quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Passado dos Personagens - Lesten (Parte 2)

Com o frio da região de Perpetua começando a intensificar, tornou-se impossível acompanhar os rastros pela estrada. Lesten estava na fronteira de Constantia com a província mais gélida do reino, infiltrando-se nas proximidades do antigo castelo onde os Três Soberanos travaram a Guerra das Espadas há mais de cinquenta anos. Suas consequências perduravam até os dias de hoje. Os arredores eram evitados desde então, diziam que uma magia negra tão poderosa assolou aquela terra que os fantasmas e espíritos de baixo eram vistos com maior frequência — uma área muitíssimo perigosa, de fato.
A caçada se prolongava mais do que deveria, mas tinha confiança de que logo encontraria seus homens e seu irmão. Quando a noite caiu, a temperatura despencou junto e Lesten viu em seu corpo a necessidade de fazer uma parada. Havia uma cabana abandonada na encosta da montanha, um bom lugar para recuperar as energias e descansar. Caso seus anfitriões se recusassem a recebê-lo, poderia usar seu cargo em nome do exército para fazê-los mudar de ideia, uma técnica que aprendera com outros oficiais que diziam nunca falhar.
Foi arrastando a neve no chão até conseguir bater a porta. Ninguém atendeu — estava aberta. Era um simples depósito com diversos caixotes e baús, provavelmente já havia sido saqueado há muito tempo. Reuniu toras e pedaços de madeira podre, precisava de lenha para aquecer-se, os geckos eram muito prejudicados por mudanças drásticas na temperatura. Vasculhou seu alforje em busca de uma pequena caixa dourada, retirando dali um simples selo, instrumentos que eram utilizados em todo o reino e tinham como objetivo oferecer uma pequena parcela de magia para quem não nascesse com aquele dom. O selo foi atirado na madeira e imediatamente acendeu as chamas, desta forma, garantindo um pouco do calor que precisava para seu sangue frio.
Lesten não queria adormecer, mas estava tão cansado que precisava descansar por algumas horas ou não iria suportar a caminhada no dia seguinte. Quando se deitou, sentiu o peso de uma viagem solitária, não tinha mais o irmão para acordá-lo nas emergências ou amigos que mantivessem a guarda noturna. Pelo menos ainda contava com seus instintos, só precisava manter os olhos na porta e os ouvidos atentos a qualquer ruído.
A lua não podia ser vista no céu nublado. Lesten roncava alto quando três criaturas moveram alguns dos caixotes e saíram de um alçapão debaixo da terra. O lagarto estava de costas para eles, monstros foram saindo um por um e começaram a cerca-lo à espera de alguma ordem. Lesten estivera à espreita, ele imediatamente saltou para longe a agarrou suas armas, golpeando um deles no tórax com a espada e acertando o pescoço de outro com sua lança.
As criaturas se movimentavam aturdidas, mas se quisessem matá-lo, já o teriam feito. Lesten derrubou quase uma dúzia deles até que fossem necessários cinco Anons para imobilizar seus braços e pernas. Quando um deles abriu a porta, viu-se um velho franzino coberto por um capuz enegrecido.  O homem caminhou até o gecko que se debatia ferozmente. Quando ele ergueu o braço em sua direção, Lesten quase arrancou sua mão fora com uma dentada só, os Sem Rosto tentavam controlá-lo desesperadamente. O velho pôs uma das mãos sobre o rosto do réptil que se debatia, mas não parecia querer feri-lo.
— Por que não me mata logo?
O velho lhe dirigiu um olhar abatido, retirou o capuz e revelou cabelos grisalhos penteados para trás acompanhados de rugas da idade.
— Por que eu haveria de querer ferir um possível aliado? Eu apenas vou precisar marcá-lo, não vai doer nadinha.
 A unha do indicador do velho era tão longa que mais parecia um bisturi. Ele fez um corte profundo no olho esquerdo de Lesten, que gritou de dor, despejando o sangue verde. Deveria estar infectada, pois começou a sentir tontura. Sem compreender o real propósito do velho, ele grunhiu entre os dentes:
— Não resista, criança. É o melhor que pode fazer por hora.
Lesten ajoelhou-se no chão, sua visão cada vez mais turva. O velho retirou uma das luvas brancas e, assim que tocou seu rosto, o corpo do lagarto foi tomado por uma dor latejante quase instantânea. Ele caiu sem oxigênio, gemendo e com dificuldades em manter a consciência.
