sexta-feira, 28 de julho de 2017

Capítulo 8

Ralph sempre pensava em como poderia ajudar as pessoas, desde os negligenciados até os que apenas precisavam de uma segunda chance. Fantasiava sobre um lugar onde heróis e vilões pudessem reunir-se sem causar tumulto, formando equipes que buscassem objetivos semelhantes. Não seria uma tarefa fácil, mas sentia que tinha um plano e precisava expandir sua ideia por toda a Sellure até ser reconhecido em cada província.
Lesten quis apresentar sua casa, entrou encurvado para dentro da cabana enquanto repetia um gesto convidativo cheio de empolgação. Mesmo que os geckos tivessem o costume de agir com desconfiança com forasteiros, eles ainda adoravam receber visitas e preparar refeições com iguarias excêntricas e temperos que nenhuma outra raça sabia cultivar.
— Sejam bem-vindos à minha humilde residência. Podem ir entrando, fiquem à vontade!
A cortina de cocais escondia uma completa bagunça. Restos de comida estavam jogados pelos cantos, o ambiente exalava um estranho odor de dormitório masculino composto por cinco ou mais garotos que decidiam fazer a limpeza só depois de um mês inteiro de festas. No primeiro andar o chão era forrado com tábuas de madeira improvisadas e cheias de buracos. Seus pertences mais importantes ficavam em uma área superior, caso a água do mar decidisse subir ao anoitecer e ele fosse pego de surpresa. O que Lesten chamava de “segundo andar” era um amontoado de caixotes e barris embaixo de toras de madeira que se sustentavam como pilares, uma rede de dormir estava estendida de uma ponta à outra e só uma lagartixa poderia alcançá-la no topo. Havia uma lareira — o que Auria não soube explicar a princípio —, pois os geckos precisavam de calor para manter o sangue aquecido em noites frias, mesmo vivendo em uma ilha tropical.
Ralph encantou-se com a autenticidade. Era a casa perfeita para alguém que desejava morar sozinho, alheio aos deveres e obrigações com o resto do mundo.
— Cara, faz um tempão que não recebo visitas. Vocês me pegaram de surpresa! — disse o lagarto enquanto reunia seus pertences. — Sorte que eu limpei a casa, ontem mesmo aproveitei para jogar fora o lixo.
— Pois é. Vimos a sua varanda — comentou Auria, nem um pouco discreta. — Como alguém pode viver nessa bagunça?
— Bagunça é quando a maré sobe e leva tudo embora. Por isso deixo aquela área elevada ali em cima para colocar minhas coisas importantes penduradas. Ah, e cuidado com o buraco no chão.
— Isso tudo é muito interessante — respondeu Ralph por fim. Ele espremeu-se embaixo de alguns caixotes como se fosse um esconderijo. — Sem regras, sem leis. Você pode fazer tudo que quiser e quando bem entender!
Auria apoiou as mãos sobre a caixa e encarou o garoto de ponta-cabeça.
— Pronto. Realizou seu sonho?
— Como assim?
— Você disse que queria ter amigos para compartilhar suas histórias. Aqui estamos nós. Você queria construir uma base notória onde fosse reconhecido. Aqui está a base.
— Auria, você não entendeu. — Ralph caiu na risada. — Eu não procuro uma base, uma guilda ou um castelo requintado, eu quero um lar! Um lugar onde pessoas possam se reunir para compartilhar bons momentos. O lar é uma consequência de onde nos sentimos plenos e felizes. Você se sente feliz?
Auria levou a mão até sua cabeça em sinal de desapontamento.
— Bem, eu não gosto daqui — falou enquanto verificava a qualidade das paredes que caíam quando ela as empurrava com força.
— Poxa, também não ofende! Eu ergui essa cabana com muito esforço — respondeu Lesten, abrindo uma fruta com suas garras para depois abocanhá-la. — Vocês recuperaram seus pertences, então por que não vão embora logo?
Quando Auria estava para pegar Melodia, o lagarto passou-a para a mão esquerda. Ela franziu o cenho, tentou pegar a espada novamente e Lesten esquivou-se, a arma agora estava presa em sua cauda. Auria largou sua mochila e derrubou o lagarto no chão.
— Quer parar de bancar o engraçadinho, sua lagartixa degenerada?
— Foi mal, foi mal! Eu só queria saber como tu reagiria — lamentou o lagarto com o pescoço ainda dolorido. — Tu bem que precisava de um regime, acha não? Parece que está carregando uma armadura inteira no bolso.
Auria saiu de cima do lagarto que respirou fundo com o ar que voltava para seus pulmões. Ralph ajeitou sua espada de madeira nas costas e, após olhar tudo de relance, foi em direção da saída para observar a vista.
— Pensando bem, ele nunca me encontraria aqui...
— Ele quem? — perguntou Lesten.
— Um contador de histórias, um viajante que o Ralph conheceu quando era criança — falou Auria. — Nós estamos isolados em uma ilha. Ele nunca vai te encontrar.
— É tão difícil descobrir o que fazer sem a ajuda de um mentor... Lesten, acha que pode nos levar para o porto? Precisamos voltar para o continente, nossa função nesta ilha está cumprida.
O lagarto era tão esquecido que não levara em conta o porquê de estar morando sozinho, longe de toda civilização. Podia considerar-se privilegiado pelo fato das autoridades não terem obrigado que ele partisse da Ilha dos Geckos, mas dar as caras no centro da cidade não era uma das ideias mais sensatas.
Eles seguiram pela costa evitando ao máximo contato com a selva repleta de insetos e monstros. O som constante das ondas trazia a sensação de continuidade, as pegadas do lagarto iam ficando para trás. Às vezes, quando Lesten corria pela praia, fincava as quatro patas no chão e ganhava velocidade para caçar caranguejos que se escondiam na areia com ainda mais rapidez. Terminava todo sujo depois que enfiava o focinho na areia para apanhá-los, quase sempre retornava vitorioso com um petisco entre os dentes.
Ralph aproveitou para retirar suas botas, arregaçar a barra da calça e sentir a areia em seus pés. O jovem voltou-se para Auria e perguntou:
— Por que não entra também?
— Não estou muito disposta, obrigada — ela respondeu num ar sério.
— Oh, fêmea, tu não sente calor dentro desse casulo encouraçado? — perguntou Lesten.
— É uma jaqueta. E foi um presente da minha irmã mais velha, é uma das poucas coisas que guardei dela antes de ir embora. Quando visto sinto que estou protegida, como se fosse a minha própria armadura — disse Auria. — Estou morrendo de calor, mas não quero tirar. Nunca se sabe quando alguma criatura pode atacar, ainda mais na costa do oceano.
— Alguma coisa... tipo um monstro? — Lesten mencionou com entusiasmo. — Sei tudo sobre eles! Monstros mais antigos que a própria história, habitando as profundezas do mundo, criados desde os tempos em que Tokay, Asa Negra, ainda explorava a terra, os mares e o céu.
— Você também é fã do Asa Negra? — perguntou Ralph. — Ele é o meu ídolo!
— Não brinca. Toca aí, ruivo, tu é o cara! Não faz nem uma hora que nos conhecemos, mas acho que já gosto de ti.

