sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Busca pelo Lendário Cavazevamuonga [Support]


Support Conversation [Lesten e Auria]
Gênero: Aventura, Comédia;
Tema: Lesten recebe a difícil de missão de encontrar uma
criatura lendária conhecida como Cavazevamuonga;
Inspirado em ideias antigas da infância do autor.

Lesten visitava o quadro de avisos no café do vilarejo sempre que tinha a oportunidade. Os dias monótonos na Pequena Colina eram tranquilos e agradáveis, mas ele não conseguia esconder o quanto ansiava por alguma missão mais arriscada, seu sangue reptiliano necessitava de ação e aventura tanto quanto oxigênio.
Doppel trouxe-lhe seu pedido dois pães na chapa, um cafezinho sem açúcar e um delicioso sanduíche de presunto e queijo que já lhe eram típicos quando se deu conta do desânimo de seu colega. O lagarto se sentava sozinho por tardes seguidas no Soleil sempre que Ralph saía em alguma aventura com seu irmão no continente, geckos não costumavam ficar entediados por muito tempo, mas era nítido o quanto ele sentia falta do amigo.
— O cheirinho tá uma delícia — disse Lesten agradecido. — Vou devorar tudo agora mesmo!
— É ótimo ouvir isso. Tudo aqui no Soleil é preparado com muito carinho — falou Doppel, sentando-se na cadeira oposta à do lagarto para descansar um pouco. — Ufa, aqui está uma loucura sem o Ralph. Pode não parecer, mas um ajudante faz muita falta nos fins de semana.
— O ruivo é esforçado. Diferente de mim, que quebraria qualquer coisa que encostasse — disse o lagarto entre risadas.
— Deixe-me perguntar, reparei que você está procurando por missões no quadro de avisos. Por um acaso está procurando por emprego?
— Ah, eu não sirvo pra esse tipo de coisa, não. Gente como eu não serve para receber ordens e trabalhar num lugar só, por isso é comum nos cadastrarmos para realizar pequenas tarefas para a população, eu faço isso desde que mudei para a Ilha dos Geckos para receber uns trocados — explicou Lesten, distraído com sua comida. — Os habitantes de Pequena Colina só pedem coisas do tipo: ajude um casal de velhinhos a colocar o filtro de água, faça o meu jardim, troque as telhas. Eu sou um guerreiro, não um marceneiro!
— Eu entendo. Nunca acontece nada muito interessante por aqui mesmo — respondeu Doppel entre risadas —, mas eu tenho uma oferta para você. Volto para casa as cinco hoje, pode ser?
— Opa, estarei lá! Afinal, eu tô dormindo no seu sofá de qualquer maneira...
No horário combinado, Lesten voltou para a casinha no topo da colina e esperou Doppel balançando na rede. Mesmo que parecesse distraído enquanto descascava laranjas, seu olfato e audição eram sempre aguçados, dificilmente alguém conseguia surpreendê-lo.
— Veio roubar minhas laranjas, né, fêmea?
— Droga. Tentei te dar um susto, mas pelo visto você estava bem atento — retrucou Auria que se aproximava devagar. A mulher trouxera quatro garrafas de refrigerante para compartilhar com o amigo, depois deu um salto para sentar-se sobre as espessas tábuas que contornavam a varanda e propôs-lhe um brinde.
— E aí, como tem sido a vida na academia desde que voltou a treinar na Vila das Pérolas? — perguntou o gecko. — Os humanos pegaram no seu pé por ter desaparecido um mês?
— Que nada. Justifiquei com uma licença médica e uma visita inesperada a um familiar doente em Constantia — explicou Auria. — Eu voltei transformada. Todos estão notando em mim, até mesmo os professores. Minhas notas e desempenho subiram de forma considerável, garanto que no próximo semestre já serei escalada para ingressar no exército. Nossa viagem pelo reino me fez muito bem.
— Tu é o bicho, fêmea. Não há nada que você não consiga.
O lagarto compartilhou suas laranjas e os dois conversaram sobre os acontecimentos dos últimos dias. Auria os visitava ocasionalmente aos fins de semana, pois precisava pegar apenas duas conduções. Ela sentia muita falta de viver na Pequena Colina e estar entre seus amigos.
Não demorou muito para que Doppel também chegasse do Soleil. Lesten estava ansioso para ouvir mais sobre a tão aguardada missão que seria enviado.
— Veja. Minhas flores estão desaparecendo — falou Doppel enquanto mostrava o canteiro no jardim. Lesten estava preparando seu discurso de “não sou jardineiro” quando foi interrompido. — Pode até parecer um caso isolado, mas a questão é que apenas uma espécie foi arrancada, trata-se de uma flor rara que cultivo chamada Mother’s Flower, e elas são vendidas a altos preços em datas comemorativas para representar gratidão.
— Talvez alguém as esteja roubando — ponderou Auria.
— Não, não. — Lesten debruçou-se para examinar o chão, mesmo que já estivesse escuro. — Veja. Há pegadas aqui por toda a parte.
— Sim, foi por isso que decidi chamá-lo. Você conhece bem de terrenos e monstros, e aqui está um rastro que eu não soube identificar. Imagino que se trate de um estranho bando de criaturas diversas, pois veja, há marcas que se assemelham ao casco de cavalos, mas também de algum tipo de felino, grandes e pequenos. Que tipo de animal iria misturar-se assim com outros de diferentes espécies?
— Olha, eu tenho um palpite do que se trata, mas... tu tem que prometer que não vai rir de mim — disse o gecko com o semblante sério. — Esse rastro está com cara de ser de um Cavazevamuonga.
Auria precisou conter a risada pelo nariz.
— Que merda de nome é esse? — brincou a defensora.
— É uma criatura lendária que hoje só existe em histórias perdidas e livros infantis. Dizem que eles habitaram Sellure desde os tempos imemoriais, mas foram desaparecendo conforme as pessoas se corromperam, pois eles são muito sensíveis à energia das coisas.
— E por que você chegou à conclusão de que essa pegada pertence a um... — Auria fez um sinal breve com a mão — chupa-cabra, sei lá como você o chama.
Ca-va-ze-va-mu-on-ga. É uma quimera de diversas espécies, a mais conhecida surgiu entre a junção de um cavalo, uma zebra, uma vaca, uma mula sem cabeça, uma onça e um gato.
— E o que seria uma mula-sem-cabeça? — Doppel perguntou intrigado.
— Sei lá, é que dizem que eles trocam de cabeça de tempos em tempos. Aí enquanto ele fica “descabeçado”, do seu pescoço saem labaredas de fogo. É uma parada sinistra, tá ligado?
Dessa vez nem Doppel aguentou ouvir tamanho absurdo. Lesten revirou os olhos e foi deitar-se na rede, pois para ele discutir a origem de monstros mitológicos era algo muito sério. Antes de se retirar, Doppel tocou seu ombro e falou de maneira gentil:
— Sinta-se livre para aceitar a missão, se quiser. Experimente investigar o que for necessário, não me importa se você conseguir comprovar a existência dessa criatura ou não, contanto que ela pare de roubar minhas flores.
— Beleza, eu aceito sim! — disse o lagarto com prontidão.
— Perfeito. Aguardo os resultados. Agora, se me derem licença, vou tomar um banho rápido e assistir minha novela antes de dormir — despediu-se Doppel, deixando as duas visitas cheias de expectativa na varanda.
— Isso vai ser mais interessante do que imaginei! Caçar um monstro raro desses certamente aumentaria meu reconhecimento na Sociedade dos Caçadores de Monstros.
— Eu nem sabia que você fazia parte de uma sociedade, lagartixa — respondeu Auria.
— Pra onde tu achou que eu mandei todos os espólios da nossa jornada? A base fica em Trajan, tem carteirinha de sócio e tudo. Eles fazem um registro e às vezes até pedem para que o artefato em si seja doado para o museu da capital, mas me disseram que meus itens não tinham nenhum valor e devolveram todos...
— Eles são importantes para você, e isso é o que importa.
— É, tu tem razão. Estou tão ansioso para começar a caçada que poderia sair agora mesmo, mas no escuro não vai adiantar nada — ponderou o lagarto. — Ei, fêmea, o que acha de ser minha parceira nessa aventura?
— Eu? — Auria perguntou surpresa, nunca antes Lesten a convidara para fazer parte de nenhuma de suas missões malucas. — Estou exausta, tive uma semana puxada na academia...
— Qual é, tu é perfeita para o papel!
— Jura?
— Não. O Ralph era minha primeira opção na verdade.
— Só me diga uma coisa: você vai me tratar como sua parceira ou ajudante? Porque não quero sair por aí carregando equipamentos pesados enquanto você se diverte caçando. O fato dessa ser minha primeira tarefa reconhecida me agrada, mas qual seria a recompensa?
— Podemos pedir um mês de sanduíche grátis pro Doppel!
— Eu super topo.
— E acrescento que você será minha fiel companheira, óbvio. Nenhum livro consta o nível de ameaça dos Cavazevamuonga, não se sabe se são agressivos e qual nível de perigo representa, então, se alguma coisa acontecer comigo, eu preciso que tu leve o meu corpo de volta e espalhe para o mundo meus feitos gloriosos para que eu seja reconhecido.
— Isso vai ser mais interessante do que imaginei.

