sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Passado dos Personagens - Auria (Parte 1)




Naquela noite Auria sonhou que era resgatada por um lindo príncipe em seu cavalo branco — ele era forte e bonito, trajava armadura cintilante e capa vermelha, igual às ilustrações dos livros de contos de fada que sua mãe lera semana passada. Lydia adorava realçar o fato de que já tinha idade para namorar, embora ainda se encantasse com a ideia de que algum dia aquele mesmo príncipe também viria buscá-la. Diana, por sua vez, nunca aceitava o desfecho da narrativa.
— E se ela morresse de tédio até lá? Ela tinha tempo de sobra para bolar um plano — disse Diana, cheia de revolta. — E por que os príncipes são todos iguais? Mamãe, será que você não encontra algum livro onde o príncipe seja um gecko, um monstro ou até uma garota?
— Você sempre encontra defeito em tudo, Dia — contestou Lydia enquanto apoiava a cabeça sobre um amontoado de travesseiros confortáveis. — Se for para esperar um príncipe bonitão que nem esse — ela soltou um longo suspiro apaixonado —, eu faria qualquer coisa!
Lydia era a mais velha entre as irmãs Mercer, tinha onze anos e já se considerava uma menininha; embora não conseguisse esconder seu lado sonhador, nunca se cansaria de esperar pelo seu cavaleiro de armadura cintilante.
A pequena Auria chamou a atenção das duas para que parassem de fazer barulho.
— Continua a história, mamãe.
— Por hoje é só — respondeu a Srta. Floria Mercer. — Vocês não acham que já estão muito grandinhas para continuarem ouvindo contos de fadas?
As três gritaram “não” ao mesmo tempo, em alto e bom tom. Até mesmo os criados na mansão puderam ouvir as risadas de uma família concreta e feliz.

