sábado, 23 de novembro de 2019

Capítulo 27.5 - O Retorno de Johnny Goldo

Onde a cena se encaixava?
No começo do Capítulo 27, pouco antes de Lee e Hayley se depararem com o túmulo da feiticeira

Sobre o que falava?
Após desaparecer por quase 200 páginas, Goldo escapa da prisão em um barquinho à remo. O leitor acaba por descobrir que quem o ajudou a recuperar-se foi Hayley, o que mais tarde resultou no roubo das Pérolas Sagradas.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 900 palavras, o trecho estragava a surpresa do reencontro entre Auria e Goldo, além de parecer uma tremenda coincidência ele ser auxiliado justamente por Lee e Hayley. Eram três páginas que não acrescentavam grande coisa, sem contar que ninguém gosta do Goldo.

O Retorno de Johnny Goldo
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas

Em algum lugar perdido do oceano de Century, um pequeno bote a remo fazia seu percurso sem que ninguém tivesse conhecimento de sua existência. Os olhos profundos indicavam que dormira pouco, os braços doloridos demonstravam o desgaste de alguém que passara por maus bocados; suas roupas estavam largas e encardidas, o sujeito mais parecia um náufrago abandonado à deriva. Ele remava calmamente e cantarolava canções antigas de piratas em seu próprio ritmo, disperso do mundo e de tudo que o assombrasse, seguindo em direção de uma ilha marcada pelo formato da letra S em seu mapa desenhado num pedaço de guardanapo.
Quando ele olhou para trás, uma enorme onda o pegou desprevenido e virou seu barquinho. O homem só parou de se debater quando alcançou a costa, por sorte era um excelente nadador. Ergueu o rosto e cuspiu água, balbuciando palavras sem sentido. Quando enfim tocou a areia, enfiou a cara na no chão e abraçou a terra.
— Finalmente... Finalmente cheguei...
Apoiado apenas em um pedaço de madeira improvisado, saiu caminhando em busca de um pouco de comida para recuperar-se. Foi incapaz de continuar, suas pernas cederam e ele voltou ao chão, ficando ali na beira do mar que tanto amava.
Viera de muito longe para completar uma missão importante, não morreria tão perto de cumpri-la. Não fugira da prisão para fracassar ali. Pensou em todos os erros que cometera na vida e concluiu que não se arrependia de nenhum. Fora um bom pirata, vivenciando aventuras inimagináveis e reunindo montanhas de ouro que não lhe tinha serventia alguma agora. Fora tudo confiscado, não tinha um tostão no bolso.
Quando toda a esperança pareceu se esvair, uma pequena sombra de orelhas pontudas formou-se sobre ele.
— Lee, veja! Este homem parece estar ferido, eu preciso ajuda-lo.
— Hayley, não podemos ajudar qualquer estranho que encontramos no caminho. Veja como ele está vestido, pode ser um fugitivo.
— M-mas ele está ferido, eu preciso...
— Não, não precisa. Por que deveríamos?
— Por que não?
— Você está começando a falar que nem aquele menino ruivo...
Foi a última coisa que o homem ouviu antes de desmaiar.

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Aquele sabor salgado na boca, a claridade atordoante, a sensação de estar nascendo de novo nunca antes fora tão forte. Levantou-se ainda um pouco zonzo e olhou para os lados, avistando um homem de óculos escuros e expressão séria junto de uma pequena raposa adormecida em seu colo.
— Quem são vocês? — perguntou o homem desconfiado.
— Por que não me diz você primeiro? — retrucou Lee.
O sujeito coçou a cabeleira emaranhada e depois a barba suja de areia. Apesar de ser um pirata, sabia reconhecer quando fora resgatado da morte iminente.
— Perdoem-me a ousadia, não estou acostumado a bons tratos... Meu nome é Johnny Goldo.
Lee balançou a cabeça resposta, mas não lhe deu maiores informações.
— O que busca nestas terras, Sr. Goldo?
— Bem, creio que não haja motivos para esconder meus reais propósitos de meus salvadores. Estou aqui a negócios, embora com uma ligeira margem de atraso. Eu transportava meu superior, um renomado cientista, quando encontrei problemas na Ilha dos Geckos. Perdi minha embarcação e meu bando.
— E veio remando essa distância toda? — Lee pareceu impressionado. — Devo-lhe certos méritos.
Lee arremessou um fruto nativo da ilha em direção de Goldo. Como estava faminto, abocanhou a fruta sem pensar duas vezes e ainda repetiu outras três ou quatro. Lee observava com atenção, acariciando a cabeça de Hayley em seu colo uma vez que ela agora recuperava as energias após usar sua magia de cura.
— E quanto a você? O que faz por essas bandas? — questionou Goldo com a boca cheia.
— Eu e minha companheira procurávamos uma feiticeira que pudesse ajudar-nos com... meu bichinho de estimação — ele apontou para Hayley, era melhor não compartilhar nada sobre a maldição dela com estranhos.
 Nem mesmo um terrível pirata foi forte o bastante para resistir à fofura dela.
— Que coisinha mais linda! Deve valer uma nota no mercado negro. — Goldo tentou acariciá-la, mas Lee o repreendeu com um tapa.
— Não ouse.
— Tudo bem, tudo bem.
Terminada a refeição, Goldo apoiou-se em seus joelhos gordos e levantou-se. Alongou os músculos e estalou as costas, depois tampou a visão para observar o oceano distante.
— Foi-me prometido algo surpreendente caso eu consiga encontrar uns artefatos mágicos... mas, para ser sincero, nem sei com o que estou lidando. Só quero agarrá-las e dar o fora daqui. Ouvi dizer que tem gente perigosa nessa ilha, um rapaz ruivo. Preciso estar com uma perna atrás para evitar ser derrubado.
— Já lidei com pessoas do submundo — comentou Lee. — É preciso assumir riscos.
— Vejo que você é vivido, meu bom rapaz. É um jogo de gato e rato, você precisa estar pronto para caçar e não ser devorado, basta saber com quem está lidando. Na nossa mente, estamos sempre fazendo a coisa certa, então, quem sou eu para discutir?
Goldo coçou seus olhos profundos, pronto para enfim seguir com sua jornada.
— Obrigado pela ajuda, caro amigo. Que o destino lhe pague em dobro, quando houver a oportunidade!
— Ei — chamou Lee. — Não vá se meter em confusão.
— Oh, não, jamais. Provavelmente você nunca mais ouvirá falar de mim. Não nesta situação precária. Eu ainda serei o homem mais rico do mundo.
Goldo foi andando e seguiu pela praia, deixando para trás pegadas na areia que logo foram varridas pelas ondas.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Coletânea de frases do livro Matéria - Espada de Madeira