i

Auria despertou com um susto quando Lesten entrou em seu quarto já trajado de armadura e com sua lança em mãos. A moça procurou pelo despertador que ainda nem havia tocado cinco e meia da manhã, o sol mal tinha nascido — na verdade, ninguém na Pequena Colina inteira devia ter acordado.
— O que tu tá esperando, fêmea? Os monstros acordam cedo, essa é a melhor hora para caçá-los!
— Ah... eu acho que não vou mais — murmurou a mulher com a cara no travesseiro. — Minha cama está tão confortável...
— Tá doida? Tu me prometeu, agora deve cumprir a palavra! Simbora, levantar cedo é só uma das partes emocionantes da viagem. Já imaginou que tu vai poder ver o nascer do sol na colina, sentir cheiros que nunca sentiu antes, vislumbrar os animais em seu habitat natural, e... ei, tu tá me ouvindo?
Auria roncava baixinho ao seu lado. Ao dar-se conta de que não havia nada que pudesse fazer para tirá-la dali, o lagarto decidiu usar suas artimanhas mais criativas.
Algo molhado tocou seu rosto, o que fez a mulher levantar-se aturdida.
— O que você fez comigo?
— Eu lambi a tua cara. Agora que tu acordou, se troca logo e vamos caçar.
— Eu te odeio, lagartixa.
O dia mal tinha começado quando a dupla deixou a casa no topo da colina. Auria caminhava devagar com as pernas tortas feito uma Capivara Zumbi sem rumo algum, estava tão sonolenta que não conseguia acompanhar a agitação de seu amigo gecko que ficava mais ativo nas primeiras horas da manhã.
Como a Pequena Colina se localizava em uma ilha isolada do Mar Plano, não havia nenhum outro lugar para onde o raro monstro pudesse ter fugido, logo, a perseguição não se estenderia por vários dias. O principal problema era que Lesten não tinha nenhuma pista do que eles comiam, onde viviam e quais formas assustadoras poderiam assumir — e se dentre suas mirabolantes transformações estivesse também a de pássaro? O Cavazevamuonga não teria problemas para voar longe dali, ou quem sabe até esconder-se nas profundezas do oceano caso a forma de animal marinho fosse uma opção.
— Então estamos nos baseando em um livro infantil para caçar essa criatura? — Auria perguntou, seguida de um bocejo. — Eu não sei nem com o que esse bicho se parece.
— Eu já falei, é uma mistura louca de cavalo, zebra, vaca-- ah, deixa eu desenhar logo para tu ver se entende.
O gecko tirou seu caderno de anotações do alforje e começou a rabiscar a criatura de acordo com as lembranças que tinha dos tempos em que frequentara a pré-escola de lagartinhos. Auria já estava rindo só de vê-lo tentar manusear um lápis; terminada sua obra de arte, ela riu ainda mais.