Aquela alegria durou até o ano 108, quando as tropas da Coroa de Ferro atacaram a capital de Cortina Escarlate. Desde a queda dos Três Soberanos, pequenos resquícios da guerra perduraram e prolongaram a disputa por território para além do tempo previsto. Os maiores guerreiros do mundo estavam mortos ou debilitados, as cidades próximas ainda se recuperavam da destruição, do fogo e das cinzas; porém, Cortina Escarlate permanecera intocada até então. Por situar-se no extremo leste da província de Myriad, o único meio de se alcançar a cidade era através do Estreito Etifil que tinha uma das mais eficientes guarnições em toda Sellure. Com astúcia e anos de preparo, o inimigo aproximou-se pelo mar, destruindo os portos que abasteciam a cidade e cercando-a para que não houvesse saída.
A família Mercer financiara a guerra durante muito tempo através de ouro, materiais e sua influência, mas não imaginavam que algum dia a batalha chegaria até seus portões. O Cavaleiro Negro deixava um rastro de destruição por onde passasse, alastrando-se como uma praga que a tudo consome — Cortina Escarlate estava em sua mira há anos, ele vinha coberto de ira e o desejo por vingança.
Auria pôde ouvir gritos e tumulto de sua janela, mas uma das governantas apressou-se em fechá-la. No quarto ao lado, Lydia tentava colocar o maior número de roupas e acessórios de valor em sua mala — já enchera três, mas não havia colocado nem metade do que gostaria. Diana separara apenas uma mochila com o essencial — mapas, bússola, cantis de água e até mesmo um canivete que ganhara de Tellum e tinha de esconder para que seus pais não lhe arrancassem dela.
— Meninas, vamos, depressa! — Sua mãe apressou-as da escada. Ela correu para o salão de entrada com outras duas serviçais, seus longos cabelos negros estavam despenteados e as olheiras não conseguiam ser apagadas pela maquiagem reforçada.
Um estrondo foi ouvido na porta e o teto estremeceu. Tellum atravessou o corredor apressado para dar a notícia.
— Precisamos ser rápidos — disse o chefe da segurança das Mercer, quase sem fôlego. — Os portões da cidade já foram penetrados. Em menos de duas horas a cidade estará coberta.
Auria começou a chorar. Diana segurou sua mão e percebeu que uma criança de três anos jamais compreenderia pelo que elas estavam passando, ambas estavam muito assustadas e aquele trauma as acompanharia até o fim da vida, mas procurou ser forte por ela.
— Vou ter que deixar meus brinquedos? — lamentou Auria.
— Auria, querida, a gente compra tudo de novo — respondeu sua mãe do outro quarto. — Só se apresse e colabore, tábem? O papai já vai chegar e nos levar para um lugar seguro.
As serviçais Kamily e Kiera guiaram as três meninas até a porta de entrada onde  a Srta. Floria conversava com Tellum. A expressão de espanto em seu rosto denunciava um choque tremendo, como se ela tivesse sido atingida em cheio por uma flecha em seu ponto fraco.
— Onde está Dalson? — questionou a mulher. — Onde está o meu marido?
— Senhorita Mercer, procure manter a calma — repetiu Tellum. — Sir Dalson está combatendo o inimigo e cumprindo seu dever. Cabe a mim levá-las para fora da capital, há uma embarcação no sul que levará as crianças para a Ilha dos Geckos, eles percorrerão uma rota segura até Constantia. — O capitão distanciou seu olhar e avistou as três garotinhas que ouviam a conversa no topo da escada. — Nós precisamos protegê-las a todo custo.
A Srta. Floria respirou fundo enquanto massageava as têmporas.
— Céus, isso só irá realçar minhas linhas de expressão — disse ela com um sorriso travesso. — Tellum, leve-me até meu marido, esta é minha ordem. Eu preciso salvá-lo.
— Ele já esperava que dissesse isso — continuou Tellum —, mas Dalson pediu que se lembrasse de seu dever como mãe, não como esposa dessa vez. No momento, seus três maiores tesouros estão sob sua proteção.
Floria sabia que suas filhas estavam ouvindo, por isso chamou-as e pediu que descessem depressa. Era chegada a hora de deixar para trás os confortos de Cortina Escarlate rumo ao desconhecido.
Os boatos que se espalhavam na cidade eram de que a cavalaria real já estava a caminho, os reforços da Fortaleza Azul contavam com o poderio militar mais influente e bem preparado do reino, guiado pelo próprio Rei e seus generais. Entretanto, o povo Myridiano temia que fosse tarde demais até que eles chegassem.
O céu estava coberto por nuvens de fumaça preta e salpicado de vermelho, como se uma essência maligna assombrasse até mesmo o ar que se respira. Floria deixou a casa pelos fundos, em uma manhã normal teria alcançado o portão principal em vinte minutos, mas a cidade estava um caos tremendo com multidões que se aglomeravam entre empurrões e xingamentos para decidir quem ficaria para trás.
Diana tentava não demonstrar que estava morrendo de medo, mas seus olhos sempre tão expressivos denunciavam certa tensão. Auria abraçou com mais força a saia de sua mãe e chorou baixinho.
— Mamãe, o que está acontecendo?
Floria passou a mão em seus cabelos ondulados e sorriu, demonstrando serenidade ao tocar o rosto da garotinha e limpar suas lágrimas.
— Estamos indo procurar um novo lugar pra morarmos... Você trouxe a Rafaela?
Auria abriu sua mochila e retirou dali sua boneca favorita.
— Nós vamos encontrar uma casinha nova para a Rafaela, então você tem que protegê-la e ter muita paciência, ouviu? Ela é uma Mercer, como nós.
— E as Mercer nunca podem ser derrotadas! — Lydia repetiu o lema de sua família.
Auria acenou com a cabeça e prometeu não chorar mais. Tellum as guiou por passagens e ruelas estreitas longe do tumulto, pois sua prioridade era manter todos a salvo e impedir que se separassem a qualquer custo.
— Para onde estamos indo? — perguntou Diana.
— Para o porto — disse o capitão da guarda com o olhar disperso.
— Tellum, mas o inimigo está vindo pela água, será que não cairemos em uma armadilha? — reclamou a irmã do meio.
— Devo discordar, Srta. Diana. O portão da cidade é um alvo iminente, o Cavaleiro Negro e seu exército está tirando a vida de qualquer um que tente entrar ou sair. Ele está contando com o caos e a desordem para que a cidade sucumba a seus pés. As pessoas tendem a cometer erros idiotas quando estão sob pressão, o desespero e o medo são armas perigosas nessas circunstâncias.
Diana sempre escutava os conselhos de Tellum com atenção, pois além de chefiar a guarda em sua casa, ele era também o estrategista e braço direito de seu pai.
Foi possível ouvir o que parecia ser o som de tambores, a terra tremia com o avanço dos exércitos de Rudsi que se aproximavam mesmo à distância. Kiera precisou carregar Auria no colo já que a criança não conseguia acompanhar o ritmo dos demais, Diana tentava correr quando tropeçou em um monte de entulhos e foi de cara no chão de barro.
— Eu odeio esses sapatos chiques! — reclamou Diana, arrancando-os ali mesmo.
Tellum aproximou-se e ofereceu-se para carregá-la em suas costas, mas a menina recusou.
— Não, eu... preciso aprender a caminhar com minhas próprias pernas.
 Tellum acenou compreensiva, pois respeitava a decisão da garota. De seu peito ele retirou uma medalha prata com a fita azul e prendeu-a no vestido preto de Diana.
— Essa é a primeira medalha que ganhei no exército. Ela não me foi concedida por bravura, nem por tirar vidas, mas por excelência. “Sirva, e guie nosso povo à vitória”, é o que está escrito ao redor dela. Guarde-a e devolva-me quando tudo isso acabar, tudo bem?
Diana corou e concordou diversas vezes, jurando proteger aquele tesouro com sua vida.
A família Mercer retomou sua fuga, o badalar do sino ecoava como um prelúdio do desastre, era como se o céu estivesse prestes a cair e não havia nada que pudessem fazer para impedir.
O centro estava um alvoroço completo — pobres e burgueses, as quatro raças que viviam na capital tentavam sair ao mesmo tempo carregando pertences e tesouros em suas carruagens, enquanto outros simplesmente lutavam por uma sacola de pães.
Foi então que um grito estridente rompeu a muralha. A cidade inteira se abaixou no instante que uma sombra negra cobriu a luz do sol. O que parecia ser um enorme dragão acabara de cruzar o céu, sobrevoando bem alto e estudando o território. Sua mera imagem causara terror e pânico naqueles de coração fraco.
Mais um grito surgiu quando uma enorme pedra foi atirada de uma das catapultas, colidindo contra a torre do templo de Araya que desmoronou soterrando uma família de tótines. Os arqueiros puderam avistar os primeiros sinais das criaturas horrendas que se aproximavam, um exército sem face criado com o único propósito de lutar e destruir seus inimigos. Os Anons vinham avançando, cavaleiros corrompidos cavalgavam em lobos gigantes e um monstruoso Metarros pisoteava as pessoas como se fossem insetos insignificantes. A praça principal fora completamente tomada.
Auria prometera que não iria mais chorar, mas agora ela transbordava de lágrimas e soluçava alto, aqueles mesmos monstros assombrariam seus sonhos mesmo depois de crescida.
— Mamãe, o papai vai ficar bem? — perguntou Lydia.
— Ele está protegendo todos nós, querida. Fique tranquila — disse Floria.
— Eu sei, mas... quem é que vai protegê-lo?
As meninas olharam para cima quando o sol pareceu ser coberto por uma peneira. Imaginaram tratar-se do monstruoso dragão, mas a sombra mais parecia uma nuvem de pássaros pretos voando na direção do vento. Tellum foi o primeiro a reconhecer o ataque e bradou com alarde:
— Escondam-se!
Os pássaros transformaram-se em flechas que passaram zunindo pelas muralhas, acertando soldados e inocentes em seu caminho. Auria fechou os olhos e tampou as orelhas, abrigando-se nos braços de Kiera que usou o próprio corpo para protegê-la. Kamily começou a chorar desesperadamente ao ver sua irmã morta com uma flecha atravessada em seu pescoço. As duas serviçais cuidavam da família Mercer havia pelo menos treze anos, antes mesmo da chegada da primogênita. Floria percebeu que precisava tirar suas crianças dali o quanto antes.
— Tellum, ouça-me — disse a matriarca. — Durante todos esses anos, eu confiei a segurança de minha família a você. Jure por tudo que há de sagrado nessa boa terra que você irá cuidar delas por mim caso algo aconteça comigo.
— A senhora sabe que eu daria a minha vida por elas — respondeu Tellum com convicção. — Quando eu não tinha nada, os Mercer me adotaram como se eu fosse um de vocês; arrancaram-me do lixo e deram-me dignidade, compartilharam um espaço à sua mesa e deram do que comer. O que vocês fizeram por mim, eu só poderia retribuir em outra vida.
Floria fez um aceno breve e voltou-se para a serviçal sobrevivente:
— Quer vingar a sua irmã ou fugir e salvar sua própria vida?
A empregada tinha um semblante completamente diferente agora. Kamily limpou o rosto sujo de vermelho e sacou uma adaga escondida que carregava consigo.
— Só vou descansar quando encontrar esses vermes no Unferis!
Antes de partir em uma empreitada sem volta, Floria agachou para ficar na altura de suas três filhas. As três desabaram a chorar, somente o olhar severo de sua mãe teria intimidado um exército inteiro.
— Auria, Diana e Lydia. Cuidem uma da outra. Não me importa se escolherem um marido ou terminarem solteiras, nem que mudem de casa ou terminem perdendo contato com o passar dos anos; vocês jamais deixarão de serem irmãs. Quero que zelem pelo próximo nas horas difíceis, que opinem e compartilhem experiências para que as três cheguem muito longe e tornem-se mulheres formidáveis quando se tornarem adultas. Vocês são Mercer e o futuro será sempre brilhante.
Floria esticou os braços e as abraçou com carinho. Por um instante foi como se o som da guerra fosse abafado, em meio àquele abraço elas já não podiam mais ouvir os gritos de desespero e nenhum perigo teria rompido a magia por trás daquele escudo protetor.  Se pudesse, nunca mais teriam saído daquele abraço que tanto lhes trouxera conforto, mas o dever chamava.
— Eu e o papai estamos muito orgulhosos de vocês três. Sejam corajosas. Mamãe ama tanto vocês que nem cabe no meu coração!
— Por que você está falando isso? — disse Lydia com a voz entristecida. — Parece que nós nunca mais vamos nos ver...
— Você já é uma mocinha — respondeu Floria, acariciando seus cabelos. — Como mais velha, tome conta dessas duas sapequinhas. É a sua obrigação. Se não fizer isso, vou jogar uma maldição que fará o príncipe encantado nunca mais querer sair com você.
Lydia arregalou os olhos e se recompôs, prometendo que iria fazer de tudo para protegê-las.
Tellum pegou Auria no colo e correu na direção oposta, seguido por Lydia e Diana que não parava de olhar para trás. Floria levantou-se por fim e contemplou sua família uma última vez.
— Minhas pequenas pedras preciosas.