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Lesten os levou ao cais onde o navio da Vila das Pérolas havia atracado. Existia uma taverna conhecida como Escama Azul, famosa por aperitivos que iam desde casquinha de siri até camarões e lula à dorê, mas a iguaria mais cobiçada era um drink azulado de teor alcóolico chamado Cascata do Dragão. Na recepção também era possível alugar um barco de pescador para que fizessem seu caminho de volta à terra firme.
Lesten entrou na taverna empurrando a porta com as duas mãos, Auria do lado direito e Ralph do outro. Os poucos geckos dirigiram seus olhares para os humanos primeiro, mas por algum motivo não fixaram a atenção neles. Alguns se calaram, outros levantaram e foram embora pela porta dos fundos. O restante ficou observando-os de longe, como se apenas esperassem o inevitável. Logo retomaram suas atividades, mas o clima não era mais o mesmo.
O lagarto guerreiro carregava um sorriso torto entre os dentes, foi até o balcão e sentou-se numa banqueta que girou sem parar, depois pediu três copos de Cascata do Dragão para ele e seus novos amigos.
— E aí, sentiram falta do seu freguês favorito? — disse Lesten. — Como passaram sem minha ilustre presença? Aposto que quase vieram à falência sem seu melhor cliente, vejo que estão até carentes de um pouco de bom humor!
O barman que os atendia permaneceu sério, depois abaixou a cabeça e continuou limpando um copo de vidro como se não tivesse nada melhor para fazer. Lesten ria alto e chamava muita atenção, mas ninguém lhe dava ouvidos. Auria imaginou se era por culpa dela e de Ralph que os outros geckos estavam tão nervosos e incomodados.
Foi então que alguém nos fundos gritou:
— Se manda, Lesten. Não te expulsaram da ilha?
— O quê? — ele berrou. — Quem disse isso?
Lesten virou-se furioso com a acusação, saiu de sua banqueta e caminhou até um grupo de amigos que bebiam juntos. Sem esperar maiores explicações, ele ergueu um deles pelo colete de pele e encarou-o nos olhos sem pálpebras.
— E o que tu vai fazer a respeito?
Dessa vez foi o atendente quem interferiu:
— É por isso que não gostamos de você por aqui, Lesten! Veja suas atitudes! Todos ficaram felizes no dia em que souberam que você não poderia mais vir ao centro. Sem mesas quebradas, copos ou janelas destruídas. Nenhuma briga. Ninguém nunca mais saiu incomodado, nem machucado. E tudo isso porque você foi embora.
O lagarto largou o sujeito. Olhou para cada um ali presente e sentiu-se traído pela própria raça, por pessoas com quem — pelo menos de sua parte — acreditava serem seus amigos.
— Mas eu animava esse lugar — Lesten respondeu atônito. — É da nossa raça. Brigamos, lutamos, defendemos uns aos outros porque somos... geckos. Essa é a nossa natureza.
— Não. Nós nunca fomos animais, somos seres civilizados. A sua natureza é ser um animal — respondeu o atendente com firmeza, abaixando a cabeça. — Vá embora, Lesten, antes que eu chame a marinha e peça para que eles te mandem dessa vez para mais longe, em um exílio do qual nunca mais poderá voltar.
Ralph decidiu intervir pela primeira vez desde que entrara no Escama Azul.
— Meu senhor, não queremos intrigas. Se o Lesten veio até aqui, é porque eu pedi a ele. Meu nome é Ralph, recebi a criação de geckos como vocês. Sei como são os costumes.
— Não é a nossa intenção censurá-lo, meu bom garoto — disse o velho atendente. — Mas ouça meu conselho, este companheiro que arranjou não é confiável. Ele traiu seu batalhão no exército, não tem respeito algum pelos mais velhos e experientes, arrumou encrencas condenáveis e, quando você mais precisar, ele virará as costas.
Ralph voltou-se para Lesten que mantinha a fronte baixa, sem concordar nem negar nenhuma daquelas acusações.
— Ele é um mentiroso — continuou o fregueses ameaçado, ajeitando o colarinho. — Não sabe conter suas brincadeiras e ultrapassa qualquer limite aceitável. É por isso que não há lugar para alguém como Lesten entre nós.
Auria enfiou as mãos nos bolsos, agora todas as suas suspeitas a respeito daquele lagarto encrenqueiro estavam confirmadas.
— Ele vai melhorar — prometeu Ralph com convicção, o que impressionou a todos. — Não vai, Lesten?
O rapaz olhou para o lagarto que manteve a cabeça baixa. Quando esticou a mão em sua direção, Lesten revidou com um arranhão que o fez recuar de imediato. Ajeitou sua armadura no corpo e lançou um olhar fuzilante para cada um ali presente.
— Eu não preciso “melhorar”. Não preciso mudar para agradar ninguém.
O lagarto saiu e chutou a porta com tanta força que se partiu ao meio. Ele bufou impaciente, mas logo voltou a caminhar em direção do píer.
O barman soltou um longo suspiro de desaprovação. Ralph não estava bravo ou irritado pelo arranhão que levara, que inclusive sangrava muito. Sua expressão demonstrava apenas preocupação.

