sexta-feira, 29 de maio de 2020

O Passado dos Personagens - Auria (Parte 3)

Auria voltou para casa mais cedo naquele dia. O atendimento na agência de cadastro de soldados fora mais rápido do que o planejado, pois Diana já havia separado toda a papelada necessária na noite anterior por estar acostumada a preencher pilhas de documentos dos jovens que completavam quinze anos. Faltava pouco mais de um mês para o embarque à Vila das Pérolas e Auria se sentia ansiosa, era a primeira vez que se veria longe do conforto de seu lar e dos olhos vigilantes de suas irmãs. Apesar de ser Myridiana por nascença, Auria se considerava uma Constantina tendo sido criada na Fortaleza Azul desde os três anos de idade. A vida na capital era pacífica e ela ansiava por uma mudança de ares.
A garota comentou de forma automática ao abrir a porta de casa, pois sabia que as irmãs deviam estar no trabalho.
— Dia? Ly? Tem alguém aí?
Não houve resposta... e ter a casa vazia somente para ela só significava uma coisa.
Correu para a cozinha, pegou uma garrafa de refrigerante na geladeira e abriu um saco de seus salgadinhos preferidos — era o momento perfeito para assistir seriado na sala vestindo pijamas e pantufas às três da tarde sem ninguém para incomodá-la.
Como suas mãos estavam ocupadas, Auria usava a boca para segurar uma barra de chocolate que vinha escondendo o mês inteiro para abrir quando fosse comemorar seu ingresso na academia. Estava a caminho da sala quando ouviu a porta do andar de cima bater — não que estivesse se escondendo, mas alguma coisa lhe dizia que Lydia não sabia que ela estava ali. Sua irmã veio descendo os degraus de mãos dadas com outra garota de farda enquanto ela vestia apenas o seu roupão de banho,.Auria já se acostumara com a presença de caras estranhos e gente do exército que vinha a trabalho ter algumas “conversas particulares” com Lydia, mas era a primeira vez que a via com outra mulher.
Voltou a espiá-las de relance da cozinha. As mãos de Lydia e da mulher se entrelaçaram com delicadeza. A outra já estava vestida para sair, mas antes de sair pela porta não conseguiu se controlar e desceu a mão devagar pelo roupão de Lydia, apalpando seus seios enquanto beijava seu pescoço. Ouviu-se um tapa safado no bumbum e as duas trocaram risadas maliciosas.
— Te vejo semana que vem — murmurou Lydia com a voz apaixonada, do mesmo jeitinho que usava para fazer qualquer homem enlouquecer por ela.
As duas aproximaram seus rostos e se beijaram como amantes, trocando carícias em uma mistura bizarra de línguas se tocando que fizeram a cabeça de Auria girar. O dever a chamava, a mulher se despediu e Lydia trancou a porta como uma gatuna, girou a chave e saiu na ponta dos pés sem emitir som algum para seu quarto, apagando qualquer sinal de sua presença.
Auria permaneceu com as costas coladas no corredor sem emitir som algum. As sacolas de salgadinhos e refrigerante transbordaram para os lados. Tinha a impressão de que descobrira algo proibido, mas não poderia contar nada a ninguém.
Auria não entendia muita coisa naquela época, e continuou sem entender.