Não é surpresa para ninguém que a saga Matéria esteja recheada de frases e pensamentos meus. Há quem diga que um autor não deve escrever com o coração, que nenhuma obra pode ser tão pessoal a esse ponto, mas depois de quase 15 anos ao lado desses personagens, digamos que já tenhamos um vínculo muito forte. Cada figura presente nessas páginas possui um pedacinho meu.

Uma vez um leitor de longa data me chamou de "homem de mil faces", e ainda hoje lembro disso com um sorriso. Reuni aqui uma coletânea de imagens que utilizei para divulgar na conta do Instagram, todas com uma arte bonita de fundo. Há muitas outras frases marcantes na ficha de cada personagem, mas aqui estão algumas das minhas favoritas.

E você? Tem algum trecho que te levou a grifar com marca texto? Eu adoraria saber!





quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Glossário de Personagens Secundários


HISTÓRIA PRINCIPAL
Nessa lista você encontra o nome de todos os personagens que apareceram em Espada de Madeira, seguidos por uma breve descrição e onde podem ser encontrados. Os que foram aqui listados não receberam nenhuma ilustração, e embora tenham desempenhado papel menores, alguns deles virão a se tornar importantes em futuros volumes.

Dona Lurdinha
Uma senhora mal humorada que trabalha como secretária da academia na Vila das Pérolas.
Ela é introduzida pela primeira vez no Capítulo 3 e volta a dar as caras no Capítulo 32. Dona Lurdinha também volta a aparecer no Livro 2.

Dona Nakara e Senhor Tokkero
Pais adotivos de Ralph. São geckos e vivem no Vale dos Ventos, na província de Helvetica. Eles são mencionados constantemente por Ralph, mas só aparecem pela primeira vez no Capítulo 31.

Yellem
Um dos estudantes da Vila das Pérolas, filho de Yvon Chermont, um dos generais do Rei. Arrogante e insuportável.
Aparece no Capítulo 4 durante uma apresentação para Raito e Lloyd King.

Eleny e Christopher
Duas crianças habitantes da cidade de Bausonne que roubam o mapa de Ralph.
Aparecem no Capítulo 11.5, em uma das Cenas Deletadas.

Vendedor de Selos
Um sujeito misterioso que pode ser encontrado em todas as províncias do Reino de Sellure vendendo selos e itens raros para aventureiros. Como ele viaja tão rápido, ninguém sabe.
Aparece no Capítulo 13.

Brando
Colega de trabalho de Aedan, habita a Zona de Gelo na Ilha-S em busca de minérios raros e artefatos de valor.
Aparece no Capítulo 27 e nas "Histórias Perdidas" do passado de Aedan.

Evangeline e Tommy
Duas criança que habitam o Vale dos Ventos e são avistadas por Raegar em sua primeira aparição no Capítulo 31 (Eva inclusive está em uma das ilustrações!) Eles são uma referência aos personagens do Aventuras em Sinnoh, Eva e Tom Sawyer.

Karl, o barman
Dono da Semente Venenosa, um bar frequentado por mercenários e assassinos na zona menos movimentada de Bausonne. O nome de sua mãe é Sophie, pois os dois fazem parte da coletânea de easter eggs do Aventuras em Sinnoh.
Aparece pela primeira vez no Capítulo 32 e volta a dar as caras no Capítulo 33, 34 e 38.

Darking
Um Espírito De Baixo que vive nos arredores da Pequena Colina. Alimenta-se do sonho das pessoas e é o bichinho de estimação de Raegar.
É citado no Capítulo 39 e volta a dar as caras no Livro 2.

Kitani
Gata dourada de Raegar.
Ela é vista pela primeira vez no Capítulo 39 e faz aparições ocasionais.

Dirume
Uma das oito integrantes do Conselho da Matiz. É a responsável pela província de Myriad. Está sempre vestida de vermelho.
Aparece no Livro 2.

Norton
Um dos representantes do Conselho da Matiz e o único gecko dentre os membros. É o responsável pela província de Century. (Apesar de ser uma informação sigilosa, Norton é o pai de Lesten).
Aparece no Livro 2 e 3.

Temmerius
Um dos representantes do Conselho da Matiz. É o responsável pela província de Constantia e suposto líder. Excomungou Lesten após ter recebido um soco na cara.
Aparece nas "Histórias Perdidas" de Lesten e volta a dar as caras no Livro 2 e 3.

Sofia
Secretária do Dr. Erlenmeyer. Ela é citada de forma breve em algumas ocasiões, mas irá desempenhar uma importante função no livro 3.

Valentina Copperplate
Mãe de Claus e Rebecca Copperplate, dois híbridos e amigos de Ralph dos tempos da escola. Aparece no Livro 2.


PERSONAGENS DO PASSADO
A lista abaixo traz o nome de todos os personagens que foram apresentados durante As Histórias Perdidas, sendo grande parte deles relacionados ao passado dos personagens.

Ronem Romenor
Um dos primeiros reis de Sellure, foi o responsável pela construção da Fortaleza da Pedra Azul.
Foi citado por Facade durante o Capítulo 11.

Bowne e Profº Komodo
Dois geckos conhecidos por suas aventuras e façanhas como renomados expladores. Ambos são parte de um easter egg de As Lendas de Colina, a primeira antologia que o autor participou
São citados em uma conversa por Facade durante o Capítulo 11.

