quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O Grande Encontro [Support]

Support Conversation (Lesten e Bill)
Gênero: Comédia, Romance;
Tema: Um encontro para Lesten com uma moça mais velha
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Sugestão do leitor: Sir Naponielli.



Organizar um encontro não foi nem de perto tão difícil quanto encontrar gente disposta a participar dele. Bill montou uma lista com todas as opções, mas tão pouco a concluiu e já começou a riscar nomes.
1) Ralph – Ingênuo demais, as garotas não devem se interessar em um garoto que está mais preocupado em explorar o mundo e fazer amigos do que entrar em um relacionamento;
2) Peter Lee – Foi minha primeira opção. As garotas adoram um barbudo com cara de mal, ele tem porte e histórico de lutador, sucesso na certa, mas qual foi minha surpresa ao receber um belo “não”. Parece-me que ele já está compromissado, ou talvez esteja só de rolo com alguém, se minhas suspeitas estiverem corretas (e sempre estão);
3) Bernard – Leva jeito para ser aquele tiozão da festa que faz piadas com pavê. Uma boa companhia, de fato, mas deve estar na casa dos sessenta, tem idade para ser avô das garotas;
4) Raegar – Ele namora;
5) Doppel – Para falar a verdade, nem sei se ele se interessa por mulheres;
6) Drake – Ele está morto.
— Então para resumir eu sou a tua última opção — disse Lesten de soslaio.
— A última opção é não levar ninguém. Com isso, tenho maiores chances de sair de lá bem acompanhado — respondeu Bill, chutando a rede onde Lesten estivera balançando a tarde inteira para lá e para cá. — Vamos lá, Sr. Lagarto, você tem cara de quem leva jeito para esse tipo de encontro. Todos o adoram!
— Tá me achando com cara de palhaço? — Bill recuou diante do jeito grosseiro dos geckos, mas Lesten deu-lhe um toque no ombro e sua feição se desmanchou em uma risada calorosa. — Tô tirando uma contigo, parceiro. É claro que topo! Não é todo dia que tenho a chance de participar experiências novas.
— É assim que eu gosto — respondeu Bill. — Marquei às oito da noite no Soleil, a cafeteria da vila. Não falte, hein?
— Beleza. Só me tira uma dúvida — Lesten continuou. — Tu disse que seria um encontro a três... Quem é o nosso terceiro integrante?
Bill devolveu-lhe uma risada maléfica.
— É o nosso Cabeça Quente favorito.
— O Aedan?! Maluco, não posso perder isso por nada!

