sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Arte #33 - O Espelho de Sheena

Essa ilustração foi feita como menção honrosa para a Silenciadora que por pouco não levou o prêmio de Miss Sellure em 2019. Mesmo sendo uma personagem que não aparece nos livros, Sheena destacou-se por seu background repleto de conflitos e personalidade marcante nos capítulos especiais do passado da Ordem do Selamento.

Talvez você esteja se perguntando: "quem fez esses machucados nela? Algum monstro ou vilão antigo?". Eu diria que foi ela própria. Quando ainda não sabia lidar com seus poderes, Sheena tentou se machucar das mais diversas formas, as marcas em seu rosto são de suas unhas e a mancha de sangue remete ao seu lado violento. Com o tempo ela teve de aprender a controlar isso, mas gosto da maneira como seu olhar parece distante, até sereno, como se ela tivesse visto a si mesma em um espelho e encontrado certa beleza nisso...

Eu não consigo imaginá-la de vestido. Mesmo tendo rabiscado algumas ideias, nenhuma das opções ficou aceitável, acho que a Sheena é discreta demais para os holofotes, seu lado enigmático traz uma aura de incerteza, do tipo que só se abre com pessoas muito próximas, se é que existe alguém com quem ela se sentiria confortável. Essa arte fica como uma lembrança de uma personagem que tanto adorei trabalhar em 2019!

Vencedora do Miss Sellure

Chegou a hora dos resultados do evento mais aguardado do reino! O Miss Sellure trouxe uma disputa acirrada entre as beldades que emprestaram sua beleza para as ilustrações do Livro 1. Tivemos oito candidatas na disputa, sendo que duas delas ainda nem foram devidamente introduzidas na história, mas vieram para ter um gostinho do que as esperam na próxima oportunidade. 

As favoritas ao pódio, Auria Mercer e Hayley, só não esperavam que uma candidata misteriosa fosse marcar presença e conquistar tantos votos. Sheena, a Silenciadora, por pouco não levou a coroa, e por isso recebeu uma menção honrosa e uma arte exclusiva (tudo indica que houve uma pequena manipulação nos votos *risos* mas quem se importa?)

Mas hoje é o dia dela, nossa Dama de Ferro, a Rainha Azul  com seus 1,80m de altura e salto alto contemplar as inimigas lá do alto, Auria Mercer conquista sua posição como a beldade máxima dessa temporada!

Devo dizer que esse resultado me deixa muito contente, pois lembro-me da pequena Auria quando ela ainda se chamava Aleafar, uma garotinha de cabelos azuis que vivia se metendo em apuros. De uma das personagens mais esquecidas e insuportáveis em minhas histórias, ela evoluiu para tornar-se essa guerreira admirada que virá a ser a protagonista no Livro 2.

Muito obrigado à todos que voltaram, espero vocês na próxima edição! E, como sempre, fica o apelo para que um Mister Sellure aconteça com os galãs do reino, minhas apostas vão para o Raegar, Aedan ou Volker (vai saber o Johnny Goldo também ganha alguns votos?).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Thanks for 10.000 Hits! + 1000 Comments


É, foi uma longa jornada desde a última vez que registramos um recorde aqui no blog, mais especificamente em Maio de 2016 para marcar as primeiras 1000 visitas ao blog. Hoje o marco é dez vezes maior, alcançamos 10.000, mas nos últimos dias tenho refletido bastante sobre não ter mais tanta inspiração e nem paciência para desenhar. A imagem título desse post é um exemplo disso, por pouco não a rasguei e joguei fora, tudo parecia estar ficando tão horrível — ou melhor, é como se eu tivesse parado em 2014  e só não a rasguei porque, se o tivesse feito, eu provavelmente não teria tempo para fazer outra. Vivo aquele estranho dilema de não ter encontrado meu estilo de desenho e precisar de uma renovação, de querer evoluir e morrer de preguiça de praticar com a mesa digitalizadora. Não é exatamente a evolução que eu esperava ter em 2020, mas ainda temos um ano inteiro pela frente, não?

Dez mil acessos pode parecer pouca coisa para um blog, mas penso sempre que os leitores que vieram aqui foi para ver conteúdo original, meus personagens, meu livro. Sempre sonhei em compartilhar com o mundo minhas histórias, e saber que há pessoas curiosas visitando o Reino de Sellure com frequência é o que me motiva a criar sempre mais. Me desculpem pela arte inacabada, prometo refazê-la quando me sentir melhor, mas só tenho a agradecer vocês por tudo que fizeram nesses longos cinco anos do blog!

E a propósito, há alguns meses esqueci-me de registrar que foram feitos mais de 1000 comentários! Obrigado, mil vezes obrigado, esse blog não seria tão divertido se eu não tivesse vocês por perto!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A Primeiríssima Votação do Universo Matéria


Você deve estar pensando: "Ué, mas a primeira edição do The Omascar acabou de acontecer!", mas há 13 anos, mais especificamente no ano de 2007, algo grandioso aconteceu... Não estamos falando do Kanye West e Daft Punk lançando a música Stronger que atingiu o número 1 na Billboard, e nem que a a J.K. Rowling lançava seu último livro da saga, Harry Potter e as Relíquias Mortes; houve também a incrível votação feita na casa do pequeno Canas que decidiu quem eram os personagens favoritos do universo Matéria!

Contendo incríveis 43 personagens (sendo que metade deles não tinha propósito algum), a votação serviu para determinar de uma vez por todas quem era o favorito. O mais interessante é que o desempenho nessa votação serviu anos mais tarde como base para determinar a importância de um personagem, como por exemplo Aedan que assumiu o cargo de líder da Ordem do Selamento e Raito que veio a tornar-se uma figura recorrente nos primeiros livros, mas que ainda virá a mostrar toda sua capacidade no fechamento da saga.

Na velha pasta preta do autor é possível encontrar duas folhas com os resultados dessa votação que você confere abaixo:


Seguindo uma análise profunda sobre essa votação, podemos descobrir inúmeras curiosidades que colaboraram para que Matéria se tornasse o que vocês conhecem hoje. Levando em conta que inúmeros personagens já não existem mais, adaptei os resultados e exclui posições de forma que o quadro final ficasse assim:

  1. Lesten
  2. Raito
  3. Aedan
  4. Ralph
  5. Doppel
  6. Tokay Asa Negra
  7. Raegar
  8. Facade
  9. Bill
  10. Bernard
  11. Johnny Goldo
  12. Elma
  13. Lydia Mercer
  14. Tootie
  15. Elice
  16. Cleópatra
  17. Half
  18. Auria
  19. Diana Mercer
  20. Pyrimids
  21. Dellonium

As três primeiras posições são merecidas. Lesten, Raito e Aedan continuam até hoje como os favoritos da história, enquanto Ralph, Doppel, Raegar e Facade aparecem nas posições seguintes. Os membros da Ordem do Selamento estão espalhados em posições próximas.