O guerreiro fechou os olhos e apagou completamente, sem a certeza de que iria acordar.

i

Podia jurar que estava de frente a um espelho. Provavelmente nunca tinha olhado no rosto de seu irmão por tanto tempo para saber como eram parecidos.
— Não era para você ter vindo atrás de mim, seu idiota. Ainda mais sozinho — falou Wester em sua frente. Estava bem ferido, mas continuava inteiro. Usava um pano encharcado de vermelho para cobrir o machucado em seu olho esquerdo. Quando Lesten recobrou a consciência, a discussão já se instaurara:
— Idiota — murmurou enquanto recobrava a consciência. — Idiota... tu que é o idiota. Eu falei para não sair... eu falei para não tentar bancar... o herói.
Assim que se deu conta, ali estavam seus homens desaparecidos, todos trancados em uma cela no subsolo, mas nunca antes vira uma obra tão bem planejada, era como se já estivesse sendo construída há décadas, longe dos olhos vigilantes dos batedores da superfície.
Lesten levou a mão até a cabeça e percebeu que sua mão estava suja de sangue ressecado.
— Vai ficar uma cicatriz feia — Wester falou. — Pelo menos, acho que agora serei o mais bonito.
— O que  aconteceu aqui, cara? Quem era aquele velhote? Ele me apagou como se estivesse me controlando por dentro.
— E estava. Acreditamos que ele seja um tótines, pois detém uma magia de envenenamento, basta tocar uma ferida para que ele tenha total controle sobre nosso corpo. Muitos curandeiros utilizam tais poderes com propósitos medicinais, mas esse homem a usa de forma perigosa — explicou Wester. — Fomos capturados e levados até essa cela, mas alguns não resistiram.
Lesten ainda respirava com dificuldade, sentia que só agora seu corpo começava a se recuperar dos efeitos do veneno. Antes que compartilhasse mais alguma informação com seus colegas, o sacerdote negro desceu as escadas de ferro acompanhado de dois monstros truculentos com a boca costurada para que não falassem mais do que deviam. Os geckos continuaram sentados, mas Lesten e seu irmão levantaram para confrontá-lo.
— Por que nos mantém cativos aqui? — indagou Wester.
— Um inimigo sempre deve ser tratado com sinceridade, para que então possam vir a servir a sua causa.
O velho olhou para cada um dos lagartos que continuavam vivos e respirando. Sobraram apenas sete deles, incluindo os Irmãos do Vento. Os demais morreram na batalha ou não suportaram seus ferimentos.
— Dizem que os geckos, quando conquistados pelo coração, são as criaturas mais fiéis desse mundo. Um humano pode vir a traí-lo por ganância ou poder, mas o gecko será eternamente entregue à justiça de seus atos. Para ser bem sincero, eu nunca acreditei que pudesse corromper algum soldado inimigo, mas me surpreendi com os resultados e fiz boas amizades.
— Eu já disse que nós jamais trairíamos nosso povo — Wester rugiu. — Eu não sei a quem você serve, mas saiba que não adianta mais se esconder em buracos, pois nós o encontraremos e iremos derrota-lo.
— Não sou apenas um simples mensageiro — ele falou. — Meu nome é Dumag e sou um dos Filhos da Peste. Vocês já devem ter ouvido falar de meu mestre, é incrível como a fama de um fantasma precedeu até os maiores vilões da história. Ainda é cedo para que ele se revele, mas estamos aqui, contaminando tanto corajosos quanto inocentes, proliferando-se como uma doença.
— A Peste Negra — Wester sibilou entre os dentes.
Não eram boatos. Em algum lugar daquelas montanhas frias existia mesmo um fantasma que realizava pequenas investidas às cidades próximas para enfraquecer a capital, quem sabe até estuda-la. Ele planejava um golpe poderoso e, quando atacasse, seu abalo seria sentido em todas as capitais de Sellure.
— Vocês sabem exatamente contra quem lutaram nos últimos anos? Ou estão apenas cumprindo as obrigações de um rei caduco e seu conselho idiota? Parem de lutar por um homem enfraquecido, de tentar proteger velhos farsantes sentados em seus tronos de ouro enquanto os pobres soldados lutam pelo bem da nação. Meu mestre lhes oferece a redenção, uma segunda chance — Dumag lhes esticou uma das mãos. — Basta aceitarem nossa clemência.