i

Assim que Floria alcançou a praça principal da capital, as tropas de Cortina Escarlate já encontravam dificuldades em repelir o exército dos sem face. Os Anons eram numerosos demais, e mesmo que desabassem aos montes e deixassem para trás uma pilha de corpos feitos de madeira e palha, uma legião dessas mesmas criaturas apoiava-se nos cadáveres para escalar as muralhas e invadir a cidade. Sua resistência fraca era compensada por uma armadura rígida e a sede insaciável de cumprir com seu objetivo. Se lhes fosse ordenado invadir a cidade, eles não parariam até que não sobrasse nada — não sentiam medo para recuar, não precisavam alimentar-se e nem conheciam compaixão, uma das criações mais cruéis e ingênuas daquele mundo, podendo ser moldadas de acordo com as necessidades daquele que os liderasse.
Floria avistou seu marido entre os combatentes, Dalson erguia-se como líder absoluto portando o estandarte vermelho de sua cidade. Enquanto aquela bandeira estivesse de pé, Cortina Escarlate resistiria.
— Querido! — Floria beijou-o de forma doce na testa ao alcançá-lo. — Não importa o que você dissesse, eu viria para protegê-lo! Nem mesmo diante da ordem do Rei ou da vontade das entidades divinas eu me afastaria de você.
— Onde estão nossas filhas? — perguntou Dalson.
— Seguras e a salvo.
O homem revelou um sorriso discreto.
— Então podemos lutar com tudo que temos. Venha, minha esposa, você é a inspiração que me faltava!
Floria sacou sua aljava e um arco dourado encrustado com pedras prateadas, a famosa arma passada de geração em geração pela família Mercer. Dalson brandiu sua espada e vestiu o capacete, quando olhou para o lado e viu a mulher, perdeu-se completamente em sua beleza e sentiu sua motivação crescer.
Um baque veio do portão. Os soldados se posicionaram com suas lanças. Uma nova saraivada de flechas foi disparada, mas dessa vez eles estavam bem protegidos com seus escudos. Kamily certificara-se de que sobreviveria tempo o suficiente para saciar sua sede de vingança. Outra pancada irrompeu pelo portão diante da força esmagadora de um exército que não conhecia limites. Flechas com a ponta vermelha zuniram pelo vento e derrubaram toda a linha de frente das marionetes sem face, mas outras logo as substituíram e elas continuaram a correr num frenesi incontido.
Os soldados de Cortina Vermelha repeliram as três primeiras ondas do exército do Cavaleiro Negro. A bandeira escarlate se agitava diante das cortinas que ardiam em chamas e contornavam as muralhas da cidade. O Metarros prostrou-se diante do portão, avançando com fúria e descontrole. Aquela espécie ameaçada em extinção descendia dos antigos Dinorros, mas estava armado para a guerra tinha a força para derrubar uma casa com suas patas gigantescas.
— Atirem! — ordenou Floria.
Outra saraivada de flechas zuniu contra o inimigo, criando um cobertor pontiagudo que penetrou fundo na pele espessa do Metarros, porém, a criatura não parou de avançar. Com seus mais de oito metros, ele continuou a disparar contra a linha de frente e romper escudos, abrindo uma fresta nas defesas do batalhão dos Mercer.
— Você acha que irão lembrar-se de nossos nomes na história? — perguntou Dalson.
— Querido, nós seremos lembrados de qualquer maneira. Somos Mercer.
Floria atirou sua flecha dourada que penetrou fundo na couraça do Metarros. O projétil encantado ia e voltava para sua senhora, podendo ser disparado mil vezes. Diziam que a alma de um tótines habitava em seu interior e a flecha não obedeceria nenhum outro mestre que não pertencesse à família.
O monstro cambaleou antes de tombar para frente, uma trágica fatalidade para uma espécie tão rara. Os soldados mal tiveram tempo de comemorar, pois a chegada de um novo inimigo ofuscou as comemorações — ele revelou-se diante da cidade inteira, monstruoso e assustador com sua clava de metal grossa e espessa feita um tronco de árvore. Sua máscara deixava exposta apenas um pequeno par de olhos vermelhos, muitos alegavam ser impossível matá-lo porque seu coração lhe fora arrancado havia muito tempo. Ele era Vias Cruzadas, o líder dos Anon e braço direito do Cavaleiro Negro na guerra, um Sem Rosto que a própria morte provavelmente já se esquecera de levar.
Um único golpe de sua clava abriu uma cratera no chão, esmagando um homem como se ele fosse feito de massinha. O monstro bateu as mãos enormes contra o peito feito um gorila e avançou contra a barreira de soldados com ferocidade. Cem lanças e espadas não puderam atravessar sua armadura, ele rompeu a linha defensiva dos Myridianos, quebrando e destroçando tudo ao seu redor. Ao seu lado havia também um assassino contratado vestindo chapéu coco, ele era ágil e agia nas sombras, atacando desatentos, cortando gargantas e deixando para trás corpos como um alerta de que o Cirurgião Letal fizera sua passagem por ali.
Dalson e Floria continuavam a combater a horda de monstros que atravessavam pelo portão. Seus homens eram corajosos, mas não aguentariam por muito tempo.
— Kamily, chame a atenção daquela besta! — ordenou Floria.
A serviçal colocou-se de frente ao general inimigo. O líder dos Anon não deu indícios de que iria parar, Kamily retirou um selo de seu avental e posicionou-o no chão de forma que um escudo mágico projetou-se em sua frente, disparando uma explosão de energia que impediu a passagem de seus inimigos momentaneamente. Vias Cruzadas ficou atordoado tempo o suficiente para que Kamily escalasse sua clava, correndo sobre ela com a precisão de um artista de circo. A serviçal enfiou sua adaga inúmeras vezes na máscara da criatura que urrou de dor, incapaz de arrancar aquele parasita indesejado de suas costas
— Cuidado! — gritou Floria apavorada.
Vias agarrou o corpo da empregada e o arremessou contra uma parede. Kamily colidiu com força e sentiu seus ossos se partirem, não houve tempo sequer para que ela fosse resgatada, pois o assassino de chapéu coco se alastrou por trás dela e a apunhalou com um único golpe mortal, cortando sua garganta na sequência. Kamily tossiu sangue e seus olhos perderam foco, ela sorriu satisfeita, pois em breve se juntaria a sua irmã.
— Eu detesto essas armas pequenas, nunca as vemos chegando até que seja feito um estrago — disse Somenar enquanto verificava a qualidade da adaga roubada de Kamily. — Ora essa, de que estou falando? São as minhas preferidas!
Somenar provou o sangue com a ponta da língua, voltando a atenção a Floria Mercer e seu marido que se recompunham do choque em perder uma amiga tão antiga.
Dalson sentiu seu coração bater mais depressa. Sua mulher estava exausta, embora ainda exalasse coragem e determinação. Quanto maior o desafio, mais uma Mercer se impunha perante ele.
— Mulher — chamou Dalson.
— O que foi? — ela perguntou, aturdida.
— Você sabe que eu te amo, não é?
— Tem que ser agora? Você sabe como fico quando o ouço falar assim comigo!
Em seus olhos, Floria ainda era a menininha que corria de saia e lhe trazia pão na janela. Os anos passaram e seu amor por ela não mudava. Os anos pareciam lhe fazer bem, com a idade vinha também novas responsabilidades e marquinhas de expressão; Floria podia estar descabelada e imunda que seu marido sempre a acharia a mulher mais maravilhosa do reino.
— Eu não acredito no que estou vendo. É a família Mercer! — berrou Somenar. — Isso não é romântico, Vias? Vir para a guerra com sua pessoa amada e morrer do lado dela?
— Vias não gosta de romance — respondeu o monstro com a voz gutural.
— Pois eu amo. O sabor é sempre — o assassino lambeu os beiços e limpou o sangue da adaga em seu jaleco escuro — diferenciado.
Floria não era o tipo de mulher que levava ameaças para casa. Ela sacou a flecha dourada e disparou-a em direção de Somenar que só sentiu o vento passar na altura de seu bigode. O tiro de alerta atingira Vias em cheio no ombro, aquele fora o disparo mais rápido que vira em sua vida.
— Uau. Minha nossa. Isso foi incrível — admitiu Somenar com uma risada histérica. — Vias, meu bom amigo, encontramos adversários a nossa altura. Papai vai ficar tão orgulhoso!