Sobre os nomes que foram excluídos, tratam-se de personagens que deixaram de existir ou não foram adaptados. Algumas alterações bizarras como Broken Egg que costumava ser um gecko laranja filhote que vivia perseguindo Ralph tornou-se o pirata Johnny Goldo, uma mudança drástica que em nada remete a figura original. Temos também o próprio Tokay que antigamente era usado para representar o nome de toda a raça e não uma única figura histórica como o Asa Negra. Os Tokay hoje em dia são os geckos que conhecemos.

Nessa época ainda não existiam personagens como Volker, Lloyd King ou Rudsi que só vieram dois anos depois, e nem Peter Lee, Hayley, Clover, Courtney, Henry ou Zeth que só foram criados para o livro quase dez anos depois. Eles foram substituindo aqueles que tinham pouco ou nenhuma serventia.
Quanto mais olho para essa imagem, mais coisas engraçadas eu encontro. Tenho inúmeras curiosidades a compartilhar:

  • Nossa estimada Auria Mercer ocupa uma das piores posições do ranking, o que mostra o quão terrível era a personagem e como eu precisava desesperadamente aprender a trabalhar minhas personagens femininas;
  • Sua irmã, Diana Mercer, conseguiu ser ainda pior. Ela perdeu para monstros que nem tinham falas;
  • Os Pyrimids e os Dellonium, apesar de terem ficado nas últimas posições, acabaram retornando como monstros oficiais do livro, o que não aconteceu com nenhum outro;
  • Todos membros da Ordem do Selamento (incluindo o Ralph) tinham uma versão genderbend;
  • Existia um personagem chamado Hoplar (é "Ralph" virado de trás para frente com um O no meio) e ele era um fotógrafo, influência de Pokémon Snap;
  • Os Tokagem (que ocupam a terceira posição) se tratava de um espírito morto de Tokay;
  • O fato de Ralph ocupar a quarta posição indica que ele nunca foi o favorito dos leitores, pois Lesten sempre foi o personagem mais divertido e dinâmico na história. Basta olhar para a carinha triste do Ralph de quem não conseguiu ocupar nem o pódio;
  • Ignore o fato de que a cabeça da lula gigante parece um pênis gigante.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Capítulo 30.5 - Criatura das Profundezas

Onde a cena se encaixava?
Na metade do Capítulo 30, após a chega dos demais integrantes da Ordem do Selamento na Ilha-S e pouco antes de Ralph e seus amigos subirem no Trem das Águas para irem em busca do ladrão de pérolas.

Sobre o que falava?
Uma enorme lula gigante, um monstro antigo conhecido como Pyrimids, ataca a embarcação do Capitão Bernard e obriga Ralph e seus amigos a lutarem por suas vidas em uma das poucas cenas de ação que envolvia todos personagens lutando juntos. Esta é a última Cena Deletada do Livro 1.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 2700 palavras, a batalha contra o Pyrimids foi escrita baseando-se nos primeiros gibis do autor. As lulas gigantes sempre fizeram parte da mitologia de Sellure e o autor quis homenageá-las com esse capítulo, mas no fim das contas a luta não representava nenhum crescimento para os personagens e acabou sendo cortada da versão final.

Uma curiosidade é que nos gibis era aqui que acontecia a batalha entre Ralph e Half, e Lesten se sacrificava para salvar seus amigos, afundando junto com o Navio Fantasma pouco antes da batalha final contra Raegar (só que mais tarde ele retornava, porque o Lesten é imortal).


Criatura das Profundezas
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas


Lesten encarava a água que estava irrequieta, todos os sinais indicavam que algo dentro do oceano havia sido despertado. O vento sofrera uma mudança súbita de direção e as ondas antes tão mansas começavam a se descontrolar. Auria aproximou-se da proa do navio para descobrir do que se tratava.

