quinta-feira, 18 de julho de 2019

Área do Leitor - Unboxing por Erick Lins


Para inaugurar a Área do Leitor, trago até vocês esse unboxing do escritor Erick Lins com quem fiz minha primeira parceria! Como podem ver no vídeo acima, Matéria está na companhia de Os Livros de Areia e Sangue, também de uma escritora nacional. É sempre prazeroso encontrar leitores que se dedicam a divulgar e ler trabalhos brasileiros, mais tarde o Erick trará também uma resenha sobre o livro, mas por ora fiquem com as primeiras impressões de alguém que acabou de receber dois baita presentões pelo correio (nessas horas todo mundo ama os correios, né? kkkkk) Mal posso esperar para ver mais vídeos assim sobre meu livro.

Eu brinco ao dizer que essa é minha parte favorita, quando o leitor se depara com o livro a primeira vez e começa a folheá-lo à procura de ilustrações, mas sempre tomando o devido cuidado para não levar nenhum spoiler; a pessoa segue analisando a capa e a gramatura, alguns até cheiram! Tenho familiares que partiram direto para as páginas finais, mas se surpreenderam com a galeria que separa o leitor do desfecho, uma agradável surpresa. E claro, tem sempre os brindes que enchem os olhos! Sério, nunca achei que ia adorar tanto isso, quando eu escrevia fics era só postar os capítulos e imaginar quais reações eles causavam... Só é uma pena quando penso que nem sempre terei acesso a esses momentos, de fato, quase todos os livros que mandei pelos correios não pude saber o que a pessoa achou, mas sou muito agradecido pelo feedback e as mensagens de carinho que sempre me mandaram com a mesma frase: CHEGOU!

Se você tiver algo para me enviar sobre Matéria, sinta-se livre para entrar em contato comigo através de qualquer uma de minhas redes sociais! Será um prazer tê-lo aqui no Reino de Sellure.

FanArt #18 - Grovy

SOBRE A FANART
— por Dark Grovyle

Bom, a algum tempo eu estava pensando em fazer algo de Matéria, como ainda não li eu só conheço alguns personagens pelas fichas ou que descobri algo nas conversas das madrugadas. Então pensei em fazer da Hayley, ela foi uma das personagem que mais chamou minha atenção, talvez ser uma raposinha contribuiu nesse fator kkk Eu particularmente gostei do resultado mesmo que ela tenha ficado bem simples.

COMENTÁRIOS DO AUTOR
— por Canas Ominous

Eu acho intrigante como a Hayley tem esse poder de cativar quem ainda nem leu o livro, outro dia pedi para um primo escolher qualquer um dos marca páginas personalizados dos personagens e ele foi direto na Hayley! Deve ser o charme, as orelhas enormes e... bem, furries. Hah, hah. Isso me faz lembrar de um fato curioso: no planejamento inicial, Hayley seria um gecko cheio de tatuagens membro de uma gangue criminosa que vive nos subúrbios. Praticamente nada dessa versão foi utilizada desde que comecei a planejar uma personagem diferente que desse um toque mais feminino ao grupo (para ser sincero, gosto bem mais da Hayley atual kkk).

Cara, eu não preciso nem dizer como amo pixelarts! Isso me faz voltar para os tempos de AeS, e não preciso ir nem muito longe, até hoje trabalho com isso na minha lojinha! O fato dela ser 32x32 torna ainda mais fácil e acessível de se vender, imagina se no futuro eu consigo produzir alguns desses para levar aos eventos? Vou me lembrar de te passar os direitos autorais kkkk Muito obrigado pela surpresa Grovy, espero que algum dia possamos ver o time completo também!

terça-feira, 16 de julho de 2019

Matéria disponível no Skoob!


Opa, essa semana tem mais atualizações sobre A Jornada do Autor! Para quem leu o título e não sabe do que se trata, o Skoob é uma rede social colaborativa brasileira para escritores onde você pode cadastrar livros, marcar os que leu e compartilhar com os amigos seu progresso. Ele foi lançado em 2009 e de lá para cá vem ganhando muito espaço entre leitores. Pois bem, agora que Matéria  está disponível no Skoob, sintam-se livres para escrever suas impressões, avaliar o livro e adicioná-lo na lista de interesse para que mais pessoas possam conhecer o livro aos poucos! 

Só que o mais engraçado disso tudo foi a história que o antecede... Bem, vamos voltar dois meses no tempo quando fui todo feliz registrar meu primeiro livro independente no Skoob, eu queria inaugurar meu novíssimo código do ISBN conquistado com muito esforço (lê-se "dinheiro" adquirido através da lojinha de artesanatos), mas eis que me deparei com uma surpresinha... o código já estava sendo utilizado. Fiquei assustado, afinal, eu havia acabado de comprar o meu ISBN através do site da Biblioteca Nacional além de pagar o primeiro cadastro como membro que custa em torno de 300 reais... E qual a chance de alguém ter o mesmo código que eu? Fui ver do que se tratava, e lá estava um livro de 1967 com meu número. Mandei mensagem para o leitor que fez o cadastro falando sobre o equívoco, mas não obtive resposta. Entrei em contato com o Skoob, e nada.

Até o presente momento, ninguém resolveu o meu problema e o ISBN segue copiado. Mas ontem uma antiga amiga dos tempos de blogs registrou o livro utilizando o ASIN, código gerado pela Amazon para livros digitais. O mais curioso é que descobri que o ISBN só foi implementado nos começo dos anos 70, então não fazia sentido mesmo um livro de 67 estar com o meu código. Apesar do registro errado, ao menos estou com a mente tranquila por saber que o ISBN realmente pertence a mim.

E por sinal, aí ao lado no menu vocês poderão notar o acréscimo de três novos selos: o primeiro deles leva para a Amazon, o segundo para a conta no Instagram e o terceiro no Skoob. Assim fica mais fácil de encontrar Matérias nas redes sociais por aí!