ii

O barco que levaria as filhas dos Mercer em segurança para a Ilha dos Geckos já estava atracado na costa, Tellum traçava um plano de busca atrás de um refúgio secreto onde pudesse repousar até que a batalha em Cortina Escarlate fosse decidida. A vida das crianças estava em suas mãos e ele faria o possível para que elas crescessem longe de conflitos.
Auria abraçava sua boneca Rafaela, seu único consolo no momento; Lydia esperava que a nova casa fosse perto de algum shopping ou que ao menos tivesse uma banheira tão grande quanto a antiga; Diana ainda observava o fogo e a fumaça subir da cidade onde vivera toda a infância. Cada uma das meninas encarava a dificuldade à sua própria maneira, dada a circunstância e a maturidade que a ocasião permitisse.
Tellum exalava tensão quando Diana sentou-se ao seu lado e tocou sua mão, oferecendo-lhe um olhar cheio de esperança.
— Quando papai e mamãe voltarem, vou pedir para que eles deem menos trabalho pra você — disse Diana. — Você está muito cansado, Tellum, precisa dormir mais.
— Você tem razão, devo parecer mais velho do que sou — respondeu o rapaz com um sorriso. — Não se preocupe, mesmo com todo o trabalho e obrigações, prometo arranjar tempo para brincar de boneca com vocês.
— Eu não quero que você brinque de boneca, quero que você me treine! — afirmou Diana com convicção. — Eu quero lutar como papai e mamãe para defender as pessoas que precisam!
— Uau, ainda há pouco lembro-me de vê-la pedir brinquedos e livros de aniversário, e de repente você está tão... crescida! — falou Tellum. — Ouça, eu não preciso colocar uma arma em sua mão para treiná-la, mas prometo que irei ensinar tudo que sei, aprimorar seus estudos e cuidar para que façam a escolha certa. Vocês três serão formidáveis quando crescerem, cada uma com suas respectivas habilidades e sua própria maneira de ajudar. Vocês podem ser princesas, guerreiras ou heroínas, pois garanto que farão seus pais orgulhosos.
Neste instante, um pequeno raio percorreu o céu e aterrissou no chão de terra como se fosse uma estrela cadente no céu escuro de fumaça e cinzas. Lydia foi a primeira a levantar-se correndo para ver o que se tratava aquela joia tão brilhante e percebeu se tratar de uma flecha dourada que ainda tremeluzia como se tivesse vida própria.
— É da mamãe — disse Lydia para suas irmãs.
As três voltaram a atenção para a cidade. Aquele Amuleto Sagrado era um presente que deveria ser herdado pelo primogênito caso algo de grave lhe acontecesse, e Floria sabia que onde quer que elas estivessem, a flecha encontraria seu novo dono.
Naquela época, Auria não compreendia porque suas irmãs desataram a chorar compulsivamente. Ela apenas jurou que nunca mais pegaria em um arco e flecha.


 


NOTAS DO AUTOR

Este especial foi escrito em meados de 2017, antes mesmo que o Livro 2 tivesse sido finalizado. É curioso pensar que todos os capítulos dO Passado dos Personagens já foram postados, mas alguma coisa me impedia de compartilhar o da Auria. A Parte 2 para vocês terem ideia foi escrita em 2015. Noite passada, dia 14 de Maio de 2020, eu reescrevi a Parte 3 completamente. Dessa vez o resultado ficou do meu agrado. Ufa!

Sendo separado em três partes, eu nunca me senti satisfeito com o peso emocional que esse especial teria na vida da Auria, tentei falar das dificuldades da infância dela e me vi constantemente falando sobre bullying, mas parei para pensar: "Será que era isso mesmo que a Auria faria? Será que ela sofreu porque alguém a maltratou?" No Livro 2, a Auria confiante e durona que conhecemos no primeiro livro muda da água para o vinho, conheceremos uma versão de nossa guerreira mais frágil e humana. E este especial não poderia sair em boa hora. Está na hora de voltarmos ao começo, quando sua cidade natal foi destruída e as Mercer se viram órfãs da guerra.