— Ah, ele é mais fofo do que imaginei — Auria disse com educação, escondendo o fato de que o desenho parecia ter sido feito por uma criança de cinco anos.
— Tá vendo os detalhes que coloquei? Ele tem a cabeça de um gato, mas presas e garras afiadas como as de uma onça. As marcas em seu corpo lembram pintinhas ou listras, há quem diga que são bolinhas coloridas. Já as pastas podem se transformar em grossas pernas de um cavalo, por isso eles correm com uma velocidade absurda e nunca conseguem ser capturados. O rabo deles também é todo listrado, que nem das zebras. E eu coloquei esse sininho no pescoço porque... pra ser sincero, não sei onde entra a vaca nessa descrição.
— Fala a verdade, você inventou tudo isso.
Heresia! — contestou o lagarto. — Eu nem teria criatividade para isso.
— Bem, o que importa é que se esse bicho surgir na nossa frente, não vai ser muito difícil de perceber que algo está errado — comentou Auria, ainda distraída com o desenho. — Olhe só para a carinha dele, os olhinhos lembram um par de jabuticabas.
— Tu esqueceu que sai fogo da cabeça dele.
— Eu jurava que era o cabelinho.
A dupla tomou o percurso que começaria contornado as zonas mais remotas da ilha. Há muito tempo Ralph e seus amigos visitaram as montanhas de Pequena Colina para acampar, aquela fora uma de suas primeiras aventuras na região e todos se divertiram muito. Colina não era famosa por monstros perigosos, nada de especial acontecia em seus arredores e a experiência requerida para que iniciantes começassem sua jornada ali beirava o Nível 1.
Por volta das dez horas, Auria espreguiçou-se revigorada. Finalmente se dera ao direito de curtir a aventura, a paisagem era belíssima e o contato com a natureza diversificava da paisagem de sempre que tinha na academia. Talvez aquela missão até ajudasse em seu treinamento de sobrevivência.
A caçada se estendeu até o meio dia, quando os dois fizeram uma pausa para o almoço. Após atingir a praia no outro extremo da ilha, Lesten ainda não tinha nenhuma pista que o levasse até o Lendário Cavazevamuonga.
— E se estivermos perseguindo a presa errada? — cogitou a mulher. — Digo, pode ter sido qualquer coisa que roubou aquelas flores, até mesmo uma pessoa.
— Meu instinto aponta o contrário. Vamos lá, fêmea, isso não te deixa excitada?
— Err... não.
— Nada nesse mundo te impressiona, não é mesmo?
— Não diga bobagens, é bem fácil de me impressionar — disse Auria entre sorrisos. — Por exemplo, o Ralph. Ele é sempre tão cheio de improvisos que sempre sou pega desprevenida, gosto dos abraços dele e da maneira como ele fica me olhando um tempão, o que me deixa super sem graça, visto que não consigo encarar ninguém nos olhos.
Lesten aproximou-se dela e ajoelhou em sua frente, mantendo o semblante circunspecto. Auria recuou acuada, esticando o braço em sua direção para que ele parasse.
— O que você tá fazendo? Isso é embaraçoso.
— Eu estava testando uma coisa — respondeu Lesten. — Acho que tu nunca esteve com ninguém.
— Estar com alguém no sentido de... namorar?
— Também. Mas eu digo pra acasalamento.
Auria corou ainda mais envergonhada.
— E por que você chegou a essa conclusão, senhor sedução?
— Instinto. E também o teu cheiro, é muito fácil para os geckos sentirem quando a fêmea está naquela fase, sabe? E acho que o fato de você não conseguir nem encarar alguém na cara mostra um lado bem tímido seu, apesar de tu sempre tentar bancar a durona.
— Tá, e qual o problema? Eu nunca fiquei com ninguém mesmo — Auria afirmou irritada. — Parece que os caras são intimidados por minha aparência, eles devem achar que sou assustadora por ser mais alta do que eles, ou que não sou meiga e feminina o bastante.
— Vacilo deles, não sabem o que estão perdendo. Machos assim têm o ego frágil demais para tentar algo contigo. Pode parecer que não, mas nós, geckos, também não saímos por aí feito animais descontrolados. Geckos são as criaturas mais fiéis do mundo, sabia? E, pode não parecer, mas também somos superprotetores com nossos filhotes. Dizem que as fêmeas que perdem sua ninhada sofrem de uma doença que as faz desejar nunca mais ter outro filho. Muitas vezes elas são levadas a adotarem outras raças para compensar a perda.
— Sério? Será que foi isso que aconteceu com o Ralph? — perguntou Auria.
— É provável — presumiu Lesten. — Geckos podem ter seus inúmeros defeitos, mas garanto que tu nunca vai se decepcionar caso namore um.
— Heh, heh. É, seria interessante.
— A seu dispor — brincou Lesten, galanteador.
Os dois se afastaram e um breve silêncio se estabeleceu. Lesten coçava a cabeça enquanto Auria brincava com suas madeixas e refletia sobre o assunto.
— Eu queria saber como é beijar alguém. Queria que fosse... especial — murmurou Auria, como se estivesse com aquilo preso na garganta desde que era uma adolescente. Lesten voltou-se para ela impressionado, era a primeira vez que sua amiga compartilhava um segredo tão íntimo com ele.
— E o Ralph? Chega nele, ué. Essa coisa de que é sempre o cara que tem que tomar iniciativa é baboseira.
— Ah, o Ralph é tipo o meu irmãozinho caçula. Eu quero protegê-lo de todas as formas. Eu ainda não sei o que sinto por ele, mas é um amor terno e vivo com medo de estragar tudo caso ele não compreenda. Será que conseguiríamos continuar sendo amigos caso ele me rejeitasse?
— Ele é o Ralph, fêmea. Vai te amar pelo resto da vida. Juro que não entendo por que os humanos têm tanta dificuldade em usar essa palavra. Se tu gosta de alguém, vai lá e fala, ué! Olhe só para você, tu é gostosa demais! E vou te contar, eu não curtia muito as fêmeas humanas antes de te conhecer, mas tu tem um rabão que tira a concentração de qualquer um.
Auria soltou uma gargalhada alta da brincadeira descarada. Algumas garotas poderiam ter ficado irritadas, mas ela apreciava a maneira como Lesten era sempre sincero e espontâneo. Geckos não precisavam de mais de um minuto para resolver uma situação que os incomodasse; assim como fariam questão de usar todas as palavras que seu vocabulário limitado permitisse para elogiar.
— Eu preciso aprender a dizer em voz alta o que sinto — admitiu Auria. — Não quero mais perder oportunidades.
— Tá tudo bem, faça isso no seu tempo — disse o lagarto, sentando-se ao lado dela. — Você não precisa seguir o modelo de ninguém. Entre geckos não existe essa de “antes dos trinta tu precisa se casar, ter filhos e construir um lar”. Sabia que há relatos de figuras históricas de minha raça que se casaram aos sessenta anos e tiveram inúmeros filhotes?
— Acho que nunca vou ser mãe.
— Se você vai ser mãe ou não, aí eu não sei, mas que tu leva jeito, isso é!
— Acha mesmo? — Auria sorriu para ele. — Tenho medo de arremessar meu filho da janela se ele me irritar.
— Nem me fale, cuidar de crianças é para poucos. Se bem que eu acho essa uma tarefa louvável, tá ligado? Tem que ter dom para ser pai ou mãe. Quando ouço falar que na sua raça é muito comum o divórcio, sério, eu fico possesso! Abandonar um filhote é uma desonra tremenda, é como ser considerado um traidor. Mesmo que dois geckos se odeiem, eles cuidarão de sua ninhada pelo resto da vida.
— Isso é mesmo interessante. Adoro saber mais sobre os geckos — admitiu Auria, abraçando os próprios joelhos. — Antes de dormir, vivo imaginando durante as madrugadas o que o futuro me aguarda. Será que vou encontrar minha cara metade? Será que minha primeira vez será especial, ou esta sou eu apenas criando expectativas demais e sonhando minha vida de princesa?
— Olha, fêmea, o único conselho que posso te dar é se deixar levar. Tu tem todo o direito do mundo de escolher quando e com quem, mas também não imagine demais, porque na hora pra valer a coisa toda é sempre uma bagunça e nada sai como planejado, heh, heh — falou o lagarto. — Sempre siga o seu coração, tá bem? Eu chamo isso de instinto, mas deve ser a mesma coisa.
— Obrigada pela conversa, Lesten. Eu só costumava falar assim com minhas irmãs, e sinto muito a falta delas.
— Estou aí para tudo! Tu é a minha garota afinal, parece até com um... MONSTRO!
— ...sério? Você é meio instável, lagartixa.
Lesten apontou com sua lança para trás da moça onde uma criatura bizarra caminhava devagar na encosta. Ela era exatamente como no desenho de Lesten — uma combinação desvairada de animais num só lugar; com olhinhos de jabuticaba e pintas confusas que se misturavam como uma obra artística. A maior diferença estava no tamanho, pois ele não media mais do que sessenta centímetros de comprimento, e não mais de dois metros como diziam por aí.
Auria ativou a armadura de sua jaqueta em caso fossem atacados de surpresa, embora a criaturinha pastasse com tanta calma comendo um pouco de grama que era impossível considerá-la uma ameaça.
A mulher aguardou qualquer sinal de seu parceiro. Se Lesten quisesse mesmo matá-la, teria arremessado sua lança com uma velocidade que a teria perfurado ao meio. Ele fez sinal de silêncio e apontou para que a acompanhassem.
Auria o seguiu da forma mais minuciosa que pôde, ficava nítida a destoante diferença entre suas habilidades, Lesten era um exímio caçador que subia em árvores e se arrastava pelo terreno como se fosse parte dele. O Cavazevamuonga devia morar ali perto, logo, os dois o seguiram até um tronco de árvore tombado após um vendaval que servia de abrigo. Auria observou a criatura se aproximar devagar e deitar-se em um berço feito de folhas e flores coloridas onde três pequenos filhotes ainda tinham os olhos fechados — e eles eram de uma mistura ainda mais bizarra do que sua mãe; o primeiro nascera com um par de asas, o segundo, com uma cauda de peixe; e o terceiro, bem... era o mais normalzinho deles por ter cinco patas. Ela começou a amamentá-los, completamente alheia ao fato de que estava sendo vigiada, pois naquele momento tudo que importava eram seus filhotes.
— É uma mamãe — sussurrou Auria com a voz encantada.
— Ela recolheu flores para construir um berço! Como não pensei nisso? Agora me lembro de que as ilustrações do livro eram todas coloridas e cheias de flores diferentes.
Os dois se entreolharam e não precisaram dizer em voz alta que preferiam ver aquela criatura livre para cuidar de sua ninhada, talvez os últimos Cavazevamuonga que viveriam em segredo no santuário que era a Pequena Colina.