Bartolomeu "Bomba" e Timóteo "Dello"
Dois amigos de infância de Ralph na escola que ele frequentou durante a infância. Bomba recebeu esse apelido por estar sempre se empanturrando de doces e ser gordinho, e Dello por ser magrelo e lembrar um Dellonium, uma espécie de monstro em Sellure que é fino feito um graveto.
Aparecem nas "Histórias Perdidas" do passado de Ralph.

Dona Hortênsia
Avó da Srta. Clover, vive em uma cadeira de rodas e não consegue mais se comunicar.
Aparece no Livro 2 e nas "Histórias Perdidas" do passado de Ralph.

Trevor
Filho da Srta. Clover, foi morto durante o período de Caça aos Tótines.
É citado pela primeira vez nas "Histórias Perdidas" do passado de Ralph, sendo visto ainda vivo na Parte 6 do Passado da Ordem.

Floria Mercer e Dalson Mercer
Pais de Lydia, Diana e Auria. Morreram na batalha de Cortina Escarlate pelas forças de Rudsi, da Coroa de Ferro.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Auria.

Kiera e Kamily
Empregadas da família Mercer. Foram mortas durante a invasão à Cortina Escarlate.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Auria.

Nefele
Filha do padeiro em Campos Verdes, adorava importunar Ralph quando pequeno e frequentou a mesma escola.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Ralph.

Tellum
Segurança que trabalhou para a família Mercer.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Auria.

Pyke
Capitão da guarda real e grande amigo de Lesten. É um gecko enorme, trajado em armadura completa.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Lesten.

Wester
Irmão mais novo de Lesten que foi morto após ser capturado pelas forças da Coroa de Ferro.
Aparece nas "Histórias Perdidas" do passado de Lesten.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Quiz - Quem seria o seu parceiro na Ordem do Selamento?

O segundo Quiz do Reino de Sellure é referente aos membros da Ordem do Selamento! Responda as 10 questões abaixo para descobrir quem seria o seu parceiro e tutor nessa jornada, e caso você se saia bem, quem sabe eles até te recrutam como o novo integrante?

Quiz - Quem seria o seu par ideal em Matéria?

Para matar a saudade dos tempos do Aventuras em Sinnoh, o Quiz finalmente chegou ao universo de Sellure! Responda as 10 questões abaixo para descobrir com quem você mais combina entre os protagonistas da jornada (além de duas companhias inéditas). Depois conte-nos o que achou do seu pretendente! E fique no aguardo do próximo Quiz que envolverá a Ordem do Selamento!

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Arte #32 - Halloween!

Ué, quando foi que o Halloween acabou e eu nem percebi?

Brincadeiras à parte, acabei atrasando algumas semanas essa arte, mas ela já estava no planejamento desde o comecinho de Outubro porque eu estava super inseguro. Fazia quase dois anos desde minha última arte temática que envolvia tantos personagens, pensei que eu estivesse enferrujado, mas admito que adorei o resultado final. Gosto de ter um desenho para postar em datas comemorativas e percebi que nunca tinha feito nada para o Halloween (vou reciclar essa arte para o ano que vem, tô nem aí kkkkk).

A melhor parte foi escolher as fantasias! A Auria tinha que ser uma bruxa (só percebi agora que a Profª Clover também poderia estar na imagem), pensei em fazer a Hayley de lobisomem, mas achei que ela ficaria uma fofura de diabinha, porque ela adora colocar o Lee na linha, se é que você me entende. O papel acabou passando para o Lee que até deixou a barba crescer para parecer mais perigoso! O Ralph está de vampiro, e o Lesten parece ter sofrido um trote, porque seus amigos o amarraram com tanto papel higiênico que ele não consegue nem abrir a boca mais.

Espero que tenham gostado. E aí, qual o próximo tema?

domingo, 17 de novembro de 2019

Facade


"E então? O que desejam, o que desejam? Relatos confidenciais? Estratégias de guerra? Informações sobre eras passadas? Tenho todo o tipo de livro que desejarem [...] Nesse minúsculo aposento, já visitei mais lugares do que qualquer outro ser no Reino de Sellure." — Facade, Capítulo 11.

Facade é um monstro pertencente à espécie formless, os Sem Forma. Dotado de uma sabedoria infinita por ter vivido todos os anos de sua vida em uma biblioteca, Facade adora compartilhar o conhecimento que adquiriu e instruir jovens guerreiros no caminho correto.

Durante a estadia dos protagonistas em Bausonne, eles acabam por alcançar o Castelo da Fachada onde Facade vive. Ele cria um vínculo instantâneo com o grupo por conta de sua empreitada atrás das Pérolas Sagradas. Além de instruí-los com mapas e direções de onde encontrá-las, Facade é o único ser que também teve um breve contato com o Narrador, oferecendo a Ralph a esperança de que algum dia ele possa realizar seu sonho de reencontrar o viajante misterioso que conheceu quando era menino.

Conhecedor de inúmeras histórias e lendas antigas, Facade adora discutir todos tipos de assuntos, principalmente aqueles que domina. Está sempre em busca de histórias novas e só sai de sua morada para comprar novos livros. Por não possuir uma forma física, ele consegue esconder-se entre as páginas e alterar seu corpo. Servindo como um eterno mentor na viagem, Facade gosta de levar as pessoas a descobrirem os próprios limites, oferecendo dicas e auxílio sem nunca lhes dar a resposta de maneira óbvia.


Facade atua como um importante mentor para Ralph durante sua jornada atrás das Pérolas Sagradas no primeiro livro. Uma vez que o Castelo da Fachada torna-se a base provisória dos protagonistas, eles constantemente acabam por regressar ao local, aproveitando o fato de que Facade passa a oferecer-lhes conselhos sábios antes de cada missão, apesar de nunca acompanhá-los.

