Gênero: Drama, Slice of Life, Romance;
Tema: Sobre a vida e climões;
Sugestão do leitor: Sir Naponielli.
Por
algum motivo, fora convocado para uma reunião de pais, mesmo que não tivesse um
— e, para piorar,
tinha de assumir a posição deste. Lançava um olhar impaciente pelo cômodo, sentia como se estivesse preso àquela sala entre quatro
paredes de concreto e não poderia ser ouvido.
A
porta foi aberta e uma mulher alta com um coque na cabeça entrou. Ela tinha o
nariz alongado que servia de apoio para seus óculos enormes, como se fossem um
par de binóculos. Ralph quase riu ao imaginá-la com aqueles olhões, mas foi
surpreendido por uma pasta pesada, a qual foi atirada em sua frente, como se
fossem provas de um crime.
—
Quem é você? Onde estão os pais da garota? — perguntou a diretora.
— Eu
sou o responsável pela Elice, dona... — Ralph forçou a visão para enxergar o
que estava escrito no crachá da mulher.
—
Cândida. Você deve ser o Aedan.
—
Não... sou o Ralph, da Espada de Madeira. Aedan não pode vir.
— Então
você é o responsável por ela? — disse a mulher, ajeitando os óculos para ter
certeza de que não estava cometendo um engano. — Quantos anos você tem, garoto?
— Eu
sou só um amigo, mas é que a Elice está sob meus cuidados porque os pais dela morreram. Além disso, o irmão voltou para a terra natal devido a uma emergência. As
outras pessoas maiores de idade de nosso círculo estão longe da Pequena Colina
ou ocupados demais com seus trabalhos e não puderem comparecer — Ralph procurou
explicar-lhe da maneira mais sucinta. — Entenda, dona Cândida, no momento sou a
pessoa mais próxima que ela tem...
— Uma
criança cuidando de outra — ela massageou as têmporas, constrangida. — Já vi de tudo nesse trabalho e, para ser sincera, sinto que meus dias como diretora estão contados... mas posso ver que você está se esforçando para ser um adulto responsável, então
vai ter de servir.
A
mulher abriu a pasta e começou a ler em voz alta.
— A
senhorita Elice comportou-se de maneira muito errônea essa semana, — eu diria
que até perigosa. O senhor tem conhecimento de seus poderes?
—
Sim, sim, ela solta raios de gelo e causa tempestades de neve quando está
irritada ou com medo — disse Ralph, fazendo sons estranhos enquanto sinalizava o
ar como se lançasse feitiços mágicos. — Uma loucura, não?
Dona
Cândida piscou duas vezes.
— Meu
jovem, esta é uma escola primária para humanos, não podemos receber tótines.
Eles recebem uma criação completamente diferente.
— É
que a Elice nunca estudou na vida, dona. Ela recebia cuidados em casa, e o
irmão sempre esteve por perto para protegê-la. Achamos que a colocando para
conhecer outras crianças a faria... soltar-se mais.
— Eu
entendo a situação. Cuidar de crianças nessa idade nunca é fácil, elas são mais
inteligentes do que imaginamos — Dona Cândida fechou a pasta e ajeitou seus
óculos, dando aquele assunto como encerrado. — Não posso deixar que ela saia
impune depois do que fez, mas também não quero expulsá-la como se fosse uma
intrusa. Elice ainda está se adaptando ao novo formato de ensino. Por ora, darei uma suspensão de cinco dias. Tire a
semana para passar um tempo com ela, leve-a para passear e converse sobre o
ocorrido, talvez a menina tenha algo a dizer.
i
Ralph
aguardou o horário da aula de Elice terminar próximo ao pátio da escola. Quando
o sinal bateu, diversas crianças saíram correndo e ele lembrou-se dos tempos em
que frequentara a escola Kylie Kalma com a Profª Clover. Depois
de uma multidão de mochilas coloridas, Elice apareceu carregando sua mala
azul com a feição séria, as duas mãos bem prensadas nas alças. Ralph acenou para
ela e falou:
— E
aí, mocinha. O que vamos fazer de legal hoje?
Elice
não disse nada, mas o abraçou com tanta força que parecia nunca mais querer
largar. Ralph se surpreendeu com o gesto súbito, ela não demostrava afeto com
facilidade. De fato, só a via fazer isso com seu irmão, e ocasionalmente com
Auria quando saíam juntas para passear no parque.
“Eu
queria que a Auria estivesse aqui, ela saberia o que fazer”, pensou Ralph. Brincar de adulto
era uma missão realmente complicada.
A
vantagem de ter apenas quinze anos é que não havia uma distância muito
considerável entre a idade dele e Elice. Ela tinha apenas dez anos, mas já
passara por muito.