Lesten olhou para seus homens, como se esperasse uma resposta por parte deles.
— Se nós aceitarmos lutar pela Peste Negra, você garante que teremos passagem segura para fora daqui?
Dumag sorriu de maneira assustadora no escuro.
— Seguros? Vocês serão como nossos irmãos.
— Lesten, não pense em fazer isso, seu... traidor! — gritou Wester.
Um dos monstros sem face abriu a porta da jaula. Mesmo sem nenhuma arma disponível, geckos ainda eram perigosos por natureza. Usando o breve momento de descuido de seu inimigo, Lesten mordeu o ombro de um enquanto seu irmão captou a mensagem e avançou direto rasgando o pescoço de outro. Dumag afastou-se receoso quando dois soldados geckos iam em sua direção. Ele tropeçou e foi direto ao chão, mas quando os répteis preparam-se para ataca-lo o velho arrancou suas luvas rapidamente e tocou nas feridas no peito dos lagartos. Os dois tremeram e caíram no chão em questão de segundos, começando a cuspir sangue e afogando-se em uma poça esverdeada que os matou por dentro.
Agora restavam apenas cinco membros de seu pelotão, eles formaram um círculo enquanto Dumag se levantava, olhando para eles sem um pingo de compaixão. Dezenas de monstros reforçaram sua defesa, espremendo-se na cena apertada. Lesten e Wester estavam com os ombros encostados, preparados para a morte iminente.
— Quem foi mais idiota: eu que comecei essa baderna, ou você que me acompanhou?
— Sei lá, é tanta idiotice que fica difícil decidir.
— Foi mal, irmão. Você sabe que eu sempre quis sair da sua sombra — Wester admitiu. — Pela primeira vez na vida, eu queria ser digno da minha medalha de ouro.
— Ô, sua anta, se quisesse tanto uma eu te dava! Todas elas, a parede inteira, medalha nenhuma valeria mais do que ti!
— Mas é como você mesmo disse... se não for merecido, não tem valor.
— Não esquenta, capitão — disse-lhe um de seus companheiros. — Mesmo que nossos nomes não sejam lembrados ou que esse momento final seja esquecido pela história, vamos garantir que os espíritos no mundo de baixo comemorem nossa ousadia!
Os três soldados na retaguarda avançaram, atacando os monstros Sem Face que hesitavam em avançar. Eles foram capazes de derrubar sete criaturas até serem golpeados no peito por armas bifurcadas, estavam sem armadura ou proteção alguma, a morte foi instantânea.
Lesten viu cada um de seus amigos caírem ao seu redor até que só sobrou apenas ele e seu irmão.
— Tudo que lhes pedi foi um pouco de confiança — sibilou Dumag com um sorriso franco.
— Vá à merda com sua misericórdia!
— Ah, são tempos difíceis... — lamentou o velho.
Os Irmãos do Vento atacaram em conjunto, matando os monstros na dianteira que caíram diante de seus pés sem demonstrar reação. Eram espantalhos, fantoches e marionetes; podiam ser substituídos com a mesma facilidade que se descarta um brinquedo indesejado.
Não importava quantos deles pudessem derrotar, era preciso cortar a cabeça da serpente.
Mesmo sem armas, Wester tentou arrancar o pescoço de Dumag uma última vez, mas o velho segurou seu rosto e ele sentiu sua energia se esvair. Se suas suspeitas estivessem certas, então Dumag precisava tocar alguma ferida para conseguir inserir seu veneno dentro de alguém. Lesten agiu depressa e a abocanhou, girando para o lado e arrancando-a fora. Dumag gritou e caiu ajoelhado, seu próprio sangue jorrando para fora do membro decepado. Num último gesto de pânico, ele ordenou que todos os monstros batessem em retirada.
— Amaldiçoados sejam! A Peste Negra vai voltar! — gritou Dumag antes de subir as escadarias correndo na companhia de seus fantoches que o seguiam com obediência.
Lesten ajoelhou-se ao lado do seu irmão e o segurou em seus braços. Wester parecia bem por fora, mas era como se algo o afetasse por dentro, uma hemorragia interna que matava lentamente e ninguém poderia fazer nada para curá-lo.
— Que merda, cara, que merda! Olha só pra tu — lamentou o lagarto, aninhando-o contra seu peito e sentindo que sua pele começava a ficar cada vez mais gélida.
— Tá tudo bem, cara... — Wester murmurou com a voz tranquila. — Tá tudo bem.