Este capítulo também conta com algumas aparições especiais que só darão as caras como antagonistas no Livro 2... Espero que gostem de conhecer um pouco mais da vida de Diana, Lydia e Auria ainda pequenas, tentarei manter um curto intervalo entre as postagens, e o que posso dizer por ora é que o desenvolvimento da parte gráfica de Matéria - Alma de Diamante, já teve início! Forte abraço.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O Simbolismo em Matéria


A ORIGEM DO TÍTULO

"Somos feito da mesma matéria que nossos sonhos".

Com esta frase de William Shakespeare, o livro Matéria - Espada de Madeira tem início. De forma simples e abrangente podemos definir matéria como tudo aquilo que ocupa lugar no espaço e apresenta peso. Árvores, água, objetos, veículos, o ser humano... Qualquer coisa que tenha existência física ou real é matéria.

A história de Ralph nasceu em Outubro de 2005, e durante muito tempo ela foi chamada de "A Lenda da Espada", somente por volta de Maio de 2014 é que oficializei o título em uma postagem no meu blog Aventuras em Sinnoh — sendo que na época a previsão era que o lançamento ocorresse em 2015. Como fui inocente...

A escolha de Matéria deu-se por conta de uma brincadeira com universos fictícios. Um livro com toda certeza é feito de matéria, mas e os personagens? E tudo que foi criado dentro dele? Gosto de acreditar que tudo isso se torna real a partir do momento que estamos "dentro" dele, imersos na leitura. Por mais que nada do que lemos exista de fato, o leitor sempre terá a surpreendente capacidade de viajar para um universo muito distante do nosso, basta abrir na primeira página.

A busca de Ralph por um indivíduo conhecido apenas como Narrador é a prova de sua jornada atrás de algo pode nem mesmo existir, uma vez que ele persegue uma memória de infância que não é devidamente apresentada ao leitor até o fim do primeiro livro. Matéria é uma jornada atrás do impossível, mas também do concreto, afinal, é como sempre escrevo em minhas dedicatórias:

"Que você possa desfrutar da jornada tanto quanto o destino!" — Canas Ominous.

UMA JORNADA SOBRE A VIDA ADULTA

Quando eu era criança sempre adorei inventar histórias com guerreiros, monstros e elementos mágicos. Não é surpresa nenhuma que esses roteiros fossem pouco elaborados, pois eu devia ter dez anos na época, eu só queria "brincar" de inventar. Um dos meus maiores desafios com o livro foi manter exatamente a mesma a essência de quando eu era menino, e posso confirmar para vocês que grande parte do enredo original permaneceu, mas não a história. Isso faz algum sentido?

Existe uma diferença sutil entre enredo e história, como você pode ler a seguir:

História é como o personagem principal se sente em relação ao que acontece no enredo. Ela está relacionada à reação emocional do protagonista aos conflitos e obstáculos da narrativa. A história é mental, abstrata, subjetiva, baseada nas emoções do personagem.
Enredo é a sequência de acontecimentos externos de uma narrativa de ficção. Ele está relacionado à linha de ação e às ações e reações do protagonista a esses acontecimentos. O enredo é físico, concreto, objetivo, baseado nos comportamentos do personagem.

Qual a história de Matéria?
- A história é sobre as tentativas de Ralph de tornar-se mais forte e encontrar-se com seu amigo Narrador, ele sente que faz parte de algo maior que ainda não compreende. Ele anseia que essa busca o faça crescer, conhecer novos amigos e tornar-se alguém melhor.

E qual o enredo?
- O enredo é sobre Ralph tentar reunir as Pérolas Sagradas e, por consequência, o Narrador.

A Ordem do Selamento e as Pérolas Sagradas são alguns desses pontos primordiais que existem desde a época que eu rabiscava meus gibis. Os tótines — que antes eram sete membros — desempenham um papel fundamental na formação do caráter de Ralph e seus amigos, principalmente na forma como eles lidam com os desafios e encaram o resultado desastroso de sua busca. Isso os leva a crescer de uma forma inimaginável. Em uma análise mais profunda, é possível ver que cada um dos integrantes carrega uma mensagem do  que é "crescer".


- Bill é o primeiro antagonista da Ordem a dar as caras por representar o início da busca por estabilidade financeira até a necessidade de sair de casa, buscar um emprego e começar a pagar suas próprias contas;

- Tootie é a insegurança, a solidão de deixar a casa dos pais e de repente se ver sozinho no mundo. É o momento em que a pessoa deixará a zona de conforto;

- Elma representa todo o trabalho em si, dar duro para crescer na vida. Ela é a mais dedicada e centrada em seu ofício de todos os integrantes;

- Bernard  é a lembrança dos amigos, dos familiares, a saudade e abandono. Coisas que ficam para trás e às vezes nos assombram, afinal, é um caminho sem volta;

- Aedan, por fim, representa a rotina e monotonia. Ele possui cada um dos elementos listados acima, mas seu papel no livro é o de um adulto estagnado que vive sem grandes pretensões, afinal, ele possui um trabalho seguro, estabilidade financeira e um lar. O que mais lhe falta? Na mente de Aedan, não há mais nada novo para se descobrir. Com seus quase trinta anos, o jovem se julga dono de si e teme que o mundo tire algo dele, por isso Aedan se blindou contra tudo e todos. O roubo das pérolas representa um renascimento para ele.

A questão é: eu planejei tudo isso antes de escrever o livro?

É óbvio... que não. A Ordem do Selamento originou-se com os mesmos propósitos que meus gibis na infância, ser uma pedra no sapato de Ralph. Nunca teria passado pela minha cabeça que eles tivessem tamanha profundidade, mas creio que o fato de eu ter escrito o livro durante a transição dos meus dezoito para os vinte e pouco anos tenha acabado sendo refletido na minha escrita. Hoje tenho um olhar diferente sobre as coisas ao meu redor. Existe uma forma certa de se viver "A Jornada da Vida?". É claro que não, e é justamente disso que Matéria fala! Crescer é uma verdadeira coisa de louco... mas, ei, ainda é uma aventura!

SOBRE O ELEMENTO MADEIRA

O elemento madeira está ligado com a energia da expansão, da criação e compreensão. Esse elemento promove o nascimento, crescimento, desenvolvimento e esforço que estão ligados à primavera.

A madeira remete também ao início e reinício de fases ou ciclos da vida. Lignum, a espada de madeira encantada de Raph, carrega um mar de significados em um mundo definido por ferro e brasas, pois o protagonista está constantemente absorvendo a energia das pessoas ao seu redor.

SOBRE PÉROLAS

Tradicionalmente, a pérola é símbolo de modéstia e pureza. É a única pedra preciosa do mundo que é fabricada por animais, considerada a mais sensível das pedras, pois é gerada por um ser vivo.