ii

Lesten caminhava pelo píer com o olhar perdido e os pensamentos abalados. Parou assim que atingiu a ponta, onde se sentou e observou a fita vermelha em sua lança esvoaçar ao toque do vento. Ele observou-se no reflexo de sua espada, viu a cicatriz que lhe trazia tantas lembranças e soltou um suspiro.
— É, meu irmão... Só mesmo família para me aguentar.
Havia alguns poucos barcos pesqueiros na região. Lesten nunca admitiria seus erros do passado. Aquela ideia de sair em uma aventura com pessoas que acabara de conhecer não fazia sentido algum. Talvez fosse melhor continuar onde sempre estivera, onde ninguém jamais o encontrasse. Dessa forma, ninguém o criticaria ou tentaria impor regras e mudar sua natureza.
Havia uma fragata aproximando-se da costa, um navio de guerra usado nos dias antigos. As bandeiras não exibiam símbolo algum. Os pescadores locais imaginaram tratar-se de um navio de turismo que eram comuns naquela época do ano, um espetáculo e tanto a ser observado. Banhistas e turistas na praia acenavam contentes.
Mesmo que tivesse sido afastado dos serviços no exército há cerca de cinco anos, ele reconhecia que uma embarcação sem bandeiras não tinha boas intenções.
A fragata moveu-se silenciosa e um bote cheio de homens desprendeu-se da embarcação. Sujeitos grandes e robustos ancoraram na praia como se fizessem uma viagem de férias em terras estrangeiras, apesar de estarem armados e com expressões nada amigáveis.
A pequena tripulação era composta por cerca de oito homens sujos e enfadonhos, alguns carregavam espadas e machados, mas o mais surpreendente eram as armas — daquelas que matam num instante, que usam mecanismos modernos e pólvora, que tornam espadas ineficazes e rompem as armaduras mais resistentes. Eles com certeza tinham algum contato obscuro de fontes desconhecidas, porque armas eram raríssimas e caras em qualquer região de Sellure.
O líder deles era o mais bizarro, um homem tão gordo que os outros sete precisavam ficar do lado oposto do bote para equilibrar seu peso. Na cabeça ao invés de um chapéu clássico carregava uma sacola de ouro, como se desejasse que todos contemplassem seu tesouro.
Ao deparar-se com a porta que Lesten quebrara minutos antes, o homem não conseguiu esconder a decepção.
— Quem quebrou essa porta? Vocês vão me obrigar a consertá-la só para eu destruí-la de novo?!
Ele indicou que dois de seus comparsas erguem-se a porta quebrada e a colocassem apoiada em seu devido lugar, depois foram todos embora. Os clientes da taverna se entreolharam. Segundos depois ele voltou, chutou-a com força e dessa vez estava rindo como o sujeito insuportável que era.