— Como tu pôde ser tão idiota? Eu falei pra não sair, eu falei pra não tentar bancar o herói!
— Não sei como você sempre consegue ser tão ousado em suas decisões... olha só... na primeira vez em que arrisquei, coloquei a vida de todo mundo em risco, inclusive a sua.
— Pare de dizer bobagens... eu vou tirar todo mundo daqui — Lesten dizia a si próprio, vendo os corpos de seus amigos já sem vida ao seu redor.
— Ei, irmão — disse Wester daquela maneira que lhe passava tanto conforto, sua voz quase desaparecendo no som abafado da cela. — Desculpa por nunca ter dito isso num momento mais apropriado, mas eu te amo, cara.
— Vou tirar a gente daqui... vou salvar todo mundo... vamos ser heróis, nós dois vamos ser heróis.
Wester concordou, mesmo que soubesse que ele nunca seria.
— Obrigado por cuidar de mim... até o fim.

ii

Lesten descobriu que todos os humanos que desapareceram ou terminaram mortos foram capturados ou passaram para o lado do inimigo, sofrendo assim uma lavagem cerebral contra o reino de modo que sentissem orgulho em lutar pelo inimigo. Ao menos a mensagem fora entregue: a Peste Negra era real.
A temperatura caíra de maneira brusca, como se a própria natureza anunciasse a chegada de dias ruins. Naquele dia, Lesten aprendeu que a guerra mostra um caminho para a segurança, às vezes cria uma possibilidade de que exista a chance de se escapar da morte; e somente então, ela ataca — arranca todos que lhe são importantes, tudo que um dia já lutou para conquistar.
Demorou quase uma semana para voltar para casa. Preparou sozinho o enterro do irmão e dos compatriotas. A essa altura, a notícia de que a Peste Negra voltou alcançou a fortaleza e o Conselho entrou em estado de alerta.
Lesten não foi recebido com comemorações ou medalhas. Seus superiores vieram com acusações de incapacidade. Teve de entrar no portão sul que era mais próximo, mas os olhos dos humanos sobre ele o perfuravam como mil navalhas. Naquele dia todas as raças se misturaram para ver o sobrevivente, o capitão que não conseguiu salvar seus soldados, o irmão que falhou em proteger sua família.
 Pyke, o mais novo chefe da Guarda Real, o recebeu envolvendo-o com uma capa para protege-lo do frio. e Não achava justo que ele sofresse tantas acusações.
— Venha, você já passou por muito nos últimos dias.
Lesten negou com a cabeça, só precisava descansar um pouco e logo retomaria seus treinos. Os dois se dirigiam aos dormitórios quando um dos membros do Conselho da Matiz o impediu na altura da ponte transitória — Temmerius, o mais alto e respeitado representante. Ele vinha seguido por dezenas de soldados da Guarda Real, ver Pyke deixar sua posição para consolar um amigo lhe parecera um ultraje.
— Deixe-o! — ordenou Temmerius. — Ele vai se recuperar e aprender a não agir contra as ordens do reino. Quando estiver melhor, será devidamente punido por suas atitudes.
— Ele precisa de ajuda psicológica — respondeu Pyke. — Ele precisa do apoio de sua raça mais do que tudo nessa hora.
— Quem lhe deu a permissão de me contestar? — indagou Temmerius. — Sair em uma busca atrás de um caso perdido? Não era do interesse de vocês, agora a Peste Negra despertou e sua ira cairá sobre nós!  — O velho olhava para o lagarto moribundo que mal conseguia se mover. — Você é o responsável pelas vidas perdidas. Iremos retirar suas medalhas e revogar seus títulos, porque foi incapaz de cumprir com sua palavra ou demonstrar autoridade. Terrível, uma falha tremenda, um...
Lesten levantou-se, caminhou contra o homem que não parava de tagarelar e acertou-o na cara, fazendo o velho cair do outro lado.
Tudo foi tão rápido que nem mesmo os guardas souberam como reagir, ninguém ousava levantar um dedo sequer contra um membro do Conselho da Matiz, eles eram intocáveis, praticamente deuses entre homens. Por uma única atitude tola, Lesten não era mais o herói do povo.
— Ninguém manda em mim, seu velho de merda.
Temmerius explodiu em ultrajes e difamações. Lesten já sabia o que o aguardava.