ii

Ao retornarem para casa, Auria e Lesten contaram todos os detalhes de seu encontro para Doppel que os ouviu admirado. Ele não se importava de cultivar mais flores, se aquilo significasse que os futuros filhotes as buscariam para enfeitar sua morada.
No fim da tarde, a dupla estava exausta de tanto andar a ponto de desabarem no sofá da sala. Quando Ralph e Raegar voltaram de viagem eles compartilharam outra vez os acontecimentos recentes e todos riram muito. Lesten preferiu não revelar a existência do lendário Cavazevamuonga para a Sociedade dos Caçadores de Monstros, pois temia que a exposição os deixasse em um estado de frenesi. Enquanto ele vivesse na ilha, nenhuma outra raça colocaria em risco a segurança daqueles filhotes. No fim das contas, a experiência valera mais do que qualquer sanduíche feito por Doppel, que de qualquer maneira os recebeu com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate quente que fez toda a jornada valer a pena.
Auria pegou Lesten rabiscando em seu caderninho de anotações, e quando esgueirou-se por trás dele para ver do que se tratava, levou um tremendo susto com o susto que lagarto levou.
Cruzes! Nem te vi aí, fêmea!
— O que você estava fazendo?
— Ah, nada não, só atualizando o meu desenho... de fato, acho que eles não soltam fogo pela cabeça, isso devia ser coisa da minha imaginação, mas descobri qual parte no Cavazevamuonga representa a vaca.
— E qual seria?
— A palavra proibida: tetas.
Os dois riram e foram dormir.


Notas do Autor

O Cavazevamuonga é um desenho que sobreviveu ao tempo, tendo sido ilustrado em meados de 2006/2007 no canto de uma folha de caderno, e sabe-se lá qual foi a sua origem. A imagem de capa do capítulo é a mesma daquela época, então ela de fato foi feita por uma criança.

Eu adoro escrever Supports baseados em anotações antigas minhas porque elas são sempre cheias de ideias malucas. Nem sempre elas servem para o livro, mas dá para criar muita coisa engraçada disso. Vejam só, foram 3900 palavras sobre uma quimera bizarra que come flores!

Outro motivo que me levou a escrever esse support foi uma categoria do The Omascar. Lá em Melhor Casal muita gente se assustou com Lesten x Auria como um dos indicados (eles não receberam nenhum voto, só para constar). Cheguei até a ouvir algumas frases como: QUEM SERIA LOUCO DE SHIPAR ESSES DOIS? Mas eis aqui a verdade: eu até que gosto deles juntos. Não é do tipo de shipp fofo como Ralph x Auria, mas eles aprenderam a respeitar um ao outro e tiveram uma tremenda evolução desde o dia em que se conheceram na Ilha dos Geckos. Os dois podem conversar sobre assuntos que não aconteceriam com o Ralph junto, por exemplo, então foi me diverti muito vendo que mesmo sem o protagonista da história eles conseguiram segurar um capítulo inteiro. Espero que tenham se divertido com essa curiosa junção!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Uma Rede no Meu Quintal [Support]


Support Conversation [A Ordem] 
Personagens: Aedan, Elice, Bernard, Bill, Tootie e Elma;
Gênero: Comédia, Slice of Life;
Tema: Após se instalarem na Pequena Colina, os guardiões da Ordem do Selamento levam uma vida tranquila sem grandes preocupações.
Inspirado nos meus primeiros gibis.