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Dinorros [Monstros e Criaturas]


"[...] uma criatura de pés grandes e grotescos, suas escamas eram duras feito ferro, ele mal cabia dentro do espaço limitado oferecido e por isso estava assustado. Era parecido com um gecko em sua forma, mas tinha três vezes a altura de um e seus braços curtos o deixavam desproporcional ao restante. Capítulo 9.

Sobre a Criatura
Os Dinorros são criaturas originárias da linhagem dos dragões e que se enquadra na raça dos Monstros, porém, não possuem inteligência tão avançada quanto seus primos distantes. Não se tem relatos da origem exata dos primeiros Dinorros, mas historiadores acreditam que eles nasceram fruto do relacionamento entre dragões e geckos.

Podendo medir até oito metros, os Dinorros logo dominaram Sellure durante os primeiros anos do mundo, mas com a chegada dos humanos eles se tornaram presas fáceis para viajantes e caçadores, pois seu ciclo de vida é longo e demorado, podendo ultrapassar os cinquenta anos até que se tornem adultos. Por muito tempo os Dinorros foram inofensivos na natureza, mas alguns da espécie desenvolveram gosto por carne e passaram a se tornar verdadeiras ameaças para os vilarejos que começavam a se formar, o que colaborou ainda mais para sua caça. Seu couro, dentes e escamas eram de grande valia no mercado, sendo usado para confecionar armaduras, lanças e equipamentos de altíssimo nível.

Dentre as variações de Dinorros conhecidas estão os Bonorros e os Metarros.

"Dizem que quando o Rei dos Dinorros foi abatido durante a Guerra dos Heróis, seu espírito voltou para o corpo desossado em busca daqueles que caçavam sua espécie [...] Eles o chamavam de Bonorros, a Maldição em Puro Osso." — Lesten, Capítulo 17.

Aparência e Características
Os Dinorros são bípedes em sua maioria, possuem braços minúsculos e patas traseiras tão grandes quanto uma casa, o que os torna desproporcionais em relação ao restante  do corpo e inferiores aos seus primos dragões que possuem uma gama de habilidades úteis, como voar, cuspir fogo e até inteligência avançada. Todavia, os Dinorros aprenderam a utilizar de seu tamanho e porte físico para caçar e destroçar seus inimigos. Sua pele é extremamente resistente, podendo até mesmo repelir ataques frontais, mas são muito suscetíveis a magia.

Eles carregam fortes semelhanças com os dinossauros, podendo variar em forma, cor e tamanho. Em algumas províncias,  ainda são conhecidos como Pé de Ferro por conta dos acidentes causados. Quando se está diante de um Dinorros enfurecido, a melhor alternativa é correr!

"[...] Eu capturei esse monstro na Caverna da Melancolia em Myriad e depois o aprisionei para que seguisse meus comandos! Quando os Dinorros crescem, eles se tornam criaturas colossais com até oito metros" Johnny Goldo, Capítulo 9.

Alimentação
Dizem que nos tempos antigos os Dinorros eram dóceis e se alimentavam de frutas, mas com o tempo passaram a despertar interesse por carne e pequenos animais, mas uma interessante pesquisa feita por Mike K., um renomado gecko geógrafo das Terras Castanhas, constatou que um grupo de Dinorros que viveram cinquenta anos habitando cavernas desenvolveu seu estômago para ingerir pedras e outros minerais como base de sua alimentação. Tal fato revela a capacidade surreal de adaptação da espécie que cada vez mais se distancia dos dragões como os conhecemos, uma prova de que os Dinorros podem se adequar até mesmo a locais escuros e estreitos, o que colaborou para o surgimento dos Metarros.

Origem e História
Durante a Guerra dos Heróis, grande parte da população de Dinorros foi utilizada como arma de guerra, o que colaborou para que a espécie ficasse a beira da extinção. Odylon, o Resistente, utilizou um Metarros como montaria durante a guerra, mas ambos pereceram durante a batalha.

Os Dinorros passavam por um treinamento tão intenso que sua pele se tornava mais dura que metal.  Por conta de seu tamanho, eles também se tornaram um alvo fácil para  caçadores e mercenários, sua pele e dentes eram utilizados para confeccionar armas e tinham grande valor no mercado.

Curiosidade: O Dinorros foi a primeira criatura a aparecer em um dos gibis do autor. Na época eles ainda não tinham nome, mas dentre suas características estava o tamanho descomunal e pés desproporcionais. Ao encontrar-se com Ralph, ele começa a brincar com ele usando uma bola de ferro forrada de espinhos como brinquedo

Onde podem ser encontrados?
Por estarem em ameaça de extinção, é muito difícil encontrar um Dinorros selvagem. Como perderam a habilidade de voar, a espécie precisou se adaptar e encontrou como refúgio as cavernas, utilizando sua cabeça para abrir fendas e as garras nos pés para cavar buracos.

Alguns espécimes são mantidos na Reserva das Criaturas Raras e Exóticas, uma ilha localizada ao sul de Perpetua e aberta para visitação.

A origem dos Bonorros, por outro lado, é controversa. Não se tem informações do por que alguns Dinorros retornaram dos mortos. Há pelo menos 100 anos não se tem notícias de um Bonorros real, mas diversos museus mantém ossadas com a esperança de compreender se havia algum feitiço por trás, ilusões, ou até alguma ligação direta com o Unferis.

Estratégias e Dicas em Combate
Para se enfrentar um Dinorros, a tática é sempre evitar contato direto. Eles se assustam fácil com grupos grandes e ficam totalmente expostos nas costas, tanto que durante as guerras de antigamente seus cavaleiros protegiam a área traseira com um forte revestimento de metal.