O
vilarejo da Pequena Colina não era muito grande, todos ali se conheciam e os
programas não variavam. Havia uma praça no centro que Ralph gostava
de tomar sorvete, por isso achou que seria uma boa levar Elice até
lá. Quem sabe assim ela se abrisse com ele e explicasse o que acontecera na
escola.
Ralph
pediu um sorvete de chocolate com recheio de brigadeiro e um de baunilha com
leite condensado para sua amiga. A garotinha agradeceu apenas com um aceno, mas manteve a cara fechada.
O dia
estava fresco e sem sol, a expressão de Elice era gélida. Não era como uma
criança deveria agir.
—
Então... — Ralph começou a falar e foi imediatamente cortado pela garota.
— Eu
odeio aquela escola. Odeio as outras crianças. Elas parecem tão... crianças —
disse a menina enquanto terminava o seu sorvete. — Você acha que eu sou muito
chata?
—
Mais ou menos — o garoto riu, lembrando-se do dia em que se conheceram. — Você
tende a afastar as pessoas que não gosta com uma parede de gelo, mas quando se
apega, seu coração derrete essa proteção trazendo conforto e aconchego,
consegue entender? Talvez você realmente seja mais madura do que as outras
crianças da sua idade, mas isso não significa que devamos... puni-las.
—
Punir? Eu não puni ninguém, foi ela que me provocou! — Elice ergueu o tom de
voz.
— Ela
quem?
— A
Stela. Ela se acha a dona da sala e me chama de Rainha do Frozen só porque meu
vestido é azul e eu uso uma tiara.
—
Rainha do Frozen? Mas esse apelido é muito legal — Ralph começou a rir até
perceber que Elice não gostara nem um pouco do apelido. — Mas se você não
gostou disso, por que não a mandou parar?
— Eu
mandei.
— E
ela não parou?
—
Não. Aí ela começou a me perseguir a semana inteira. Eu só tentei ficar na
minha, mas ela começou a jogar algumas verdades na minha cara até que...
Elice
esfregava as duas mãos, como se sentisse muito frio com elas.
—
...saiu sem querer.
— O
que saiu sem querer? Um pum?
Elice
começou a rir sem parar do comentário de Ralph. Estivera tão tensa nas últimas
horas que quase se esquecera de como o sorriso e a companhia de seu amigo eram
capazes de curar qualquer coisa.
— Ela
tocou em mim. Eu não quis reagir, só que a mão dela congelou na mesma hora.
Você sabe que não controlo meus poderes quando estou com raiva... A Dona
Cândida veio correndo e mandou ir para a sala dela no mesmo instante — Elice
desviou a atenção enquanto observava uma gota de seu sorvete escorrer. — As
outras crianças me olhavam como se eu fosse...
— Uma
esquisitona? — Ralph completou a frase.
Se
havia alguém no mundo que compreendia aquele sentimento, esse alguém era Ralph.
A vida toda, as pessoas a sua volta não entendiam como ele havia recebido
cuidados de geckos — mantinha alguns trejeitos dos lagartos, mas no fundo continuava
sendo um garoto normal que carecia de atenção como qualquer outro.
—
Você é especial, Elice. E o caminho das pessoas especiais é sempre cheio de
desafios, reviravoltas e dificuldades.
—
Acho que eu estou cansada de ser especial... eu só queria ser normal uma vez na
vida.
Ralph
terminou seu sorvete e deu um salto, ficando de pé em frente à garota.
—
Então vamos ter um dia normal.
Elice
estava com a boca toda suja quando perguntou:
— O
que as pessoas fazem num dia normal?
— É o
que vamos descobrir.
A
primeira atividade que pensou em fazer com Elice foi leva-la ao Soleil, um café
onde seu amigo Doppel trabalhava. Ralph ajudava ali como garçom durante a
semana, mas vez ou outra ganhava uma folga para divertir-se por aí. Doppel era
um rapaz de cabelos brancos que morava no topo da Pequena Colina, onde Ralph
vinha se hospedando nos últimos meses com seus amigos. Ele os recebeu com um
sorriso doce assim que os viu na entrada.
— Bom
dia, queridos. Como foi na escola?
—
Levei uma suspensão — falou Elice, estendendo a palma da mão. — Cinco dias.
— Oh —
o atendente surpreendeu-se, mas não demonstrou irritação. — Desculpe por não
ter conseguido ido ir à reunião, . o Ralph conseguiu dar conta de tudo?
—
Opa, tudo sobre controle. Agora viemos encher a pança. Posso preparar dois
mistos quentes pra gente, Doppel? Deixa que eu mesmo faço, - assim não
atrapalho os outros pedidos na cozinha.
—
Você é um anjo, Ralph. Fique a vontade para fazer o que quiser, a casa é sua.