  • Inteligência Suprema [Habilidade Passiva] – O personagem é capaz de encontrar soluções lógicas para problemas complexos, elaborar estratégias, improvisos, influenciar e adquirir experiência com mais facilidade do que outros;
  • Transformação [Habilidade Passiva] – Uma habilidade exclusiva da espécie. A criatura é capaz de manipular seu corpo e transformar-se no que desejar.


"Já teve alguma vez a sensação de que você vive em um mundo imaginário? Como se suas ações fossem descritas e tudo que veio antes não passa de uma memória artificial implantada que vêm sendo alimentada a cada dia? Quando penso na palavra “destino” no sentido de uma sucessão inevitável de acontecimentos provocados, penso na influência do Narrador sobre nós. Ele pode estar nos observando neste exato instante." 
— Facade, Capítulo 11.

"Já ouviu aquelas que começam com “era uma vez”?" 
— Facade, Capítulo 11.

"Descansem, nobres guerreiros. A demanda é extensa e vocês não devem dar um passo mais longo do que seus pés são capazes de aguentar [...] Que as divindades de Sellure os protejam em sua busca e abençoem as decisões que tomarem." 
— Facade, Capítulo 14.

"O mundo é grande demais para alguém que sempre dependeu dos livros para ir além."
— Facade, Capítulo 20.

"Eu e minha mania de ainda acreditar em heróis..."
— Facade, Capítulo 35.


  • Nos antigos gibis do autor, Facade era parte do grupo de protagonistas e um dos melhores amigos de Ralph. Ele foi mais tarde substituído por Auria, que tornou-se a nova trindade junto de Lesten;
  • Por ser apenas um rosto flutuante, muitas pessoas não compreendiam o que Facade era. Ele foi baseado em uma criatura de The Legend of Zelda, aparecendo em jogos como Oracle of Ages e Seasons, e o mais recente no remake de Link's Awakening em 2019;
  • Havia planos de que Facade acompanhasse Ralph em seu bolso durante a aventura, mas já havia personagens demais em cena. Mais tarde ele assumiu o papel de mentor (sem contar que grande parte dos enigmas poderiam ser facilmente solucionados caso ele os acompanhasse);
  • Apesar de Facade ser pequeno o bastante para caber dentro de um livro, ele costumava ser gigantesco, medindo até dois metros e sendo capaz de fazer o teto tremer;
  • Mesmo sem ter mãos, Facade era retratado nos gibis do autor portando uma espada invisível;
  • Facade pode ser traduzido do inglês como "fachada". E também é um golpe de Pokémon.

sábado, 16 de novembro de 2019

Astra King


"Sou apenas um homem comum em busca de mais respostas."
— Astra King, O Passado da Ordem: As Ilusionistas do Deserto.

Astra é um pesquisador renomado, patriarca da família King e também um dos homens mais influentes e temidos em Sellure. Por volta do ano 115, Astra e o Dr. Erlenmeyer iniciaram um projeto de pesquisa que visava compreender o estudo da mana, fonte de magia dos tótines. Inspirados por Sheena, a Silenciadora, inúmeros mercenários e assassinos começaram a trazer vítimas inocentes diante da promessa de altas recompensas. O que começou como uma simples busca por conhecimeto acabou por resultar no desaparecimento de inúmeras famílias de tótines, especialmente crianças, que passaram a ser usadas como cobaias em experimentos. O governo nunca permitiu que a grande massa ficasse à par do ocorrido, uma vez que Astra estava entre os antigos integrantes do Conselho da Matiz, o que seria uma mancha para a imagem de um órgão tão conceituado.  A tragédia ficou conhecida como Caça aos Tótines.

A primeira impressão que Astra passa para as pessoas é a de um pai de família, calmo, presente e atencioso. O que poucos sabem é que ele possui um lado extremamente violento e agressivo quando contrariado, não medindo esforços para livrar-se de seus inimigos.


Ele foi casado duas vezes, a primeira com uma tótines chamada Aithy. Os dois se divorciaram após acusações de violência doméstica, seu segundo casamento também não rendeu. Seus filhos nasceram com quatro dos elementos mais poderosos no mundo, sendo eles: Lloyd King (Gelo), Fiametta (Fogo), Clementine (Água), Volker (Eletricidade).

Na história atual, após os eventos que sucederam a Caça aos Tótines, Astra King encontra-se na prisão de segurança máxima da Cidadela Púrpura, em Bodoni. Ele possui 63 anos.


Astra King foi introduzido pela primeira vez no especial dO Passado da Ordem. Ele faz aparições em três capítulos, sendo um dos maiores responsáveis por gerenciar as pesquisas e estudos que serviram como princípio para que tótines inocentes fossem capturados e mortos como experimentos.

  • Inteligência Suprema [Habilidade Passiva] – O personagem é capaz de encontrar soluções lógicas para problemas complexos, elaborar estratégias, improvisos, influenciar e adquirir experiência com mais facilidade do que outros.

"Os tótines representam tudo que há de melhor nos seres humanos, são como uma versão aprimorada, melhores em cada aspecto. 
 Astra King, O Passado da Ordem: As Ilusionistas do Deserto.

"Apesar de sempre caminharem lado a lado como velhas amigas, você teme a própria morte.
 Astra King, O Passado da Ordem: As Ilusionistas do Deserto.

"[...] Pois essa simplicidade com que você lida com as coisas é o que me encanta. "
 Astra King, O Passado da Ordem: O Relógio Acromático.

"É melhor se comportar se quiser sair daqui com vida.
 Astra King, O Passado da Ordem: De Mãos Dadas com seu Reflexo.