i

No horário marcado, Bill logo se arrependeu de ter organizado todo aquele encontro. Nenhuma das três garotas havia chegado, Lesten era conhecido por seus atrasos de mais de uma hora e ele nem tinha certeza se Aedan compareceria de verdade.
Desolado e sozinho em sua mesa, Bill folheava o cardápio sem interesse aparente quando alguém se aproximou.
— E aí, Bill, esperando companhia?
Ralph estava com o avental do Soleil e uma bandeja com dois mistos quentes. Era a primeira vez que Bill o via trabalhando como garçom no café, o garoto mantinha a expressão sempre receptiva e sorridente.
— Olha só quem está fazendo hora extra para ganhar uns trocados. — Bill apoiou os braços no encosto do assento e esforçou-se ao máximo para esconder o fato de que acabara de levar um bolo de cinco pessoas que nem combinaram entre eles. — Ah, sabe como é a vida, sou muito requisitado pelas pessoas ao meu redor, preciso estar em vários lugares ao mesmo tempo.
— Não tem problema dizer que você gosta de tomar café sozinho, eu entendo. Às vezes é bom tirar um tempo para organizar os pensamentos, né? — disse Ralph.
Bill estava para contrariá-lo quando Aedan chegou ao Soleil, chamando atenção de quem quer que estivesse de passagem.
— Já fez o pedido? — perguntou Aedan com as mãos no bolso, sempre impaciente, como quem mal chegou e já espera a hora de ir embora. Ele fez um cumprimento rápido para Ralph que prontificou-se em anotar. — Me vê um conhaque, garoto.
— A-acho que não temos isso aqui, Aedan...
— Mas está escrito aqui no menu.
— O Doppel disse que bebidas alcoólicas fazem mal para as pessoas — respondeu Ralph. — E eu não quero que isso faça mal para você. Serve um... choconhaque?
— Garoto, com esse jeito prestativo você conquista qualquer uma! — comentou Bill. — Por que não te chamei no lugar dele, hein?
— Ah, então vocês estão naquele tal de “Grande Encontro”? — perguntou o menino.
— Quer trocar de lugar? Ainda dá tempo. Eu realmente não faço ideia do por que ainda estou aqui — respondeu Aedan.
Ralph pareceu meio sem jeito diante da situação.
— Bill, sem querer me intrometer na sua vida nem nada, mas... e a Tootie?
O gatuno ajeitou a franja num gesto esnobe.
— Hah! Tootie? Nem me fale... Eu não aguento mulheres naquela fase, se é que me entende. Algumas se tornam irritadiças, outras choram por qualquer bobeira e a Tootie é uma junção dessas. Ela veio com ideias de que não dou atenção o suficiente, que ela não consegue controlar seus poderes porque é incapaz, de repente vieram as crises de negatividade que começaram até a me afetar, então demos um tempo, sabe? Estou precisando conhecer gente nova, isso faria bem a todos nós.
— Acho que você deveria ter ficado do lado dela até que esses problemas passassem — respondeu Ralph.
Bill deu uma batida leve na mesa e esticou os dois braços.
— Tá vendo? É por isso que não o convidei. Esses encontros são para gente grande, Ralph, você não entende nada disso.
— Conhaque, por favor. — Aedan repetiu.
Ralph revirou os olhos e os deixou para levar o pedido.
Por algum milagre, Lesten chegou pouco depois. Devia estar tão entediado que não encontrou nenhum motivo para justificar um atraso maior.
As três garotas vieram nos próximos minutos, elas eram amigas e esperaram a companhia uma da outra para entrar, pois estavam nervosas e muito ansiosas. Uma delas era uma humana de rosto alongado e nariz arrebitado onde os óculos de aro quadro pendiam, seu nome era Wanda e estava na Pequena Colina a passeio; a segunda chamava-se Latasha, uma gecko de pele amarelada que falava mais do que a boca e morava na Ilha dos Geckos localizada no norte de Pequena Colina; a terceira era uma tótines chamada Désirée, ela tinha cabelos curtos com mexas loiras e seu sorriso era contagiante.
— Désirée? Uau, qual a origem? — perguntou Bill, tentando iniciar uma conversa.
— Significa “desejada” em uma língua antiga — ela respondeu meio acanhada. — Difícil é soletrar para as pessoas quando preciso.
— Tu trabalha aqui na ilha? — Lesten continuou.
— Sim, eu trabalho na agência de entregas de Pequena Colina. Meu poder é correr bem rápido, faço entregas no reino todo! As agências costumam contratar apenas geckos alados ou monstros que voam pela fácil mobilidade, então sou uma das poucas tótines no ramo. Sou uma carteira!
— Então tu tem muito dinheiro guardado, né? — O lagarto começou a rir. — Hah, hah. Sacou? Carteiro, carteira?
Conseguira arrancar uma risada discreta de Désirée, o que já era um sucesso.
— E você, Sr. Lagarto, trabalha por aqui também?
— Eu dou meus pulos — respondeu o lagarto. Era a forma dele de dizer que estava desempregado.
As outras duas estavam muito mais interessadas em Aedan que mantinha a feição séria e o olhar disperso. Camisa de marca, calça jeans, cabelo bem penteado e barba aparada, ele tinha pose de homem maduro na casa dos trinta, daqueles com vida feita e casa própria — era difícil conter os suspiros quando o viam passar.
O grupo fez o pedido de duas porções de batatas recheadas com bacon e cheddar, alguns hambúrgueres e cervejas com mel na caneca para acompanhar. Enquanto a comida não chegava, continuaram compartilhando de seus interesses, aspirações e experiências pessoais.
— Me fala sobre vocês — disse Wanda em tom sério, tomando um pouco de seu drink. — Vocês são daqui? Com o que trabalham? Quanto ganham? Ainda moram com os pais?
— Eu sou dono de uma das lojas mais famosas da região — falou Bill. — Desde cedo aprendi a transformar utensílios velhos em produtos de qualidade que podem ser de grande serventia aos necessitados.
— Em outras palavras, ele rouba coisas e revende pelo dobro do preço — disse Lesten que arrancou muitas gargalhadas das garotas. Bill ficou vermelho de raiva.
As horas passavam depressa, todos queriam conhecer um pouco mais sobre a vida um do outro, seus sonhos, medos e aventuras inesperadas no Reino de Sellure.
— E você, bonitão? O que faz da vida? — perguntou Wanda dirigindo-se à Aedan.
— Tu tá falando com o Lendário Guardião das Pérolas Sagradas e Líder da Ordem do Selamento, mano! — confrontou Lesten.
Fez-se um silêncio na mesa.
— ...e isso significa?
— Significa que ele... é um cara super bacana? — continuou o lagarto.
As garotas começaram a rir sem parar.
— Ai, William, seu amigo é tão engraçado! — disse a gecko fêmea.
— William? Quem é William? — perguntou Lesten.
— Eu sou o William, sua mula. William Von Altenburg. Bill é só um apelido para os íntimos.
— Você é um dos Altenburg? — Désirée perguntou, incrédula. Ela também era um tótines e sabia por tudo que sua raça havia passado há oito anos quando foram perseguidos. A Família Altenburg foi o centro dos holofotes.
— Olha, eu... prefiro não falar sobre isso. — Bill teve de ser sincero e logo emendou outro assunto. — E respondendo a pergunta do nosso amigo lagarto, não escolhemos nossos apelidos. Minha mãe me chamava de Bill, tem um valor sentimental.
— Na real, tu não tem cara de William. Eu gosto mais do apelido que eu te dei: Texugo da Discórdia, isso sim é irado.
As garotas voltaram a rir do outro lado.
— Por que um texugo? — perguntou Wanda.
— Tu não contou que consegue se transformar em um texugo, mano? — perguntou Lesten.
— É um guaxinim! Será que não dá pra perceber a diferença? Texugos são fedorentos e horripilantes, os guaxinims por sua vez são criaturas astutas, inteligentes e sagazes  — disse o gatuno. — Garotas... há muita coisa mais interessante, por que é que uma de vocês não diz...
— MOSTRA PRA GENTE? — As três imploraram quase que ao mesmo tempo.
Por este e outros motivos, Bill mantinha escondidos os detalhes de sua vida pessoal. Toda garota amava seus truques de transformação, mas haviam alguns detalhes que ele preferia não compartilhar com qualquer uma. Seu passado como Altenburg era uma parte da qual ele ansiava por esquecer e poucas pessoas compartilhavam do trauma. Pegou-se pensando em como Tootie era a única que ele permitia acariciar sua pelagem quando se transformava em guaxinim, amava espreguiçar-se em seu colo enquanto ela fazia carinho em sua cabeça até adormecer.