— Bah, hahaha! Eu sou Johnny Goldo, o Contador! Não respeito regras de humanos ou lagartos que me impeçam de entrar nessa ilha. Ajudem o bom Goldo, que o Goldo ajuda vocês.



Os clientes pareciam assustados, Ralph girava em sua banqueta e Auria continuava tomando um gole da bebida que lhe fora oferecida. O pirata e seus comparsas se acomodaram no balcão e o garoto cumprimentou-os contente.
— Olá, meu nome é Ralph, da Espada de Madeira. Algum de vocês quer entrar na minha equipe?
Goldo arqueou uma das sobrancelhas e ajeitou suas pernas balofas. Ele fungou o nariz sujo e soltou uma baforada fedida no rosto do rapaz:
— Você me parece estranhamente familiar — Goldo balbuciou enquanto coçava a barba. — Mas enfim, você tem dinheiro para fazer essa oferta?
— Sim, sou a pessoa mais rica de Sellure. Tenho um tesouro aqui, do meu lado.
Auria quase engasgou com a bebida. Goldo ficou observando-o dos pés à cabeça, devia ponderar sobre a resposta inesperada. Virou-se para seus companheiros e retirou o saquinho de dinheiro da cabeça, eles faziam contas com os dedos das mãos com certa dificuldade, só para ter uma noção aproximada do quanto possuíam.
— Tesouro? — Ele guardou o saco de dinheiro no cinto. — Bem, meu caro amigo, acho que começamos a falar a mesma língua. Estamos falando de quanto?
— De um valor inestimável — respondeu Ralph balançando a cabeça. Em seguida, ele colocou a mão no ombro de Auria e falou: — Afinal, amigos não se compram! Também tem o Lesten que está lá fora e ele eu até poderia fazer na promoção, mas não acho que vou poder vendê-los para o senhor, são o meu maior tesouro.
Os piratas começaram a rir alto e em conjunto, logo todos riam de Ralph, que também começou a rir. Auria agarrou a gola da camisa dele e encarou-o com aquele ar desafiador e olhos insondáveis.
— Quer bancar o engraçadinho para cima de estranhos? Não percebe que eles estão armados?
— Eu também estou — lembrou Ralph, apresentando sua espada de madeira.
— Eu odeio quando você faz isso... Me faz ter coragem.
Goldo riu a ponto de precisar limpar as lágrimas forçadas de tão engraçado que achara a situação. O pirata então olhou para Auria que manteve o cenho franzido e sua costumeira feição de mau humor. Arregalou os olhos e riu o mais alto que pôde.
— Ela é o tesouro? Essa é a mulher mais feia que eu já vi em toda a minha vida! Bah, hahaha!
Goldo e sua tripulação fazia piada de qualquer situação. Dessa vez Ralph não riu. Não admitia que falassem mal de seus amigos na sua frente. Levou a mão até a bainha da espada em suas costas, mas sentiu alguém tocá-lo e pedir que se contivesse.
— Esses caras têm uma conta a acertar comigo.
A moça caminhou em direção do pirata que ainda ria sem parar. Ao erguer o punho, deu-lhe um soco tão forte na cara que todas as moedas em sua sacola de dinheiro voaram e se espalharam pelo chão, fazendo com que os lagartos presentes se levantassem para apanhá-las em um tumulto frenético. Goldo cuspiu um dente de ouro que se perdeu ali no meio, desaparecendo nas mãos de alguém que o confundiu com uma moeda.
A mulher mantinha o peito estufado. Auria abanava sua mão dolorida pela força inesperada que usara, nem ela conseguia acreditar que acertara alguém na cara, devia estar guardando essa vontade desde que ingressara na academia. A sensação era incrível para seu deleite, seus olhos ardiam como ferro em brasa.
— Que mulher irritante! — Goldo tentou levantar-se atordoado. — Homens, saqueiem tudo que encontrarem! Dinheiro, produtos de valor, até mesmo comida; precisamos de um estoque grande para nossa viagem até a Ilha-S. Essa mulher vai se ver comigo.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Doppel


"Quando somos pequenos, às vezes recebemos um gesto de carinho e nunca mais nos esquecemos dele. Talvez se uma pessoa ajudasse a outra e esta por sua vez decidisse que também faria sua parte, o mundo seria melhor e menos egoísta." — Doppel, Capítulo 42.

Doppel é um homem gentil que mora na Pequena Colina, onde cuida de um café chamado Soleil no vilarejo mais próximo. Muito pouco se sabe sobre ele. Dizem que, apesar da aparência jovial, ele é muito mais velho do que aparenta. Outros acreditam que não seja humano, há boatos de que Doppel seja na verdade um tótines que oculta seus poderes e vive em silêncio por conta de algum acontecimento trágico em seu passado. 