Aedan caminhava pela varanda completamente entediado. Sentia falta do movimento da cidade, dos som alto e a correria das manhãs agitadas durante a semana. Elice insistira na ideia de que alguns dias de férias lhe fariam bem, mas não via a hora de voltar, seus companheiros da Ordem estavam tão habituados à vida na Pequena Colina que era como se sempre tivessem vivido por aquelas bandas.
Elma, Bill e Tootie estavam concentrados na reforma da fortaleza abandonada, um campo de observação que fora deixado para trás desde os tempos da Guerra das Espadas. Com seus poderes mágicos, cada tótines se disponibilizou a ajudar e agilizar o processo, foi Elice quem sugeriu a ideia de transformar o forte em uma “base secreta” onde pudesse brincar sempre que viesse para brincar com seus amigos. Além de servir como moradia, os guardiões da Ordem estabeleceram ali sua morada e ofícios, Elma construiu uma oficina enquanto Bill e Tootie começaram um lucrativo negócio com venda de itens usados e poções.
Naquela manhã monótona, ninguém havia preparado nada de especial. Aedan caminhava pelo jardim quando avistou algo de seu interesse uma enorme rede pendurada entre dois pilares, onde um preguiçoso Bernard se esparramara roncando feito um dragão filhote, balançando vagaroso conforme a brisa batia. Aedan parou ao lado do amigo e o examinou com os braços voltados para trás.
— Interessante — murmurou Aedan com naturalidade.
— Ah, olá — disse Bernard ao despertar. — Gostou, meu rapaz? Comprei semana passada de um mercador que esteve na ilha, foi uma das melhores coisas que fiz nos últimos anos.
O gigante espreguiçou-se com vontade, ajeitou o chapéu na cara e preparou-se para tirar uma soneca de outras três horas.
Aedan continuou a observá-lo intrigado. Sua mente trabalhava um plano infalível para apoderar-se daquela rede.
— O que houve, filho? — perguntou Bernard após alguns minutos ao dar-se conta de que ele ainda não fora embora.
— Nada. Estou só olhando a paisagem — respondeu Aedan. — Na realidade, eu pensei ter visto o seu navio atracado na costa, pois havia alguma espécie de monstro marinho rondando ele, então vim avisar.
— O QUÊEEE? — Bernard saltou da rede com espanto. — Ninguém mexe com o meu bebê! Aedan, tome conta dos demais, eu vou ver o que está acontecendo e volto o mais rápido que eu puder, obrigado pelo aviso!
Assim que o gigante saiu às pressas, Aedan revelou um sorriso vitorioso. Certificou-se de que o capitão estivesse longe, e então, acomodou-se na confortável rede como se fosse um trono dourada. Levando em conta que a praia ficava a alguns quilômetros da colina, Bernard demoraria pelo menos cinquenta minutos para ir e voltar até dar-se conta de que tudo não passara de uma mentirinha discreta.
Aedan esticou os braços e pernas para trás exatamente como vira seu amigo fazer. Como nunca antes pensara em comprar uma daquelas? A sensação era incrível, poderia passar um dia inteiro ali sem se cansar, mas a um dado momento sentiria fome — céus, talvez até precisasse ir ao banheiro! — e sabia que o menor desleixo seria o suficiente para que a rede fosse roubada de sua posse.
Passou os minutos seguintes ponderando um plano; ficaria ali deitado para sempre se pudesse, mas para isso precisaria de alguns livros e um bom serviçal para trazer-lhe um refresco de vez em quando. Quando viu Elice passar berrando de alegria por ali com um cata-vento que Bill montara para ela, uma frutífera parceria irrompeu sua mente, afinal, qual outra serventia teriam irmãzinhas mais novas?
— Ei, Elice. Venha aqui um pouquinho — chamou seu irmão.
— Uau, Aedan! Você comprou uma rede igualzinha a do tio Bernard!
— É do Bernard — ele respondeu convicto, como se já fosse sua por direito.
— Ah, legal. E eu posso brincar?
Aedan nem precisou abrir os olhos.
— Nem pensar, isso é só para gente grande. Embora eu tenha uma outra utilidade para você, e só você pode fazer isso por mim. O que me diz de trazer algumas laranjas lá do armazém e levá-las para a Elma que está na cozinha? Hoje está um tremendo sol, peça para ela preparar um pouco de suco de laranja para você, e então traga um pouco para mim também.
— Ah, tudo bem. Quanto você vai me pagar?
— Quem andou te ensinando essas coisas, menina?! — indagou o mais velho.
— Foi o Bill, ele disse para eu tirar proveito de tudo e nunca trabalhar de graça.
Aedan murmurou insatisfeito, pelo visto sua irmã já não era mais tão manipulável quanto antigamente e seus companheiros da Ordem não vinham se mostrando como uma boa influência. Da mesma forma que Aedan ficara matutando uma maneira de arrancar Bernard dali, os olhos diabólicos da menina de dez anos demonstravam o quão determinada ela estava a tirar seu irmão daquela rede, nem que fosse somente para provar sua supremacia.
Elma saiu para a varanda naquela mesma hora com uma bandeja de doces que acabara de preparar.
— Achei você, querida. Quer provar uma receita nova? Acho que você vai gostar, são biscoitos amanteigados com gotas de chocolate e sorvete de creme — disse Elma de forma gentil, notando então que Elice estava mais quieta do que o costume. — Ora essa, o que houve?
Elice devolveu um olhar maligno e cruel para seu irmão.
Ele me bateu!
Aedan! Como pôde?! — Elma berrou desapontada.
O quê? Qual é, você acha mesmo que eu faria isso?
— Conhecendo você, sim — respondeu a mulher. — Peça desculpas agora mesmo para sua irmãzinha querida.
— Eu não vou pedir. Essa criatura é um monstro disfarçado.
— Aedan, você é mais velho e deveria cuidar dela. Olhe só para esses olhinhos meigos e angelicais, acha mesmo que uma criatura santa como a Elice poderia mentir ou fazer mal algum à alguém? Vamos lá, peça desculpas. Agora.
O homem engoliu seu orgulho, se aquilo se significasse se livrar daquelas duas o quanto antes.
— Tá, tá. Desculpa. Agora me deixem dormir.
— Manda ele deixar eu subir na rede também, tia Elma!
— Aedan, seja um bom irmão e deixe sua irmã deitar-se com você, essa rede tem espaço o suficiente para vocês dois. Vou preparar um suco de laranja enquanto o Doppel termina o almoço, acho que os meninos já estão voltando do vilarejo, logo chamo vocês para virem também. Sejam bonzinhos agora, sim?
Assim que Elma se retirou, Aedan encarou a menina estirada ao seu lado com um olhar mortal.
— Sobe logo, criatura.
— EBA!
Elice saltou em cima da rede e caiu no colo de Aedan, estava tão alegre que mal pôde conter a sua agitação. Ela não parava de falar de como fora seu dia na escola e das tantas flores que encontrara durante a caminhada matinal com Ralph, depois começou a fazer impulso para que a rede balançasse cada vez mais forte, daquela forma seria impossível ter um minuto de sossego.
Após quase dez minutos de conversação e algazarra, a menina aninhou-se ao peito de Aedan e suspirou aliviada, encarando-o com seus olhinhos brilhantes.
— Obrigada por me deixar subir. Você é o melhor irmão do mundo.