Sentiu uma tremenda saudade dela. Até carregava um pingente em formato de trilobita na carteira, Tootie fizera para ele havia alguns meses para trazer boa sorte. Ela adorava fazer artesanatos e só presenteava as pessoas que lhe eram queridas.
Quando se deu conta, estava com a mão na carteira, acariciando o pingente. Foi então que percebeu que algo mais faltava... esquecera completamente o selo mágico que funcionava como um cartão de crédito para acessar seu dinheiro, logo, não tinha como pagar a conta.
Chartlatão do jeito que era, Bill levantou-se discreto e falou:
— Com licença, senhoritas, preciso me retirar por um minuto.
— Por quê? Tá com dor de barriga? — perguntou Lesten e elas riram de novo.
Ótimo, pensou Bill, pelo menos o lagarto vai mantê-las entretidas.
Assim que Bill se retirou do Soleil, a mesa mergulhou num silêncio momentâneo onde cada um refletiu pelo real motivo de estarem ali. Lesten sentia-se muito sozinho nos dias de semana agora que Auria voltara a prestar o curso na academia da Vila das Pérolas, ela estava tão atrasada que precisou tirar o mês das férias para adiantar as matérias que faltavam; Aedan sempre ouvia Elice dizer que ele precisava arrumar uma namorada logo, dessa forma ela teria alguém com quem brincar; as três garotas só queriam conhecer algum cara interessante, também sofriam pressão de seus familiares e amigos que impunham a ideia de que seria bom que arranjassem um bom partido o quanto antes, ou acabariam sozinhas.
— O quão ridícula é essa ideia de que precisamos nos comprometer antes dos trinta, não? — disse Aedan em voz alta. — Casar, comprar uma casa, ter filhos...
— Eu estava pensando na mesma coisa! — disse Désirée. — Sabe, por que não podemos curtir a própria companhia? Não precisamos de ninguém para nos fazer felizes, e cada um tem o seu tempo. Não me entendam mal, rapazes, vocês são uns amores...
— Acho que todos nós nos sentimos meio sozinhos de vez em quando — comentou Aedan. — Logo preciso voltar para casa. Tenho uma criança me esperando ansiosa para maratonar desenhos a madrugada toda.
— Você tem filhos? — perguntou Désirée.
— Minha irmãzinha. Mas devo concordar que por conta da diferença de idade é como se fosse uma filha.
— Oh, isso é tão fofo de sua parte, as garotas gostam de caras maduros com família — disse Latasha. — Não há nada melhor do que um homem que gosta de ficar em casa e curtir um pouco de carinho!
Aedan revelou um sorriso sincero e fez um aceno de despedida.
— Senhoritas, lembrem-se, não se sintam pressionadas a nada. Tenham uma boa noite.
Assim que o guardião de fogo se retirou, ele arrancou mais alguns suspiros. Se fosse com ele, qualquer uma certamente toparia levar um relacionamento duradouro adiante.
Lesten foi deixado a sós com as três garotas. Fazia tanto tempo que ele não saía em um encontro que já se esquecera o que fazer, para ele era fácil ser brincalhão e fazer piadas entre amigos, bastava ser ele mesmo — mas agora que era o foco da atenção, as três pareciam esperar alguma forma de serem entretidas.
— Tô achando que aquele hamburgão não me caiu bem... eu vou... dar uma saída... rapidão.
Lesten disparou para longe da mesa e no caminho deu um puxão no avental de Ralph que estava ocupado atendendo um casal. Quando os dois se encontraram na cozinha, o lagarto suava frio só de falar.
— Mano do céu, me leva pra casa.
— Por quê? — perguntou Ralph.
— Sei lá, é muita pressão! Que ideia de girico essa do Bill de arrumar um encontro, eu nem tô procurando fêmeas! É tão diferente quando estou contigo ou com a Auria, vocês me dão espaço e me aceitam como sou, mas em frente a desconhecidos eu me sinto só um idiota desempregado que mora de favor na casa do amigo tentando provar que tem uma vida decente! Já não tenho mais nada legal pra contar sobre minha vida!
— Ora, Lesten — disse o garoto. — Se for para você encontrar um parceiro bacana, essa pessoa deve enxergar tudo isso dentro de você e amá-lo mesmo assim. É disso que o amor é feito, reciprocidade.
— Eu nem sei o que reciprocidade significa, mas deve ser maneiro — respondeu o gecko. — Tu tem só quinze anos, mas é cheio de sabedoria.
Os dois espiaram por cima do balcão e viram que as garotas já estavam bem impacientes.
— Vá e seja sincero com elas — falou Ralph. — Não tem problema sair de um encontro sem nada marcado, o importante é que vocês tenham curtido a noite, pelo menos um pouquinho, né?
Lesten concordou e foi até a mesa das garotas explicar-lhes a situação. As três não pareceram constrangidas, tinham gostado do papo e a comida no Soleil era muito boa.
O problema era que Bill não voltava e, tecnicamente, ele é quem deveria pagar a conta. Quando as três perceberam que ele também não voltaria, decidiram rachar a contra entre elas.
— Foi mal, meninas... Não tenho grana nem pra pegar o trem, é foda ser desempregado — disse o gecko. — Acho que estraguei o encontro de vocês.
— Não, imagina — respondeu Désirée. — Você foi gentil em nos acompanhar até o fim, os outros dois nem isso tentaram.
Assim que as garotas deixaram o Soleil, Lesten decidiu acompanhá-las até a estação. Ele faria o caminho de volta para o topo da colina andando mais tarde, Wanda e Latasha haviam se despedido de sua amiga, mas Désirée morava na vila e por isso não precisou do Trem das Águas. Ela levava duas sacolas e uma mochila pesada nas costas.
— Posso te ajudar a carregar isso aí? — perguntou Lesten em uma tentativa de se redimir.
— Ah, não precisa, nem está tão pesado — ela agradeceu, mas Lesten acabou pegando do mesmo jeito.
— Não quero que pense que eu acho tu não tem força pra carregar, tá?
— Claro que não — ela riu. — Nem toda garota se incomoda com gentileza. É raro hoje em dia, mas atitudes como essa ainda têm o poder de cativar.
Lesten estava aprendendo a gostar da companhia de Désirée. Apesar de se desentender com humanos no início de sua jornada, vinha aprendendo como respeitá-los e compreendê-los. Ela era uma tótines de aparência comum como qualquer outra, mas tinha um sorriso contagiante e sempre falava de tudo com tanta empolgação, era maravilhoso passar alguns minutos com ela, mesmo que fossem poucos.
Désirée não quis contar que teria chego em sua casa em cinco minutos se tivesse usado seus poderes para correr, mas estava gostando muito da companhia do lagarto, tentou andar o mais devagar que pôde para estender ao máximo aquele sentimento gostoso. Lesten a deixou na frente de sua casa. Acabara fazendo o trajeto oposto da colina, mas se divertira um bocado.
Uma pequena luz se acendeu na varanda, por onde três crianças vestidas de pijama apareceram na janela e acenaram para ele. Foi a vez de Désirée ficar toda vermelha, movendo os braços de forma frenética num indício de que eles deviam sumir dali o quanto antes.
— Olha só, tu tem vários irmãozinhos — comentou Lesten.
— E-eles não são meus irmãos... — Désirée remexeu-se constrangida.  ...são meus filhos.
— Ah. — O lagarto balançou a cabeça.
— Sei que deve estar achando estranho uma mulher como eu ter três filhos e ir para um encontro com as amigas. Mas é que meu marido morreu na guerra e desde então sou mãe solteira. Wanda e Latasha vivem dizendo que achar um cara decente me ajudaria com as despesas em casa, mas não quero me aproveitar de um cara que pague a conta e me leve pra sair... o principal continua ser encontrar alguém com quem nos sintamos bem, não é? Ah, droga, devo estar parecendo uma esquisitona desesperada agora.
— Na real, quem sou eu para achar alguém esquisito? Eu sou uma lagartixa gigante — disse Lesten, só para ouvi-la dar risada de novo. — Eu acho que tu é uma guerreira por tomar conta deles e se preocupar tanto com sua família.
— É... O lanche é para eles — disse Désirée olhando para sua sacola.
— Se quiser uma companhia qualquer dia desses, conta comigo. Pelo menos eu sou engraçado.
— Ha, ha. Com certeza irei — despediu-se a mulher antes de entrar em sua casa. — Boa noite, Lesten. Durma bem.
Como não sabia ser discreto, teve que perguntar:
— Quantos anos tu tem?
— Isso vai ter que ficar para o próximo encontro. — Ela tocou na ponta do focinho de Lesten que ficou estático, afinal, seria aquele um convite para que se repetisse mais vezes?