É muito atencioso e amável, mesmo com pessoas que não tem tanta afinidade. Ele transborda carinho para aqueles que são especiais em sua vida e faz questão de demonstrar afeto com abraços, mimos e bolos caseiros. Sempre tem palavras e conselhos para aqueles que o procuram, sua casa é como um refúgio para os perdidos. Sua maior especialidade está na cozinha.

Não se sabe ao certo qual a sua relação com Ralph, mas eles parecem se tornarem próximos no final do primeiro livro.


A primeira aparição de Doppel para os leitores foi no Support - A Criança com o Coração de Gelo. Ele é visto cuidando do Soleil, seu café na Pequena Colina, onde mora.

"Você vai crescer e as pessoas continuarão falando sobre essas bobeiras ao seu redor, mas quer saber de algo? Ignore-as. Se não gostar desse tipo de gente, mantenha-as longe de sua vida e compartilhe bons momentos ao lado daqueles que realmente ama.
 Doppel, A Criança com o Coração de Gelo [Support].

"
Ele é tipo o meu pai de criação, cara. Se bem que está mais pra mãe...

 Raegar, Capítulo 41.

"Alguém quer mais bolo?

 Doppel, Capítulo 41.


  • Quando foi criado nos gibis do autor, Doppel era loiro;
  • Originalmente, o nome do personagem seria Douglas.
  • O nome Doppel surgiu de Doppelgänger, o que segundo as lendas germânicas de onde provém, trata-se de um ser fantástico de representar uma cópia idêntica de uma pessoa viva. Doppel consiste de um substantivo alemão e significa "duplo";
  • O personagem, por sua vez, teve origem do jogo Ragnarok. Apesar de sua essência ter mudado, o nome Doppel foi mantido como um apelido carinhoso;
  • Soleil significa sol, em francês.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A Criança com o Coração de Gelo [Support]

Support Conversation (Ralph e Elice)
Gênero: Drama, Slice of Life, Romance;
Tema: Sobre a vida e climões
;
Sugestão do leitor: Sir Naponielli.

Por algum motivo, fora convocado para uma reunião de pais, mesmo que não tivesse um — e, para piorar, tinha de assumir a posição deste. Lançava um olhar impaciente pelo cômodo, sentia como se estivesse preso àquela sala entre quatro paredes de concreto e não poderia ser ouvido.
A porta foi aberta e uma mulher alta com um coque na cabeça entrou. Ela tinha o nariz alongado que servia de apoio para seus óculos enormes, como se fossem um par de binóculos. Ralph quase riu ao imaginá-la com aqueles olhões, mas foi surpreendido por uma pasta pesada, a qual foi atirada em sua frente, como se fossem provas de um crime.
— Quem é você? Onde estão os pais da garota? — perguntou a diretora.
— Eu sou o responsável pela Elice, dona... — Ralph forçou a visão para enxergar o que estava escrito no crachá da mulher.
— Cândida. Você deve ser o Aedan.
— Não... sou o Ralph, da Espada de Madeira. Aedan não pode vir.
— Então você é o responsável por ela? — disse a mulher, ajeitando os óculos para ter certeza de que não estava cometendo um engano. — Quantos anos você tem, garoto?
— Eu sou só um amigo, mas é que a Elice está sob meus cuidados porque os pais dela morreram. Além disso, o irmão voltou para a terra natal devido a uma emergência. As outras pessoas maiores de idade de nosso círculo estão longe da Pequena Colina ou ocupados demais com seus trabalhos e não puderem comparecer — Ralph procurou explicar-lhe da maneira mais sucinta. — Entenda, dona Cândida, no momento sou a pessoa mais próxima que ela tem...
— Uma criança cuidando de outra — ela massageou as têmporas, constrangida.  — Já vi de tudo nesse trabalho e, para ser sincera, sinto que meus dias como diretora estão contados... mas posso ver que você está se esforçando para ser um adulto responsável, então vai ter de servir.
A mulher abriu a pasta e começou a ler em voz alta.
— A senhorita Elice comportou-se de maneira muito errônea essa semana, — eu diria que até perigosa. O senhor tem conhecimento de seus poderes?
— Sim, sim, ela solta raios de gelo e causa tempestades de neve quando está irritada ou com medo — disse Ralph, fazendo sons estranhos enquanto sinalizava o ar como se lançasse feitiços mágicos. — Uma loucura, não?
Dona Cândida piscou duas vezes.
— Meu jovem, esta é uma escola primária para humanos, não podemos receber tótines. Eles recebem uma criação completamente diferente.
— É que a Elice nunca estudou na vida, dona. Ela recebia cuidados em casa, e o irmão sempre esteve por perto para protegê-la. Achamos que a colocando para conhecer outras crianças a faria... soltar-se mais.
— Eu entendo a situação. Cuidar de crianças nessa idade nunca é fácil, elas são mais inteligentes do que imaginamos — Dona Cândida fechou a pasta e ajeitou seus óculos, dando aquele assunto como encerrado. — Não posso deixar que ela saia impune depois do que fez, mas também não quero expulsá-la como se fosse uma espécie de aberração. Por ora, darei uma suspensão de cinco dias. Tire a semana para passar um tempo com ela, leve-a para passear e converse sobre o ocorrido, talvez a menina tenha algo a dizer.