  • Segundo o ocultismo, Astra pode ser definido como "formas-pensamentos, processos que se concebem e fabricam mediante fórmulas mágicas para conseguir certos fins";
  • Apesar de ele não ser mencionado nos livros, seus filhos são figuras recorrentes em toda a saga e há a promessa de que Astra retornará como um importante antagonista no Livro 4.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O Passado da Ordem - O Relógio Acromático (Parte 4)

O Relógio Acromático
– Bernard 

Alguém bateu à porta. Não estava acostumada a receber notícias depois do anoitecer, deixou o livro na cabeceira e preparou um de seus punhais para caso fosse obrigada a lidar com algum imprevisto de trabalho, mas qual foi a sua surpresa ao deparar-se com Astra King com as mãos ocupadas — a direita segurava uma garrafa de uísque e a esquerda dois copos baixos de cristal.
— Olá. Achei que uma companhia lhe cairia bem — disse o homem com a voz convidativa. — Desculpe por não usar as mãos para me comunicar, mas, como pode ver, elas estão ocupadas. Posso entrar?
Sheena precisou esconder sua expressão de desagrado, não estava contando com companhia. Seu planejamento inicial era de concluir pelo menos três capítulos até por volta da meia noite e passar o restante da madrugada se divertindo até pegar no sono.
Astra cambaleou pelo aposento escuro, tomando o devido cuidado para não trombar em nada pelo chão. Não havia nem mesmo um abajur ligado.
— Como é que você consegue enxergar nessa penumbra? — ele questionou.
Sheena piscou e seus olhos se acenderam como faróis. Mais um daqueles poderes inúteis que nunca quisera ter, mas ao menos servia para afugentar presas e ler no escuro. Astra não se cansava de impressionar-se com as habilidades da tótines.
— Garota, você é mesmo uma peculiaridade!
Assim que as luzes foram ligadas, Astra depositou os copos e a garrafa na mesinha de centro e seu olhar percorreu o aposento como se analisasse cada detalhe. Não havia nada de especial ali, o típico quarto de uma pessoa que passava a maior parte de seu tempo no trabalho e só precisava de uma cama para dormir quando o dia terminava. Sheena se acomodara no laboratório de Erlenmeyer desde que assumira sua missão como mercenária, mas alguns poucos pertences pessoais denunciavam que ela não era apenas uma assassina silenciosa e sanguinária como muitos faziam parecer.
— Bela peça — disse o Sr. King ao avistar um relógio de bolso inerte sobre a escrivaninha.
Sheena o repreendeu com um tapa leve na mão que não precisou de linguagem de sinais para ficar bem claro: “Não toque nele”.
— Ora essa, e o que temos aqui. — Astra ergueu um livro entreaberto sobre a cama. — Eu já ouvi falar dessa autora, minha ex-esposa lia tudo que ela lançasse. Quer dizer que você gosta de histórias eróticas?
Sheena arrancou o livro da mão dele e marcou a página para não se perder na leitura mais tarde.
“Se não tiver mais nada para fazer além de me provocar, peço que vá embora”, explicou Sheena através de gestos.
— Oh, me perdoe. Não quis ofender. — Astra dirigiu-se até a mesa e distribuiu a bebida entre dois copos. — Você recusou o meu vinho aquele dia, então imaginei que talvez preferisse algo mais forte. Trouxe esse uísque de quinze anos, produzido em Trajan, custa uma fortuna — ele entregou o copo para sua convidada e ergueu o outro num comprimento cordial. — Saúde.
Somente o cheiro daquela bebida a enojava, mas Sheena preferiu não fazer desfeita e aceitou para evitar que no futuro ele voltasse a fazer pedidos parecidos.
— Pois bem, vamos ao que interessa. — Astra espreguiçou-se pelo sofá, deixando um espaço óbvio para que ela se sentasse ao seu lado caso quisesse. — Como deve saber, há cerca de três dias os homens de Erlenmeyer trouxeram uma prisioneira com um poder muito peculiar... ela consegue acessar a mente das pessoas.
“Parece perigoso”, respondeu Sheena.
— Nós a chamamos de experimento Mysteria. Acessar a mente de alguém é de uma natureza inimaginável, acredito que poucos tótines no mundo saberiam como lidar com essa pressão. Um turbilhão de vozes em sua cabeça, o tempo todo, em qualquer lugar.
“Aonde quer chegar?”
— Já é de conhecimento nosso que você é a criatura mais sensível à mana em toda Sellure. Se você tivesse o poder de acessar mentes, você se tornaria imprevisível! Pense só nas possibilidades, até mesmo o Rei e seu Conselho idiota temeriam as verdades que você poderia trazer à tona.
“Eu não quero esse poder”.
— Calma, eu sei — desculpou-se Astra por sua exasperação. — Você, de todos os tótines que já conheci, é a única que recusa esse dom que recebeu das divindades.
“Eu não pedi isso. Eu só queria ser uma pessoa normal”.
— Pois essa simplicidade com que você lida com as coisas é o que me encanta — disse Astra com um sorriso, voltando a esticar os braços na poltrona. — A máquina capaz de extrair a mana foi concluída ontem à noite. Ainda está em período de testes, mas achei que ficaria contente em receber essa pequena atualização.
O coração de Sheena palpitou mais forte. Faltava muito pouco para que finalmente se livrasse daqueles poderes indesejáveis, mesmo que fosse uma chance remota.
— Eu poderia adiantar as coisas para você, se pudesse me fazer um pequeno favor — sugeriu Astra, que notou o olhar de desaprovação dela. — Não se preocupe, não é nada invasivo. Eu só preciso que você compareça amanhã no laboratório três onde faremos alguns experimentos com Mysteria. Eu quero que você faça um simples teste com o poder dela. Pode descartá-lo se não gostar.
“Por quê? Você não poderá usá-lo de qualquer forma”.
— É aí que você se engana, mocinha. A máquina em que estive trabalhando é capaz de não apenas drenar a mana do corpo de alguém, como passá-la para outro recipiente. Da mesma forma que as Pérolas Sagradas detém uma quantia absurda de magia, minha proposta é que passemos os seus poderes para pérolas vazias. Dessa forma, você se livrará deles para sempre.
“Não confio em seus homens”.
— Não se preocupe, eu mesmo lidarei com a extração. É uma troca justa, não acha? Você se vê livre do que te incomoda, e eu recebo algo que me agrada. Todo mundo sai ganhando.
Astra virou o líquido que restava em seu copo, fez um brinde com Sheena e seguiu em direção da porta para se despedir.
— Te espero amanhã às oito da noite. Não vá dormir tarde, hein? — ele disse com aquela voz cansada que passava uma sensação de segurança paternal. — Muito em breve você enxergará o mundo de outra maneira, com olhos de humanos!
Assim que Sheena foi deixada sozinha no quarto, ela despejou o uísque na pia do banheiro e deitou-se na cama. Permaneceu olhando para o teto, piscando a cada cinco segundos, acendendo e apagando os olhos como uma lanterna no escuro. Sentia tamanha ansiedade que já não conseguiria mais dormir e nem se concentrar em sua leitura, uma de suas mãos deslizou devagar para dentro da calça enquanto a outra massageava o seio em movimentos circulares. Ela se imaginou dali a alguns meses — qual seria a sensação de ser normal caso pudesse livrar-se de seus poderes? Seria mais prazeroso de alguma forma?
Sheena gemeu baixo, desenhando um arco com suas pernas enquanto puxava o cobertor com força. Sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo, seus dedos estavam molhados. Aquele momento solitário e particular era a única maneira que conhecia para esvaziar sua mente, e assim, livrar-se do excesso de mana que a assolava. Esquecia poderes, magia, compromissos e preocupações; por uma fração de segundos sua mente se esvaziava por completo e podia se concentrar no seu próprio prazer. Já se tornara parte da rotina, uma obrigação.
Buscara uma “cura” para seus poderes por toda a vida, definira como o seu maior objetivo, mas e quando tudo terminasse... será que acabaria tornado-se uma pessoa completamente diferente daquela que conhecia? A Silenciadora respirou fundo, e enfim seus olhos se apagaram indicando que suas baterias se esgotaram.