— Viu alguma coisa? Parecia uma baleia.
— Bem maior — respondeu Lesten, perturbado. — Os mares de Century são repletos de criaturas bizarras, de tubarões gigantes até enguias colossais. Conheço muito pouco sobre os monstros que habitam as profundezas do oceano, mas estou doido para descobrir mais sobre eles!
— Você é o único que corre atrás do perigo — Auria respondeu com uma risada, apoiando os cotovelos no corrimão e virando-se de costas. — Quando nos deparamos com ele, tudo que podemos fazer é confrontá-lo.
Lesten voltou a olhar entretido para o mar quando um impacto forte badalou toda a estrutura do Navio Fantasma, fazendo com que Auria escorregasse e Ralph precisasse apoiar-se no ombro do lagarto para ficar de pé. Uma sombra começou a rodear a embarcação, uma presença maligna impossível de se ignorar. Ralph correu para a cabine do capitão para alertar Bernard, que no momento observava o cenário de sua ampla janela de vidro com uma paz incomum. Aedan e Bill também estavam presentes quando foram interrompidos.
— Capitão, parece que batemos em alguma coisa! — alertou Ralph, ofegante.
— Ele está nos seguindo desde a madrugada, aguardando a hora certa de atacar — comentou Bernard, dando uma tragada em seu cachimbo com uma calma incomum. — Na verdade, creio que ele esteja de olho no Navio Fantasma há alguns anos, embora eu nunca tenha lhe dado a chance de me confrontar.
— Você fala “dele” como se fossem velhos amigos — disse Aedan.
Ralph hesitou alguns segundos antes de perguntar.
— Quem é ele?
— Um Pyrimids, um dos monstros marinhos mais antigos de Sellure. Essa espécie inspirou inúmeras lendas nos anos das navegações, são monstruosamente imensos, e dizem também serem os responsáveis por impedir que qualquer navio atravesse as fronteiras de nossos mapas — explicou o capitão. — Como o Navio Fnatasma não esteve ocultado pela neblina mágica nos últimos dias, fomos logo localizados por ele.
— E o que espera que façamos agora? — indagou Ralph, embora já soubesse da resposta.
O capitão riu, as rugas em seu rosto cansado se evidenciaram.
— Ah, essa será uma bela história de pescador a se contar...
Outro estrondo foi ouvido, o navio balançou para os lados e os móveis acompanharam o movimento. Ralph imediatamente correu para fora onde seus companheiros observavam curiosos o movimento nas águas.
— Saiam logo daí! — gritou o jovem.
— Por quê? Acha que ele vai pular e puxar a gente para o fundo do mar? — Auria brincou.
Assim que se deu conta, a mulher pôde ver um imenso tentáculo emergir, apoiando-se nas beiradas do casco com ventosas gosmentas cheias de farpas como os de uma água-viva. Hayley saltou para o colo de Lee que a agarrou, Elma conjurou um machado fez um corte vertical no tentáculo que estremeceu e recuou para o fundo do mar. Auria ativou sua armadura, mas de que aquilo adiantaria se a criatura a sufocasse no oceano? Ralph brandiu Lignum e reuniu-se com seus amigos o mais longe da beirada que pôde.
— Que bizarrice é essa? — bradou Lee, de punhos fechados e braços erguidos. — Como é que vamos lutar contra algo desse tamanho? Ele nem deve sentir os nossos golpes.
— Essas criaturas lutaram as grandes guerras do passado — explicou Lesten. — Houveram grandes domadores de monstros que aprenderam como controlá-los a seu favor, treinadores de Aukalakas, Dinorros e até mesmo dragões. A presença dessas aberrações decidia o lado vencedor, pois por onde passavam sobrava um rastro de destruição e ruína.
— Vou até subir de nível depois que derrotar um! — Ralph falou eufórico com sua espada de madeira firme em sua mão.
Bernard saiu de sua cabine e reuniu os demais membros da Ordem do Selamento. Tootie conseguia sentir as vibrações através da areia no oceano, aquele era um dos maiores monstros que já vira ou conhecera.
— A dimensão ultrapassa os cinquenta metros, isso porque não consigo medir o tamanho dos tentáculos — disse a guardião da areia, concentrando sua energia. — Mesmo tendo estudado fósseis durante oito anos para construir o museu das Ruínas Douradas, há pouquíssimos vestígios deixados pelos Pyrmids por conta da ausência de ossos.
— Eu quero ver, eu quero ver! — Elice gritava histericamente perto da borda até que Aedan precisou afastá-la dali. A menina precisou ficar trancada na cabine do capitão onde não arranjaria mais confusão.
Uma última calmaria tomou conta do navio, todos aguardavam qualquer sinal do monstro marinho que estava em seu próprio território. Não era intenção de ninguém fugir para terra firme onde estivessem seguros, pois assim a criatura continuaria à solta, podendo atacá-los na madrugada ou longe o bastante de qualquer ilha para que sequer cogitassem a chance de se salvarem caso o navio fosse destruído. Eles precisavam colocar um fim àquela ameaça de uma vez por todas.
 O primeiro ataque surgiu quando dois tentáculos saíram um de cada lado do navio, atravessando a madeira do deque e quebrando caixotes no caminho. Lesten perfurou um deles com sua lança enquanto Auria repeliu a segunda onda com seu escudo. Hayley conjurou um feitiço de agilidade para que Lee pudesse correr mais depressa e saltar a alturas sobre-humanas, afastando qualquer ameaça que prejudicasse as condições da embarcação.
Outros quatro tentáculos surgiram do lado oposto, atacando os tótines pelas costas. Elma ativou espadas mágicas que dançaram e fatiaram um dos tentáculos com cortes precisos, como se fossem pequenos pedacinhos de sashimi. Tootie conjurou uma barreira de areia para conter o avanço, mas os ataques eram violentos e vinham por toda a parte. Bill desapareceu em algum lugar fugindo do conflito, como sempre
— Se estamos enfrentando um polvo, seus oito braços já eram — disse Lee, sentindo a adrenalina do momento. — Esse treinamento vai render!
Apesar de a vitória parecer certa, os Pyrimids se tornavam cada vez mais violentos conforme percebiam que sua presa resistia. Subitamente, ondas com mais de três metros formaram-se uma após a outra, o monstro emergia e mergulhava de maneira contínua, ele se chocava contra o casco do navio na tentativa de virá-lo, batendo com sua cabeça em formato de pirâmide capaz de atravessar mesmo a mais resistente das armaduras como se fosse uma furadeira. Bernard sentiu um aperto em seu coração, cada ferida no navio atingia diretamente sua essência mágica.
Um novo impacto fez o casco ceder, jatos d’água invadiram o convés e inundaram as câmaras inferiores. Uma forte camada de tinta negra formou-se ao redor do navio, de onde a ponta de uma pirâmide surgiu abrindo uma cratera. O pilar que sustentava a vela chegou a tombar, as duas metades oscilaram e todos perderam o equilíbrio. Água jorrava para todos os lados, todos os tentáculos da monstruosa lula gigante começaram a abraçar a embarcação como se estivesse prestes a devorá-la. Uma boca monstruosa revelou-se da água como um buraco negro que a tudo consumia, com sua porção de dentes serrilhados e hálito fétido. Uma gosma amarela saía dele, tudo que caía lá dentro era triturado, desde peixes até caixas, barris e pedras.
Lee segurou Hayley e saltou para uma área segura longe do convés, abandonando o combate para assegurar sua segurança. Auria tropeçou e caiu, Ralph segurou sua mão enquanto tentava desesperadamente segurar-se a qualquer instrumento que fosse. Lesten usou suas patas adesivas para escalar o navio destroçado e resgatar seus amigos antes de retornar ao combate.
— Esse em breve vai entrar na minha lista! — falou o gecko.
Com o navio partido ao meio, o lagarto conseguia andar por áreas íngremes onde nenhum outro tinha acesso. Os braços do Pyrimids tentavam pegá-lo, mas sua agilidade era invejável. Lesten saltava e dava piruetas no ar como um malabarista, enquanto isso, Tootie assumiu a forma de um archeopteryx feito de areia, uma espécie de ave dos tempos antigos, e começou a bicar com força os tentáculos que se moviam como se tivessem consciência própria.
Assim que Lesten alcançou o topo do mastro, deparou-se com Bill sentado sobre um enorme barril.