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Ralph aguardou o horário da aula de Elice terminar próximo ao pátio da escola. Quando o sinal bateu, diversas crianças saíram correndo e ele lembrou-se dos tempos em que frequentara a New Times com a Profª Clover. Depois de uma multidão de mochilas coloridas, Elice apareceu carregando sua mala azul com a feição séria, as duas mãos bem prensadas nas alças. Ralph acenou para ela e falou:
— E aí, mocinha. O que vamos fazer de legal hoje?
Elice não disse nada, mas o abraçou com tanta força que parecia nunca mais querer largar. Ralph se surpreendeu com o gesto súbito, ela não demostrava afeto com facilidade. De fato, só a via fazer isso com seu irmão, e ocasionalmente com Auria quando saíam juntas para passear no parque.
“Eu queria que a Auria estivesse aqui, ela saberia o que fazer”, pensou Ralph. Brincar de adulto era uma missão realmente complicada.
A vantagem de ter apenas quinze anos é que não havia uma distância muito considerável entre a idade dele e Elice. Ela tinha apenas dez anos, mas já passara por muito.
O vilarejo da Pequena Colina não era muito grande, todos ali se conheciam e os programas não variavam. Havia uma praça no centro que Ralph gostava de tomar sorvete, por isso achou que seria uma boa levar Elice até lá. Quem sabe assim ela se abrisse com ele e explicasse o que acontecera na escola.
Ralph pediu um sorvete de chocolate com recheio de brigadeiro e um de baunilha com leite condensado para sua amiga. A garotinha agradeceu apenas com um aceno, mas manteve a cara fechada.
O dia estava fresco e sem sol, a expressão de Elice era gélida. Não era como uma criança deveria agir.
— Então... — Ralph começou a falar e foi imediatamente cortado pela garota.
— Eu odeio aquela escola. Odeio as outras crianças. Elas parecem tão... crianças — disse a menina enquanto terminava o seu sorvete. — Você acha que eu sou muito chata?
— Mais ou menos — o garoto riu, lembrando-se do dia em que se conheceram. — Você tende a afastar as pessoas que não gosta com uma parede de gelo, mas quando se apega, seu coração derrete essa proteção trazendo conforto e aconchego, consegue entender? Talvez você realmente seja mais madura do que as outras crianças da sua idade, mas isso não significa que devamos... puni-las.
— Punir? Eu não puni ninguém, foi ela que me provocou! — Elice ergueu o tom de voz.
— Ela quem?
— A Stela. Ela se acha a dona da sala e me chama de Rainha do Frozen só porque meu vestido é azul e eu uso uma tiara.
— Rainha do Frozen? Mas esse apelido é muito legal — Ralph começou a rir até perceber que Elice não gostara nem um pouco do apelido. — Mas se você não gostou disso, por que não a mandou parar?
— Eu mandei.
— E ela não parou?
— Não. Aí ela começou a me perseguir a semana inteira. Eu só tentei ficar na minha, mas ela começou a jogar algumas verdades na minha cara até que...
Elice esfregava as duas mãos, como se sentisse muito frio com elas.
— ...saiu sem querer.
— O que saiu sem querer? Um pum?
Elice começou a rir sem parar do comentário de Ralph. Estivera tão tensa nas últimas horas que quase se esquecera de como o sorriso e a companhia de seu amigo eram capazes de curar qualquer coisa.
— Ela tocou em mim. Eu não quis reagir, só que a mão dela congelou na mesma hora. Você sabe que não controlo meus poderes quando estou com raiva... A Dona Cândida veio correndo e mandou ir para a sala dela no mesmo instante — Elice desviou a atenção enquanto observava uma gota de seu sorvete escorrer. — As outras crianças me olhavam como se eu fosse...
— Uma aberração — Ralph completou a frase.
Se havia alguém no mundo que compreendia aquele sentimento, esse alguém era Ralph. A vida toda, as pessoas a sua volta não entendiam como ele havia recebido cuidados de geckos — tinha muitos trejeitos dos lagartos, mas no fundo continuava sendo um garoto normal, que carecia de atenção como qualquer outro.
— Você é especial, Elice. E o caminho das pessoas especiais é sempre cheio de desafios, reviravoltas e dificuldades.
— Acho que eu estou cansada de ser especial... eu só queria ser normal uma vez na vida.
Ralph terminou seu sorvete e deu um salto, ficando de pé em frente à garota.
— Então vamos ter um dia normal.
Elice estava com a boca toda suja quando perguntou:
— O que as pessoas fazem num dia normal?
— É o que vamos descobrir.