i

O segredo de Lydia atormentou Auria pelas próximas horas que se seguiram. Será que era seguro contar para Diana? Como ela iria reagir? E se aquela descoberta colocasse em risco o bem estar da família Mercer e as três terminassem separadas sem nunca mais se ver? A dúvida a estava matando por dentro, mas a maneira como a mulher enfiou a mão no roupão de Lydia sem pudor fazia suas pernas estremecerem sem entender o motivo. Havia muita coisa que Auria não entendia sobre relacionamentos e ela sentia muita falta de sua mãe para compartilhar e compreender aquele tipo de situação.
 Ela caiu no sono e despertou em curtos intervalos devido à ansiedade. Passava das duas da manhã e, como estava frio, envolveu-se em seu cobertor e desceu as escadas para ver se suas irmãs haviam voltado do trabalho. Avistou um feixe de luz e uma porta entreaberta — outra vez sentiu que estava sendo uma tremenda curiosa enxerida, mas dessa vez o assunto era ela.
— ... então agora você vai para a guerra também? Quer morrer igual à mamãe e o papai?
— Pelo amor de Araya, Lydia! Eu já disse que não vou estar na linha de frente, eles garantiram que vou ajudar de alguma outra maneira! — respondeu Diana. — Não é sempre que surge a chance de tornar-se estrategista, e se eu me destacar posso ingressar no batalhão do Lorde Raito.
— Ah, então você também está de rolo com algum general por acaso? Quem você precisou servir para conseguir o cargo, hein?
Diana deu um tapão na cara de Lydia. Auria chegou a arregalar os olhos e prender a respiração enquanto espiava por entre o vão da porta.
— Não ouse dizer isso na minha frente nunca mais. Eu não preciso usar meu corpo para conquistar o respeito de ninguém — falou Diana. Era a primeira vez na vida que Auria a via tão furiosa. — E você sabe muito bem que sou comprometida.
Assim que se deu conta do que havia acabado de dizer, os olhos de Lydia ficaram marejados e a maquiagem borrada.
— Você sabe que eu só penso na segurança da nossa família, Dia... Eu não suportaria que vocês tivessem o mesmo destino que nossos pais.
— Não vai acontecer nada conosco, Lydia. Somos Mercers.
— Nossa mãe também era, e veja só no que deu! Amanhã conversarei com a Auria, posso conseguir a dispensa para ela da academia. Nossa irmãzinha estará segura ao nosso lado.
— Você não pode privá-la de tentar. Se ela quiser servir o exército, deixe-a tentar! Ela não quer ser como você, e nem precisa.
Auria recuou assustada, sua cabeça estava uma bagunça. Voltou para seu quarto onde permaneceu acordada até às três da manhã, chorando sem nem entender o motivo. Mesmo com as luzes apagadas, pôde escutar alguém passando no corredor, por isso escondeu-se embaixo de seus cobertores porque não queria que suas irmãs a vissem naquela situação lastimável.
A porta se abriu. Ela espiou discreta e reconheceu que era Tellum fazendo sua vigilância noturna.
— Senhorita, você está acordada? — perguntou o homem com a voz tranquila.
A garot levou alguns segundos até decidir se responderia ou não.
— Sim. Estou.
— Escutei alguém chorar enquanto fazia minha ronda... está tudo bem?
Auria mordeu o beiço na tentativa de conter tudo que vinha guardando para si nos últimos meses. Estava tão envergonhada dos seus próprios sentimentos que não sabia até onde poderia manter aquilo guardado. Ela cobriu os olhos e murmurou baixinho:
— Não, Tellum. Não está.