— Não me diga que você estava se escondendo — disse o gecko furioso.
— Mas que coisa, só porque não estou constantemente na linha de frente não significa que não colaboro com a batalha. Sou um gatuno ardiloso, nobre companheiro réptil, perito em furtividades e estratégias astutas. — Bill fez um breve sinal com a mão e simplesmente chutou o barril que foi direto para a boca da criatura. — Está na hora de alguns fogos de artifício!
O Pyrimids engoliu o barril e uma explosão foi ouvida de dentro do seu estômago. A fumaça expelida denunciava que Bill colocara pólvora o bastante ali dentro para dar-lhe uma tremenda dor de barriga, o que o fez desacelerar o ritmo de seus ataques.
Bernard concentrou sua mana para trazer o navio o mais próximo que pudesse da Ilha-S, onde a lula gigante não pudesse alcançá-los, mas ainda era cedo para que o Pyrimids desistisse de sua refeição. Assim que ele emergiu foi como se um prédio inteiro saísse do meio do oceano — sua cabeça tinha o formato perfeitamente triangular, como um molusco que escolhe uma concha grande demais para se acomodar; nela estavam presos recifes, pequenos crustáceos, limo e até equipamentos de guerra enferrujados; um verdadeiro bioma ambulante. Em lados opostos estavam seus enormes olhos quase cinco vezes maiores que bolas de canhão, sua boca ficava mais embaixo, logo, enquanto ele a protegesse parecia ser impossível de atacá-lo em toda sua resistência.
— Esse é o monstro mais maneiro que eu já vi! — gritou Ralph.
— Vai chamá-lo pra equipe também? — Auria brincou. Seu amigo pareceu adorar a ideia.
O Navio Fantasma se afastava devagar, os danos causados teriam destruído qualquer embarcação comum, mas Bernard sempre se gabara de que “sua alma estava presa ao seu navio”, se ela morresse, ele preferia afundar junto de sua amada.
Já perto da costa, o Pyrimids não dava sinais de que iria parar. Um simples amontoado de terra não o impediria; com seus tentáculos, ele puxava a areia no fundo com impulso para mover-se. O pesado compartimento que ocupava cabeça servia como proteção para o corpo gelatinoso frágil, ele avançava pela região rasa da costa com uma fome insaciável.
— E o monstro continua vindo! — falou Bill. — Gastei um bom estoque de pólvora nele.
— Se não pudermos acertar a boca na base da pirâmide, será impossível derrotá-lo — concluiu Tootie.
Os tentáculos que haviam sido cortados começavam a se regenerar, apenas mais um sinal do quão perigosas eram aquelas criaturas nos tempos antigos. Aedan continuava com as mãos no bolso, preferira não participar da luta para analisar o nível de força de seus companheiros da Ordem, mas a verdade era que ainda estava cansado e indisposto desde sua luta com Ralph no vulcão.
Bernard concentrou as forças em um de seus joelhos, bateu as pernas no chão e o convés inteiro tremeu anunciando que o gigante acabara de acordar.
— Já estou cansado de ver uma criatura asquerosa como você machucar minha amada!
Mesmo que não houvesse um marinheiro sequer para manusear o leme ou limpar o convés, todo o navio era controlado pelo capitão que o comandava. As fileiras de canhões se posicionaram contra a pirâmide que se aproximava, disparando bolas de ferro que causaram sérios danos na carapaça da criatura.
Quando um tentáculo avançou em direção da cabine onde Elice estava alojada, Aedan estendeu o braço e uma labareda de fogo incinerou o membro por completo. O tentáculo caiu tostado enquanto Lesten o abocanhava contente.
— Oba, comida exótica! — gritou o lagarto. — Mandou bem, cabeça de fogo!
Aedan apenas riu quando lhe irrompeu a ideia de abrir um restaurante, Elice iria adorar.
O grupo se dividiu em equipes que se se auxiliaram a descer do navio e afastar-se da costa onde a criatura ainda os rondava. A presença do Pyrimids nos arredores colocaria em perigo a segurança do Trem das Águas e de qualquer turista que se aproximasse da ilha naquela época do ano. Elma permanecia na linha de frente com seu exército de espadas, disposta a proteger seus amigos a qualquer custo.
— Cuidado para não serem arrastados para a água! Se caírem no território dele, estarão realmente encrencados — alertou a guardiã do pântano.
Quando o Pyrimids alcançou a terra, ele se arrastava como um caracol vagaroso que transporta sua casa. Estava claramente enfraquecido após a longa batalha, mas era como se a criatura também estivesse empolgada com uma batalha após tantos anos sem um adversário digno.
Com sua espada de madeira, Ralph acertava a lula com cortes perfeito na cabeça. A criatura tentou arrastar Tootie, mas Lee segurou a ponta de um dos tentáculos com os dois braços e o puxou até arrancá-lo. Lesten se desviava com habilidade entre os destroços de madeira quando sentiu que algo o agarrou pela cauda e puxou-o com força em direção do fundo. O lagarto usava as garras para segurar-se em qualquer superfície sólida, mas acabou largando suas armas e sendo tragado para dentro do mar.
Não! — Ralph gritou. Auria o puxou pela camisa, impedindo-o de cometer qualquer loucura.
— Você não sabe nadar! — respondeu a guerreira, prontificando-se a entrar em seu lugar. — Deixe isso comigo.
Lee foi quem a impediu na sequência, já arrancando a blusa e as botas.
— Sou mais rápido.
— Você é manco — ela argumentou.
— Não sabe o que sou capaz de fazer com essa perna.
— Olha, se eu fosse vocês, eu nem perderia tempo procurando a lagartixa — comentou Aedan, apontando para uma coisa verde gosmenta que boiava perto da praia.
A cauda de Lesten estava lá, mas não havia sinal dele.
O Pyrimids recuara após ter sido brutalmente atacado pelos canhões do Navio Fantasma, os danos em sua cabeça triangular foram intensos o bastante para que ele finalmente voltasse a se esconder no buraco profundo de onde viera. Bernard apoiou-se na proa do navio e esticou os braços, gritando com todas as forças:
— Vai fugir agora, seu miserável? Nosso duelo não terminou! — O capitão viu a monstruosidade marinha entrar na água e soltar uma densa camada de tinta que cobriu toda a superfície da costa. — Um dia iremos nos reencontrar, seu bastardo!
A calmaria tomou conta da região. Ralph andava entre os destroços, afastando móveis quebrados e toras de madeira no caminho em busca de algum sinal de seu amigo. Viu uma pequena fita vermelha flutuar, e imediatamente a reconheceu.
— L-Lesten — murmurou, mas as palavras mal saíram de sua boca.
— Ele a deixava presa na ponta da lança — comentou Auria, colocando a mão em seu ombro. — Eu sinto muito...
Foi quando algo puxou a mulher para dentro da água mais uma vez. A primeira reação de Ralph foi resgatá-la, mas tudo que viu foi uma porção de bolhas saírem seguidas de Lesten que mais parecia um jacaré rindo sem parar. Auria recuperou o fôlego toda ensopada e ofegante, mas fez questão de acertar um soco na ponta do nariz do lagarto para que ele aprendesse uma lição.
— Heh, heh. Assustei vocês, né? — brincou o gecko. — Mas porra, que tapão doído você tem, hein?
— Pensamos que você estivesse morto, e que péssima hora para brincadeiras! — Auria falou alto.
— Qual é, sou um exímio Caçador de Monstros, não posso tombar diante da primeira criatura grande que eu encontrar. Na verdade eu aproveitei para guardar um pedacinho, se liga! — Lesten levantou um tentáculo que ainda se movia. — Vai ficar lindo na minha estante junto com a pata da capivara mutante.
— Pensei que geckos terrestres não pudessem nadar — retrucou Lee.
— Correção: geckos não gostam de nadar, deixamos essa tarefa para nossos primos crocodilianos. E a propósito, por que só o ruivo ficou triste diante da ideia de que eu tava morto? Que preconceito é esse?
Ralph abraçou Lesten com força e os dois caíram na água rasa.
— Já não consigo imaginar minha vida sem vocês!
Os guardiões da Ordem do Selamento se aproximaram, aquela batalha fora uma excelente demonstração de trabalho em equipe e todos estavam muito orgulhosos. Elice parecia minúscula de cima do ombro do Capitão Bernard em cima, ela gritava alto enquanto os aplaudia contente:
— Vocês conseguiram! Realmente são heróis de verdade!