— É — ele jogou os braços para trás e virou a cara, envergonhado. — Tanto faz.
Após um minuto de tranquilidade, Elice voltou a atacar.
— E agora? Isso aqui está muito chato, não vamos brincar?
— Você fecha os olhos e dorme, entendeu? É para isso que servem as redes.
— Ah, tá. Não sabia — Elice o abraçou e ficou mais alguns minutos quieta antes de sussurrar em seu ouvido. — Aedan, a rede está parando. Empurra mais forte?
— Alguém precisa descer para empurrar, e essa pessoa não sou eu.
— Tudo bem, eu faço.
Elice desceu da rede e usou todo o impulso do corpo para empurrá-la. A menina estava tão distraída que, quando a rede voltou, acertou-a na cara, derrubando-a lá longe. Aedan arregalou os olhos e precisou descer para socorrê-la.
— Elice! Menina, por que você só se mete em confusão?!
Assim que percebeu que seu irmão estava fora da rede, a pequena deslizou por debaixo das pernas dele e roubou seu lugar.
— Huehueheue, te enganei! Estou aprendendo com os melhores — disse Elice, rindo maleficamente. Aedan semicerrou os olhos, pois não acreditava que havia sido enganado por uma criança. — Muito bem, muito bem, agora que eu sou a dona da rede, vou instalar aqui meu novo regime. Empurre-me, caro servente. Isso é uma ordem. Vamos, você não vai deixar a sua rainha esperar, sim?
Aedan franziu o cenho e cruzou os braços. Usando seu cata-vento como um cetro sagrado, Elice impunha suas vontades chegando ao ponto de pedir bajulações e massagem nos pés. Enquanto apoiava-se na estrutura da casa, Aedan começou a empurrar a rede pensando em mil maneiras de arrancar sua irmã dali sem parecer muito agressivo.
Elice balançava alegremente quando Bill passou por perto carregando um caixote de brinquedos velhos para sua nova loja.
— Oh, veja, meus servos já começaram a aparecer — disse Elice empolgada. — Bill Von Altenburg, eu o nomeio espião oficial de meu reinado. Sua função é cobrar impostos dos pobres e tirar o que eles já não têm, enquanto enriqueço e engordo em meu palácio real à custa do povo.
— Eita, isso aí não fui eu que ensinei pra ela, não — respondeu o gatuno com uma risada.
— Onde está indo com essa caixa cheia de tesouros? Venha me doar seus 10% que é de direito meu! — disse a menina, incorporando sua posição como realeza. — Por sinal, eu tenho uma função para que você. Preciso que roube algo de estimado valor na cozinha.
— E do que se trata? — perguntou Bill. — Espere, não diga. Pelo cheiro não terei dificuldades em localizar o artefato.
Bill vestiu sua máscara, como se estivesse para realizar um roubo de verdade. O gatuno soltou pela janela com uma cambalhota e voltou alguns minutos depois da cozinha trazendo a bandeja de biscoitos feitos por Elma. Ele ajoelhou-se em frente à Elice e ofereceu o prato inteiro para sua rainha que regozijou-se com o serviço prestado.
Assim que comeu o primeiro biscoito, a menina encolheu os ombros e esboçou uma feição de prazer, pois estavam deliciosos. Ela não parava de sorrir. Enquanto tivesse sua rede, sua coroa e um prato cheio de doces, não precisaria de mais nada no mundo.
— Bill, estamos brincando de rede, quer brincar também? — perguntou Elice.
— Maneiro. E o que vocês fazem? — continuou o gatuno.
— Não deixamos o Aedan sentar.
— Hah, hah. Eu quero!
Aedan revirou os olhos. Ela estava se tornando uma verdadeira oportunista. Bill e Elice balançavam cada vez mais forte quando Tootie passou ali perto em busca do parceiro que a deixara esperando na loja.
— Oi, pessoal. O Bill está por aí?
— Princesa, estou aqui! Junte-se ao nosso império!
— Eu agora sou uma rainha, ditadora, imperatriz. Estamos aprendendo muita coisa legal nas aulas de história — respondeu Elice.
— Nossa, uma rede — comentou Tootie. — Vocês sabiam que elas foram criadas pelos povos antigos e eram feitas de cipós e lianas? Como vivi muito tempo no Deserto Elmud, era comum encontrar mercadores que dedicavam seu tempo a produzirem artesanatos e peças como essa. Olhando mais de perto, talvez essa rede tenha sido mesmo feita em Elmud...
Tootie, cuidado!
A rede acertou a cara de Tootie com tanta força que a menina foi parar longe.
— Por Araya, nós matamos ela!
— Hah, é isso que acontece com quem desafia meu poder! — gritou Elice.
— Mas ela veio em paz! Você precisa de aliados se quiser que seu reino prospere.
— Eu não preciso de ninguém enquanto vestir uma coroa, todos que me contrariarem devem ser executados! Desde quando vendeu seus serviços para outro reino, Bill? Você estava espionando meus métodos e vendendo informações, não é? Saia, saia! Deixe-me a sós, pois já não sei mais em quem posso confiar em tempos sombrios como esse!
Aedan estava começando a se divertir com o rumo daquela história quando se deu conta de que uma sombra enorme se projetara sobre eles. Ao olhar para trás deu de cara com o Capitão Bernard, o velho estava de braços cruzados e uma expressão enfadonha, pelo visto ele acabara de voltar de sua trajetória infrutífera até a costa.
— O que vocês estão aprontando? — perguntou o gigante.
Elice deu um grito e escondeu-se dentro da rede.
— Os monstros chegaram! Reúnam nosso exército, resistam! Ninguém vai me tirar do posto que demorei tanto para conquistar!
— E por que eu faria algo assim? — continuou Bernard, ajoelhando-se ao lado da menina e sorrindo para ela de forma adorável. — Essa rede é que nem coração de mãe, sempre tem espaço para mais um!
O velho agarrou seus amigos e pulou na rede que praticamente envergou com o peso de cinco pessoas; Aedan se espremia com Elice no colo, do outro lado Bill e Tootie coravam por estarem com os rostos perto demais um do outro. Quando Elma colocou a cabeça para fora da janela para espiar o que estava acontecendo, não pôde deixar de rir com a cena.
— É assim que eu gosto — disse a mulher com as mãos apoiadas no batente. — Será que tem espaço aí para mais uma?
— Agora que estão todos acomodados, se não se importarem, eu vou tirar um cochilo — falou Bernard enquanto balançava a rede com os braços.
— Nem pense nisso, dá pra ouvir você roncando a quilômetros de distância! — retrucou Aedan.
— Falando nisso, devo agradecê-lo, Aedan. Eu havia me esquecido de ancorar o navio quando saí, se não fosse por você, ele já estaria bem longe daqui.
— Ah... não foi nada.
— Não consigo nem me mexer — comentou Bill, todo torto.
— Nunca tive tanta gente encostando-se a mim, esse contato físico ainda me é estranho, mas eu gostei... — murmurou Tootie de forma acanhada, sentindo um arrepio súbito percorrer até sua nuca. — ...ah! ♥ Bill, foi você?
— Foi mal.
Aedan respirou fundo, no fim das contas, se divertira à beça. Percebeu que estava mais confortável agora do que antes, apoiou os braços para trás e sentiu a brisa bater, a tranquilidade relembrá-lo o porquê de ele adorar tanto a Pequena Colina e desejar nunca mais deixá-la.
— Podemos ficar assim para sempre? — Elice o abraçou de olhos fechados.
— É — Aedan falou baixinho, prestes a adormecer. — Acho que assim está perfeito.