Ralph
preparou os lanches e um pouco de suco para o almoço. Elice gostava muito de sua
comida, chegou até a repetir, ainda comendo um bolinho de queijo no final. Uma
tarde agradável no Soleil era sempre bem vinda.
— Ah,
estava tão gostoso! — disse a menina, esticando as pernas e se esticando no
assento. — Quando eu crescer, você vai casar comigo para continuar cozinhando
pra mim?
— Eu
posso continuar cozinhando mesmo sem casar — disse Ralph , com uma risada. —
Essa coisa de casar é complicado, parece que todo casal feliz em Sellure acaba
tendo uma morte trágica.
—
Quem aí está fazendo planos para o casamento? — perguntou Doppel , que estava
ali perto, limpando uma mesa. — Vocês não são muito novos para falarem desse
tipo de assunto?
— Eu
sou quase uma adulta, - tenho dez anos,
daqui a pouco não vai mais caber na mão! — disse Elice , com um sorriso
adorável. — É que ao lado de vocês eu me sinto à vontade para ser eu mesma...
Ralph
percebeu que ela estava tentando contar-lhes sobre algo que aconteceu na
escola, mas Doppel foi mais rápido em incentivá-la a comentar o assunto:
— E
os seus novos amiguinhos na escola? Eles não são legais?
—
E-eles são... ou tentam ser... mas na maioria do tempo são tão infantis! As
meninas vivem para se mostrar, vivem comentando os padrões de como nos vestimos
e nos comportamos, enquanto os meninos ficam falando sobre o tamanho do peito
das meninas.
—
Elice, tenho uma notícia para lhe dar — disse Doppel, tirando um minuto para
sentar-se ao lado dela. — Os adultos também são assim. Você vai crescer e as
pessoas continuarão falando sobre essas bobeiras ao seu redor, mas quer saber
de algo? Ignore-as. Se não gostar desse tipo de gente, mantenha-as longe de sua
vida e compartilhe bons momentos ao lado daqueles que realmente ama.
—
Você sempre fala palavras tão bonitas, tio Doppel — Elice abraçou-o com carinho
e deu um beijo em sua bochecha. — Vou tentar. Não quero que pensem também que
sou a Rainha do Frozen.
—
Quem? — Doppel riu, bagunçando os cabelos da menina. — Só porque você controla
gelo, não significa que precisa viver isolada num palácio de cristal que vai
ser destruído assim que alguém tocar nele.
— É o
que tentei contar pra ela! — respondeu Ralph. — Só que vindo de você saiu tão
mais legal...
Doppel
mandou que os dois saíssem para que pudessem aproveitar o dia de sol. Como
praticamente todos seus amigos estavam ocupados, Ralph decidiu que tiraria o
dia todo para divertir-se com Elice. Ela não gostava de fantasiar com dragões e
nem aventurar-se pelo mundo, mas amava gestos simples como um piquenique no
parque ou um almoço em família.
Pequena
Colina era tão... pequena, que logo eles estavam de volta ao parque. Entre
algumas árvores, havia brinquedos com escorregadores, gangorras e um fascinante
balanço preso aos galhos mais altos.
— Por
Araya, um balanço! Eu amo balanços. Quer que eu te empurre?! — perguntou Ralph,
empolgado.
—
Você parece mais criança do que eu — respondeu Elice. — Deixa que eu te empurro
então.
Ralph
logo estava sentado sentindo o vento bater em seu rosto com o impulso do
balanço. Mesmo Elice, com sua aparência frágil e delicada, não precisava de
muito esforço para empurrá-lo bem alto.
— É
como se eu pudesse tocar as estrelas — disse Ralph, erguendo um dos braços para
o alto e quase perdendo o equilíbrio. — Vai com calma aí atrás, eu estava
dizendo de forma figurativa!
—
Qual é, está com medo? Aposto que eu consigo fazer você encostar no céu!
—
Elice, é sério, tá bem forte!
—
Deixa de ser maricas!
Elice
o empurrou com tanta força que Ralph saiu do assento do balanço e caiu de cara
no chão. De primeira instância, ela riu, mas ao perceber que ele não se movia,
começou a assustar-se e logo correu para ver se algo sério tinha acontecido.
— Ei,
tá tudo bem? Não brinca com isso... Ralph. Ralph, é sério, não brinca com isso.
O
garoto abriu os olhos e a pegou no colo, começando a fazer cócegas em seus
braços até derrubá-la no chão. Elice morria de cócegas — era quase sua fraqueza.
Ela o fazia tanto que tinha medo de perder o controle.
—
Ralph, para! Estou quase fazendo xixi.
—
Credo — o garoto riu, mas também não parava. — Isso é uma punição por me fazer
comer poeira!
Os
dois agora estavam deitados no chão da praça, com pequenas sequelas do riso,
mesmo que não houvesse mais motivos para dar risada. Elice virou-se para Ralph
e segurou sua mão de forma inesperada.