ii

Quando Bill voltou para a Fortaleza Abandonada já passara das duas da manhã, ele ficara pelo menos uma hora perambulando nos arredores, sem coragem para entrar. Chegou exausto ao seu aposento, tirou a camisa, o cinto da calça e os sapatos, despencando de cara na cama como quem quer um abraço. Sentia-se sozinho e vulnerável, toda aquela ideia de encontro não combinava com ele.
Estava mergulhado no seu próprio silêncio quando ouviu alguém bater à porta. Não precisou responder, pois Tootie entrou na ponta dos pés vestindo sua camisola e pantufas de Dinorros.
— Oi. Onde esteve? — ela perguntou com seu jeitinho atencioso. — Senti sua falta.
Tootie podia ter escolhido ir embora, mas preferiu sentar-se ao seu lado na cama. Ela apoiou a cabeça de Bill em seu colo e acariciou seus cabelos, estava claro que seu companheiro tivera um dia difícil e ela queria contribuir de alguma forma. Eles eram amigos de longa data e, mesmo com alguns desentendimentos, conheciam demais um ao outro para que uma simples briga os separasse.
— Você é boa demais para mim — Bill murmurou bem baixinho.
E assim ficou até adormecer.

Na manhã seguinte, era Bill quem balançava na rede entediado quando foi interrompido por um lagarto bípede cheio de entusiasmo.
— Aí, William, quando é que vai rolar o próximo encontro? — perguntou Lesten.
— Não vai rolar encontro. E não me chame de William.
— Poxa, que pena. Me diverti pra caramba ontem! No caminho de volta tive a chance de conhecer melhor a moça das cartas, e que mulher! Acho que estou apaixonado.
Bill encarou o lagarto com um semblante incrédulo.
— Sério isso? Pensei que estivesse furioso comigo por deixar vocês pagarem a conta.
— Ih, rapaz, no meu coração não tem espaço pra odiar ninguém por mais de duas horas. E eu já tô ligado que tu é mão de vaca. Essa ideia dos humanos de organizar encontros é meio esquisita — disse coçando a cabeça —, mas curti experimentar coisas novas.
— Relacionamentos são complicados... Quanto mais o tempo passa, mais você conhece os defeitos da pessoa — comentou Bill.
— Mas tu pode conhecer os defeitos de antemão, e mesmo assim continuar gostando, né?
— Faz sentido. Eu estava aqui pensando — falou Bill, que na mesma hora sentou-se e pareceu fervilhar de novas ideias — e se na próxima chamássemos o Ralph, porque aquele garoto só pode ter mel. Nós deixamos o Aedan bem longe porque ele atrai toda atenção só para ele. Esse é o problema de ter amigos bonitos demais, eles ofuscam a gente. Na próxima será um jantar à luz de velas perto do cais com direito a música ao vivo e rodízio de frutos do mar, o que me diz?
Lesten já era presença garantida na próxima tentativa do Grande Encontro, mas só se Désirée fosse também. Enquanto isso, Elma e Tootie observavam o falatório dos rapazes da varanda.
— Ele não toma jeito mesmo — comentou a ferreira.
— O Bill tenta usar essa máscara de patife para impressionar os outros, mas eu sei que por dentro ele é só um rapaz carente que precisa de um pouco de afeto — respondeu Tootie com um sorriso. — Eu tomaria conta dele.
— Quer saber de uma coisa? Vocês dois combinam — disse Elma com uma risada calorosa.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Elice


"Às vezes as pessoas não entendem como é solitário ser criança . [...]
Achar que ninguém se importa com você." — Elice, Capítulo 26 - Espada de Madeira.

Elice é a irmã mais nova de Aedan e vive na Ilha-S onde tem pouquíssimo contato com o restante do mundo. Apesar de parecer uma garotinha meiga, ela esconde um enorme potencial através de seus poderes mágicos, mas a vida toda aprendeu a se reter. Ela costumava visitar a Zona de Gelo com sua família quando menor, mas com a partida de seu pai e a morte prematura de sua mãe, teve de crescer sob o olhar vigilante de seu irmão. Elice recebeu estudos em casa e só tinha permissão para sair aos fins de semana, Aedan temia que os caçadores de tótines os encontrassem e por isso sempre a manteve escondida. Os dois se desentenderam por vários anos, mas ao se verem sozinhos no mundo, aprenderam a se proteger e se valorizar.