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Ilustrações de Divulgação do Livro por Yonaka Mile

A ilustradora dos livros de Matéria, Yonaka Mile, é uma amiga de infância do autor. Durante o lançamento de Espada de Madeira em Maio de 2019, Yonaka compartilhou em sua conta pessoal no instagram uma série de desenhos para comemorar o lançamento do livro 1. Também conhecida como Nyx, participou da saga final do Aventuras em Sinnoh ilustrando toda a Liga Pokémon com mais de 350 desenhos! Sua conta oficial é @rotten_dreamer.

Abaixo vocês conferem algumas das imagens compartilhadas:

Ilustração 1 - Ralph e Facade anunciam que a publicação do livro está muito próxima! Feita algumas semanas antes do dia oficial que aconteceu em 28 de Maio de 2019.

Ilustração 2 - Data oficial do lançamento do livro que aconteceu em 27 de Julho de 2019. Apesar de Yonaka Mile não estar presente, a primeira remessa do livro se esgotou e houveram muitos encontros marcantes!

Ilustração 3 - Agradecimento de Yonaka aos leitores que adquiriram o livro no lançamento e colaboraram para que o dia do evento fosse um sucesso!




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Busca pelo Lendário Cavazevamuonga [Support]


Support Conversation [Lesten e Auria]
Gênero: Aventura, Comédia;
Tema: Lesten recebe a difícil de missão de encontrar uma
criatura lendária conhecida como Cavazevamuonga;
Inspirado em ideias antigas da infância do autor.

Lesten visitava o quadro de avisos no café do vilarejo sempre que tinha a oportunidade. Os dias monótonos na Pequena Colina eram tranquilos e agradáveis, mas ele não conseguia esconder o quanto ansiava por alguma missão mais arriscada, seu sangue reptiliano necessitava de ação e aventura tanto quanto oxigênio.
Doppel trouxe-lhe seu pedido dois pães na chapa, um cafezinho sem açúcar e um delicioso sanduíche de presunto e queijo que já lhe eram típicos quando se deu conta do desânimo de seu colega. O lagarto se sentava sozinho por tardes seguidas no Soleil sempre que Ralph saía em alguma aventura com seu irmão no continente, geckos não costumavam ficar entediados por muito tempo, mas era nítido o quanto ele sentia falta do amigo.
— O cheirinho tá uma delícia — disse Lesten agradecido. — Vou devorar tudo agora mesmo!
— É ótimo ouvir isso. Tudo aqui no Soleil é preparado com muito carinho — falou Doppel, sentando-se na cadeira oposta à do lagarto para descansar um pouco. — Ufa, aqui está uma loucura sem o Ralph. Pode não parecer, mas um ajudante faz muita falta nos fins de semana.
— O ruivo é esforçado. Diferente de mim, que quebraria qualquer coisa que encostasse — disse o lagarto entre risadas.
— Deixe-me perguntar, reparei que você está procurando por missões no quadro de avisos. Por um acaso está procurando por emprego?
— Ah, eu não sirvo pra esse tipo de coisa, não. Gente como eu não serve para receber ordens e trabalhar num lugar só, por isso é comum nos cadastrarmos para realizar pequenas tarefas para a população, eu faço isso desde que mudei para a Ilha dos Geckos para receber uns trocados — explicou Lesten, distraído com sua comida. — Os habitantes de Pequena Colina só pedem coisas do tipo: ajude um casal de velhinhos a colocar o filtro de água, faça o meu jardim, troque as telhas. Eu sou um guerreiro, não um marceneiro!
— Eu entendo. Nunca acontece nada muito interessante por aqui mesmo — respondeu Doppel entre risadas —, mas eu tenho uma oferta para você. Volto para casa as cinco hoje, pode ser?
— Opa, estarei lá! Afinal, eu tô dormindo no seu sofá de qualquer maneira...
No horário combinado, Lesten voltou para a casinha no topo da colina e esperou Doppel balançando na rede. Mesmo que parecesse distraído enquanto descascava laranjas, seu olfato e audição eram sempre aguçados, dificilmente alguém conseguia surpreendê-lo.
— Veio roubar minhas laranjas, né, fêmea?
— Droga. Tentei te dar um susto, mas pelo visto você estava bem atento — retrucou Auria que se aproximava devagar. A mulher trouxera quatro garrafas de refrigerante para compartilhar com o amigo, depois deu um salto para sentar-se sobre as espessas tábuas que contornavam a varanda e propôs-lhe um brinde.
— E aí, como tem sido a vida na academia desde que voltou a treinar na Vila das Pérolas? — perguntou o gecko. — Os humanos pegaram no seu pé por ter desaparecido um mês?
— Que nada. Justifiquei com uma licença médica e uma visita inesperada a um familiar doente em Constantia — explicou Auria. — Eu voltei transformada. Todos estão notando em mim, até mesmo os professores. Minhas notas e desempenho subiram de forma considerável, garanto que no próximo semestre já serei escalada para ingressar no exército. Nossa viagem pelo reino me fez muito bem.
— Tu é o bicho, fêmea. Não há nada que você não consiga.
O lagarto compartilhou suas laranjas e os dois conversaram sobre os acontecimentos dos últimos dias. Auria os visitava ocasionalmente aos fins de semana, pois precisava pegar apenas duas conduções. Ela sentia muita falta de viver na Pequena Colina e estar entre seus amigos.
Não demorou muito para que Doppel também chegasse do Soleil. Lesten estava ansioso para ouvir mais sobre a tão aguardada missão que seria enviado.
— Veja. Minhas flores estão desaparecendo — falou Doppel enquanto mostrava o canteiro no jardim. Lesten estava preparando seu discurso de “não sou jardineiro” quando foi interrompido. — Pode até parecer um caso isolado, mas a questão é que apenas uma espécie foi arrancada, trata-se de uma flor rara que cultivo chamada Mother’s Flower, e elas são vendidas a altos preços em datas comemorativas para representar gratidão.
— Talvez alguém as esteja roubando — ponderou Auria.
— Não, não. — Lesten debruçou-se para examinar o chão, mesmo que já estivesse escuro. — Veja. Há pegadas aqui por toda a parte.
— Sim, foi por isso que decidi chamá-lo. Você conhece bem de terrenos e monstros, e aqui está um rastro que eu não soube identificar. Imagino que se trate de um estranho bando de criaturas diversas, pois veja, há marcas que se assemelham ao casco de cavalos, mas também de algum tipo de felino, grandes e pequenos. Que tipo de animal iria misturar-se assim com outros de diferentes espécies?
— Olha, eu tenho um palpite do que se trata, mas... tu tem que prometer que não vai rir de mim — disse o gecko com o semblante sério. — Esse rastro está com cara de ser de um Cavazevamuonga.
Auria precisou conter a risada pelo nariz.
— Que merda de nome é esse? — brincou a defensora.
— É uma criatura lendária que hoje só existe em histórias perdidas e livros infantis. Dizem que eles habitaram Sellure desde os tempos imemoriais, mas foram desaparecendo conforme as pessoas se corromperam, pois eles são muito sensíveis à energia das coisas.
— E por que você chegou à conclusão de que essa pegada pertence a um... — Auria fez um sinal breve com a mão — chupa-cabra, sei lá como você o chama.
Ca-va-ze-va-mu-on-ga. É uma quimera de diversas espécies, a mais conhecida surgiu entre a junção de um cavalo, uma zebra, uma vaca, uma mula sem cabeça, uma onça e um gato.
— E o que seria uma mula-sem-cabeça? — Doppel perguntou intrigado.
— Sei lá, é que dizem que eles trocam de cabeça de tempos em tempos. Aí enquanto ele fica “descabeçado”, do seu pescoço saem labaredas de fogo. É uma parada sinistra, tá ligado?
Dessa vez nem Doppel aguentou ouvir tamanho absurdo. Lesten revirou os olhos e foi deitar-se na rede, pois para ele discutir a origem de monstros mitológicos era algo muito sério. Antes de se retirar, Doppel tocou seu ombro e falou de maneira gentil:
— Sinta-se livre para aceitar a missão, se quiser. Experimente investigar o que for necessário, não me importa se você conseguir comprovar a existência dessa criatura ou não, contanto que ela pare de roubar minhas flores.
— Beleza, eu aceito sim! — disse o lagarto com prontidão.
— Perfeito. Aguardo os resultados. Agora, se me derem licença, vou tomar um banho rápido e assistir minha novela antes de dormir — despediu-se Doppel, deixando as duas visitas cheias de expectativa na varanda.
— Isso vai ser mais interessante do que imaginei! Caçar um monstro raro desses certamente aumentaria meu reconhecimento na Sociedade dos Caçadores de Monstros.
— Eu nem sabia que você fazia parte de uma sociedade, lagartixa — respondeu Auria.
— Pra onde tu achou que eu mandei todos os espólios da nossa jornada? A base fica em Trajan, tem carteirinha de sócio e tudo. Eles fazem um registro e às vezes até pedem para que o artefato em si seja doado para o museu da capital, mas me disseram que meus itens não tinham nenhum valor e devolveram todos...
— Eles são importantes para você, e isso é o que importa.
— É, tu tem razão. Estou tão ansioso para começar a caçada que poderia sair agora mesmo, mas no escuro não vai adiantar nada — ponderou o lagarto. — Ei, fêmea, o que acha de ser minha parceira nessa aventura?
— Eu? — Auria perguntou surpresa, nunca antes Lesten a convidara para fazer parte de nenhuma de suas missões malucas. — Estou exausta, tive uma semana puxada na academia...
— Qual é, tu é perfeita para o papel!
— Jura?
— Não. O Ralph era minha primeira opção na verdade.
— Só me diga uma coisa: você vai me tratar como sua parceira ou ajudante? Porque não quero sair por aí carregando equipamentos pesados enquanto você se diverte caçando. O fato dessa ser minha primeira tarefa reconhecida me agrada, mas qual seria a recompensa?
— Podemos pedir um mês de sanduíche grátis pro Doppel!
— Eu super topo.
— E acrescento que você será minha fiel companheira, óbvio. Nenhum livro consta o nível de ameaça dos Cavazevamuonga, não se sabe se são agressivos e qual nível de perigo representa, então, se alguma coisa acontecer comigo, eu preciso que tu leve o meu corpo de volta e espalhe para o mundo meus feitos gloriosos para que eu seja reconhecido.
— Isso vai ser mais interessante do que imaginei.