NOTAS DO AUTOR

Apesar de só estar sendo postado em 2020, tenho registrado no documento desse arquivo que ele foi escrito em Agosto de 2015, logo, esse deve ser o Support mais antigo que escrevi. Levou quase cinco anos para que ele fosse postado, e nem sei dizer ao certo o motivo de tamanha demora, talvez eu só tenha me esquecido mesmo... De lá para cá, poucas coisas mudaram na história original, mas precisei  dar uma revisada que incluiu mais 1000 palavras, além de fazer alguns ajustes que conectam com a história principal, como o fato da Pequena Colina ainda não ter recebido esse nome quando escrevi pela primeira vez.

A imagem acima do gibi deve datar de meados de 2007, na capa vocês podem ver Firetines (Aedan) e Cristaltines (Elice), da maneira como eles foram criados. Por sua vez, "Uma Rede no Meu Quintal" também foi inspirado em um gibizinho da Turma da Mônica, o número dois lançado pela editora Panini. No fim das contas muita coisa mudou, mas a essência permanece.

Mesmo que pareça uma cena genérica do cotidiano, o fato dessa história ter se baseado em um dos  primeiros gibis que ilustrei inteiro das aventuras de Ralph significa demais para mim, pois foi um dos poucos que terminei. A capa está tão velha e desgastada que ficou até difícil de escanear, mas vale a lembrança do quanto esses personagens evoluíram, assim como eu, como desenhista e escritor.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Coleção de Memes Fora de Contexto do Livro 2 - Por Star-chan

Olá, essa é a Doge Hayley da fofura que veio para tornar seu dia melhor. Abaixo vocês conferem uma galeria totalmente aleatória de alguns dos memes que nossa leitora Star-chan fez com suas reações sobre o Livro 2 (beta tem preferência, minha gente). A graça disso tudo é que eles não fazem nenhum sentido para quem ainda não leu (ou seja, todo mundo), mas ainda é divertido tentar imaginar em que contexto elas poderiam acontecer, isso porque essas reações são baseadas em cerca dos 7 ou 8 capítulos iniciais, ainda tem tanto a acontecer!

Meus agradecimentos à Star pela divertida sessão com direito à reações e muita risada, espero que os demais betas e leitores também tenham uma experiência inusitada assim que colocarem suas mãos no segundo livro da saga Matéria que sabe-se lá quando será lançado. Até lá, divirtam-se.




ALGO MUITO ERRADO ACONTECEU AQUI...



FOFA DE TODAS AS FORMAS!


 A CULPA É SEMPRE DO LESTEN.


"FAMÍLIA FELIZ."


"UM LAGARTO PRECISA VOAR."
- Perturbador, Lesten.

SE NEM A STAR PROTEGE O LESTEN, QUEM DIRÁ NÓS?


PARA DE CHAMAR AS PESSOAS PRA SUA EQUIPE, RALPH!

NINGUÉM MANDOU TRABALHAR PRO GOVERNO!

PLANTEI A BOMBA E SAÍ CORRENDO.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

1º Premiação - The Omascar Matéria

Senhoras e senhores, chegou o momento da maior premiação do Reino de Sellure! Como forma de reconhecimento ao talento de nossos personagens, no dia 9 de Feveiro acontece o Oscar The Omascar, edição Matéria - Espada de Madeira! (Se bem que a postagem só foi ao ar no dia 10, ah, tanto faz...)

Eu me lembro de brincar com votações desde que era criança, quando saía pela casa com um caderninho que continha o nome de diversos personagens de animes e vídeo games, perguntando para meus familiares e amigos quais eram os preferidos deles (mesmo que ninguém conhecesse a maioria deles ). 

Alguns anos mais tarde, o The Omascar voltou como premiação de uma fanfic de Pokémon que eu escrevi em 2010, o Aventuras em Sinnoh, e agora em 2020 faz seu retorno para premiar os personagens favoritos dos leitores do primeiro volume da saga. Meus agradecimentos a todos que concluíram a leitura do livro e deixaram seu voto, além da diversão essa é uma excelente forma de eu receber um feedback para saber onde acertei e onde errei, principalmente no quesito de escrita e desenvolvimento. Como vocês poderão ver nos resultados, os vencedores foram os favoritos absolutos, pois levaram metade dos prêmios! Mas, diferente das edições antigas (esta já é a quinta para vocês terem ideia), estarei computando também os segundos e terceiros colocados, de forma que a ficha dos personagens seja atualizada com troféuzinhos de prata e bronze. Se o seu favorito não venceu, não se sinta abatido, cada um deles contribuiu de alguma forma para que Espada de Madeira tenha se tornado real. Os resultados foram emocionantes, em algumas categorias eu mesmo precisei desempatar, e podem ter certeza que muitas dessas escolhas terão influência no destino dos personagens nos próximos volumes.

A próxima edição do The Omascar só acontecerá após o lançamento do Livro 2 da Saga Matéria, mas enquanto não temos uma data, vista seu melhor terno ou vestido, aconchegue-se em sua poltrona e aproveite a cerimônia!

A principal categoria do The Omascar é sempre a de protagonista da jornada. Por mais óbvio que pareça que o personagem "principal" é quem vai levar esse prêmio, eu na verdade estava com uma tremenda dúvida se o Ralph seria mesmo digno desse feito.

Durante toda minha infância vivi um grande impasse à respeito de minhas histórias. Eis aqui um pequeno fato — eu não sei trabalhar protagonistas, e sempre detestei o Ralph como um. Eu não sabia como trabalhá-lo, ele nunca foi tão interessante quanto os demais personagens, então vê-lo receber esse prêmio é também uma realização pessoal. É com imenso orgulho que vejo que ele encontrou seu caminho, que, como autor, pude torná-lo uma presença interessante de se acompanhar por quase 400 páginas. Ralph é gentil, inocente e inspirador, sua presença faz toda a diferença, afinal, imagina só ter que acompanhar um protagonista ruim por uma saga inteira?! Nas próximas edições nosso menino terá adversários à altura, e conquistar essa estatueta será cada vez mais desafiador.

Em segundo lugar temos a nossa Dama de Ferro, Auria Mercer, e em terceiro colocado ficou nosso lagarto favorito, Lesten. Como podem ver, Hayley não conquistou nenhum voto, mas isso não a impediu de ser a rainha da fofura (por sinal, isso me fez perceber que preciso dar mais destaque à ela e ao Lee, o que pretendo melhorar no próximo volume).

Só para atiçar a curiosidade de vocês: no volume 2 o protagonista da jornada será outro! Será que é alguma figura nova ou algum conhecido?

Essa é uma das minhas categorias preferidas. Seja em animes, jogos, filmes ou livros, eu sempre me apaixono por aqueles personagens que não têm tanto tempo de tela, mas servem para complementar a história de uma forma que nunca imaginamos. A categoria de Melhor Participação Secundária estava apinhada de personagens, praticamente todo mundo que teve um pouquinho de destaque no Livro 1 entrou na competição, mas não teve para ninguém, Raegar disparou para a liderança e levou o prêmio! Mesmo tendo aparecido somente no Capítulo 31 (cerca de 2/3 do livro já tinha se passado), ele conseguiu conquistar com seu backstory interessante, jeitão despojado e força sobrenatural. Raegar é intrigante, leal, amável, todo mundo consegue se identificar com ele de alguma forma.

Em segundo lugar tivemos o Lesten, nosso lagarto loucão que fez de tudo para levar algum prêmio para casa, mas não foi dessa vez. Em terceiro tivemos o Aedan como um dos grandes destaques da temporada, ele conquistou inúmeros prêmios nessa noite. Menção honrosa para a pequena Elice que foi um dos alicerces na construção do Arco da Ilha-S.


O prêmio de Melhor Membro da Ordem do Selamento só poderia ir para o favorito da noite — Aedan, nosso Cabeça de Fogo! O personagem marcou uma virada tão grande na história que é impossível não se surpreender com sua batalha contra Ralph na Ilha-S. Quando eu era criança os membros da Ordem não tinham um líder ao certo, mas algo sempre fez o Aedan se destacar, ele era do tipo arrogante que não leva desaforos para casa, ao mesmo tempo que se preocupava demais com seu irmãozinho (sim, a Elice nem sempre foi uma garota). Com o passar dos anos a responsabilidade de ser o líder caiu em suas mãos, e ele a cumpriu com maestria. Pode ter certeza que não será a última vez que Aedan subirá no palco!