Amável e temperamental, Elice sempre teve sua família como seu maior bem. Fora dos limites da magia, ela exerce habilidade com plantas medicinais e ervas. Sua forma mágica é a de uma ave, possibilitando inclusive que ela crie um par de asas para voar.


Elice é parte integrante dos membros da Ordem do Selamento, mas apesar do grupo funcionar como os antagonistas no Livro 1, ela é a única que nunca chegou a enfrentar Ralph e seus amigos.

Ela fez um tremendo sucesso nos Support Conversations antes mesmo do livro ser lançado, e continua sendo a principal escolha para diversos especiais cotidianos que mostram um pouco de sua rotina na Pequena Colina ao lado de seus amigos.

Além disso, um pedaço de sua infância é mostrada na parte 5 do Passado dos Personagens que traz a juventude de seu irmão Aedan e o desaparecimento de seus pais, Hugh e Isadora.

  • Parede Congelada [Defensivo] – Um feitiço que cria uma parede resistente para impedir o avanço de seus inimigos; 
  • Descontrole Glacial [Defensivo] – A usuária é cercada de uma energia mística que congela tudo ao seu redor;
  • Domínio Sobre Elemento [Tríade Mágica dos Tótines] – Um dos três poderes primários dos Tótines. Seu elemento é o gelo;
  • Manipulação [Tríade Mágica dos Tótines] – É capaz de congelar pequenos objetos e resistir a temperaturas baixíssimas, mas diminui sua resistência contra calor;
  • Transformação [Tríade Mágica dos Tótines] – A forma mágica de Elice é uma gralha azul.




    "Você não é muito nova para entender sentimentos?"
    — conversa entre Auria e Elice, Capítulo 28 - Espada de Madeira.

    "Tudo que você tem feito é para me proteger, mas não viva escondido, não desejo essa vida nem para mim nem para meu tão estimado irmão! [...] Obrigada por tudo que você já fez por mim, mas chega! Chega de fugir, chega de se condenar, chega de ter medo!"
    — Elice, Capítulo 29 - Espada de Madeira.

    "Ei, podemos ter uma conversa de adultos? "
    — Elice, Capítulo 30 
    - Espada de Madeira.

    "Prometo que vai se divertir de montão, tá bom?
    — Elice, Support Conversation: Quem vai te fazer feliz?

    "Acho que eu estou cansada de ser especial... eu só queria ser normal uma vez na vida."
    — Elice, Support Conversation: A Criança com o Coração de Gelo.


    • Quando foi criada, Elice era na verdade um garoto;
    • Nas primeiras histórias do autor, seu nome ainda era Cristaltines. Para derrotá-lo, Ralph e seus amigos contaram com a ajuda de Firetines (Aedan) que estava à procura de seu irmãozinho perdido;
    • Na história original, ela habitava uma ilha de nuvens no céu, escondida em uma torre de gelo. Ela era a sétima integrante da Ordem, e por isso a mais poderosa;
    • O nome Elice foi escolhido por lembrar o elemento gelo, "el-ice". A segunda opção era Cristal ou apenas Chris;
    • Elice foi baseada no chefão Crystal King, do jogo Paper Mario.
    • Ela foi a primeira personagem da Ordem a ser apresentada ao público através do Support - A Criança com o Coração de Gelo;
    • Sua forma mágica é baseada em uma Gralha Azul, típica da região sul do Brasil;
    • Elice sofre de daltonismo, o que é revelado sutilmente no Capítulo 26 - Espada de Madeira.

    The Omascar é a famosa cerimônia realizada no Mundo Pokémon Reino de Sellure onde os leitores podem votar no seu personagem favorito durante um determinado período de tempo após o lançamento de cada livro da saga! A primeira edição contou com dez categorias e diversas indicações pelo desempenho particular de cada personagem na história. Segue abaixo a lista de nomeações e vitórias:

    • 15º lugar na Primeiríssima Votação do Universo Matéria de 2007;
    • Melhor Capítulo - Cap. 29 Minhas Fraquezas (com Aedan, Ralph e Lignum) [Vencedora];
    • Melhor Arco - Ilha-S (com Aedan, Ralph, Auria e Lesten) [Vencedora];
    • Melhor Participação Secundária [Nomeada];
    • Melhor Membro da Ordem [Nomeada];
    • Personagem Revelação [Nomeada];
    • Melhor Casal - com Ralph [Nomeada].
     


    Arte de Elice de Nico Nico Nii~, de Abril de 2018.

    Arte de Elice e Aedan, os Guardiões da Ordem, de Abril de 2021.

    quinta-feira, 26 de julho de 2018

    Aedan


    "Se eu escolho entre o bem e o mal, você diz? Talvez eu esteja do meu lado. Eu não dou a mínima para a repercussão que terá na vida dos outros." — Aedan, Capítulo 27.

    Aedan é o atual Líder da Ordem do Selamento e um dos tótines mais poderosos da geração. De personalidade reservada e controladora, aprendeu a encarar os desafios da vida de forma realista e auto-suficiente por conta de seu passado quando foi abandonado por seu pai, Hugh Burnout, de quem guarda um tremendo rancor. Sua mãe adoeceu pouco tempo depois, deixando-o sozinho para cuidar de sua irmã Elice de apenas dois anos.

    Com suas tiradas ácidas e deboche, Aedan sempre foi um homem difícil de se lidar pela arrogância. Aprendeu a conviver com suas responsabilidades desde cedo e trabalhou para que a Ilha-S prosperasse com o preço de torná-la uma Cidade Cinzenta, nome dado a locais dominados pela tecnologia, mas sem representatividade no reino. Tendo sido obrigado a crescer e se virar por si só desde cedo, Aedan dedicou-se inteiramente ao trabalho e passou a ter cada vez menos tempo para sua irmã.

    Ele é também um dos Oito Representantes, onde o indivíduo é escolhido para representar sua província caso haja uma convocação. Seus poderes como tótines envolvem controle do fogo e magias de altíssimo nível, embora Aedan tenha abdicado da guerra e batalhas há muito tempo.


