segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Capítulo 30.5 - Criatura das Profundezas

Onde a cena se encaixava?
Na metade do Capítulo 30, após a chega dos demais integrantes da Ordem do Selamento na Ilha-S e pouco antes de Ralph e seus amigos subirem no Trem das Águas para irem em busca do ladrão de pérolas.

Sobre o que falava?
Uma enorme lula gigante, um monstro antigo conhecido como Pyrimids, ataca a embarcação do Capitão Bernard e obriga Ralph e seus amigos a lutarem por suas vidas em uma das poucas cenas de ação que envolvia todos personagens lutando juntos. Esta é a última Cena Deletada do Livro 1.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Com cerca de 2700 palavras, a batalha contra o Pyrimids foi escrita baseando-se nos primeiros gibis do autor. As lulas gigantes sempre fizeram parte da mitologia de Sellure e o autor quis homenageá-las com esse capítulo, mas no fim das contas a luta não representava nenhum crescimento para os personagens e acabou sendo cortada da versão final.

Uma curiosidade é que nos gibis era aqui que acontecia a batalha entre Ralph e Half, e Lesten se sacrificava para salvar seus amigos, afundando junto com o Navio Fantasma pouco antes da batalha final contra Raegar (só que mais tarde ele retornava, porque o Lesten é imortal).


Criatura das Profundezas
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas


Lesten encarava a água que estava irrequieta, todos os sinais indicavam que algo dentro do oceano havia sido despertado. O vento sofrera uma mudança súbita de direção e as ondas antes tão mansas começavam a se descontrolar. Auria aproximou-se da proa do navio para descobrir do que se tratava.