A mesa da sala de jantar tinha espaço para mais de doze pessoas, mas nunca se sentaram ali mais do que três. Tellum terminava de preparar uma omelete com queijo para Auria no meio da madrugada, mas a garota não parecia estar com muito apetite.
— Por que é tão duro, Tellum? — ela perguntou com os pensamentos distantes enquanto revirava o alimento em seu prato.
— Creio que por proteção, senhorita. Veja, a casca do ovo é calcificada para proteger o que há no seu interior, que é o que há de mais importante.
— Não estou falando do ovo, seu bobo — Auria retrucou com uma risada franca.
— Oh, compreendo. A que se referia então?
— Estou falando de tudo! Por que é tão difícil ser adolescente? Desde que papai e mamãe morreram, tudo têm saído do controle. Já não vejo a Lydia e a Diana com tanta frequência e elas parecem não se dar bem como antigamente, nós vivemos tentando trilhar os mesmos passos que nossos pais, mas jamais seremos como eles.
— Seus pais foram personalidades excepcionais neste mundo, mas não cabe a vocês copiá-los. Na vida é preciso trilhar seu próprio caminho, cometer os próprios erros se necessário e crescer de acordo com o seu tempo. Você ainda é nova, e há tanto para se viver.
— Quantos anos você tem, Tellum?
— Vou completar trinta daqui a dois meses.
— Puxa, e eu nem estarei por aqui para vê-lo ficar mais velho — respondeu Auria, comendo a omelete que agora lhe parecia o prato mais saboroso do mundo. Tellum era excelente em inúmeras tarefas cotidianas e também um exímio cozinheiro. — Sabe... Eu vou sentir muita falta de você. Você foi um bom amigo durante todos esses anos.
Tellum revelou um sorriso sutil ao escutar uma frase tão simples e que tinha um impacto tremendo sobre ele.
— Eu também, senhorita... foi um tremendo orgulho vê-las crescer. Mas agora minha tarefa está cumprida.
— Espera aí. Você prometeu que iria cuidar de nós para sempre.
— Sim, desculpe. Fui feito para obedecer, senhorita.
Auria terminou a omelete e afastou seu prato devagar, depois respirou fundo enquanto observava quadros e fotos nas estantes preenchidas por memórias. Havia tantos problemas que sua mente adolescente não sabia lidar, e Tellum sempre lhe transmitia aquela serenidade como alguém impermeável a qualquer tipo de dúvida ou incerteza. Os dois evitavam se encarar na madrugada silenciosa, cada qual com seus devidos pensamentos; ambos iluminados pela luz fraca amarelada da sala de jantar enquanto a cidade dormia.
— Posso te fazer uma pergunta, Tellum?
— Claro, senhorita.
— Você pode me achar esquisita por não saber algo assim, mas... duas mulheres podem... n-namorar? — Auria gaguejou só de precisar dizer aquela palavra em voz alta. — Sabe, beijar, casar, ter filhos, essas coisas, e... ah, quer saber? Esquece que eu perguntei isso.
Tellum demonstrou-lhe um olhar de afeto que Auria só se lembrava de ter visto em seu pai. O guarda-costas precisou pensar um pouco antes de responder, afinal, queria ser sincero com os sentimentos dela e não plantar ainda mais incertezas.
— Sim, Auria. Elas podem.
— Ah. Entendo. — Auria soltou outro longo suspiro e esparramou-se em sua cadeira. — Legal. Que bom.
— Você sabia que sua mãe foi uma das poucas Mercer a se casar com um homem na história? — perguntou Tellum.
— Como assim?
— As Mercer são uma família muito tradicional em Sellure, desde os tempos antigos era comum que elas se relacionassem com outras mulheres. Quando decidiam formar uma família elas adotavam crianças, independente de sua raça, afinidade ou gênero. Dizem até que a famosa General Defesa foi também uma Mercer, embora não haja nada comprovado. Ela própria também nunca se casou, mas adotou muitas crianças que continuaram o seu legado.
Auria sentiu as bochechas corarem só de imaginar construir uma família e ter filhos. Nunca se imaginara sendo mãe, muito menos que existisse alguma pessoa no mundo que a aguentasse como parceira por mais de um mês. Ela era insegura e insuportável nos seus períodos, por vezes mandona como toda boa Mercer que se preze, embora transbordasse de amor e carinho para oferecer para qualquer um que ousasse ultrapassar as barreiras que ela mesma impunha antes de conhecer alguém.
— Nunca te ouvi falar sobre coisas do coração, Tellum — admitiu Auria. — Você também tem alguém especial em sua vida?
— Eu? Não, não — ele negou com a cabeça. — Prefiro não estar em um relacionamento com ninguém. Já tenho dores de cabeça demais cuidando de vocês três.
— Mas um dia, quando você ficar velhinho e se aposentar, quem é que vai cuidar de você?
— Não será necessário ninguém para cuidar de mim, senhorita. Quanto a isso pode ficar tranquila.
— Vivo com medo do dia que minhas irmãs irão se casar e acabarão indo embora... não quero ficar sozinha. Torço pela felicidade delas, mas vou odiar qualquer idiota que as roubar de mim!
— Avise-me antes para que eu quebre a cara do indivíduo, pois será necessário passar por cima de mim para pedir a mão de qualquer uma de vocês três em casamento.
Os dois riram alto, mas precisaram conter a voz para não acordar Lydia e Diana que descansavam no andar de cima. Auria repousou a cabeça sobre a mesa, sentindo o sono atingi-la em cheio agora que estava mais tranquila.
— Me conta seu sonho mais impossível, Tellum...
— Eu não tenho sonhos, Srta. Mercer — respondeu o homem. — Cuidar de vocês foi o maior prazer de minha vida e sinto que minha função nessa história foi concluída com êxito. Tudo que me resta agora é seguir o meu caminho.
— Mas todo mundo precisa sonhar... — Auria bocejou enquanto falava. — Uma pessoa sem sonhos... vai lutar pelo quê?
— Os sonhos de vocês são o suficiente para mim.
— Tellum, você é muito gentil e generoso... — Auria fechou os olhos, prestes a cochilar ali mesmo. Ela mal se deu conta do que saiu de sua boca, ainda assim, foi com amor: — Nós te adoramos muito, você sabe disso... não é?
— Permita-me levá-la até sua cama — disse Tellum ao levantar-se e tomá-la em seus braços. Ele subiu a escada sem emitir ruído algum e deitou a menina em seu quarto, cobrindo-a com gentileza antes de se despedir na noite fria e silenciosa. — Tenha uma excelente noite, senhorita.