Status & Skills
  • Cabeçada de Ferro [Ofensivo] - Uma forte cabeçada, mas o monstro pode ficar atordoado se usado repetidas vezes;
  • Esmagamento [Ofensivo] - O Dinorros utiliza o próprio peso para esmagar o inimigo, mas recebe dano em retorno;
  • Presas Cortantes [Ofensivo] - O Dinorros utiliza suas garras nos pés para atacar e dilacerar presas;
  • Choro Alarmado [Defensivo] - Em uma tentativa desesperada, o Dinorros emite um forte grito capaz de atrair outros de sua espécie.
Aparições Marcantes
No Capítulo 9 - Filhote de DinorrosJohnny Goldo adquiriu um Dinorros no mercado negro e pretendia libertá-lo até que ele crescesse e destruísse seus inimigos, mas a natureza dócil da criatura a permitiu ser domada. O Dinorros foi o primeiro oponente real a enfrentar Ralph e seus amigos na Ilha dos Geckos. Ele é mais tarde levado para a Reserva, onde encontra um novo lar entre outros de sua espécie.

Um Bonorros também é o oponente no Capítulo 17 - Fóssil Vivo, quando os protagonistas enfrentam Tootie nas Ruínas Douradas.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Capítulo 11.5 - O Mapa Perdido [Cena Deletada]

Todo livro precisa sofrer inúmeros cortes antes de ser publicado. Faz parte do processo de revisão do próprio autor rever quais capítulos são realmente importantes para o andamento da história, detalhes que só encontramos depois que o livro já foi finalizado. Com isso, o blog traz as Cenas Deletadas como um extra aos leitores mais curiosos.

Onde a cena se encaixava?
Esse pequeno trecho foi retirado do Capítulo 11, assim que Ralph, Auria e Lesten chegam à cidade de Bausonne e começam as investigações sobre as Pérolas Sagradas antes de se encontrarem com Facade.

Sobre o que falava?
Trata-se de uma sequência de cenas onde o mapa de Ralph é roubado e eles precisam buscá-lo.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
O capítulo em questão tem pouco mais de 2500 palavras e foi excluído por não acrescentar muito à trama principal do livro, tornando-se um dos clássicos fillers.


O Mapa Perdido
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas


Ralph, Auria e Lesten foram levados até o corredor indicado pela atendente localizado no terceiro andar. Quando subiam uma longa escadaria em espiral, duas crianças passaram correndo os degraus e trombaram neles. Um deles era um menino loirinho de roupas desgastadas e boina, o outro se tratava de um gecko arteiro de olhos expressivos e pele esverdeada. Lesten pulou em um corrimão para esquivar-se, mas Ralph trombou com o garoto que foi direto ao chão.
— Foi mal! — disse Ralph para o menino. — Do que vocês estão correndo? É uma aventura?
— Estamos fugindo do segurança! — O menino apontou o monstro que repreendera Lesten, agora correndo de forma desengonçada com suas pernas curtas e emitindo um “shhhhhh!” bem baixo toda vez que alguém erguia a voz.
O menino acenou e voltou a correr no mesmo instante acompanhado de seu companheiro gecko. Os dois se dispersaram no meio da multidão e desapareceram.

[...]

 [Aqui acontece o intervalo da cena no Capítulo 11 em que Ralph, Lesten e Auria fazem pesquisas sobre as Pérolas Sagradas e decidem deixar a Biblioteca Central].

— Devemos nos concentrar em procurar informações sobre as pérolas antes — continuou Ralph. — Vamos lá, galera! Não é emocionante? É a nossa primeira aventura como uma equipe.
— Particularmente, duvido que acharemos algo se não soubermos como procurar. A biblioteca é imensa, podemos pesquisar o mês inteiro e ainda estaremos longe de qualquer resposta. Devíamos buscar um especialista em mapas ou algo do tipo, uma vez que esta é a única pista que temos no momento — frisou Auria. — Deixe-me dar uma olhada nele.
Ralph levou a mão até seu bolso e notou a falta de algo. Auria arqueou uma das sobrancelhas e Lesten fungou o ar.
— Ué, cadê? — Ralph indagou confuso, olhando para seus amigos. — O mapa. Eu tinha deixado no meu bolso. Não está mais aqui!
— Como pôde deixar cair, seu cabeção? — disse Auria. — Nós andamos hoje durante horas em Bausonne, nunca iremos localizar um mapa perdido, qualquer viajante interessado pode ter encontrado e provavelmente fará uso dele para benefício próprio!
— Foi um acidente, acho que deixei cair no trem...
Lesten continuava fungando o ar. Ele aproximou-se de Ralph, verificando suas vestes e suas calças.
— Isso não foi um acidente — disse o lagarto. — E é melhor nos apressarmos, porque de perseguições eu entendo.