    Aedan é um dos maiores antagonistas do primeiro livro e por isso o último desafio de Ralph antes de conquistar as Cinco Pérolas Sagradas. Ele também tem aparições em diversos Support Conversations planejados, a maioria deles envolvendo os demais integrantes da Ordem e sua irmã Elice.

    • Bola de Fogo [Ofensivo] – O usuário é capaz de fazer disparos com fogo; 
    • Armas Incandescentes [Ofensivo] – O usuário manipula fogo para criar qualquer arma física que desejar. O equipamento preferido de Aedan é uma alabarda; 
    • Teletransporte [Defensivo] – Pode se teletransportar para lugares onde já esteve e esteja ligado ao seu elemento (ex. uma fogueira), mas que esteja dentro de um alcance delimitado. Não pode ser utilizado em sucessão; 
    • Resistência ao Calor [Habilidade Passiva] – Resistência avançada a altas temperaturas, como vulcões e desertos;
    • Domínio Sobre Elemento [Tríade Mágica dos Tótines] – Um dos três poderes primários dos Tótines. Seu elemento é o fogo;
    • Manipulação [Tríade Mágica dos Tótines] – O usuário é capaz de criar, controlar e tornar-se fogo. Se absorvê-lo em grande quantidade, pode aumentar a própria mana;
    • Transformação [Tríade Mágica dos Tótines] – A forma mágica de Aedan é uma serpente incandescente.
      "Meu irmão diz que imaginação é para idiotas que não conseguem encarar a realidade.
       Elice sobre seu irmão Aedan, Capítulo 26.

      "Aedaaaaaaaaaaaan! Eu te desafio para um duelo!

       Ralph para Aedan, Capítulo 27.

      "Nem sempre o certo basta nessa vida. Você é pequeno demais para compreender."

       Aedan, Capítulo 27.

      "[...] Não digam que foi sem querer, que não sabiam ou que só estavam tentando ajudar. Vocês agiram de forma imatura o bastante para acharem que a vida é feita apenas de momentos bons e alegres, que podiam confiar e ajudar qualquer um, que estavam contentes por terem certeza de que, no fim, tudo iria terminar bem."
       Aedan, Capítulo 28.

      "É melhor que exista mesmo, porque só ele poderá te salvar agora."
       Aedan, Capítulo 29.

      "Cada um acredita que suas próprias cicatrizes são sempre mais profundas que a dos outros
       Aedan, Capítulo 29.


      • Aedan se chamava Firetines nas histórias antigas do autor. Ele sempre foi o preferido da galera com seu jeitão desligado e arrogante. Ele foi o primeiro integrante da Ordem a ter uma personalidade bem estabelecida;
      • O lugar de Aedan era como quinto guardião na antiga Ordem, mas existiam sete membros na época;
      • O autor tem uma camisa branca igual ao personagem (isso é trivia MESMO);
      • Aedan é um nome de origem irlandesa que significa "Nascido do Fogo";
      • A forma mágica de Aedan é uma serpente incandescente que desempenha o papel de protetor das matas, impedindo o avanço do homem assim como o Boitatá no folclore brasileiro;
      • Nos gibis do autor seu trabalho Aedan trabalhava como DJ em casas noturnas, o que ainda pode ser visto de forma discreta nos livros por suas preferências boêmias.

      The Omascar é a famosa cerimônia realizada no Mundo Pokémon Reino de Sellure onde os leitores podem votar no seu personagem favorito durante um determinado período de tempo após o lançamento de cada livro da saga! A primeira edição contou com dez categorias e diversas indicações pelo desempenho particular de cada personagem na história. Segue abaixo a lista de nomeações e vitórias:

      • 3º lugar na Primeiríssima Votação do Universo Matéria em 2007;
      • Melhor Membro da Ordem [Vencedor];
      • Melhor Antagonista [Vencedor];
      • Melhor Capítulo - Cap. 29 Minhas Fraquezas (com Ralph, Elice e Lignum) [Vencedor];
      • Melhor Arco - Ilha-S (com Ralph, Auria, Lesten e Elice) [Vencedor];
      • Personagem Mais Poderoso [2º lugar];
      • Melhor Participação Secundária [3º lugar];
      • Personagem Revelação [Nomeado];
      • Melhor Casal - com Ralph [Nomeado];
             


      Aedan (ainda conhecido como Firetines) como um personagem jogável no tabuleiro de Matéria que nunca foi terminado.

      Esboço de Aedan feito em Julho de 2018. A primeira versão que mostra seus olhos.

      quinta-feira, 19 de julho de 2018

      Imaginetrium - Materializando Sonhos [Resenha]

      "Um sistema onde todos podem ser iguais é aparentemente perfeito. Mas onde se encaixam aqueles que ignoram o roteiro e decidem os seus próprios sonhos? Eles não se encaixam. Eles simplesmente desaparecem.
      Anthony vê seu melhor amigo ser sequestrado pela Máfia e jura para si mesmo que fará de tudo para resgatá- lo. Não podendo recorrer à polícia, Tony conta apenas com um aliado inesperado: um velho louco.
      Disposto a tudo, o garoto não faz ideia do que o espera em sua jornada."

      Autor(a): Andrey Gaio Lima e Daniel Jahchan
      Editora: Novo Século
      Lançamento: 2018
      Altura e largura: 21 x 14 cm

      Número de páginas: 176
      Gênero: Aventura, fantasia, ficção, infantojuvenil.

      Por que escolhi essa obra?

      Eu tive o prazer de conhecer o Daniel Jahchan e compartilhar de seu talento no lançamento da antologia "As Lendas de Colina" da qual também faço parte. Tomei conhecimento de Imaginetrium através de suas redes sociais, o projeto estava na fase final de publicação, com capa e tudo pronto. O livro é um trabalho em conjunto com Andrey Gaio Lima do canal Batima Animes. Vamos ver o que essa dupla inusitada preparou para nós?