ii

Na véspera da partida de Auria para a Vila das Pérolas, ela recebeu uma encomenda dos geckos alados via correio. O envelope era longo e pesado, nem mesmo suas irmãs se lembravam de ter encomendado nada nas últimas semanas. Assim que Auria abriu o pacote, seus olhos encheram-se de brilho — era uma espada feita sob encomenda com o formato de uma clave de sol na ponta de cores prateadas e azul marinho, com a bainha escura e detalhes brancos como se fosse um céu noturno estrelado. Não havia remetente, mas Auria sabia que aquele era um presente de Tellum para sua nova jornada que estava para começar.
Ela e Diana estavam assistindo televisão de noite quando Lydia chegou com uma carta em mãos e a expressão tão confusa quanto as palavras que estavam ali escritas.
— O Tellum pediu demissão.
As duas pausaram o filme e se voltaram para ela em choque.
— Como é que é? — perguntou Diana.
— É o que está escrito aqui — frisou Lydia. — Se mandou. Fim de serviço. Aquela história de “vou cuidar de vocês para sempre” era só fachada pelo visto, porque ele não vai voltar. Vamos ter que arranjar outro empregado para cuidar das coisas em casa, porque o quartinho dos fundos nem terminou de ser pintado.
— Lydia, isso é sério, o Tellum nunca pediria as contas, alguma coisa deve ter acontecido — Diana levantou-se apressada e vestiu o seu casaco. — Eu vou até a casa dele conversar, talvez ele esteja passando por maus momentos.
Auria não deu muita trela ao assunto no momento, pois em sua cabeça ela e Tellum continuariam amigos pelo resto da vida.
O que ela ainda não sabia era que a vida passava como um sopro. Um dia se está conversando na sala, e no outro a cadeira permanece vazia.
Às dez e vinte quatro da manhã seguinte, veio o choque. Auria desceu as escadas ainda de pijama, ansiosa pelo dia em que ingressaria nas academias de treino quando se deparou com suas irmãs desoladas na sala de jantar. Diana cobria o rosto com as mãos procurando se controlar enquanto Lydia chorava compulsivamente, andando de um lado para o outro prestes a surtar.
— Como ele pôde ser tão egoísta? O que ele tinha na cabeça? Não era direito dele, isso não é certo, ele não podia!
— Acalme-se, Lydia! Eu entendo a raiva que você está sentindo, mas isso não nos ajudará em nada! Está sendo difícil para todas nós — retrucou Diana com a voz embriagada. — Ninguém jamais saberá o que se passava na cabeça dele, e nós... nós sequer notamos se aproximar. Como pudemos ser tão insensíveis?
Auria aproximou-se devagar, ainda sem compreender a cena.
— O que está acontecendo aqui?
Diana levantou-se, mas não conseguiu correr pra abraçá-la.
— Auria, escute com atenção o que vou dizer.
— T-tá bem, mas eu não gosto desse suspense todo... fala logo.
— O Tellum... não vai voltar.
— Sério? Ele encontrou outro trabalho?
Lydia tampou a boca e precisou retirar-se da sala. Auria ainda as encarava sem entender nada.
— N-não — soluçou Diana. — O Tellum... se foi.
A garota riu, pois pensou tratar-se de uma piada de muito mau gosto.
— Como assim? Ele foi para a guerra? Alguém o atacou desprevenido? Porque o Tellum é muito poderoso, poucos poderiam vencê-lo em um duelo de espadas. Ninguém some assim do dia para a noite sem estar doente, sem demonstrar sinais, ninguém vai... sem se despedir de forma adequada dos amigos.
Quando se deu conta, Auria estava com os olhos encharcados. Lydia quebrou um vaso na sala e gritou de forma histérica, ela jamais compreenderia. Diana correu com os braços estendidos em direção de sua irmã mais nova que sofria um ataque de pânico, caindo de joelhos no chão por conta da respiração descompensada.
— E-eu não entendo, Dia...
— Calma, querida, nós estamos aqui.
— Eu não entendo. Por que ele foi embora? — Auria sussurrou em seu ouvido. — Nós fomos assim tão ruins para ele?
— Não diga isso! Tellum foi muito feliz em vida, e nos resta acreditar que ele fez isso porque tinha um propósito. Ele cuidou de cada uma de nós e tenho certeza que se orgulha de ver que nos tornamos mulheres formidáveis.
— E-eu conversei com ele de madrugada não tem uma semana, e tudo parecia tão normal... ele parecia tranquilo e sereno, como sempre esteve. Será que estava sofrendo por dentro, mas eu não fui capaz de enxergar? Eu poderia ter suprimido essa dor? — Auria parou de falar com os olhos vidrados em um vaso de flor seca na janela. — Diana, e-eu deixei o Tellum morrer?
— Pare de dizer essas besteiras! Não cabe a nenhum de nós julgar a decisão dele. Lembre-se apenas do que ficou, do carinho e atenção que ele nos proporcionou, das lições e o aprendizado.
Lydia voltou da sala com as pernas cambaleando e ajoelhou-se ao lado de suas irmãs. As três se abraçaram, e pela primeira vez desde a queda de Cortina Escarlate elas se sentiram completamente sozinhas.
— Por favor, prometam-me que jamais farão nada parecido. Que isso jamais lhes passe na cabeça, contem comigo para tudo — suplicou Lydia. — Eu não suportaria perder alguma de vocês sem entender o motivo, e lutarei com todas as minhas forças para mantê-las seguras debaixo de minhas asas.