Antigamente, as pérolas estavam ligadas à força fundamental da vida. Costumava-se dizer que se a pérola perdesse totalmente o brilho era um presságio de morte. Opaca era sinal de doença.

Atentando-se a esses fatores, não é de se surpreender que a Vila das Pérolas represente uma transição tão grande para Ralph, que de um garoto sonhador repleto de vontades depara-se com o primeiro baque ao ser recusado pelo exército. A presença de pérolas num geral também é vista com frequência no Livro 1, onde elas foram substituídas pelos selos como utilização da magia. 

"SÃO OS TEMAS QUE DEFINEM UMA HISTÓRIA".

Gosto de disfarçar meu livro atrás da ideia de que é uma aventura bem no estilo de fantasia, baseada  em RPGs, animes e mangás, mas quem leu sabe que minha praia não é descrever cenas de ação, disputas políticas, uma mitologia complexa ou reviravoltas surpreendentes. Matéria - Espada de Madeira é uma jornada sobre crescer, transformar-se no caminho, e com isso, os temas estão sempre lá no background para serem absorvidos pelos mais atentos. Se eu tivesse que listar os principais, seriam estes:

[Fracasso] - Transformar os fracassos em oportunidades;
[Casa] - A busca por um lar;
[Destino] - Será que o destino tem planos maiores para nós?;
[Identidade] - Você é quem faz a própria aventura.

domingo, 10 de maio de 2020

Spoilster [Monstros e Criaturas]


"O grupo atravessou florestas enfrentando pequenos monstros selvagens, como os Spoilsters, roedores de aparência meiga, mas com mania de roubar viajantes — era comum encontrar um Spoilster filhote portando facões e canivetes." — Capítulo 12 - Livro 1.

Sobre a Criatura

Os Spoilster (na língua antiga, Espólister) são roedores pequenos que habitam os campos abertos e florestas do Reino de Sellure. Eles pertencem à raça dos monstros não-inteligentes, ou seja, podem ser caçados ou confrontados para treinamento. Em certas províncias são considerados como praga, pois possuem uma surpreendente capacidade de se adaptar a diferentes climas e terrenos. Sua aparência inofensiva e a ausência de formas de defesa o tornam o alvo ideal para jovens em treinamento.

Sua evolução é conhecida como Lâmister. Quando um Spoilster atinge a idade adulta e consegue encontrar um macho ou fêmea para formar família, eles desenvolvem uma preferência por objetos brilhantes e luminosos. Sendo inevitável que seu parceiro(a) acabe morto de forma repentina, os Spoilster se tornam Lâmister e passam a atacar viajantes com maior ferocidade. Dizem os estudiosos que eles procuram vestes e farrapos pretos por conta de seu luto.

Aparência e Características

Os Spoilster são roedores que variam de trinta centímetros quando filhotes até um metro, os adultos podem chegar a pesar 60 kg e possuem o corpo voluptuoso e rechonchudo. Sua aparência meiga leva muitos viajantes a não considerá-los uma ameaça, mas a verdade é que os Spoilster amam roubar pertences de viajantes desatentos. Embora estudiosos aleguem que tal ato só ocorra por necessidade e porque a civilização destruiu seu habitat natural, foi comprovado que eles roubam artefatos para decorar suas tocas e assim impressionar as fêmeas.


Os Spoilster não possuem manchas no mesmo lugar de seu rosto, e embora não haja um padrão, o biólogo Spindola Patterno alega em seu estudo científico o seguinte:

"Existe um padrão que pode ser interpretado em cada mancha de um Spoilster, cada ligação com sua natureza e genética. Os Spoilster com manchas nos olhos, por exemplo, são mais atentos e rápidos do que os com a mancha ao redor da boca, que são mais reservados e precavidos". — PATTERNO, Spindola. Pequenos Caçadores de Tesouros, 17º ed. Bausonne, Torre Laranja. Ano 78.

Alimentação

A principal dieta dos Spoilster se baseia em frutas e vegetação baixa, mas por conta do hábito de roubar viajantes, gerações atuais desenvolveram um paladar peculiar, degustando praticamente tudo que encontrarem em seu caminho, até mesmo carne dependendo de sua fome.

Origem e História

Os Spoilster habitam o Reino de Sellure desde os tempos imemoriais. Praticamente todo guerreiro, seja ele um soldado ou o general mais influente começou sua jornada enfrentando um Spoilster para adquirir experiência. A velocidade com que essas pragas se reproduzem é tão alta que pode-se caçar milhares deles num dia que no outro eles já estarão infestando uma área inteira.

"Raposinha, em qual espécie tu se encaixa? [...] Nunca vi nada parecido. Pensei que fosse um Spoilster mutante". — Lesten, Capítulo 21 - Livro 1.
Onde podem ser encontrados?

Os Spoilster podem ser encontrados em praticamente todo o reino, mas habitam em sua maioria campos abertos e áreas onde há presença de viajantes. Eles conseguem se adaptar a tantos ecossistemas diferentes que existem variantes suas que moram no litoral e aprenderam a mergulhar na água para buscar conchas e lixo no fundo do mar. Por mais que sejam considerados monstros de baixo nível, Spoilster estão entre as criaturas mais resistentes e espertas do reino, ou não teriam sobrevivido por tanto tempo. Dizem que para cada habitante em Sellure existem dez mil Spoilster escondidos em algum lugar.

Estratégias e Dicas em Combate

Não é preciso nenhuma estratégia para se enfrentar um Spoilster selvagem, tendo em vista que até mesmo iniciantes sem habilidade alguma podem derrotá-los. Contudo, deve-se sempre estar atento para que seus pertences não seja roubados por essas criaturas, especialmente depois de sair de alguma caverna ou labirinto repleto de tesouros.

Os Lâmister, por sua vez, exigem mais cautela. Eles atacam qualquer um em seu caminho, dificilmente são vistos em bando. Deve-se ter tenção redobrada durante a noite, pois já houveram inúmeros casos de gargantas cortadas por conta de Lâmisters vingativos, tanto que é comum que grupos revezem na vigilância noturna.

Status & Skills

  • Vingativo [Ofensivo] - O usuário ataca o primeiro indivíduo em sua frente sem medir as consequências. Aumenta a chance de crítico;
  • Ladrãozinho [Habilidade Passiva] - O usuário sempre dará preferência para roubar itens ao invés de atacar. Aumenta a chance de escapar;
  • Charme [Habilidade Passiva] – Não pode ser atacado por inimigos que o considerem +fofo;
  • Instinto [Habilidade Passiva] – É capaz de prever desastres naturais e ataques repentinos com antecedência.

Aparições Marcantes

Os Spoilster são mencionados apenas de forma breve no Capítulo 12 do Livro 1 quando Ralph e seus companheiros se aventuram por Century em busca da primeira Pérola Sagrada. Lesten também confunde Hayley com um Spoilster gigante.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Resenha por @cft_livro [Área do Leitor]


RESENHA DO LIVRO MATÉRIA - ESPADA DE MADEIRA
— por @cft_livro

Já ouviram falar em Matéria - Espada de Madeira?