—
Olha só como está quente. Não sou sempre um mar frio de emoções.
—
Nunca duvidei disso — respondeu Ralph — Elice, quero que faça algo por mim...
você acha que poderia conversar com seus amigos da escola?
— Por
quê? Eles são tão criança.
— E
você me acha adulto? Estamos brincando no balanço de um parquinho infantil. E
mesmo que eu fosse, isso não nos torna melhores do que eles.
Elice
respirou fundo, mas cedeu.
— Eu
posso até tentar conversar com eles, mas vai ser por você.
ii
Na manhã
seguinte, Elice esperou pelo horário em que as aulas de seus amigos terminavam.
Stela vinha em sua direção com outras duas amigas quando a viu de longe. Ela pediu
que as duas avançassem depressa e esperassem na saída para que não vissem o que
viria a seguir. Quando ficaram sozinhas, ela começou a falar:
—
Achei que você tivesse tomado suspensão — disse Stela. — Por que veio aqui?
—
Desculpa pelo que aconteceu aquele dia... eu não queria...
— É.
Tanto faz. Você é a Rainha do Frozen, nunca consegue controlar seus poderes.
— Eu
só fiquei brava por que você falou da minha família! — Elice ergueu o tom de
voz. Ralph estava escondido atrás de uma árvore ali perto. Se a situação saísse
do controle, teria de intervir.
— E
você ficou bravinha só porque não tem família? — Stela a confrontou da mesma
forma. Ela ergueu a manga da blusa e mostrou a ferida que o congelamento
causara. — Você vai machucar as pessoas ao seu redor toda vez que ouvir algo que
não gosta? É isso? Você acha que é a única coitada nesse mundo, cansada,
exausta? A única que está desesperada por atenção e que, no menor descuido,
pode acabar explodindo e machucando todos ao seu redor?
Ficou
pasma no instante em que viu a outra garota chorar. Stela escondia os olhos
como se tivesse vergonha de que a vissem naquela situação. Elice ergueu uma das
mãos e a tocou na cabeça, mas, dessa vez, sem machucá-la. Seus poderes estavam
sob controle. Ela encostou a cabeça da colega em seu ombro, e abraçou-a com
cuidado e arrependimento.
— Me
desculpa. Eu não sabia... não pensei no seu lado.
Stela
concordou com a cabeça, insinuando que aceitava as desculpas. Era como se seu
coração tivesse completado com calor e segurança um quarto vazio na vida desta.
Elice olhou para a árvore onde Ralph estivera escondido, e ele fez um sinal
positivo com o polegar.
—
Agora chega de abraço. Isso é tão careta — respondeu Stela, recuperando-se
depressa. — Não entendo porque você ficou brava quando te chamei de Rainha do
Frozen. Ela é a personagem feminina mais poderosa e maneira que já vi nos
filmes.
—
Jura? — Elice perguntou. — Eu não sabia.
—
Sério que nunca viu? Você podia vir em casa assistir qualquer dia desses. Eu
moro com os meus avós, mas eles são gentis e vão gostar de receber alguém pro
almoço. Que tal no fim de semana?
— Eu
adoraria.
iii
Dona
Cândida deu a notícia de que Elice melhorara muito nas semanas que se seguiram.
Ela era uma garota muito inteligente, talvez até a melhor da classe. Todos pediam
sua ajuda nos estudos e queriam sentar-se na carteira ao lado. Era como se
fosse uma criança completamente diferente.
Quando
Ralph chegou para buscá-la na segunda, viu que Elice andava com outras quatro
garotas, incluindo Stela. Estava radiante, o sorriso mal cabia em seu rosto. Caminhava
tão leve que parecia flutuar. O garoto fez um aceno rápido quando a viu correr
em sua direção.
—
Ralph, vou almoçar com minhas amigas hoje, então só voltarei para casa mais
tarde!
— Tá
muito saideira, mocinha — o garoto riu.
—
Minhas amigas disseram para você vir também. — Elice olhou para os lados, só
para se certificar de que elas não estavam ouvindo. — ... ouvi a Stela dizer que
meu irmão é um gatinho.
— Ah,
mas o Aedan é bonitão mesmo, impossível não se apaixonar por ele!
—
Hah, hah. Ela estava falando de você, seu bobo — respondeu Elice, despedindo-se
com um sorriso doce e gentil. — Eu e você, irmãos, imagina só! Dessa
forma não poderemos nos casar e vou acabar sem meu marido.
Ralph
riu da ideia e continuou a observar a garota distanciar-se com suas amigas.
Desde que a conhecera, via Elice como uma menina que cresceu antes do tempo
pelas limitações que a vida lhe impôs, mas, pela primeira vez, enxergava ali
apenas uma criança, exatamente como deveria ser.