A primeira atividade que pensou em fazer com Elice foi leva-la ao Soleil, um café onde seu amigo Doppel trabalhava. Ralph ajudava ali como garçom durante a semana, mas vez ou outra ganhava uma folga para divertir-se por aí. Doppel era um rapaz de cabelos brancos que morava no topo da Pequena Colina, onde Ralph vinha se hospedando nos últimos meses com seus amigos. Ele os recebeu com um sorriso doce assim que os viu na entrada.
— Bom dia, queridos. Como foi na escola?
— Levei uma suspensão — falou Elice, estendendo a palma da mão. — Cinco dias.
— Oh — o atendente surpreendeu-se, mas não demonstrou irritação. — Desculpe por não ter conseguido ido ir à reunião, . o Ralph conseguiu dar conta de tudo?
— Opa, tudo sobre controle. Agora viemos encher a pança. Posso preparar dois mistos quentes pra gente, Doppel? Deixa que eu mesmo faço, - assim não atrapalho os outros pedidos na cozinha.
— Você é um anjo, Ralph. Fique a vontade para fazer o que quiser, a casa é sua.
Ralph preparou os lanches e um pouco de suco para o almoço. Elice gostava muito de sua comida, chegou até a repetir, ainda comendo um bolinho de queijo no final. Uma tarde agradável no Soleil era sempre bem vinda.
— Ah, estava tão gostoso! — disse a menina, esticando as pernas e se esticando no assento. — Quando eu crescer, você vai casar comigo para continuar cozinhando pra mim?
— Eu posso continuar cozinhando mesmo sem casar — disse Ralph , com uma risada. — Essa coisa de casar é complicado, parece que todo casal feliz em Sellure acaba tendo uma morte trágica.
— Quem aí está fazendo planos para o casamento? — perguntou Doppel , que estava ali perto, limpando uma mesa. — Vocês não são muito novos para falarem desse tipo de assunto?
— Eu sou quase uma adulta,  - tenho dez anos, daqui a pouco não vai mais caber na mão! — disse Elice , com um sorriso adorável. — É que ao lado de vocês eu me sinto à vontade para ser eu mesma...
Ralph percebeu que ela estava tentando contar-lhes sobre algo que aconteceu na escola, mas Doppel foi mais rápido em incentivá-la a comentar o assunto:
— E os seus novos amiguinhos na escola? Eles não são legais?
— E-eles são... ou tentam ser... mas na maioria do tempo são tão infantis! As meninas vivem para se mostrar, vivem comentando os padrões de como nos vestimos e nos comportamos, enquanto os meninos ficam falando sobre o tamanho do peito das meninas.
— Elice, tenho uma notícia para lhe dar — disse Doppel, tirando um minuto para sentar-se ao lado dela. — Os adultos também são assim. Você vai crescer e as pessoas continuarão falando sobre essas bobeiras ao seu redor, mas quer saber de algo? Ignore-as. Se não gostar desse tipo de gente, mantenha-as longe de sua vida e compartilhe bons momentos ao lado daqueles que realmente ama.
— Você sempre fala palavras tão bonitas, tio Doppel — Elice abraçou-o com carinho e deu um beijo em sua bochecha. — Vou tentar. Não quero que pensem também que sou a Rainha do Frozen.
— Quem? — Doppel riu, bagunçando os cabelos da menina. — Só porque você controla gelo, não significa que precisa viver isolada num palácio de cristal que vai ser destruído assim que alguém tocar nele.
— É o que tentei contar pra ela! — respondeu Ralph. — Só que vindo de você saiu tão mais legal...

Doppel mandou que os dois saíssem para que pudessem aproveitar o dia de sol. Como praticamente todos seus amigos estavam ocupados, Ralph decidiu que tiraria o dia todo para divertir-se com Elice. Ela não gostava de fantasiar com dragões e nem aventurar-se pelo mundo, mas amava gestos simples como um piquenique no parque ou um almoço em família.
Pequena Colina era tão... pequena, que logo eles estavam de volta ao parque. Entre algumas árvores, havia brinquedos com escorregadores, gangorras e um fascinante balanço preso aos galhos mais altos.
— Por Araya, um balanço! Eu amo balanços. Quer que eu te empurre?! — perguntou Ralph, empolgado.
— Você parece mais criança do que eu — respondeu Elice. — Deixa que eu te empurro então.
Ralph logo estava sentado sentindo o vento bater em seu rosto com o impulso do balanço. Mesmo Elice, com sua aparência frágil e delicada, não precisava de muito esforço para empurrá-lo bem alto.
— É como se eu pudesse tocar as estrelas — disse Ralph, erguendo um dos braços para o alto e quase perdendo o equilíbrio. — Vai com calma aí atrás, eu estava dizendo de forma figurativa!
— Qual é, está com medo? Aposto que eu consigo fazer você encostar no céu!
— Elice, é sério, tá bem forte!
— Deixa de ser maricas!
Elice o empurrou com tanta força que Ralph saiu do assento do balanço e caiu de cara no chão. De primeira instância, ela riu, mas ao perceber que ele não se movia, começou a assustar-se e logo correu para ver se algo sério tinha acontecido.
— Ei, tá tudo bem? Não brinca com isso... Ralph. Ralph, é sério, não brinca com isso.
O garoto abriu os olhos e a pegou no colo, começando a fazer cócegas em seus braços até derrubá-la no chão. Elice morria de cócegas — era quase sua fraqueza. Ela o fazia tanto que tinha medo de perder o controle.
— Ralph, para! Estou quase fazendo xixi.
— Credo — o garoto riu, mas também não parava. — Isso é uma punição por me fazer comer poeira!
Os dois agora estavam deitados no chão da praça, com pequenas sequelas do riso, mesmo que não houvesse mais motivos para dar risada. Elice virou-se para Ralph e segurou sua mão de forma inesperada.
— Olha só como está quente. Não sou sempre um mar frio de emoções.
— Nunca duvidei disso — respondeu Ralph — Elice, quero que faça algo por mim... você acha que poderia conversar com seus amigos da escola?
— Por quê? Eles são tão criança.
— E você me acha adulto? Estamos brincando no balanço de um parquinho infantil. E mesmo que eu fosse, isso não nos torna melhores do que eles.
Elice respirou fundo, mas cedeu.
— Eu posso até tentar conversar com eles, mas vai ser por você.