É o primeiro livro de uma trilogia criada pelo meu colega de jornada @nicolas_eroles. A história acompanha a aventura de Ralph, um garoto muito especial que carrega uma espada de madeira, ao lado de seus amigos em busca das Cinco Perólas Sagradas, artefatos que, quando reunidos, podem invocar um mago capaz de realizar desejos. .

São páginas cheias de ação, muito humor, amizades fortes que te marcam, e aquela sensação que só um livro feito com muito amor pode trazer. Há uma pureza tão grande nos diálogos e lições que os personagens nos dão que me lembrou O Pequeno Príncipe.

O livro me fez rir muito e, sempre que o lia, sentia meus amigos por perto, pois não é difícil criar laços com os personagens e se identificar em vários pontos da leitura. Recomendo para qualquer um!


PALAVRAS DO AUTOR
— por Canas Ominous

Lá para 2010, quando eu ainda escrevia fanfics de Pokémon, conheci inúmeras pessoas incríveis por meio do meu blog mais famoso, o Aventuras em Sinnoh. Quase 10 anos depois ainda mantenho uma amizade sincera e íntima que muita gente que lia e escrevia histórias naquela época. Sempre foi uma tremenda inspiração ouvir de outros jovens aspirantes a escritor (como eu naquela época) que eles se espelhavam em minha escrita. Antes mesmo que Matéria tivesse sua publicação física em Maio de 2019, qual foi a minha surpresa ao descobrir que uma garota que acompanhava minhas fics de Pokémon também estava lançando seu livro. Sim, estou falando dessa mesma Isabela Silveira!

Para quem não sabe, em 2018 eu fiz uma resenha de seu livro de estreia, The Sages. A Isa demonstrou muito talento em inserir a fantasia em nosso mundo, além de dar vida à personagens maravilhosos que nos identificamos tanto. É um tremendo prazer ver que tanto tempo depois nossos caminhos ainda se cruzam, e que lá no fundo nossas histórias transmitem mensagens e lições tão parecidas.

No dia que a Isa terminou de ler Matéria, ela me mandou diversas mensagens pelo direct que voltei para ler e reler incansavelmente; ela compartihlou suas teorias sobre o Narrador, a surpresa com a chegada na Ilha-S e aquele certo antagonista que só aparece no finalzinho para virar tudo de cabeça para baixo... tive aquela sensação de dever cumprido. Nunca vou me cansar de ouvir o que os leitores acham de minhas histórias, nem que isso se repita centenas e centenas de vezes.

Para mim, ser comparado com O Pequeno Príncipe é a maior das conquistas! Não consigo pensar em um livro mais puro e atemporal, se para a Isa o Ralph é como um Pequeno Príncipe, eu não poderia estar mais feliz. Sempre digo que meu objetivo é que Matéria chegue nas pessoas certas, que nesses tempos difíceis em que vivemos sirva como consolo e um abraço carinhoso mesmo distante.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Guerra das Espadas - A Ascensão dos Três Soberanos

A Guerra das Espadas foi a segunda grande guerra de Sellure e suas consequências se estendem até os dias atuais. Tendo início no ano 58, seu marco inicial foi a forja das Espadas Lendárias, equipamentos com atributos divinos construídos com o intuito de serem os mais poderosos do mundo.

O Conselho da Matiz selecionou os mais respeitados generais Classe A de seu tempo e os presenteou com tesouros inestimados, as Espadas Sagradas. Tal decisão foi uma forma errônea de alimentar o ego e o orgulho existente no íntimo de cada um de seus 10 componentes. Enquanto alguns dos escolhidos fizeram uso de sua posição privilegiada para auxiliar e guiar o povo, outros passaram a invejá-los, começando assim uma disputa interna para descobrir quem era o mais importante diante dos olhos do Rei. Três deles julgaram-se superiores e no direito de exercer o controle:

- Eleonor, a Voz Celestial, representava os humanos;
- Odylon, o Resistente, guiava os tótines;
- Rudsi, da Coroa de Ferro, senhor dos geckos.

Um soberano pode ser definido como alguém que deseja exercer poder de maneira extrema, que domina e cujas ações ou consequências são impactantes. A guerra atingiu seu ápice quando Eleanor disseminou seus ideais de reconstrução do reino, mas para isso teria de destruir o antigo; para combater as ideologias que se espalhavam como folhas ao vento, o próprio Conselho alegou que os Soberanos estavam se envolvendo com uso de magia negra, pois visavam se tornar divindades em sua utopia inalcançável, fato este que foi desmentido apenas anos depois.

Drake, o Braço da Justiça, foi um dos generais a se manterem fiéis e enfrentarem a ameaça dos Três Soberanos. Com o fim da guerra, todas as Espadas Lendárias foram destruídas ou perdidas, com exceção da que hoje pertence à Raegar.

A guerra durou até o final de 71 quando os três foram derrubados em combate na Torre da Resistência. Nos anos que se seguiram, Rudsi ressurgiu com as intenções de enfrentar o Rei e assumir o trono, os resquícios de seu plano perduraram por quase quarenta anos até que, no ano 108, a Coroa de Ferro teve suas tropas completamente repelidas na capital de Myriad, em Cortina Escarlate, ainda que antes tenha dizimado a capital.

A paz em Sellure não durou muito, pois dizem que um mal antigo ressurgiu no oeste, uma sombra ardilosa conhecida apenas como a Peste Negra...

terça-feira, 28 de abril de 2020

Cidades Coloridas - As Capitais do Reino

Cidades Coloridas é o título dado aos principais centros comerciais em Sellure, sendo elas o Cortina Escarlate, Torre Laranja, Fortaleza Azul, Campos Verdes, Cidadela Púrpura, Arco Índigo, Floresta Dourada e as Terras Castanhas. A paleta de cores foi decidida nos tempos antigos, baseando-se nas respectivas bandeiras de suas províncias.

No espectro escuro, por sua vez, existem as Cidades Cinzentas, um termo dado por povos nativos quando sua localização sofre uma intensa interferência da ciência, perdendo parte de seu brilho e autenticidade. Com a chegada de tais equipamentos tecnológicos, muitas dessas cidades passam a trabalhar com luz elétrica gerada através de selos, o que torna  suas populações mais acomodadas e poucos receptivas, levando algumas cidades inclusive à fechar suas fronteiras. A combinação entre a magia natural em Sellure e a ciência sempre foi muito discutida, levando alguns representantes a banirem o uso em suas fronteiras.