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No dia seguinte, Sheena compareceu ao laboratório quase uma hora antes do horário indicado. Erlenmeyer ainda não havia chegado, mas Astra King administrava os demais cientistas que também estavam ocupados demais com suas próprias experiências.
— Silenciadora, que bom que veio! — Astra cumprimentou-a de braços abertos. — Como passou a noite? Dormiu bem?
Ela se limitou a sorrir para ele, sem entrar em detalhes.
— Venha, depressa, a experiência já chegou — Astra também parecia alvoroçado, aquele dia seria decisivo para o avanço de suas pesquisas. — Quanto tempo precisa com ela para roubar seus poderes?
“Geralmente, cerca de vinte e quatro horas convivendo com alguém é o suficiente para que eu adquira seus poderes, mas se eu puder tocá-la, o resultado é quase imediato.”
Astra certificou-se de aproximá-la o máximo que pudesse. Sheena adentrou uma sala branca com paredes estofadas e uma simples cadeira de ferro estofado no centro, onde uma mulher encapuzada com vestes púrpuras repousava. Sheena encarou as próprias mãos e sentiu algo estranho — seu nível de poder mágico estava sendo drenado aos poucos, aquela sala tinha a capacidade de neutralizar qualquer magia dos tótines.
A mulher parecia ter quase a sua idade, mas dado o estado em que se encontrava, era claro que sofrera maus tratos. Suas vestes antes luxuosas estavam sujas e desgastadas, seus longos cabelos se emaranhavam escondendo parte do rosto cabisbaixo. Sheena precisou tocar no queixo dela para enxergá-la; apesar de inchados, seus olhos transmitiam o orgulho de quem mantivera a boca fechada até o fim.
— Nós pensávamos que ela fosse um dos membros da Ordem, mas parece que nos enganamos — falou Astra, sendo o próximo a entrar na sala fechada. — Parece que ela é um daqueles espécimes raros de animais que, por sorte, não nos apresenta risco nenhum.
Sheena não deixou de notar que no ombro a mulher carregava uma marca gravada em fogo.
“Pare de tratá-los como se fossem lixo”, ordenou Sheena, deixando sua mensagem bem clara de que os tótines não eram uma raça inferior e já sofriam o bastante nas mãos das divindades.
Sheena agachou-se em frente à mulher, como se pedisse licença para tocá-la. Por mais que as duas não tivessem se comunicado em momento algum, pela primeira vez, Mysteria sibilou algumas palavras em seu cativeiro.
— Se você pudesse ver o que eu vejo todos os dias... iria preferir estar morta...
Assim que a Silenciadora tocou em sua testa, uma aura sinistra a rodeou e uma dor de cabeça intensa tomou conta, como se estivesse enclausurada em uma festa ao lado da caixa de som, milhares de pessoas falando coisas que não lhe faziam sentido algum; ouvia barulhos ensurdecedores de todas as partes, imagens aceleradas de gente que ela nunca vira.
Sheena emitia grunhidos desconexos como um animal, Astra e outros dois de seus homens tentaram retirá-la da sala, mas a mulher se contorcia no chão lamentando de dor. Mysteria continuava sentada em sua frente, com os olhos vidrados.
— Sheena, Sheena! O que houve? — gritou Astra King. — O que está acontecendo dentro da sua cabeça?
Ela o puxou pela gola do jaleco e suas visões tomaram foco.
Viu-se presa em uma sala escura semelhante àquela, como se estivesse assistindo a um filme através dos olhos de outra pessoa. Viu Astra mais jovem com cerca de seus vinte e poucos anos ao lado de uma mulher muito bela que reconhecera pelo porta-retratos de sua família, devia ser sua esposa. Era como se a vida inteira de outra pessoa passasse através dos seus olhos — enxergara desde o casamento até as intimidades, os jantares em família e as conquistas da juventude. No meio de todas aquelas lembranças felizes também havia tormento e decepção, a imagem de momentos de alegria ao lado dos filhos logo se transformaram em embriaguês pela bebida.
Ela viu Astra tornar-se um monstro, chegando ao ponto de bater em seus filhos quando algum deles saía da linha. A violência não demorou a tomar novas proporções, Sheena precisou fechar os olhos, porque se sentia como na pele das crianças que gritavam e choravam assustadas. A imagem que tinha do homem se desfez no ponto em que, para o seu terror, ele espancou a própria esposa sem precisar estar embriagado para tal. Via-se obrigada a olhar tudo acontecer sem poder sair do esconderijo, impotente e desesperada.
“Você é só uma vadia reprodutora mesmo”, ouviu Astra dizer. “Pelo visto os tótines não têm nada de melhor para me oferecer”.
Assim que Sheena conseguiu livrar-se do turbilhão de memórias que a assolaram, percebeu que estava de volta ao laboratório. Astra estava ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão com aquele olhar cauteloso e gentil.
— Pronto. Está se sentindo melhor? — disse o homem com um sorriso. — Por Araya, achei que fôssemos perdê-la. Eu detestaria que algo acontecesse com você, minha pequena.
“Minha pequena”. Aquelas palavras causaram um efeito de revolta tão grande em Sheena que ela partiu para cima dele feito um lobo feroz.
Ela não pertencia a ele. Ela não pertencia a ninguém.
Sheena começou a espancá-lo de forma impiedosa, nenhum dos outros cientistas puderam afastá-la. Mesmo em uma sala capaz de drenar sua mana, seus poderes estavam entrando em conflito e assumindo proporções surreais, o maquinário que media os níveis de magia sofreu um curto-circuito e precisaram ser desligados. Se tivesse levado suas adagas, Sheena com certeza o teria matado ali mesmo. Ela o socava no rosto deixando para trás contusões, seus óculos partiram-se ao meio, Astra já estava inconsciente, mas Sheena não dava sinais de que iria parar.
Uma figura sombria de um lobo atravessou as paredes do recinto e avançou para cima de Sheena, arremessando-a do outro lado com o impacto. A Silenciadora ficou de quatro no chão, ela comprimiu seus ombros e assumiu a sua forma de animal — a de um lobo com presas ferozes e pelagem branca. Com um forte rugido, Sheena encurralou os pesquisadores que cercavam, grunhindo raivosa com as presas expostas.
— Acalme-se, senhorita. Este não é um ambiente para brigas — alertou-lhe o Doutor Erlenmeyer que chegara havia pouco tempo.
Devo expulsá-la da alcateia?, perguntou o Lobo Negro, um dos três espíritos que sempre acompanhavam Erlenmeyer aonde quer que ele fosse.
— Claro que não, ela ainda é uma das nossas, só precisará de um pouco de tempo para repensar seus atos — retrucou a serpente albina. — Venha, Sheena, você precisa descansar... esse mundo é escuro demais para você.
O corpo de Sheena aos poucos retomou sua forma humana. Ela caiu de joelhos com a respiração ofegante, mas não se arrependia nem um pouco de ter descontado tudo que sentia naquele nojento do King. Mysteria continuava sentada sobre a sua cadeira com o olhar distante como se tivesse sido drogada, alheia à batalha que acabara de acontecer. Sheena não demorou a interpretar que os machucados naquela vítima indefesa eram obra dele — a marca no ombro era para lembrar os tótines capturados a quem eles pertenciam.
E ela também era responsável por isso. Caçara, assassinara e destruíra incontáveis famílias de sua própria raça. Seria ela tão pior quanto qualquer outro ali presente?
A Silenciadora ergueu os braços com os punhos fechados em um gesto de conformidade que só podia significar uma coisa: “Levem-me embora daqui”.