ii

Na manhã seguinte, Elice esperou pelo horário em que as aulas de seus amigos terminavam. Stela vinha em sua direção com outras duas amigas quando a viu de longe. Ela pediu que as duas avançassem depressa e esperassem na saída para que não vissem o que viria a seguir. Quando ficaram sozinhas, ela começou a falar:
— Achei que você tivesse tomado suspensão — disse Stela. — Por que veio aqui?
— Desculpa pelo que aconteceu aquele dia... eu não queria...
— É. Tanto faz. Você é a Rainha do Frozen, nunca consegue controlar seus poderes.
— Eu só fiquei brava por que você falou da minha família! — Elice ergueu o tom de voz. Ralph estava escondido atrás de uma árvore ali perto. Se a situação saísse do controle, teria de intervir.
— E você ficou bravinha só porque não tem família? — Stela a confrontou da mesma forma. Ela ergueu a manga da blusa e mostrou a ferida que o congelamento causara. — Você vai machucar as pessoas ao seu redor toda vez que ouvir algo que não gosta? É isso? Você acha que é a única coitada nesse mundo, cansada, exausta? A única que está desesperada por atenção e que, no menor descuido, pode acabar explodindo e machucando todos ao seu redor?
Ficou pasma no instante em que viu a outra garota chorar. Stela escondia os olhos como se tivesse vergonha de que a vissem naquela situação. Elice ergueu uma das mãos e a tocou na cabeça, mas, dessa vez, sem machucá-la. Seus poderes estavam sob controle. Ela encostou a cabeça da colega em seu ombro, e abraçou-a com cuidado e arrependimento.
— Me desculpa. Eu não sabia... não pensei no seu lado.
Stela concordou com a cabeça, insinuando que aceitava as desculpas. Era como se seu coração tivesse completado com calor e segurança um quarto vazio na vida desta. Elice olhou para a árvore onde Ralph estivera escondido, e ele fez um sinal positivo com o polegar.
— Agora chega de abraço. Isso é tão careta — respondeu Stela, recuperando-se depressa. — Não entendo porque você ficou brava quando te chamei de Rainha do Frozen. Ela é a personagem feminina mais poderosa e maneira que já vi nos filmes.
— Jura? — Elice perguntou. — Eu não sabia.
— Sério que nunca viu? Você podia vir em casa assistir qualquer dia desses. Eu moro com os meus avós, mas eles são gentis e vão gostar de receber alguém pro almoço. Que tal no fim de semana?
— Eu adoraria.

iii

Dona Cândida deu a notícia de que Elice melhorara muito nas semanas que se seguiram. Ela era uma garota muito inteligente, talvez até a melhor da classe. Todos pediam sua ajuda nos estudos e queriam sentar-se na carteira ao lado. Era como se fosse uma criança completamente diferente.
Quando Ralph chegou para buscá-la na segunda, viu que Elice andava com outras quatro garotas, incluindo Stela. Estava radiante, o sorriso mal cabia em seu rosto. Caminhava tão leve que parecia flutuar. O garoto fez um aceno rápido quando a viu correr em sua direção.
— Ralph, vou almoçar com minhas amigas hoje, então só voltarei para casa mais tarde!
— Tá muito saideira, mocinha — o garoto riu.
— Minhas amigas disseram para você vir também. — Elice olhou para os lados, só para se certificar de que elas não estavam ouvindo. — ... ouvi a Stela dizer que meu irmão é um gatinho.
— Ah, mas o Aedan é bonitão mesmo, impossível não se apaixonar por ele!
— Hah, hah. Ela estava falando de você, seu bobo — respondeu Elice, despedindo-se com um sorriso doce e gentil. — Eu e você, irmãos, imagina só! Dessa forma não poderemos nos casar e vou acabar sem meu marido.
Ralph riu da ideia e continuou a observar a garota distanciar-se com suas amigas. Desde que a conhecera, via Elice como uma menina que cresceu antes do tempo pelas limitações que a vida lhe impôs, mas, pela primeira vez, enxergava ali apenas uma criança, exatamente como deveria ser.

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