar: "Será que era isso mesmo que a Auria faria? Será que ela sofreu porque alguém a maltratou?" No Livro 2, a Auria confiante e durona que conhecemos no primeiro livro muda da água para o vinho, conheceremos uma versão de nossa guerreira mais frágil e humana. E este especial não poderia sair em boa hora. Está na hora de voltarmos ao começo, quando sua cidade natal foi destruída e as Mercer se viram órfãs da guerra.

Este capítulo também conta com algumas aparições especiais que só darão as caras como antagonistas no Livro 2... Espero que gostem de conhecer um pouco mais da vida de Diana, Lydia e Auria ainda pequenas, tentarei manter um curto intervalo entre as postagens, e o que posso dizer por ora é que o desenvolvimento da parte gráfica de Matéria - Alma de Diamante, já teve início! Forte abraço.

  4 comentários:

  1. Quem duvidou que esse especial iria existir se ferrou muito hahahahsga

    Yoo Canas, cá estou eu de volta nas terras de Sellure (eu estava devendo um comentário, coisa feia Star hahshahah)

    A Auria de 3 anos deve ser muito MUST PROTECC bro, é tão fofinho ver esse lado mais inocente e infantil, a gente conhece a Auria porradeira adulta e acha que ela sempre foi assim.

    Na verdade, acho que quem lê esse especial se sente mais próxima da nossa querida Alma de Diamante, é como se as peças se juntam-se aos poucos e formassem o que conhecemos da Auria.

    A BONECA RAFAELA MANO, EITA QUE REFERÊNCIA MARAVILHOSA <3
    É legal ver que a Diana e a Lydia sempre tiveram suas personalidades pré-prontas, a Di como uma excelente estrategista e a Ly sendo a Ly hahahaha Eu amo essa mulher. O que mostra pra gente que a Auria acaba realmente tomando todo aquele impacto da guerra. E pensar que o cavaleiro no cavalo branco é na verdade o Tellum.

    E por falar em Tellum, eu adoro personagens guarda-costas. A gente sempre vê aquele rosto sério nas sombras de alguém, mas no final eles tem os melhores plots (principalmente para um romance, mas quem sou eu pra falar)
    Tellum realmente me chamou a atenção e vou adorar saber mais dele.

    MEU BEBÊ VIAS, NÃO;-; PQ FAZ ISSO COMIGO? Eu não mereço isso. Como vou proteger meu gigantão agora?
    SOMENAR, MORRA IMEDIATAMENTE
    Cara, esse especial é um prato cheio pra quem leu o livro 2, e pra quem não leu, recomendo ler e voltar aqui tão revoltado quanto eu hahshahsgah

    Eu gostei em como você retratou a mortes do Dalson e Floria de forma sutil e inocente, talvez traumatize menos o leitor, ou não, esse especial está apenas começando hahshahshah (to rindo de nervoso)

    MUST PROTECC AURIA

    Obrigada pelo capítulo Canas, e desculpa por não estar tão presente por aqui </3

    See ya

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    1. As terras de Sellure ficam mais iluminadas em sua presença, Srta. Estrela <3 Obrigado por todo o carinho e atenção que você colocou nesse comentário, eu adoro escrever os especiais do Passado dos Personagens e às vezes fico triste de precisar restringi-los ao blog por conta das limitações de um livro impresso, eu não poderia aumentar mais 100 páginas cheias de acontecimentos passados sem parecer uma bagunça total, ainda que cada uma dessas cenas carregue um valor emocional enorme para os respectivos personagens.

      Eu acho engraçado que sempre imagino a Auria de cabelo curtinho. Será que consigo desenhá-la com essa idade? MUST TRY! Rafaela é aquela referência que só quem tá me acompanhando a vida inteira vai saber identificar kkkkkk Sdds, Aleafar.

      Fico feliz que tenha ficado bem nítido mesmo com poucas conversas entre elas que cada uma das meninas já tinham sua personalidade bem definida, de certa forma essa é a introdução da Diana e a Lydia para alguns leitores, e a guerra as afetou de diferentes formas.
      Como sempre, eu vivo fugindo de cenas de ação e mortes, faço um corte súbito porque não sei escrever esse tipo de coisa (falou o cara que matou meio mundo em Sinnoh kkkk), mas é verdade, eu prefiro esse tipo de transição sutil onde o leitor apenas compreende que alguém não vai mais voltar, sem precisar recorrer a exageros ou violência gratuita.

      Ah, e esse Tellum é mesmo uma figura interessante, não sei se vai rolar a chance de formar um casal, mas a mão de shippar chega a tremer kkkkk Agora que alguns dos antagonistas já foram introduzidos acho que posso começar a postar a ficha deles também! Obrigadinho por dedicar seu tempo para vir comentar. Sinto sua falta por aqui, volte sempre puder :')

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  2. Respostas
    1. PEQUENA AURIA NOS SALVA DOS PERIGOS E AFLIÇÕES DA GUERRA!

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