— E-excomungado! Você está oficialmente expulso da Fortaleza da Pedra Azul, pelo resto de sua vida! Não tem permissão de pisar nessas terras nem sob o consentimento do rei, nem de seu pai! Você é uma vergonha para todos os geckos de Sellure, Lesten, maldito seja!
Lesten voltou para seu quarto e um estranho vazio tomou conta dele. Guardou a lança e a espada juntas, sabendo que elas estariam exatamente onde as deixou. Olhou o quadro de medalhas na parede e respirou fundo, depois socou o vidro com força que se despedaçou em milhões de pedaços. Suas mãos sangravam conforme ele quebrava sua própria imagem, agarrava as placas redondas sem valor e as atirava longe pela janela; derrubou a moldura inteira no chão e depois chutou, mordeu e gritou, como se fosse um animal selvagem. Destruiu colchões e sofás, tudo que demorara anos para conseguir, quebrou o armário e sua pequena caixa de tesouros caiu revirada no concreto. Quando reunia seus pertences, encontrou ali sua primeira medalha de tampinha de garrafa. Ela era a única que ainda valia a pena guardar.
Decidiu que levaria a caixa consigo e reuniu mantimentos para uma longa viagem. Quando estava para sair, Pyke o aguardava na saída.
— Está aqui para me escoltar para fora da fortaleza? Não se preocupe, chefe, eu sei onde fica a saída.
Pyke respirou fundo, observando seu hálito quente formar-se no ar.
— A armadura tem que ficar.
Lesten olhou para ele, àquela altura não havia mais raiva para expelir. Lesten tirou toda a sua roupa até ficar praticamente pelado, estava para entregar as armas também, mas pelo menos isso Pyke permitiu que ele ficasse, pois precisaria se proteger no longo caminho que o aguardava.
O gecko ajeitou seus pertences nas costas e preparou-se para seguir quando ouviu:
— Não foi culpa sua — disse o chefe da guarda real.
— É. Não foi. — O lagarto olhou para as luzes da cidade que um dia já foi seu lar. — Mas você acha justo jogar a culpa em alguém que já está morto?
— A culpa também não foi do seu irmão — Pyke emendou. — É a guerra. É esse lugar. Não se pode ter um vislumbre de felicidade que alguém sempre tenta arrancar isso de nós.
— Eu meio que já me acostumei, cara. Sério, não precisa se importar comigo. Obrigado por me treinar e ensinar tudo que sei, mas agora acabou. Não sei nem como alguém como eu pôde chegar tão longe.
— Aonde pretende ir?
— Para junto do meu irmão, talvez.
Pyke o agarrou pelos ombros, deixando de lado toda sua compostura como chefe da guarda e agindo como um amigo que realmente se importava.
— Não ouse tirar sua própria vida, está me ouvindo? Medalhas podem ser reconquistadas, posições e respeito também, mas a sua vida é única. Não tente, e isso é uma ordem, minha última ordem — falou Pyke. — Vá para a Ilha dos Geckos, a maior cidade de nossa espécie na região de Century. Você será bem recebido, tente recomeçar, mas não vá se meter em confusões. Sua vida pode ter acabado como soldado, embora a alma de um guerreiro jamais saia de você. Viva em memória de seu irmão e pelas pessoas que, como eu, ainda lutam por um mundo melhor.
Pyke estufou o peito e elevou o nariz alongado, unindo as duas pernas e batendo continência para ele. Lesten fez o mesmo.
— Quando a guerra terminar, chefe, espero que possamos sair e tomar todas na melhor taverna da cidade até de madrugada — Lesten tentava sorrir, escondendo suas tristezas. — Nós vamos contar piadas e histórias de superação, depois vamos rir e chorar de cada um desses acontecimentos.
— Tempos melhores ainda estão por vir, meu amigo, tente acreditar.
Quando Lesten saiu pelos portões já era madrugada, o silêncio reinava, não havia ninguém por perto para dizer que sentiria sua falta ou saudades.
Olhou uma última vez para a fortaleza e viu tudo que conhecia ficando para trás. Quando abriu sua caixa de pertences, tirou dali a medalha de tampinha de garrafa e colocou-a no peito, como se fosse a maior e mais preciosa conquista de sua vida,
Saiu de lá marchando, embora não soubesse aonde o destino iria leva-lo. Só precisava continuar com um belo sorriso estampado no rosto para ocultar as dores de seu passado, assim, ninguém desconfiaria.
A fita vermelha em sua lança dançava no vento.

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