Lesten começou a farejar o chão de tijolos como um cão de caça em busca de pistas. Podia não ser o melhor Caçador de Monstros das redondezas, mas levava jeito para o ramo. Tinha um cheiro impregnado ao seu olfato e só precisava segui-lo.
Assim que os jovens deixaram a biblioteca, a equipe continuou correndo pelas ruelas estreitas da cidade, esgueirando-se em cantos que não deviam, Lesten desviava e continuava seguindo o rastro sem perder o foco.
— O que estamos buscando? — Ralph perguntou com inocência e Auria teve de dar um peteleco em sua cabeça.
— A criança que te roubou, cabeção. Aquele que você trombou na biblioteca.
O quê? — O rapaz arregalou os olhos. — Eu fui roubado? Quando?
Seus companheiros ignoraram a ingenuidade de Ralph e continuaram a busca. Ainda no centro, passaram pela praça onde havia uma enorme fonte que esguichava água para toda a parte, trazendo quatro estátuas com as respectivas raças de Sellure, cada qual representada por uma figura famosa do passado: Capitão Canas, o Descobridor do Mundo; Tokay, Asa Negra; General Defesa e o Primeiro Dragão, cuja cabeça de pedra estava desfigurada e desgastada pelo tempo.
A caçada seguiu até o litoral, perto de onde o Trem das Águas passava. Lesten parou de farejar e ergueu a cabeça, observando os arredores com olhos atentos. Ele apontou para longe em direção do cais onde repousava um casarão abandonado, provavelmente tendo pertencido a uma família rica do passado.
— Vamos investigar, sinto que estamos pertos — disse o lagarto.
Eles adentraram sorrateiramente na construção destruída, ouvindo vozes que preenchiam o salão abandonado. Ali estava o mesmo garoto de boina que trombara com Ralph, mas reunido com seu grupo — um gecko, dois humanos e dois monstrinhos esquisitos —, um deles lembrava um rato bípede com orelhas enormes, o outro tinha antenas e uma cor bege que lembrava areia. Eram apenas crianças, não deviam ter mais de oito anos, sendo que o garoto, e provavelmente o líder, devia ter dez.
Eles estudavam o mapa roubado, todos juntos e amontoados com a ansiedade de uma mente ainda repleta de sonhos e expectativas.
— Será que conseguiremos encontrar todos esses lugares marcados? O que vocês imaginam que seja? — perguntou a criaturinha de antenas.
— Uma montanha de tesouros! — falou a menina, mergulhada em sua imaginação. — Espero que haja algodão doce, chocolate e caramelo, e muitas moedas de ouro, porque assim podemos comprar mais doces!
— E não há nenhum desafio grande demais para nós — disse o líder com determinação. — Vamos reunir nossos pertences e partir imediatamente! Peguem suas espadas de madeira e pertences, somos quase adultos agora e estamos prontos para encarar o mundo!
— Eu estou tão orgulhosa de você, Chris! — A garota abraçou o menino com carinho, mas quando seus colegas começaram a rir, os dois se afastaram com as bochechas coradas.
— Ih, olha só, a Eleny tá mudando de cor que nem eu quando fico no sol! — disse o lagartinho.
— É que estou muito feliz por finalmente deixar Bausonne — falou a menina —, estou cansada dessa vida onde nada acontece... vocês me ofereceram novas oportunidades!
— Obrigado por confiarem em mim até agora — continuou Chris. — Eu prometo que guiarei todos vocês em direção do sucesso, e ainda seremos ricos e muito famosos em toda a Sellure!
Em meio ao discurso, uma voz foi ouvida. As crianças se viraram no mesmo instante.
— Estou impressionado. Quem diria que existia um motivo nobre por trás disso!
Eles se viraram depressa em busca de suas armas manufaturadas — espadas e lanças feitas com bambu amarrado a cordas, selos mágicos comprados na feira, arcos feitos de cano resistente e galhos pontudos como flechas. Os cinco se colocaram em posição, dispostos a protegerem seu território de qualquer perigo iminente. Ralph por fim revelou-se, parando de frente às crianças.
— Quem é ele? — perguntou Eleny, escondendo-se atrás de Chris.
— É o cara que nós encontramos na biblioteca — respondeu, ajeitando a boina em sua cabeça. — Foi dele que nós pegamos o mapa.
Auria parecia destemida e Lesten carregava armas de verdade que podiam machucar, embora nenhum deles fizesse questão de ferir alguém, afinal, eram apenas crianças.
— Seguinte, molecada — começou Lesten. — Não somos valentões e só queremos o mapa de volta.
— Vocês entregam para gente e não revelamos seu esconderijo para ninguém — continuou Auria com um sorriso terno.
Todos ficaram em silêncio. Ninguém ousaria entregar o tesouro conquistado de mãos dadas.
— Ficamos observando vocês a tarde toda, jamais entregaremos uma conquista merecida! — rugiu o monstrinho que lembrava um rato. — Se quiserem de volta, vão ter que derrotar todos nós!
— Juntos — respondeu a menina colocando-se em frente, ainda que fosse visível que ela tremia. Devia ser filha de uma família rica, pois nem estava vestida para brincar na rua.
Lesten revirou os olhos e Auria coçou a cabeça. Os dois se entreolharam, compartilhando pensamentos. Não havia alternativa — a defensora apenas levou a mão até a bainha de Melodia, bastou um movimento para que as cinco crianças recuassem assustadas, escondendo-se atrás de uma mesa caída e caixotes. O monstrinho com antenas tropeçou e começou a chorar. Auria teve tanta dó deles que não soube como reagir.
— São apenas crianças... Vamos deixá-los em paz.
— Crianças ou não, um dia o mundo vai obrigar que elas cresçam —  retrucou Lesten. — Quando se rouba, independente da sua idade, é preciso estar preparado para as consequências de ser capturado.
Ralph tocou no ombro de seus amigos, e com um simples gesto, eles compreenderam que o garoto estava para fazer alguma coisa. Ele faltou então em voz alta:
— Onde está o líder de vocês? O meu mapa está sob sua posse. Acredito que terei de reconquistá-lo com minhas próprias habilidades, de uma maneira justa.
Foi a vez do menino de boina colocar-se a frente dos demais, desafiando o oponente.
— Qual o seu nome? — perguntou Ralph.
— Meu nome é Christopher. E essa é a minha equipe, somos guerreiros que lutam para ajudar as pessoas.
Ralph revelou um sorriso discreto. Por um instante, viu sua própria imagem refletida.
— Vamos fazer uma aposta, Chris? Eu o desafio para um duelo. Você e sua espada, eu e a minha. Só nós dois, o que acha?
O garoto virou-se para seus amigos e eles começaram a murmurar baixinho, dividindo opiniões. Depois de muito discutirem, Christopher cruzou os braços de maneira autoritária e falou:
— Mas você é adulto, não vale. Eu estou em desvantagem, só aceito se todos os meus amigos lutarem juntos.
— E você permitiria que eles fossem feridos por uma decisão sua? Você não deveria ser o responsável por protegê-los? — Ralph falou, balançando a cabeça.
Chris ficou indiscutivelmente alarmado com o que ouvira, jamais colocaria a vida de Eleny ou dos outros em perigo. Ralph ergueu-se e falou com ares de experiência e compreensão:
— Um líder, antes de tudo, deve ser o primeiro a tomar as atitudes; a inspirar os demais e sacrificar-se por completo por cada um deles. E eles serão capazes de sentir e reconhecer quando virem um. Não estou desafiando nenhum dos seus amigos, não tenho problemas com eles — Ralph apontou para o menino. — Estou desafiando você.
Chris recuou incrédulo. Sentiu vontade de chorar, mas não faria aquilo na frente de seus amigos. Ralph continuou falando, como se o provocasse — ou, talvez, fazê-lo compreender.
— Vai aceitar o meu convite para um duelo e permitir que o mapa seja disputado de maneira justa?
Chris apertou o punho com mais força.
— Aceito.