i

Auria despertou com um susto quando Lesten entrou em seu quarto já trajado de armadura e com sua lança em mãos. A moça procurou pelo despertador que ainda nem havia tocado cinco e meia da manhã, o sol mal tinha nascido — na verdade, ninguém na Pequena Colina inteira devia ter acordado.
— O que tu tá esperando, fêmea? Os monstros acordam cedo, essa é a melhor hora para caçá-los!
— Ah... eu acho que não vou mais — murmurou a mulher com a cara no travesseiro. — Minha cama está tão confortável...
— Tá doida? Tu me prometeu, agora deve cumprir sua palavra! Vamos lá, levantar cedo é somente uma das partes emocionantes da viagem, já imaginou que tu vai poder ver o nascer do sol na colina, sentir cheiros que nunca sentiu antes, vislumbrar os animais em seu habitat natural enquanto o mundo nem saiu de casa? Ei, tu tá me ouvindo?
Auria roncava baixinho ao seu lado. Ao dar-se conta de que não havia nada que pudesse fazer para tirá-la dali, o lagarto decidiu usar suas artimanhas mais criativas.
Algo molhado tocou seu rosto, o que fez a mulher levantar-se aturdida.
— O que você fez comigo?
— Eu lambi a sua cara. Agora que você despertou, apronte-se logo e vamos caçar.
— Eu te odeio, lagartixa.
O dia mal tinha começado quando a dupla deixou a casa no topo da colina. Auria caminhava devagar com as pernas tortas feito uma Capivara Zumbi sem rumo algum, estava tão sonolenta que não conseguia acompanhar a agitação de seu amigo gecko que ficava mais ativo nas primeiras horas da manhã.
Como a Pequena Colina se localizava em uma ilha isolada do Mar Plano, não havia nenhum outro lugar para onde o raro monstro pudesse ter fugido, logo, a perseguição não se estenderia por vários dias. O principal problema era que Lesten não tinha nenhuma pista do que eles comiam, onde viviam e quais formas assustadoras poderiam assumir — e se dentre suas mirabolantes transformações estivesse também a de pássaro? O Cavazevamuonga não teria problemas para voar longe dali, ou quem sabe até esconder-se nas profundezas do oceano caso a forma de animal marinho fosse uma opção.
— Então estamos nos baseando em um livro infantil para caçar essa criatura? — Auria perguntou, seguida de um bocejo. — Eu não sei nem com o que esse bicho se parece.
— Eu já falei, é uma mistura louca de um cavalo, uma zebra, uma vaca, uma... ah, deixa eu desenhar logo para tu ver se entende!
O gecko tirou seu caderno de anotações do alforje e começou a rabiscar a criatura de acordo com as lembranças que tinha dos tempos em que frequentara a pré-escola de lagartinhos. Auria já estava rindo só de vê-lo tentar manusear um lápis; terminada sua obra de arte, ela riu ainda mais.