— Viu alguma coisa? Parecia uma baleia.
— Bem maior — respondeu Lesten, perturbado. — Os mares de Century são repletos de criaturas bizarras, de tubarões gigantes até enguias colossais. Conheço muito pouco sobre os monstros que habitam as profundezas do oceano, mas estou doido para descobrir mais sobre eles!
— Você é o único que corre atrás do perigo — Auria respondeu com uma risada, apoiando os cotovelos no corrimão e virando-se de costas. — Quando nos deparamos com ele, tudo que podemos fazer é confrontá-lo.
Lesten voltou a olhar entretido para o mar quando um impacto forte badalou toda a estrutura do Navio Fantasma, fazendo com que Auria escorregasse e Ralph precisasse apoiar-se no ombro do lagarto para ficar de pé. Uma sombra começou a rodear a embarcação, uma presença maligna impossível de se ignorar. Ralph correu para a cabine do capitão para alertar Bernard, que no momento observava o cenário de sua ampla janela de vidro com uma paz incomum. Aedan e Bill também estavam presentes quando foram interrompidos.
— Capitão, parece que batemos em alguma coisa! — alertou Ralph, ofegante.
— Ele está nos seguindo desde a madrugada, aguardando a hora certa de atacar — comentou Bernard, dando uma tragada em seu cachimbo com uma calma incomum. — Na verdade, creio que ele esteja de olho no Navio Fantasma há alguns anos, embora eu nunca tenha lhe dado a chance de me confrontar.
— Você fala “dele” como se fossem velhos amigos — disse Aedan.
Ralph hesitou alguns segundos antes de perguntar.
— Quem é ele?
— Um Pyrimids, um dos monstros marinhos mais antigos de Sellure. Essa espécie inspirou inúmeras lendas nos anos das navegações, são monstruosamente imensos, e dizem também serem os responsáveis por impedir que qualquer navio atravesse as fronteiras de nossos mapas — explicou o capitão. — Como o Navio Fnatasma não esteve ocultado pela neblina mágica nos últimos dias, fomos logo localizados por ele.
— E o que espera que façamos agora? — indagou Ralph, embora já soubesse da resposta.
O capitão riu, as rugas em seu rosto cansado se evidenciaram.
— Ah, essa será uma bela história de pescador a se contar...
Outro estrondo foi ouvido, o navio balançou para os lados e os móveis acompanharam o movimento. Ralph imediatamente correu para fora onde seus companheiros observavam curiosos o movimento nas águas.
— Saiam logo daí! — gritou o jovem.
— Por quê? Acha que ele vai pular e puxar a gente para o fundo do mar? — Auria brincou.
Assim que se deu conta, a mulher pôde ver um imenso tentáculo emergir, apoiando-se nas beiradas do casco com ventosas gosmentas cheias de farpas como os de uma água-viva. Hayley saltou para o colo de Lee que a agarrou, Elma conjurou um machado fez um corte vertical no tentáculo que estremeceu e recuou para o fundo do mar. Auria ativou sua armadura, mas de que aquilo adiantaria se a criatura a sufocasse no oceano? Ralph brandiu Lignum e reuniu-se com seus amigos o mais longe da beirada que pôde.
— Que bizarrice é essa? — bradou Lee, de punhos fechados e braços erguidos. — Como é que vamos lutar contra algo desse tamanho? Ele nem deve sentir os nossos golpes.
— Essas criaturas lutaram as grandes guerras do passado — explicou Lesten. — Houveram grandes domadores de monstros que aprenderam como controlá-los a seu favor, treinadores de Aukalakas, Dinorros e até mesmo dragões. A presença dessas aberrações decidia o lado vencedor, pois por onde passavam sobrava um rastro de destruição e ruína.
— Vou até subir de nível depois que derrotar um! — Ralph falou eufórico com sua espada de madeira firme em sua mão.
Bernard saiu de sua cabine e reuniu os demais membros da Ordem do Selamento. Tootie conseguia sentir as vibrações através da areia no oceano, aquele era um dos maiores monstros que já vira ou conhecera.
— A dimensão ultrapassa os cinquenta metros, isso porque não consigo medir o tamanho dos tentáculos — disse a guardião da areia, concentrando sua energia. — Mesmo tendo estudado fósseis durante oito anos para construir o museu das Ruínas Douradas, há pouquíssimos vestígios deixados pelos Pyrmids por conta da ausência de ossos.
— Eu quero ver, eu quero ver! — Elice gritava histericamente perto da borda até que Aedan precisou afastá-la dali. A menina precisou ficar trancada na cabine do capitão onde não arranjaria mais confusão.
Uma última calmaria tomou conta do navio, todos aguardavam qualquer sinal do monstro marinho que estava em seu próprio território. Não era intenção de ninguém fugir para terra firme onde estivessem seguros, pois assim a criatura continuaria à solta, podendo atacá-los na madrugada ou longe o bastante de qualquer ilha para que sequer cogitassem a chance de se salvarem caso o navio fosse destruído. Eles precisavam colocar um fim àquela ameaça de uma vez por todas.
 O primeiro ataque surgiu quando dois tentáculos saíram um de cada lado do navio, atravessando a madeira do deque e quebrando caixotes no caminho. Lesten perfurou um deles com sua lança enquanto Auria repeliu a segunda onda com seu escudo. Hayley conjurou um feitiço de agilidade para que Lee pudesse correr mais depressa e saltar a alturas sobre-humanas, afastando qualquer ameaça que prejudicasse as condições da embarcação.