      Imaginetrium me atraiu por dois fatores: como sou do ramo de fantasia voltado para um público mais juvenil, imaginei que seria uma boa leitura da minha área; além da capa chamativa, ele também é todo ilustrado  o projeto gráfico num geral é um trabalho incrível de Nair Ferraz e Rafael Pen. 

      Capa, Design e Editoração

      A capa é a porta de entrada para um leitor que, convenhamos, muitas vezes também não faz ideia do que está procurando quando vai à livraria, rs. Você precisa fisgá-lo com elementos que o atraia, ao meu ver essa é a importância de uma boa ilustração, sua história pode assumir uma identidade completamente única e diferenciada. Quando os autores optaram por um estilo cartoonizado dos personagens, eles determinaram o seu público. Em uma conversa com o Daniel Jahchan, ele me contou que a princípio a ideia era trabalhar em estilo mangá, mas ele e Andrey decidiram que usando cartoon seria menos nichado, ainda mais falando do Brasil.

      A Novo Século como sempre nos entrega um material de qualidade, desde a diagramação até os detalhes nos cantos de páginas e, claro, as ilustrações. 

      A fonte Crimson em bom tamanho e o papel pólen tornam a leitura agradável, é possível terminar a obra em uma tarde se você se envolver com ela. Na primeira vez que abri o livro para dar uma folheada, admito que tomei um tremendo spoiler... Há quem acredite que imagens que denunciem pontos chave da trama podem desagradar leitores desatentos, mas em raros casos isso também os instiga a chegar logo àquele ponto, afinal, a parte boa de se acompanhar uma história é o desenrolar dela, ver como os personagens crescem e superam seus desafios. Eu acredito que isso também possa aumentar a vontade para chegar até o fim e entender o que estava acontecendo lá. Mas fica a dica, se não quiser tomar spoilers, não folheie!

      Sobre a Obra e a Narrativa

      Imaginaterium é um mundo onde sonhar não é apenas sentar e imaginar as coisas  elas realmente acontecem e tomam forma, principalmente através das crianças. Com um tecnologia mais avançada do que nosso tempo, vemos elementos futuristas misturados ao nosso cotidiano. A trama começa quando Anthony e Edgard ganham a chance de conhecerem seu ídolo, o Super Timothy, mas acabam se envolvendo em um sequestro. Ao ver seu melhor amigo em apuros, Tony sai em uma jornada que talvez seja grande demais para alguém de sua idade. Ele é só uma criança nesse mundo enorme e está suscetível ao fracasso e decepções.

      Logo de cara a escrita me remeteu ao trabalho do Jahchan, que reconheci por conta de sua primeira obra publicada, "Guerra das Raças - A Caça aos Desertores", mas achei melhor mandar uma mensagem para ele só para confirmar, rs. Daniel me contou que ele e o Andrey discutiam pelo skype antes de escrever cada capítulo para que ficasse no agrado para ambos os lados. Quando se trabalha com outra pessoa em uma história, é importante certificar-se de que haverá homogeneidade na linguagem e a narrativa não ficará inconstante caso os capítulos se revezem entre os autores (porém, vale citar que há casos onde são trabalhados pontos de vista de personagens, de forma que a diferença na escrita não interfira tanto na narrativa). Eu já trabalhei em parcerias com outros autores e sei das dificuldades. Ao mesmo tempo que ambos podem unir forças para ter mais ideias e compartilhar opiniões, é preciso que os dois se dediquem na mesma intensidade. Como a internet facilita o contato, muitas vezes você nem precisa estar do lado da pessoa para escrever e criar algo. Andrey e Daniel compartilham do interesse por animes, cartoons e mangás, por isso imagino que na maioria das vezes suas ideias batessem batessem perfeitamente. 

      Eu imaginava que veria a imaginação rolando solta em uma história onde os sonhos são tudo, mas achei curioso como esse mundo fantástico se pareceu tão palpável e próximo de nossa realidade. Cada personagem desempenha bem seu papel e o tempo todo visitamos o ponto de vista de alguém diferente, dando mais profundidades a suas ambições e batalhas pessoais.

      Eu gosto de histórias que nos deixam uma mensagem, por mais simples que seja, e os autores souberam trabalhar diversos pontos com muita precisão. O vilão por exemplo tem um caráter duvidoso, mas você percebe que ele passou por seus traumas até se tornar quem ele é atualmente. As ilustrações implicam tortura, explosões e porrada, o que é uma prova de que só por ser cartoonizado não significa que a temática precisa ser infantil.

      Sobre os Personagens


      *Opa, essa parte terá alguns SPOILERS! Leia sob seu próprio risco*

      Em Imaginetrium, vemos diversos pontos de vista diferentes — os mais frequentes são Anthony, Edgard e o Senhor Louco com cerca de cinco/seis capítulos cada, mas também contamos com Vivian, Super Timothy, Duds, Cristina e Fran a mãe de um dos protagonistas.

      A amizade entre Anthony e Edgard é bonita e sincera, o pequeno Tony o respeita como a um irmão mais velho. A cena de bullying no início é daquelas bem manjadas, mas sempre funciona para estabelecer uma amizade forte entre personagens. Se eu tivesse que definir um protagonista para Imaginetrium eu diria que é o Anthony, a maior parte da trama gira em torno do menino, mas tudo que ele faz é por Edgard, então fica difícil dizer. Mas a forma como um trabalha pelo outro é a chave em Imaginetrium.

      Eu gostei muito do fato de Anthony e Edgard serem fãs de uma celebridade teen, enxerguei muito de nossa atual sociedade onde muitos youtubers são idolatrados por crianças e jovens. O fato de um dos autores também ser youtuber é interessante, eles estão cientes disso, são formadores de opiniões para essa geração e Super Timothy reúne todo um lado ruim e negativo da mídia, mas no fundo ele ainda é humano, um rapaz jovem que tentou a redenção mas optou por um caminho pior. Como os personagens não passavam de crianças, foi muito importante eles combaterem um vilão que não fosse invencível. A ideia de que as armas utilizadas através da materialização têm efeito momentâneo foi uma de minhas partes favoritas — uma morte simbólica, aquele o momento em que a pessoa morre para você, porque já não a reconhecemos mais.