— Ah, ele é mais fofo do que imaginei — Auria disse com educação, escondendo o fato de que o desenho parecia ter sido feito por uma criança de cinco anos.
— Tá vendo os detalhes que coloquei? Ele tem a cabeça de um gato, mas presas e garras afiadas como as de uma onça. As marcas em seu corpo lembram pintinhas ou listras, há quem diga que são bolinhas coloridas. Já as pastas podem se transformar em grossas pernas de um cavalo, por isso eles correm com uma velocidade absurda e nunca conseguem ser capturados. O rabo deles também é todo listrado, que nem das zebras. E eu coloquei esse sininho no pescoço porque... pra ser sincero, não sei onde entra a vaca nessa descrição.
— Fala a verdade, você inventou tudo isso.
Heresia! — contestou o lagarto. — Eu nem teria criatividade para isso. Se fosse o Ralph, aí é outra história.
— Bem, o que importa é que se esse bicho surgir na nossa frente, não vai ser muito difícil de perceber que algo está errado — comentou Auria, ainda distraída com o desenho. — Olhe só para a carinha dele, seus olhinhos lembram um par de jabuticabas.
— Tu esqueceu que sai fogo da cabeça dele.
— Eu jurava que isso era o cabelinho dele.
A dupla tomou o percurso que começaria contornado as zonas mais remotas da ilha. Há muito tempo Ralph e seus amigos visitaram as montanhas de Pequena Colina para acampar, aquela fora uma de suas primeiras aventuras na região e todos se divertiram muito. Colina não era famosa por monstros perigosos, nada de especial acontecia em seus arredores e a experiência requerida para que iniciantes começassem sua jornada ali beirava o Nível 1.
Por volta das dez horas, Auria espreguiçou-se revigorada. Finalmente se dera ao direito de curtir a aventura, a paisagem era belíssima e o contato com a natureza diversificava da paisagem de sempre que tinha na academia. Talvez aquela missão até ajudasse em seu treinamento de sobrevivência.
A caçada se estendeu até o meio dia, quando os dois fizeram uma pausa para o almoço. Após atingir a praia no outro extremo da ilha, Lesten ainda não tinha nenhuma pista que o levasse até o Lendário Cavazevamuonga.
— E se estivermos perseguindo a presa errada? — cogitou a mulher. — Digo, pode ter sido qualquer coisa que roubou aquelas flores, até mesmo uma pessoa.
— Meu instinto aponta o contrário. Vamos lá, fêmea, isso não te deixa excitada?
— Err... não.
— Nada nesse mundo te impressiona, não é mesmo?
— Não diga bobagens, é bem fácil de me impressionar — disse Auria entre sorrisos. — Por exemplo, o Ralph. Ele é sempre tão cheio de improvisos que sempre sou pega desprevenida, gosto dos abraços dele e da maneira como ele fica me olhando um tempão, o que me deixa super sem graça, visto que não consigo encarar ninguém nos olhos.
Lesten aproximou-se dela e ajoelhou em sua frente, mantendo o semblante circunspecto. Auria recuou acuada, esticando o braço em sua direção para que ele parasse.
— O que você tá fazendo? Isso é embaraçoso.
— Eu estava testando uma coisa — respondeu Lesten. — Acho que tu nunca esteve com ninguém.
— Estar com alguém no sentido de... namorar?
— Não. Sexualmente.
Auria corou ainda mais envergonhada.
— E por que você chegou a essa conclusão, senhor sedução?
— Instinto. E também o seu cheiro, é muito fácil para os geckos sentirem quando a fêmea está naquela fase, sabe? E acho que o fato de você não conseguir nem encarar alguém na cara mostra um lado bem tímido seu, apesar de tu sempre tentar bancar a durona.
— Tá, e qual o problema? Eu nunca fiquei com ninguém mesmo — Auria afirmou irritada. — Parece que os caras são intimidados por minha aparência, eles devem achar que sou assustadora por ser mais alta do que eles, ou que não sou meiga e feminina o bastante.
— Vacilo deles, não sabem o que estão perdendo. Machos assim tem o ego frágil demais para tentar algo contigo. Pode parecer que não, mas nós, geckos, também não saímos por aí feito animais descontrolados. Geckos são as criaturas mais fiéis do mundo, sabia? E, pode não parecer, mas também somos superprotetores com nossos filhotes. Dizem que as fêmeas que perdem sua ninhada sofrem de uma doença que as faz desejar nunca mais ter outro filho. Muitas vezes elas são levadas a adotarem outras raças para compensar a perda.
— Sério? Será que foi isso que aconteceu com o Ralph? — perguntou Auria.
— É muito provável — presumiu Lesten. — Geckos podem ter seus inúmeros defeitos, mas garanto que você nunca vai se decepcionar caso namore um.
— Heh, heh. É, seria interessante.
— A seu dispor — brincou Lesten, galanteador.
Os dois se afastaram e um breve silêncio se estabeleceu. Lesten coçava a cabeça enquanto Auria brincava com suas madeixas e refletia sobre o assunto.
— Eu queria saber como é beijar alguém. Queria que fosse... especial — murmurou Auria, como se estivesse com aquilo preso na garganta desde que era uma adolescente. Lesten voltou-se para ela impressionado, era a primeira vez que sua amiga compartilhava um segredo tão íntimo com ele.
— E o Ralph? Chega nele, ué. Essa coisa de que é sempre o cara que tem que tomar iniciativa é baboseira.
— Ah, o Ralph é tipo o meu irmãozinho caçula, eu quero protegê-lo de todas as formas. Eu ainda não sei o que sinto por ele, mas é um amor terno, e vivo com medo de estragar tudo caso ele não compreenda. Será que conseguiríamos continuar sendo amigos caso ele me rejeitasse?
— Ele é o Ralph, fêmea, e vai te amar pelo resto da vida. Juro que não entendo por que os humanos têm tanta dificuldade em usar essa palavra — amor. Se tu gosta de alguém, vai lá e fala, ué! Se quiser elogiar, tem que ser sincero também. Olhe só para você, tu é gostosa demais! E vou te contar, eu não curtia muito as fêmeas humanas antes de te conhecer, mas tu tem um rabão que tira a concentração de qualquer um.
Auria soltou uma gargalhada alta da brincadeira descarada. Algumas garotas poderiam ter ficado irritadas, mas ela apreciava a maneira como Lesten era sempre sincero e espontâneo. Geckos não precisavam de mais de um minuto para resolver uma situação que os incomodasse; assim como fariam questão de usar todas as palavras que seu vocabulário limitado permitisse para elogiar.
— Eu preciso aprender a dizer em voz alta o que sinto — admitiu Auria. — Não quero mais perder oportunidades.
— Tá tudo bem, faça isso no seu tempo — disse o lagarto, sentando-se ao lado dela. — Você não precisa seguir o modelo de ninguém. Entre geckos não existe essa de “antes dos trinta tu precisa se casar, ter filhos e construir um lar”. Sabia que há relatos de figuras históricas de minha raça que se casaram aos sessenta anos e tiveram inúmeros filhotes?
— Acho que nunca vou ser mãe.
— Se você vai ser mãe ou não, aí eu não sei, mas que tu leva jeito, isso é!
— Acha mesmo? — Auria sorriu para ele. — Tenho medo de arremessar meu filho da janela se ele me irritar.
— Nem me fale, cuidar de crianças é para poucos. Se bem que eu acho essa uma tarefa louvável, tá ligado? Tem que ter dom para ser pai ou mãe. Quando ouço falar que na sua raça é muito comum o divórcio, sério, eu fico possesso! Abandonar um filhote é uma desonra tremenda, é como ser considerado um traidor. Mesmo que dois geckos se odeiem, eles cuidarão de sua ninhada pelo resto da vida.
— Isso é mesmo interessante. Adoro saber mais sobre os geckos — admitiu Auria, abraçando os próprios joelhos. — Antes de dormir, vivo imaginando durante as madrugadas o que o futuro me aguarda. Será que vou encontrar minha cara metade? Será que minha primeira vez será especial, ou esta sou eu apenas criando expectativas demais e sonhando minha vida de princesa?
— Olha, fêmea, o único conselho que posso te dar é se deixar levar. Tu tem todo o direito do mundo de escolher quando e com quem, mas também não imagine demais, porque na hora pra valer a coisa toda é sempre uma bagunça e nada sai como planejado, heh, heh — falou o lagarto. — Sempre siga o seu coração, tá bem? Eu chamo isso de instinto, mas deve ser a mesma coisa.
— Obrigada pela conversa, Lesten. Eu só costumava falar assim com minhas irmãs, e sinto muito a falta delas.
— Estou aí para tudo! Tu é a minha garota afinal, parece até com um... MONSTRO!
— ...sério? Você é meio instável, lagartixa.
Lesten apontou com sua lança para trás da moça onde uma criatura bizarra caminhava devagar na encosta. Ela era exatamente como no desenho de Lesten — uma combinação desvairada de animais num só lugar; com olhinhos de jabuticaba e pintas confusas que se misturavam como uma obra artística. A maior diferença estava no tamanho, pois ele não media mais do que sessenta centímetros de comprimento, e não mais de dois metros como diziam por aí.
Auria ativou a armadura de sua jaqueta em caso fossem atacados de surpresa, embora a criaturinha pastasse com tanta calma comendo um pouco de grama que era impossível considerá-la uma ameaça.
A mulher aguardou qualquer sinal de seu parceiro. Se Lesten quisesse mesmo matá-la, teria arremessado sua lança com uma velocidade que a teria perfurado ao meio. Ele fez sinal de silêncio e apontou para que a acompanhassem.
Auria o seguiu da forma mais minuciosa que pôde, ficava nítida a destoante diferença entre suas habilidades, Lesten era um exímio caçador que subia em árvores e se arrastava pelo terreno como se fosse parte dele. O Cavazevamuonga devia morar ali perto, logo, os dois o seguiram até um tronco de árvore tombado após um vendaval que servia de abrigo. Auria observou a criatura se aproximar devagar e deitar-se em um berço feito de folhas e flores coloridas onde três pequenos filhotes ainda tinham os olhos fechados — e eles eram de uma mistura ainda mais bizarra do que sua mãe; o primeiro nascera com um par de asas, o segundo, com uma cauda de peixe; e o terceiro, bem... era o mais normalzinho deles por ter cinco patas. Ela começou a amamentá-los, completamente alheia ao fato de que estava sendo vigiada, pois naquele momento tudo que importava eram seus filhotes.
— É uma mamãe — sussurrou Auria com a voz encantada.
— Ela recolheu flores para construir um berço! Como não pensei nisso? Agora me lembro de que as ilustrações do livro eram todas coloridas e cheias de flores diferentes.
Os dois se entreolharam e não precisaram dizer em voz alta que preferiam ver aquela criatura livre para cuidar de sua ninhada, talvez os últimos Cavazevamuonga que viveriam em segredo no santuário que era a Pequena Colina.