Os dois se encontraram na bancada de areia na encosta da praia, o vento soprava leve e as ondas pareciam agitadas. Com o entardecer, Bausonne tomava uma tonalidade laranja belíssima, Ralph e Christopher se encaravam, um de cada lado da arena improvisada carregando suas próprias espadas de madeira.
“Pelo menos a arma dele não é de verdade, eu ainda tenho uma chance”, pensou Chris.
Auria e Lesten aguardavam sem dizer nada, observando com atenção as atitudes e movimentos dos desafiantes. As outras crianças que acompanhavam Christopher gritavam e torciam por seu líder, tinham confiança de que ele poderia vencer e proclamar o mapa de volta. Acreditavam nele com todas as suas forças.
— Se você me desarmar, prometo que deixo o mapa com você e nunca mais o incomodo. Muito pelo contrário, passarei a respeitá-lo — contou Ralph.
— Você ainda não viu minhas habilidades! — o menino fungou e limpou o nariz.
— Pois estou muito ansioso para conhecê-las.
Christopher fez o primeiro movimento, atacando com sua espada de madeira que nada acertou além de areia. Ralph poderia ter o desarmado no mesmo instante, mas se conteve. Os dois eram ágeis, mas Ralph era de uma destreza que impressionava, tinha velocidade para desviar e atacar, mantinha os olhos tão fixos em seu oponente que parecia ler seus pensamentos, prevendo os golpes mais improváveis
Lesten estava sentado sobre uma enorme pedra observando a luta enquanto Auria jazia apoiada ao seu lado com as mãos no bolso da jaqueta.
— Acha que ele ganha? — o gecko perguntou.
— O nosso menino ou o deles? — Auria riu, dando de ombros.
Lesten coçou a cabeça.
— Quando lutei contra o Ralph e vi que ele só usava uma espada de madeira, eu o subestimei. Mas, em meio à luta, com a adrenalina no ápice e os pensamentos todos dispersos, era como se eu enfrentasse um herói de verdade — contou o lagarto. — Ele e a espada eram como um só.
Auria devolveu o olhar para o horizonte, reflexiva. Desde a primeira vez que colocara os olhos nele, sabia que Ralph era diferente.
Chris golpeava o ar, mas seu oponente dava saltos e só se defendia. Conseguiram trocar alguns golpes, mas obviamente tudo não passava de um teste. A brincadeira acabou quando Ralph deu um único e forte ataque frontal, acertando a mão da criança e o fazendo largar a espada na areia. A gritaria das crianças cessou, seus amigos foram tomados por um misto de decepção e surpresa.
— Chris! Chris! — Eleny ajoelhou-se ao seu lado já com lágrimas nos olhos. — Pare, por favor, devolve o mapa para eles! Não precisamos dele!
— P-precisamos, sim... eu preciso — o garoto falou, segurando o choro —, quero ser grande, Eleny. E-eu só queria que alguém enxergasse potencial em mim, mas parece que estou sempre decepcionando as pessoas que amo...
Chris calou-se no momento em que Eleny o abraçou, afagando sua cabeça entre braços finos e seu vestido fino, compartilhando lágrimas de tristeza e emoção.
— Você faz a diferença, sim, faz a diferença para mim. Posso viver aventuras todos os dias ao seu lado. Não faça nada além do que possa suportar.
As cinco crianças estavam agachadas na areia da praia em um círculo, lamentando a derrota de seu líder, componente e amigo. Ralph caminhou até eles e, sem dizer mais nada, estendeu a mão.
— Mapa — ordenou, dando a entender que o queria de volta.
Christopher retirou sua boina e entregou o mapa que estava todo amassado ali dentro.
— Sabe por que você perdeu? — perguntou Ralph. Christopher olhou em sua direção. — Nós dois tínhamos motivações, nós dois tínhamos amigos que torciam por nós e compartilhávamos da mesma força de vontade, então, por quê?
— E-eu não sei... sou só uma criança, como todas as outras...
Chris observava sua espada caída na areia. Ralph pegou-a e ajoelhou-se em sua frente, devolvendo-a na mão de seu dono.
— Eu também sou uma criança, como todo mundo — Ralph sorria de uma maneira que só ele conseguia, um sorriso capaz de distribuir bondade, inspirar pessoas e incentivá-las a continuarem seguindo em frente. — Você perdeu porque os heróis precisam aprender a perder. Não vivemos num mundo onde o bem sempre ganha, então não se permita iludir, ou a queda será muito maior. Continuem treinando para se tornar mais forte. Precisamos de mais heróis, gente capaz de realizar sonhos todos os dias e em todos os lugares, ou nada vai funcionar.
Ralph guardou Lignum e partiu para onde Auria e Lesten o aguardavam. Quando se preparavam para ir embora, Christopher o chamou com a voz alta:
— Eu vou treinar para ser um grande guerreiro um dia, que nem você! — bradou Christopher com os pés firmes no chão. — Vou ajudar as pessoas que precisam, levarei meus amigos no coração e os protegerei de qualquer perigo!
— Espero que você continue assim mesmo depois de crescer — disse Ralph com um sorriso. — Certa vez, ouvi que ser adulto não é largar o que você gostava na infância, e sim, aceitar o que se gosta sem se importar com o que os outros dizem. Nos vemos daqui um tempo, tudo bem? Quando ambos nos tornarmos grandes.
As cinco crianças gritaram “sim” em alto e bom tom, ecoando por toda a costa da Cidade Laranja. O sol finalmente escondeu-se no horizonte, encerrando aquele longo dia. Quando Christopher e seus amigos retornaram para seu esconderijo de mãos vazias, Eleny chegou bem perto dele e segurou sua mão, pois na manhã seguinte havia uma nova aventura à sua espera.
— Chris, quanto tempo leva “um tempo”? — perguntou Eleny.
— Não sei... acho que dura enquanto lembrarmos.