      Outro personagem que merece destaque e aparece desde o comecinho é o querido Senhor L que passa a desempenhar um papel fundamental como mentor. Envolto em seus mistérios, ele é um dos que mais cresce na trama. Alguns dos capítulos são escritos no ponto de vista de personagens menos importantes como Duds, mas que servem para retratar a forma como ele enxerga, suas falas cercadas de malícia e maldade. Ah, e também destaque para a Fran, mãe de Tony (quem é da área de fantasia sabe como os pais sempre começam mortos ou nem existem nessas histórias, rs. É raro ver uma mãe que desempenha um papel importante!).

      A última figura que dedico um espaço especial é Vivian (admito que foi por causa dela que quis comprar o livro, a aparência dela é muito show!) Eu fiz minha lição de casa e decidi ir atrás do canal Batima Animes — que até o presente momento consta com mais de 600 mil inscritos, um número impressionante —, mas pense em mim como um cara que não frequenta muito youtube e não entende nada disso, rs. Pelo que observei, grande parte de seus seguidores são de um público otaku e alguns dos vídeos mais recentes trazem uma temática ecchi (para quem não sabe o que significa, são animes mais sensuais). Eu pude enxergar um pouco dessa influência na Vivian, ela é o tipo de protagonista badass dos animes. Sua cena no livro inclusive carrega o símbolo do batman na calcinha, representando o canal de Andrey. Eu sempre me diverti com esse tema e adorei a personagem, apesar de eu não assistir quase nenhum anime hoje em dia, também tive minha fase de otakinho que ia pro shopping com bandana de Naruto. Quem acha que a Vivian merece algumas fanarts? ( ͡° ͜ʖ ͡°)

      Considerações Finais

      Reunindo as várias ideias de Daniel e Andrey, só podia ter saído uma obra divertida e que entretém, repleta de personalidade, ilustrações de qualidade e momentos de tensão. Com ótimos personagens e um enredo bem estruturado, Anthony e Edgard seguem sua jornada amadurecendo com os desafios que a vida lhes impões, mas eles nunca estão sozinhos. Imaginetrium foi feito para um público juvenil, mas sua mensagem pode ser apreciada por qualquer pessoa. Só porque o estilo de desenho é cartoonizado não significa que a história seja voltada apenas para crianças, pelo contrário. Com criatividade, eles nos entregam um trabalho que representa de forma conveniente os dias atuais e certamente deixará o leitor refletindo após a conclusão. As mensagens que carrego comigo são de que vida não é um mar de rosas, que as consequências devem ser encaradas e superadas, mas, principalmente, que a amizade e os sacríficos que fazemos pelo mundo podem durar para sempre.

      terça-feira, 3 de julho de 2018

      Capa Oficial CONCLUÍDA

      Já faz muito tempo que estou trabalhando nesse projeto, mas nunca antes senti que ele chegou tão perto de se tornar real. A primeira postagem do Reino de Sellure aconteceu lá em Abril de 2015, mas eu comecei os rascunhos do Matéria ainda em 2014. De lá para cá muita coisa mudou, fiz melhoras enormes que não teriam acontecido se eu tivesse publicado às presas, às vezes quase perdi as esperanças, mas sempre que sobrava um tempinho eu dava aquela polida que a história precisava. Agora sinto que nossa pequena jóia está perto de seu estado final.

      No mundo literário, é sempre um alvoroço quando um livro divulga sua capa. A capa é a porta de entrada do leitor para uma obra, é o que fará seu produto chamar atenção dentre tantos outras na prateleira e cada detalhe é importante, desde o acabamento, a textura, sinopse, qualidade das imagens; tem muito livro que se vende só pela capa e, para ser sincero, eu não achava que estava a altura de ilustrar meus próprios personagens. É a mesma coisa quando falam que um médico não deve tratar um familiar durante uma emergência, o valor emocional bate muito forte e ele pode acabar fazendo besteira. Por isso coloquei meus personagens aos cuidados da Lúcia Lemos, que fez esse trabalho impecável com o projeto como um todo.

      Uma das minhas maiores preocupações em contratar uma editora para assumir meu livro era que ela acabasse tendo um controle maior do que eu. Já ouvi histórias de outros autores que precisaram ceder a uma capa mal feita porque o capista já estava de saco cheio dela, mas que culpa o autor tem se o trabalho não atingiu suas expectativas? Também não sou fã de fotomontagens, nem daquelas capas de fantasia genéricas com um protagonista de costas olhando para um cenário. Eu queria que minha capa transmitisse toda a essência juvenil que quero atingir com meu público, eu queria que os leitores conhecessem meus personagens antes mesmo de abrirem a primeira página.

      Deixar seus personagens nas mãos de outra pessoa é sempre um desafio, você não sabe se o artista conseguirá captar todas as características deles, mas um dos motivos de eu ter procurado a Lúcia foi porque eu já havia visto o trabalho dela e sabia que ela faria algo esplêndido. Além de designer ela é também escritora de fantasia, seu primeiro trabalho, Aika - A Canção dos Cinco, me introduziu ao seu portfólio pelo qual me apaixonei logo de cara.

      Um dos protótipos da capa era vermelho, mas quem me conhece dos tempos do Aventuras em Sinnoh sabe que o azul me representa até na vida real. O couro vermelho é um clássico, mas o azul traz uma sensação tão suave e harmoniosa; o vermelho é mais agressivo. E eis que surgiu a ideia de fazer cada capa das sequências com uma cor diferente, então não custa nada guardar o tom avermelhado mais intenso para quando começar a guerra de verdade, não? Outro sonho meu de infância era ter um livro com capa dura (mas que autor consegue uma coisa dessas no Brasil?), então simulamos um efeito com textura para remeter a esse estilo, como as obras de Andrew Lang e seu"O Fabuloso Livro Azul" e sequências que inspiraram até mesmo Tolkien em sua juventude.

      Com a capa entregue, faltam mais três etapas - ilustração, diagramação e impressão.
      É, meu povo, agora ninguém segura!


      Versão definitiva da capa de Matéria - Espada de Madeira



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