ii

Sheena foi levada para uma das salas de contenção do laboratório, em momento algum revidou ou demonstrou resistência, ofereceu-se como prisioneira de bom grado, pois assim teria onde pensar sem ser incomodada. Estava morrendo de dor de cabeça, tinha tanto a assimilar nas últimas horas, os flashes de imagens de vidas que não lhe pertenciam ocorriam o tempo todo, mas estava aos poucos aprendendo como controlá-los.
Assim que um dos guardas abriu a porta de sua cela, percebeu que teria companhia. Havia um gigante idoso ali dentro, tinha a barba cheia e os cabelos ralos já eram dominados por mechas prateadas pela idade. Sua ideia de ter um pouco de tranquilidade fora por água abaixo. Sheena olhou para o guarda que sentiu um frio na espinha — ela causava medo mesmo com as mãos e pernas atadas por correntes.
— P-pode entrar... p-por favor, não faça nenhum mal ao outro prisioneiro — rogou o guarda que estava tão trêmulo quanto um bambu. — Tente não... comê-lo, se ficar com fome.
Ah, então era essa reputação que tinham dela pelo mundo? Que comia gente como se fosse um animal selvagem. “Até que seria divertido”, pensou Sheena com sarcasmo.
A porta da cela foi trancada, tinha pelo menos trinta centímetros de cimento puro, o que tornava a escapatória dali uma missão improvável. Sheena sentou-se no chão frio e fechou os olhos para meditar e concentrar-se na mana que irrompia por seu corpo quando ouviu uma voz grave:
— Olá. Tudo bem com você?
Sheena continuou quieta. Se tivesse sorte, ele perceberia que ela não estava a fim de papo e logo iria parar.
— Meu nome é Bernard... Sinceramente, não sei o que fiz para estar nesse lugar — disse o gigante com a voz gentil. Para alguém daquele tamanho, ele conseguia ser muito amável. Sheena chegou até a lembrar-se do próprio pai que vivera a vida toda como um homem do bem na humilde Ilha Quebrada ao norte de Garamond.
Mas ainda não estava nem um pouco a fim de socializar.
— Certo dia, eu e minha família fomos alvejados por uns homens estranhos vestidos de branco que alegava que estávamos infringindo uma regra: “Vocês são tótines, não deviam estar perambulando livres pela cidade!” Sabe, no meu tempo, não havia diferença entre as raças, e...
Sheena respirou fundo. Ele continuou com seu monólogo:
— ... minha mulher morreu há alguns anos, eu gostaria que ela tivesse vivido um pouco mais para ver nossa primeira netinha crescer — falou Bernard com a voz embriagada, como quem chorara a noite inteira. — Quer ver uma foto?
Sheena abriu os olhos pela primeira vez e olhou para o pedaço de papel nas mãos gigantescas do velho. Outra daquelas fotos de família — todo mundo sempre feliz, com gente reunida e conectada por sorrisos em comum, eternizadas em um momento como uma pintura da realidade.
— Essa aqui é minha filha, Atani, e o marido dela. Eles também estão aqui dentro nesse laboratório em algum lugar, mas me disseram que os adultos entrariam primeiro. Como sou velho, não me importo de esperar. Tenho bastante tempo sobrando. Você também não acha esse quarto de hotel um pouco estranho? A comida pelo menos é boa, mas vem em pequenas quantidades. Um grandalhão feito eu precisaria repetir o prato pelo menos três vezes...
Pelo visto aquele senhor não fazia ideia de que era um prisioneiro. A mana dos tótines segue diminuindo conforme a idade avança, logo, idosos não tinham serventia alguma para as experiências praticadas por Erlenmeyer.
— Ah, e essa aqui é a minha neta, ela tem um coração enorme. Mal nasceu e já tinha quase um metro, aposto que vai ficar mais alta do que eu! O que mais me doeu o coração foi quando a levaram para uma casa cheia de outras crianças, disseram que ali elas poderiam brincar todas juntas, mas todas pareciam tão assustadas...
As crianças eram o alimento preferido das pesquisas ali feitas. A mana transbordava nos primeiros anos de vida de um tótines, tanto que o preço por elas era quase o dobro. Sheena nunca ligou para o dinheiro, preferia que suas vítimas tivessem uma morte tranquila a levá-las para que fossem submetidas aos experimentos do laboratório do terror como era chamado.