terça-feira, 25 de junho de 2019

Arte #29 - Os Tótines do Passado

Ah, aqui está. Uma das joias perdidas de Sellure, um desenho tão antigo que não se tem registro de seu tempo... Este, meus amigos, é a origem dos guardiões da Ordem do Selamento (quando ela ainda nem tinha esse nome).

Você deve estar se perguntando: o que são essas criaturinhas que mais lembram Porings no fundo do mar? Estes são os famosos tótines que vocês conhecerão nos livros, criaturas dotadas de poderes mágicos e que, bem, hoje em dia não se parecem nada com Porings, mas na primeira versão de Matéria eu ainda tentei introduzi-los dessa maneira.

O papel deles sempre foi de antagonistas na história, mas é engraçado pensar que a base de sua personalidade se manteve. Seguindo a ordem dos guardiões, veja:

  1. Bill - Conhecido como Apook 3, é o bichinho com uma faixa verde na cara. Ele sempre foi o ladrão do grupo;
  2. Tootie - Seu nome era Tutantótines. O Poring laranja com um acessório esquisito na cabeça, como se fossem os antigos egípcios;
  3. Elma - Seu nome era Exotines. Sua cor era verde, está em cima de uma espada com uma cruz enrolada. Ela sempre teve esse lado religioso;
  4.  Capitão Bernard - Conhecido como Generaltines, o chapéu de marinheiro foi mantido, muito parecido com o mesmo que Bernard usa hoje em dia. Ele sempre teve um Navio Fantasma;
  5. Elice - Ela se chamava Cristaltines, o bichinho azul com uma coroa. Seu elemento sempre foi o gelo;
  6. Aedan - Seu nome era Firetines, o de fogo dentro da bolha. Pelo visto, ele é sempre o que se ferra, como de costume.
Vocês podem perceber que três deles estão faltando, estes são os personagens que foram excluídos do livro: Antótines, Detótines e Ghostines, o que tem asinhas de anjo, asinhas de demônio e o que se parece com um fantasma. Eram antagonistas demais no livro, então a ordem diminuiu para acomodar cinco guardiões, sendo que Aedan e Elice contam como um só.

Espero que tenham curtido um pouco dessas informações de origem! Por sinal, este foi o primeiro desenho digital que recebi na minha vida. Pois é, quem desenhou e pintou isso na época foi o meu padrasto, anos antes de eu sequer aprender a usar um computador, e é presente que guardo até hoje com muito carinho.


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Arte #28 - Os Guardiões da Ordem

É engraçado pensar que eu tenho a aparência dos membros da Ordem do Selamento planejada desde o finalzinho de 2015 e começo de 2016. Já dá para ter uma ideia de quanto tempo faz que estou planejando esse livro, e é um tremendo prazer finalmente postar a ficha de cada um deles com suas devidas informações.

Acho que esse desenho até já ficou meio obsoleto, noto uma diferença singela no traço, mas gosto de postar coisas antigas para eu lembrar o quanto evoluí. Espero daqui alguns anos voltar a desenhá-los, vou aperfeiçoando meu estilo com a mesa digitalizadora até notar uma evolução. Eles já evoluíram tanto desde a primeira versão que, por sinal, vocês poderão notar na próxima postagem...

sábado, 22 de junho de 2019

Canção da Madrugada [Support]

Support Conversation (Ralph x Auria)
Gênero: Drama, Romance;
Tema: Ralph e Auria compartilham suas inseguranças e confortam um ao outro,
assegurando que, o que quer que aconteça, eles irão superar juntos;
Sugestão do leitor(a): Feurdelis.