Outros quatro tentáculos surgiram do lado oposto, atacando os tótines pelas costas. Elma ativou espadas mágicas que dançaram e fatiaram um dos tentáculos com cortes precisos, como se fossem pequenos pedacinhos de sashimi. Tootie conjurou uma barreira de areia para conter o avanço, mas os ataques eram violentos e vinham por toda a parte. Bill desapareceu em algum lugar fugindo do conflito, como sempre
— Se estamos enfrentando um polvo, seus oito braços já eram — disse Lee, sentindo a adrenalina do momento. — Esse treinamento vai render!
Apesar de a vitória parecer certa, os Pyrimids se tornavam cada vez mais violentos conforme percebiam que sua presa resistia. Subitamente, ondas com mais de três metros formaram-se uma após a outra, o monstro emergia e mergulhava de maneira contínua, ele se chocava contra o casco do navio na tentativa de virá-lo, batendo com sua cabeça em formato de pirâmide capaz de atravessar mesmo a mais resistente das armaduras como se fosse uma furadeira. Bernard sentiu um aperto em seu coração, cada ferida no navio atingia diretamente sua essência mágica.
Um novo impacto fez o casco ceder, jatos d’água invadiram o convés e inundaram as câmaras inferiores. Uma forte camada de tinta negra formou-se ao redor do navio, de onde a ponta de uma pirâmide surgiu abrindo uma cratera. O pilar que sustentava a vela chegou a tombar, as duas metades oscilaram e todos perderam o equilíbrio. Água jorrava para todos os lados, todos os tentáculos da monstruosa lula gigante começaram a abraçar a embarcação como se estivesse prestes a devorá-la. Uma boca monstruosa revelou-se da água como um buraco negro que a tudo consumia, com sua porção de dentes serrilhados e hálito fétido. Uma gosma amarela saía dele, tudo que caía lá dentro era triturado, desde peixes até caixas, barris e pedras.
Lee segurou Hayley e saltou para uma área segura longe do convés, abandonando o combate para assegurar sua segurança. Auria tropeçou e caiu, Ralph segurou sua mão enquanto tentava desesperadamente segurar-se a qualquer instrumento que fosse. Lesten usou suas patas adesivas para escalar o navio destroçado e resgatar seus amigos antes de retornar ao combate.
— Esse em breve vai entrar na minha lista! — falou o gecko.
Com o navio partido ao meio, o lagarto conseguia andar por áreas íngremes onde nenhum outro tinha acesso. Os braços do Pyrimids tentavam pegá-lo, mas sua agilidade era invejável. Lesten saltava e dava piruetas no ar como um malabarista, enquanto isso, Tootie assumiu a forma de um archeopteryx feito de areia, uma espécie de ave dos tempos antigos, e começou a bicar com força os tentáculos que se moviam como se tivessem consciência própria.
Assim que Lesten alcançou o topo do mastro, deparou-se com Bill sentado sobre um enorme barril.
— Não me diga que você estava se escondendo — disse o gecko furioso.
— Mas que coisa, só porque não estou constantemente na linha de frente não significa que não colaboro com a batalha. Sou um gatuno ardiloso, nobre companheiro réptil, perito em furtividades e estratégias astutas. — Bill fez um breve sinal com a mão e simplesmente chutou o barril que foi direto para a boca da criatura. — Está na hora de alguns fogos de artifício!
O Pyrimids engoliu o barril e uma explosão foi ouvida de dentro do seu estômago. A fumaça expelida denunciava que Bill colocara pólvora o bastante ali dentro para dar-lhe uma tremenda dor de barriga, o que o fez desacelerar o ritmo de seus ataques.
Bernard concentrou sua mana para trazer o navio o mais próximo que pudesse da Ilha-S, onde a lula gigante não pudesse alcançá-los, mas ainda era cedo para que o Pyrimids desistisse de sua refeição. Assim que ele emergiu foi como se um prédio inteiro saísse do meio do oceano — sua cabeça tinha o formato perfeitamente triangular, como um molusco que escolhe uma concha grande demais para se acomodar; nela estavam presos recifes, pequenos crustáceos, limo e até equipamentos de guerra enferrujados; um verdadeiro bioma ambulante. Em lados opostos estavam seus enormes olhos quase cinco vezes maiores que bolas de canhão, sua boca ficava mais embaixo, logo, enquanto ele a protegesse parecia ser impossível de atacá-lo em toda sua resistência.
— Esse é o monstro mais maneiro que eu já vi! — gritou Ralph.
— Vai chamá-lo pra equipe também? — Auria brincou. Seu amigo pareceu adorar a ideia.
O Navio Fantasma se afastava devagar, os danos causados teriam destruído qualquer embarcação comum, mas Bernard sempre se gabara de que “sua alma estava presa ao seu navio”, se ela morresse, ele preferia afundar junto de sua amada.
Já perto da costa, o Pyrimids não dava sinais de que iria parar. Um simples amontoado de terra não o impediria; com seus tentáculos, ele puxava a areia no fundo com impulso para mover-se. O pesado compartimento que ocupava cabeça servia como proteção para o corpo gelatinoso frágil, ele avançava pela região rasa da costa com uma fome insaciável.
— E o monstro continua vindo! — falou Bill. — Gastei um bom estoque de pólvora nele.
— Se não pudermos acertar a boca na base da pirâmide, será impossível derrotá-lo — concluiu Tootie.
Os tentáculos que haviam sido cortados começavam a se regenerar, apenas mais um sinal do quão perigosas eram aquelas criaturas nos tempos antigos. Aedan continuava com as mãos no bolso, preferira não participar da luta para analisar o nível de força de seus companheiros da Ordem, mas a verdade era que ainda estava cansado e indisposto desde sua luta com Ralph no vulcão.