— Quando ela nasceu, ninguém conseguia fazê-la parar de chorar. Só eu — disse Bernard com um sorriso bobo, pois sentia um tremendo orgulho de ser um avô cuidadoso e divertido. — Ela amava uma das minhas mágicas, quer ver?
Com as duas mãos erguidas formando um círculo, Bernard soprou o ar devagar e enormes bolhas se formaram, tomando conta da cela apertada. Sheena o encarou com o semblante sereno, pois aquele gigante inocente não tinha ideia de que seus poderes envolviam a água, um dos elementos básicos mais poderosos e cobiçados do reino.
E ali estava ele, usando-o para fazer bolhinhas de sabão para sua neta.
Há quanto tempo não via a ignorância de alguém quanto aos seus poderes? Mesmo que a magia dos tótines lhe parecesse uma maldição cruel, ainda havia quem a considerasse um pequeno presente, parte da sua vida.
Bernard ainda falava sem parar, o que permitiu que Sheena embarcasse em uma viagem pelo tempo. Imaginou-se em sua ilhota isolada no extremo norte de Sellure, lembrou-se de sua vida simples no campo, de como amava deitar-se na grama e sentir a areia dos pés, da mãe e do pai que sempre a trataram tão bem e lhe deram tudo que estava ao seu alcance. Nunca levara uma vida de riquezas, mas quem precisava daquilo quando se tinha uma ilha inteira para usar a criatividade e brincar com seus recém-descobertos poderes?
Mas quando a puberdade chegou, logo as outras crianças da ilha passaram a vê-la com estranheza. Achavam-na perigosa por ter poderes que fugiam à compreensão.
“Se quiser viver entre nós, você precisa tentar agir como alguém mais normal!”.
Mas o que era “ser normal”? Ao se olhar por fora, era exatamente como todos os demais. Não pedira para ter poderes.
Desde pequena tudo que queria era ter uma vida tranquila, mas nem mesmo em seu lar lhe deram essa possibilidade. Todos na ilha achavam-na excêntrica demais, mas será que não havia mais ninguém no mundo estranho o bastante que a completasse? Quando menina, almejava um lugar onde ninguém soubesse seu nome, queria ser invisível.
E se tentasse reunir aquelas malditas Pérolas Sagradas? Talvez pudesse concentrar um campo de energia tão grande capaz de extinguir a mana em Sellure, dessa forma, todos seriam iguais, mesmo que apenas as gerações futuras. Se algum dia tivesse um filho que Yllata a livrasse de tamanho infortúnio então a criança não seria mais atormentada por ser diferente. Ninguém colocaria expectativas sobre ela. “Você tem grandes poderes, deve usá-los para o bem!”
Olhou outra vez para a foto em família de Bernard, o que a levou a retirar o próprio relógio do bolso e o encarar, ainda fechado.
Para alguém que vivera a vida toda em uma região remota, aquele era um bem inestimável. Sua primeira decepção na vida foi quando tentou vendê-lo por precisar desesperadamente de dinheiro, e descobriu que não passava de ferro fundido folheado a ouro, não tinha nenhum valor comercial. Hoje tinha apenas cores monocromáticas e um pouco de ferrugem, ainda assim, aquele era um de seus itens mais preciosos; fora o último presente do pai, pouco antes de abandonar a vida na ilha e partir para o mundo. Ele lhe dissera na ocasião:
“No dia que você tiver alguém muito importante em sua vida, coloque uma foto aqui dentro”.
O espaço estava vazio até hoje.
Sheena levantou-se, fez um cumprimento cordial para Bernard e agradeceu-lhe pela conversa. Ela tocou no joelho do homem e sentiu sua mana restaurar-se imediatamente. Seu corpo tornou-se líquido, o que a permitiu passar pelo vão da porta sem grandes problemas. Já meditara o suficiente. Estava decidida a sair dali e reunir as Pérolas Sagradas, nem que para isso precisasse passar por cima de Erlenmeyer. Quem sabe quando terminasse aquela missão poderia encontrar paz em algum lugar remoto de Sellure, isso se não terminasse destruindo a si própria. Se o momento chegasse, abraçaria a morte como uma velha amiga.

 
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