Ralph caminhava com passos leves, não gostaria que alguém acordasse só porque não conseguia dormir e estava ansioso demais para cair no sono novamente. A tarde de treinamento rendera bons frutos, mal podia esperar para embarcar na próxima missão.
          Raegar fora generoso ao convidá-los a ficar o tempo que quisessem, tinham uma vida aconchegante e tranquila no topo da colina, o que mais poderia pedir? Ralph dirigiu-se até a cozinha e preparou um copo de leite achocolatado, mas quando voltava para o quarto ouviu um som estranho vindo de um dos aposentos. Não gostava de bisbilhotar, mas aquele era o quarto de Auria. Quando encostou o ouvido na porta de madeira, ouviu o que parecia ser um instrumento musical e uma voz que cantarolava bem baixinho. Eram quase três da manhã, ninguém deveria estar acordado àquela hora.
Ficou ali ouvindo a canção com um sorriso no rosto. Não conseguia entender a letra, mas a melodia o fazia feliz.
Seus pensamentos voavam longe quando de repente a porta foi aberta e Ralph caiu para dentro do aposento de cara nos peitos de Auria que o segurou. A moça lhe dirigiu um sorriso travesso, mas não o repreendeu.
— O que faz acordado a essa hora, mocinho?
Ralph preparou uma série de desculpas, mas Auria fez um gesto com a cabeça, convidando-o a entrar. Não era a primeira vez que entrava no quarto dela desde que se instalaram na Pequena Colina, mas visitá-la na madrugada se provava uma sensação inédita. Os móveis projetavam sombras que bruxuleavam na parede devido o pequeno abajur que iluminava o recinto, Auria estava com seus óculos de grau e saltou na cama vestida com seu pijama — um short curtinho, blusa larga e a alça do sutiã caída sobre o ombro lhe davam um toque íntimo e delicado. Em sua escrivaninha repousava um aparelho de som que Ralph nunca vira antes, de onde a música saía e preenchia o ambiente.
— Tem algum monstro cantor preso aqui dentro? — perguntou o menino.
Auria riu diante da inocência dele.
— Não, bobinho. Isso é uma caixa de som, o Aedan comprou para mim nas Cidades Cinzentas. Eu costumava ter uma quando menina, mas ela quebrou — respondeu a moça. — Não sou fã da ciência, mas ouvir músicas de madrugada me deixa tranquila.
Auria voltou a aumentar o volume do rádio e esparramou-se em sua cama, olhando para o teto com os braços e pernas esticadas. Ralph sentou-se ao lado dela na beirada e perguntou com a voz meiga:
— O que você estava fazendo?
— Nada — respondeu a mulher. — É madrugada. Ninguém faz nada de madrugada. Quer dizer, muita coisa pode acontecer de madrugada, é um momento onde as pessoas estão tão frágeis e sinceras... às vezes, quando me sinto sozinha, eu olho para o céu de noite e penso que alguém também deve estar sentindo o mesmo que eu em algum lugar.
— Mas você ainda se sente solitária mesmo cercada de pessoas?
— Ah, é um tipo de solidão de diferente. Não se trata de afeto, porque tenho vocês ao meu lado e eu os amo demais. Só que às vezes gosto de estar sozinha com meus pensamentos e curtir o silêncio, e... ah, você deve estar achando tudo isso uma bobagem.
— Não, de maneira alguma! É só que nunca conheci alguém que pensasse assim, a madrugada para mim é como um território desconhecido. Mesmo que já tenhamos passado meses nos aventurando por Sellure, ainda estou descobrindo coisas novas sobre você, Auria.
Ralph acomodou-se ao lado dela na cama.
— Posso curtir essa madrugada solitária com você?
Auria sorriu, pois adoraria companhia. Os dois se aninharam a apenas alguns palmos de distância.
— Tenho a impressão de que a ouvi cantando — murmurou Ralph.
— Ah. Droga. — Auria ficou com as bochechas avermelhadas, tirou os óculos e começou a esfregar o rosto. — Pois é, você descobriu. Gosto de cantar sozinha nas madrugadas feito louca.
— Não creio que você seja louca — disse Ralph, aproximando-se dela. — Pode cantar um pouquinho para mim?
Auria corou ainda mais, jamais estaria preparada para um pedido daqueles. Pensou em todas canções que já ouvira durante a vida e quais delas seriam apropriadas para o momento. Ralph estava aconchegado em seus braços, ela acariciava seus cabelos quando teve uma ideia — escolheu uma canção de ninar que sua mãe cantava para ela quando menina, sua voz nem de perto se assemelhava ao timbre suave de Flora Mercer, mas ver Ralph aninhado com os olhos fechados ao seu lado a fez querer protegê-lo de tudo no mundo.
— Sua voz é linda — disse o garoto. — Me sinto protegido ao seu lado.
Ela sorriu satisfeita por alguém compreendê-la, sempre podia contar com Ralph para fazê-la sentir-se nas nuvens e segura de suas qualidades. Auria puxou o cobertor e escondeu-se ali embaixo para proteger-se do frio.
— Acho melhor você dormir aqui comigo hoje — ela insinuou, sentindo o rosto arder. — Por segurança.
Ralph não se moveu e nem deu sinais de que corresponderia, o que a fez ficar constrangida. Ele por fim sorriu, aquele sorriso que a enfeitiçava.
— Ah, não, pare... — Auria ficou toda envergonhada. — Quando você sorri assim para mim, sempre fico toda sem graça.
Ralph puxou o cobertor para perto do rosto para aquecê-los, Auria trocou a música no rádio e afundou sua cabeça no travesseiro, seus cabelos negros se emaranhavam em fios bagunçados. O silêncio nunca era constrangedor, eles se permitiam ouvir a música sem que alguém se cobrasse para puxar conversa. Nunca imaginara que poderia se sentir tão à vontade ao lado de alguém. 
Auria estava de olhos fechados quando ouviu Ralph pedir-lhe licença e tirar seus óculos do rosto.
— Eita, como é que você enxerga com isso? — brincou o menino, tentando olhar através das lentes de grau que ofuscavam sua visão.
— Eu uso para ver de longe, mas principalmente para leitura e descanso. Num geral, muita gente gosta de óculos como acessórios, sempre pensei em usar lentes... sabia que existem selos capazes de trocar a cor dos olhos? Eu detesto o meu verde, é tão clichê, sempre quis ter olhos escuros e profundos.