Bernard concentrou as forças em um de seus joelhos, bateu as pernas no chão e o convés inteiro tremeu anunciando que o gigante acabara de acordar.
— Já estou cansado de ver uma criatura asquerosa como você machucar minha amada!
Mesmo que não houvesse um marinheiro sequer para manusear o leme ou limpar o convés, todo o navio era controlado pelo capitão que o comandava. As fileiras de canhões se posicionaram contra a pirâmide que se aproximava, disparando bolas de ferro que causaram sérios danos na carapaça da criatura.
Quando um tentáculo avançou em direção da cabine onde Elice estava alojada, Aedan estendeu o braço e uma labareda de fogo incinerou o membro por completo. O tentáculo caiu tostado enquanto Lesten o abocanhava contente.
— Oba, comida exótica! — gritou o lagarto. — Mandou bem, cabeça de fogo!
Aedan apenas riu quando lhe irrompeu a ideia de abrir um restaurante, Elice iria adorar.
O grupo se dividiu em equipes que se se auxiliaram a descer do navio e afastar-se da costa onde a criatura ainda os rondava. A presença do Pyrimids nos arredores colocaria em perigo a segurança do Trem das Águas e de qualquer turista que se aproximasse da ilha naquela época do ano. Elma permanecia na linha de frente com seu exército de espadas, disposta a proteger seus amigos a qualquer custo.
— Cuidado para não serem arrastados para a água! Se caírem no território dele, estarão realmente encrencados — alertou a guardiã do pântano.
Quando o Pyrimids alcançou a terra, ele se arrastava como um caracol vagaroso que transporta sua casa. Estava claramente enfraquecido após a longa batalha, mas era como se a criatura também estivesse empolgada com uma batalha após tantos anos sem um adversário digno.
Com sua espada de madeira, Ralph acertava a lula com cortes perfeito na cabeça. A criatura tentou arrastar Tootie, mas Lee segurou a ponta de um dos tentáculos com os dois braços e o puxou até arrancá-lo. Lesten se desviava com habilidade entre os destroços de madeira quando sentiu que algo o agarrou pela cauda e puxou-o com força em direção do fundo. O lagarto usava as garras para segurar-se em qualquer superfície sólida, mas acabou largando suas armas e sendo tragado para dentro do mar.
Não! — Ralph gritou. Auria o puxou pela camisa, impedindo-o de cometer qualquer loucura.
— Você não sabe nadar! — respondeu a guerreira, prontificando-se a entrar em seu lugar. — Deixe isso comigo.
Lee foi quem a impediu na sequência, já arrancando a blusa e as botas.
— Sou mais rápido.
— Você é manco — ela argumentou.
— Não sabe o que sou capaz de fazer com essa perna.
— Olha, se eu fosse vocês, eu nem perderia tempo procurando a lagartixa — comentou Aedan, apontando para uma coisa verde gosmenta que boiava perto da praia.
A cauda de Lesten estava lá, mas não havia sinal dele.
O Pyrimids recuara após ter sido brutalmente atacado pelos canhões do Navio Fantasma, os danos em sua cabeça triangular foram intensos o bastante para que ele finalmente voltasse a se esconder no buraco profundo de onde viera. Bernard apoiou-se na proa do navio e esticou os braços, gritando com todas as forças:
— Vai fugir agora, seu miserável? Nosso duelo não terminou! — O capitão viu a monstruosidade marinha entrar na água e soltar uma densa camada de tinta que cobriu toda a superfície da costa. — Um dia iremos nos reencontrar, seu bastardo!
A calmaria tomou conta da região. Ralph andava entre os destroços, afastando móveis quebrados e toras de madeira no caminho em busca de algum sinal de seu amigo. Viu uma pequena fita vermelha flutuar, e imediatamente a reconheceu.
— L-Lesten — murmurou, mas as palavras mal saíram de sua boca.
— Ele a deixava presa na ponta da lança — comentou Auria, colocando a mão em seu ombro. — Eu sinto muito...
Foi quando algo puxou a mulher para dentro da água mais uma vez. A primeira reação de Ralph foi resgatá-la, mas tudo que viu foi uma porção de bolhas saírem seguidas de Lesten que mais parecia um jacaré rindo sem parar. Auria recuperou o fôlego toda ensopada e ofegante, mas fez questão de acertar um soco na ponta do nariz do lagarto para que ele aprendesse uma lição.
— Heh, heh. Assustei vocês, né? — brincou o gecko. — Mas porra, que tapão doído você tem, hein?
— Pensamos que você estivesse morto, e que péssima hora para brincadeiras! — Auria falou alto.
— Qual é, sou um exímio Caçador de Monstros, não posso tombar diante da primeira criatura grande que eu encontrar. Na verdade eu aproveitei para guardar um pedacinho, se liga! — Lesten levantou um tentáculo que ainda se movia. — Vai ficar lindo na minha estante junto com a pata da capivara mutante.
— Pensei que geckos terrestres não pudessem nadar — retrucou Lee.
— Correção: geckos não gostam de nadar, deixamos essa tarefa para nossos primos crocodilianos. E a propósito, por que só o ruivo ficou triste diante da ideia de que eu tava morto? Que preconceito é esse?
Ralph abraçou Lesten com força e os dois caíram na água rasa.
— Já não consigo imaginar minha vida sem vocês!
Os guardiões da Ordem do Selamento se aproximaram, aquela batalha fora uma excelente demonstração de trabalho em equipe e todos estavam muito orgulhosos. Elice parecia minúscula de cima do ombro do Capitão Bernard em cima, ela gritava alto enquanto os aplaudia contente:
— Vocês conseguiram! Realmente são heróis de verdade!

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