CORTINA ESCARLATE

A cor vermelha está comumente associada à paixão, amor e coragem, podendo também transmitir sentimentos de agressividade. Por gerações, Cortina Escarlate foi o epicentro de Sellure, conhecida por seus pontos turísticos atrativos e a economia em ascensão combinadas a um excelente governo. Tendo a maior frota naval do reino e uma localização estratégica no Estreito de Etifil, sua edificação tornou-se impenetrável, sendo impossível alcançar a cidade que não fosse pelo céu ou mar. Nenhum exército jamais rompeu suas barreiras até o ano 108, quando a cidade foi destroçada pela Coroa de Ferro, o que ocasionou a morte de 1/3 de sua população. Cortina Escarlate jamais recuperou sua glória.

Cortina Escarlate é a capital da província de Myriad, e sua academia é a Vila das Pérolas, que ganhou renome por formar grandes heróis como Raito, a Luz do Alvorecer. É provavelmente a maior e mais famosa academia humana do reino, tendo uma posição estratégica que serve como porto para a Ilha dos Geckos. Ironicamente, a academia não aceita nenhuma das outras raças dentre seus alunos.

Na história: Cortina Escarlate é mencionada com frequência por ser a terra natal de Auria, sendo palco de um dos capítulos especiais das Histórias Perdidas.

TORRE LARANJA

Bausonne significa Cidade do Sol em uma língua antiga, e sua capital é a famosa Torre Laranja que pode ser vista a quilómetros de distância; um símbolo de respeito e da amizade que nasceu entre as raças nos tempos antigos. É a cidade dos eruditos e intelectuais, sendo o centro de encontro dos maiores magos, bruxos, feiticeiros e druidas em todo o reino. Uma de suas marcas são as estradas de tijolinhos amarelos.

A academia de Century é a Base Granada, voltada para acadêmicos que buscam o estudo da história, biologia e ciências além da magia no reino.

Na história: a Torre Laranja é a primeira grande capital visitada pelos protagonistas no Livro 1, sendo um frequente ponto de encontro por abrigar o Castelo da Fachada que serve como base para Ralph e seus amigos durante o Arco das Pérolas Sagradas.


FLORESTA DOURADA

A Floresta Dourada é a capital de Trajan que abriga a maior sociedade de monstros inteligentes. Por anos nunca houve um lugar onde diferentes subespécies de monstros convivessem em harmonia, mas a Floresta Dourada tornou-se um território neutro. Sem a necessidade de lutar por supremacia ou alimento, a capital tornou-se um lugar sagrado para eles; dizem que as folhas brilhantes de suas árvores estimulam a atividade mental e o raciocínio.

Sua academia, localizada na Costa Citrina, é uma das poucas a aceitarem monstros. Todas as criaturas que visam aprender a língua comum ou ingressar no exército acabam se dirigindo a esta província para adquirirem o documento de "não caça", que lhes permite livre passagem pelo reino.

CAMPOS VERDES

Campos Verde é a capital de Helvetica e cresceu de forma demasiada após aproveitar-se da prosperidade de suas terras e exportação. Antes um refúgio de paz, equilíbrio e confiança para viajantes exaustos, nos anos atuais Campos Verdes começou um processo de transição para se tornar uma Cidade Cinzenta, inclusive restringindo a entrada de geckos em alguns de seus territórios sob ordem de Valentina Copperplate, uma das Oito Representantes.

Sua academia é o Bosque Peridota, direcionada às artes mágicas e magia branca. É uma das academias com maior renome voltada para tótines, médicos e curandeiros.

Na história: no Livro 2, Ralph e seus amigos visitam Campos Verdes enquanto buscam pela cura da maldição de Peter Lee. Lesten acaba por não ser bem recebido em suas terras.


FORTALEZA AZUL

A Fortaleza Azul é a capital de Constantia e principal centro comercial de Sellure. Desde o tempo da Guerra dos Heróis o azul esteve atrelado à cor da realeza e aristocracia. É a morada de Canas, o Descobridor do Mundo, tendo sido fundada por Ronem Romenor há cerca de 100 anos. A cidade abrange todas as quatro raças e foi palco de algumas das maiores batalhas da história do reino, suas muralhas jamais foram superadas e a cidade tornou-se famosa como um refúgio intransponível de segurança, concentrando todo o poderio militar e a glória de Sellure.

Na história: a Fortaleza Azul é o palco de um dos principais núcleos nos Livros 2 e 3, estendendo-se de todo o treinamento de Auria Mercer até os momentos decisivos da guerra.

ARCO ÍNDIGO

O Arco Índigo é a capital de Perpetua, dominada pela Família King. Uma vez que as regiões do sul são dominadas por seus climas gélidos, a cidade precisou investir forte no turismo para garantir seu espaço. Sendo um dos maiores pontos de encontro da raça dos tótines, a capital tornou-se famosa por ser livre de preconceitos, abrigando híbridos e mestiços de todas as espécies. Arco Índigo nunca se envolveu nas guerras, apesar de possuir um dos maiores poderios da atualidade.

Perpetua é a única província que não possui uma academia propriamente dita. Do contrário, o Palácio de Cristal funciona como uma mansão onde pouquíssimos indivíduos selecionados recebem estudo e cuidados de Pernelle King, uma das mulheres mais inteligentes do reino. Sua morada é uma verdadeira universidade, com bibliotecas, laboratórios e tudo que seus estudantes precisem.

CIDADELA PÚRPURA

A Cidadela Púrpura é a capital de Bodoni e um dos centros mais movimentados no reino. Tendo sido construída entre as montanhas, a Cidadela Púrpura possui defesas que nunca foram transponidas por nenhum exército. Sua capital é conhecida por ser palco de eventos famosos como o Sellureville que acontece anualmente. É onde se situa também o Ninho Lilás, a prisão de segurança máxima de Sellure. O embarque para o Sellureville é feito através de um enorme dirigível no formato de baleia gigante, os famosos Drillow, o que atrai turistas de toda parte e movimenta a economia.

Sua academia é a Morada Ametista, focada em artes defensivas e estratégias militares. Sua cor símbolo é o roxo, q está ligado ao mundo místico e significa espiritualidade, magia e mistério, despertando a libertação dos medos e inquietações.

Na história: Bodoni é o palco do Sellureville no Livro 4, sendo uma das últimas capitais a ser vista nos livros. A cidade também é citada de forma breve nos capítulos especiais dO Passado de Peter Lee.


TERRAS CASTANHAS

Ao contrário das demais capitais, a capital de Garamond é marcada por um aglomerado de pequenos vilarejos e guildas com interesses em comum. Durante anos as terras do norte foram completamente renegadas pelo governo, e ainda nos dias atuais a província encontra dificuldades em garantir sua representatividade no reino. É uma região de constantes conflitos, sendo refúgio para criminosos, mercenários e foragidos da lei.

A Academia Âmbar é a mais fraca e menos respeitada dentre as oito, recebendo poucos recursos e investimentos do governo. A região é tão pobre que seus habitantes preferem se empenhar para estudar em outras províncias a permanecerem em Garamond.


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