— Acho que você fica bem de qualquer maneira.
Auria levou sua mão em direção dele e manteve a palma aberta. A princípio Ralph tentou interpretar o gesto, pois sabia que devia existir algum significado oculto.
— Deixe-me ver o tamanho da sua mão — ela disse.
— Por quê?
— Motivos de pesquisa.
Ela escondeu uma risadinha malandra, mas se surpreendeu quando sentiu seus dedos se entrelaçarem com os dele. Estava perdendo completamente o controle de suas emoções, quis abraçá-lo e dizer o quanto se importava, mas como fazer aquilo sem querer insinuar nada? Adorava Ralph como se fosse seu irmãozinho, divertia-se em sua companhia, queria protegê-lo para sempre. Sua respiração ficou pesada e sentiu o rosto ferver.
— O que foi? — perguntou o menino com preocupação. — Sua testa está suando, será que está muito calor aqui embaixo do cobertor? Mas não quero que tome friagem, porque aí você ficaria doente.
— Sua mão é tão macia. — Auria começou a massageá-lo com delicadeza. — Consegue me sentir?
— Sim — Ralph respondeu. Estava bem escuro. — Eu sinto você por perto.
De repente, foi como se um turbilhão de emoções aflorasse ao mesmo tempo. A madrugada tinha aquele efeito sobre ela, Auria lembrou-se por que não conseguia dormir — estava preocupada demais com os resultados do exame da academia, em breve teria que abandonar a Pequena Colina e retomar seus treinos na Vila das Pérolas em Myriad. Quanto tempo levaria para voltar? Será que Ralph e os demais a esqueceriam enquanto estivesse fora, como muitos de seus colegas fizeram quando era mais nova? Auria temia que acabasse sozinha outra vez e aquela sensação maravilhosa de viajar por Sellure ao lado de Ralph, Lesten, Lee e Hayley não passasse de lembranças perdidas.
Os dois se envolveram num forte abraço e Auria o trouxe para mais perto de seus braços.
— Você promete que nunca vai me esquecer? — ela perguntou.
— Por que essa preocupação? — o garoto sorriu. — Até hoje, não há nenhuma pessoa que entrou em minha vida por acaso. Todos vocês têm um lugar especial.
— É que... você sabe que pretendo voltar para a Vila das Pérolas, Ralph. Dessa vez vou treinar mais do duro que jamais treinei, vou garantir meu espaço no exército. Sei o que quero e vocês me ajudaram a perceber isso com clareza. O único problema é que... — ela fez uma pausa —, tenho medo da distância nos separar e, quando nos reencontrarmos, sejamos como completos estranhos.
Ralph sentou-se na cama e juntou suas mãos com as dela.
— Eu vou esperar. Você é a minha guerreira, meu braço direito. Se isso te deixar mais tranquila, vou te mandar cartas sempre que puder! Eu poderia te esperar para sempre.
— Obrigada por acreditar em mim. Mal posso esperar para que possamos fazer isso mais vezes.
— Fazer o quê? Nós não fizemos nada hoje.
— Como não? Você me fez companhia, ficamos perto um do outro. Eu não trocaria esses minutos de paz ao seu lado por nada nesse mundo.
— Eu sou muito afortunado por ter vocês como amigos.
Auria sempre se encantara com o sorriso dele — suas bochechas levantam e os olhos quase sempre se fechavam, expondo os dentes branquinhos e as marquinhas de expressão. Será que ele nunca se cansava de sorrir? Sabia que o estoque de sorrisos de Ralph jamais se esgotava, mas, se pudesse, queria que aquele sorriso pertencesse somente a ela.
Ralph riu aninhou-se para mais perto, deitando a cabeça em seu busto e ouvindo seu coração bater na mesma intensidade que o seu. E então, ele falou como se pudesse ler seus pensamentos:
— Uma parte minha sempre será só sua.
Os dois permaneceram assim, em silêncio, aproveitando o sossego da madrugada onde ninguém os incomodaria, ouvindo a música ecoar distante em seus ouvidos até que a coletânea terminou, misturando-se ao som de grilos e a quietude do campo.
Os dois não demoraram a cair no sono, quando se deram conta já era de manhã. O sol revelava-se tímido entre as montanhas, Raegar devia estar voltando de suas viagens e Lesten era o primeiro a despertar, pronto para caçar besouros exóticos que só apareciam àquela hora do dia.
O lagarto saiu correndo pelos corredores quando trombou-se com Lee que acabara de usar o banheiro e ainda estava com a escova de dentes na boca.
— Diga aí, el luchador. Viu o ruivo por aí? — perguntou Lesten.
— Não faço ideia — murmurou Lee, ainda meio sonolento. Nunca era uma boa conversar com ele logo de manhã, geralmente acordava de mau humor.
— Só falta ele ter saído para caçar insetos antes de mim... Logo mais o alcanço — Lesten começou a balbuciar para si mesmo, traçando a rota do dia. — O que será que a fêmea vai fazer hoje?
Lesten abriu a porta do quarto de Auria com força e a mulher despertou num salto, a alça de sua blusinha pendendo pelo ombro e Ralph ainda adormecido do seu lado. Lesten arregalou os olhos diante da cena, apontando com o indicador primeiro para ela, depois para ele e para ela de novo.
— QUE? COMO ASSIM? QUANDO ISSO?
— Calma, não é o que você está pensando — Auria tentou inventar uma desculpa quando Lesten avançou em sua direção todo contente.
— Vocês fazem uma festa do pijama e não chamam o lagartão aqui? Poxa, só porque eu não uso roupa não significa que vocês podem me deixar de fora! Chega pra lá, dá um espaço aí pra eu deitar com vocês.
— Lagartixa, você não cabe na cama — resmungou Auria, mas a essa altura o gecko já estava chamando Lee e Hayley para participarem também.
— Caraca, mulher, que bafo. Tu já escovou os dentes hoje?
— Eu acabei de acordar, desgraça.
— Gente — falou Lesten, e todos ficaram quietos. — Alguém soltou um pum ou é só impressão minha?
Auria começou a socá-lo de forma impiedosa. Ralph despertara com o barulho, ele espreguiçou-se e murmurou contente, pois há tempos não tinha uma noite tão gratificante. Agora sabia o que as pessoas faziam de madrugada e mal podia esperar para participar mais vezes.

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