Na segunda e terceira posição tivemos Bill e Elma, o que foi uma agradável surpresa para mim. O Bill sofreu inúmeros cortes no livro, foram 2 ou 3 capítulos cortados dele e de Tootie, o que certamente teria colaborado para que os leitores gostassem mais deles (esses capítulos foram mais tarde postados como Cenas Deletadas). A Elma é uma personagem que adoro e que não tive chance de explorar até hoje, pois sinto que ainda falta alguma coisa nela. Quem sabe conquistando a terceira posição eu passe a prestar mais atenção nela?

E veja só, eu disse que não seria a última vez que vocês veriam o Aedan subir no palco para receber um prêmio! O Líder da Ordem derrubou o Dr. Erlenmeyer e Raegar na difícil tarefa de se consagrar como o verdadeiro "vilão" do primeiro livro, se é que podemos chamá-lo assim.

A verdade é que Aedan apenas estava do lado oposto na história, enquanto Ralph e seus amigos partiam em sua busca maluca pelas Pérolas Sagradas. A profundidade de seu passado e seu lado explosivo tornaram Aedan um adversário digno que aparenta não ter compaixão alguma, mas a verdade é que por dentro ele não passa de um garoto assustado.

Conquistando sua segunda estatueta nessa noite, Raegar retorna para assumir um cobiçado prêmio — o de Personagem Mais Poderoso da história (nada humilde, hm?). No primeiro livro ele se destacou varrendo o time inteiro dos protagonistas sem grandes dificuldades; isso porque, segundo o próprio Drake, ele ainda precisou se segurar. 

Empatados em segundo lugar tivemos Ralph e Aedan, mas após uma rápida análise de nossos árbitros, o troféu de prata vai para o tótines de fogo que deu uma verdadeira surra em nosso ruivinho. O Ralph ainda vai precisar treinar muito para sequer entrar na competição contra esses gigantes nos próximos volumes!

Entrando nas categorias técnicas, temos o prêmio de Melhor Capítulo que representou um verdadeiro embate. Todos os votos nessa categoria ficaram muito bem divididos, o que para mim é uma verdadeira conquista, parece que vocês gostaram um pouquinho de tudo! Eu ficaria assustado se todos os votos se concentrassem em uma única parte, pois o que sempre me esforcei para fazer era que Matéria fosse um livro para todos os públicos e continuasse interessante até o fim, que tivesse cenas do cotidiano e ação na medida certa. Afinal, de que adiantaria ter um começo excelente e ninguém aguentar chegar até o final?

A primeira posição ficou com o Capítulo 29 que mostra a batalha de Ralph e Aedan que é também a minha favorita (uma curiosidade é que essa foi a única categoria em que a Lignum também apareceu). Em segundo tivemos o Capítulo 39 que fecha o livro, onde todos personagens aparecem na Pequena Colina (esse troféu vai para a equipe inteira?). Em terceiro tivemos o Capítulo 36 que é quando Raegar se depara com os protagonistas pela primeira vez, todos são episódios marcantes!

Menção honrosa para o Capítulo 17 - Fóssil Vivo que apresentou a batalha de Tootie. Mesmo que ela não tenha se destacado no livro, é uma das minhas cenas favoritas.

Para consagrar sua noite, Aedan retorna pela quarta vez para receber o troféu de ouro de Melhor Arco, mas dessa vez compartilhando também com sua irmão e amigos que o ajudaram a tornar os Capítulos 24 ao 30 uma experiência inesquecível. A Ilha-S é para mim um momento marcante, pois foi quando voltei a escrever o livro após quase um ano de hiatus, foi uma época em que fui surpreendido de muitas maneiras e acabei acordando para a vida, tanto que vocês podem  ver isso sendo refletido diretamente na história. Certo dia Ralph se depara com alguém mais forte do que ele e lhe diz: você não é especial.

Na segunda colocação, como sempre, o Arco do Raegar conquistou seu troféu de prata, e ele fez isso tudo sozinho (a disputa entre os dois só foi decidida no último instante!) Na terceira posição temos o Arco do Segredo das Pérolas, o que comprova minha teoria de que o livro só vai ficando mais interessante conforme o final se aproxima.

Ah, o prêmio de Miss Simpatia é sempre uma disputa adorável entre as mulheres da história! Se você pensou que essa categoria pertence somente às garotas, está muito enganado. Nos tempos do Aventuras em Sinnoh nenhum homem nunca foi indicado para essa categoria, mas Sellure chegou para mudar essa situação e tivemos três figuras dentre os indicados — duas delas conquistaram a segunda e terceira posição, o doce gigante Capitão Bernard e Doppel, um genderfluid.

E qual foi a minha surpresa ao descobrir que eles deixariam Auria e a Elma no chinelo? Mesmo aparecendo em um único capítulo, por pouco o anfitrião da Pequena Colina não levou o prêmio! Hayley pode não ter tido grande destaque no Livro 1, mas esse prêmio mostra o quanto os leitores adoram ela, e prometo que a pequena raposinha ainda tem muito a mostrar no próximo volume sobre seu misterioso passado.

A categoria de Personagem Revelação é uma das principais na competição. O título é impactante por si só  REVELAÇÃO — e só é dado para aquele que conseguiu surpreender os leitores e marcar presença. Raegar deu as caras somente no Capítulo 31, mas isso não o impediu de conquistar o pódio. Ele virou a história de cabeça para baixo, e isso porque pouco se sabe sobre ele! Podendo ser considerado ao mesmo tempo um protagonista/antagonista, Raegar recebe esse merecido troféu por ser um dos personagens mais bem trabalhados do livro.

Quando eu era criança e ainda rabiscava gibis  na escola, eu já sentia que o Raegar era interessante o bastante para chamar a atenção dos leitores. Para ser bem sincero, houve uma época em que cheguei a cogitar colocá-lo como protagonista nos próximos volumes, mas ele é aquele tipo de cara que está melhor na turma do fundão, dando suporte para que os outros realmente brilhem — e, é claro, que ele possa roubar a cena quando chegar a sua vez de brilhar.

Com mais de 50% dos votos, essa categoria não teve para ninguém. A discreta batalha entre segundo e terceiro colocado ficou entre o Ralph e Lesten. No desempate técnico, Lesten levou o troféu de prata (porque ele comprou os jurados).


O prêmio de Melhor Casal é um dos mais agitados, mesmo entre os bastidores os personagens se perguntam: quando é que formei um casal com ELE/ELA? Hayley e Lee nasceram um para o outro e conquistaram o pódio por um ÚNICO voto em cima da Auria e do Ralph. Vocês podem notar que houve um empate técnico, mas a palavra final veio do nosso amigo Shadow (batam nele se não gostaram do resultado).

E teve voto pra tudo quanto é tipo de casal — Bill e Tootie, Ralph e Narrador, Ralph e Aedan, até mesmo Auria e Lesten (mentira, esse aqui não teve não). Mas o mais surpreedente foi a terceira colocação, que ficou com o Raegar e a namorada que ainda nem apareceu. Diana Mercer só dará as caras no Livro 2, mas eu prometo que ela será uma personagem inesquecível em todos os sentidos.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

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