ii

Ao retornarem para casa, Auria e Lesten contaram todos os detalhes de seu encontro para Doppel que os ouviu admirado. Ele não se importava de cultivar mais flores, se aquilo significasse que os futuros filhotes as buscariam para enfeitar sua morada.
No fim da tarde, a dupla estava exausta de tanto andar a ponto de desabarem no sofá da sala. Quando Ralph e Raegar voltaram de viagem eles compartilharam outra vez os acontecimentos recentes e todos riram muito. Lesten preferiu não revelar a existência do lendário Cavazevamuonga para a Sociedade dos Caçadores de Monstros, pois temia que a exposição os deixasse em um estado de frenesi. Enquanto ele vivesse na ilha, nenhuma outra raça colocaria em risco a segurança daqueles filhotes. No fim das contas, a experiência valera mais do que qualquer sanduíche feito por Doppel, que de qualquer maneira os recebeu com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate quente que fez toda a jornada valer a pena.
Auria pegou Lesten rabiscando em seu caderninho de anotações, e quando esgueirou-se por trás dele para ver do que se tratava, levou um tremendo susto com o susto que lagarto levou.
Cruzes! Nem te vi aí, fêmea!
— O que você estava fazendo?
— Ah, nada não, só atualizando o meu desenho... de fato, acho que eles não soltam fogo pela cabeça, isso devia ser coisa da minha imaginação, mas descobri qual parte no Cavazevamuonga representa a vaca.
— E qual seria?
— Tetas.
Os dois riram e foram dormir.


Notas do Autor

O Cavazevamuonga é um desenho que sobreviveu ao tempo, tendo sido ilustrado em meados de 2006/2007 uma única vez no canto de uma folha de caderno, e sabe-se lá qual foi a sua origem. A imagem de capa do capítulo é a mesma daquela época, então ela de fato foi feita por uma criança.

Eu adoro escrever Supports baseados em anotações antigas minhas porque elas são sempre cheias de ideias malucas. Nem sempre elas servem para o livro, mas dá para criar muita coisa engraçada disso. Vejam só, foram 3900 palavras sobre uma quimera bizarra que come flores!

Outro motivo que me levou a escrever esse support foi uma categoria do The Omascar. Lá em Melhor Casal muita gente se assustou com Lesten x Auria como um dos indicados (eles não receberam nenhum voto, só para constar). Cheguei até a ouvir algumas frases como: QUEM SERIA LOUCO DE SHIPAR ESSES DOIS? Mas eis aqui a verdade: eu até que gosto deles juntos. Não é do tipo de shipp fofo como Ralph x Auria, mas eles aprenderam a respeitar um ao outro e tiveram uma tremenda evolução desde o dia em que se conheceram na Ilha dos Geckos. Os dois podem conversar sobre assuntos que não aconteceriam com o Ralph junto, por exemplo, então foi me diverti muito vendo que mesmo sem o protagonista da história eles conseguiram segurar um capítulo inteiro. Espero que tenham se divertido com essa curiosa junção!

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