O embarque de Auria para a Vila das Pérolas atrasou em cerca de uma semana. Não houve grandes honrarias, tendo em vista que o exército agora o considerava um “desertor” de sua raça. Nenhum parente compareceu, pois Tellum não tinha mais ninguém. Diana guardou a medalha que o guarda-costas lhe presenteara quando pequena no dia em que Cortina Escarlate caiu, pois prometera que um dia devolveria quando crescesse.
O luto mal havia passado e Auria se viu no trem viajando de volta à província de Myriad, com a espada que ganhara de presente ainda embrulhada. Mal tivera tempo de praticar, pois seu professor não estaria mais ali para treiná-la quando voltasse.
Era comum que jovens discutissem suas ambições e preferência de classes nos vagões, adolescentes com grandes pretensões na carreira e ansiosos por fazer novas amizades que poderiam durar toda uma vida. Auria mantinha o olhar distante na janela, incapaz de entrosar ou sequer interessar-se pelo assunto dos demais.
— Meu maior sonho é algum dia me tornar um grande general do exército da Fortaleza Azul! Quero vestir farda e a capa com estrelas prateadas! — disse um rapaz.
— Já eu quero ser pesquisadora, vou me especializar em Bausonne e estudar a magia na capital dos magos, bruxos e feiticeiros — respondeu uma garota cheia de empolgação.
O assunto foi indo de assento em assento até chegar a vez de Auria. Por um instante foi como se o vagão inteiro estivesse em silêncio para ouvir o que a mais nova dos Mercer tinha a dizer sobre seus sonhos e objetivos, mas ela desculpou-se e pediu que não criassem grande expectativa. Seus sonhos pareciam simples e genéricos aos olhos alheios, mas para ela sempre carregaria um significado imenso.
— Eu só quero ajudar os que mais precisam.



 

  7 comentários:

  1. Yooo Canas

    NÃO CONSEGUIMOS PROTEGER O TELLUM NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
    Começando do início...
    Essa terceira parte começou com polêmicas. Primeiro, Auria está corretíssima, tem que esconder chocolate sim, uma barra é pra uma pessoa e fodase hqushuashuahus Segundo, uau Lydia. Na verdade é incrível ver como eu to criando muita empatia com ela desde que comecei o livro 3, a gente sempre julga ela superficial, mas geralmente são os que tem mais problemas complexos. Tenta imaginar que como mais velha, ela teve que descobrir tudo sozinha sem aparentar medo para não assustar as mais novas.
    E por falar em descobertas, é bem legal ver como a Auria reage, essa sensação de "eu não deveria estar vendo isso" é algo que você passou até pro leitor, e juro que senti meu coração acelerar com as duas amantes. Bom trabalho hausahushuahu

    Isso me faz pensar o quanto a Auria evoluiu com o Ralph, a jornada em Matéria 1 foi uma puta evolução, no 2 ( sem spoilers ) parece que ela atinge o estágio final, e tudo isso a gente só vai perceber quando ler esse especial. Tudo que acontece está conectado, e espero que as pessoas possam sentir esse gostinho num futuro próximo <3

    Ah meu querido Tellum. Devo dizer que eles tá na minha lista de crushs em todo universo de Sellure (mas ninguém vai roubar o posto do meu querido Raito <3).
    Eu já ressaltei a importância dessa figura masculina, mas é sempre bom falar em como ele deixou a Auria um pouco menos... insegura.
    Gosto como ela perguntou para ele sobre o que ela viu, talvez pq ela sabe que o Tellum é um anjo e nunca faria um escândalo ou arrumaria confusão. Um ponto muito bacana é sobre as Mercer, elas me lembraram sobre as Gerudos, adoção é um ato muito nobre que merece reconhecimento e salvas de palmas. Me pergunto se no futuro, a Auria seguiria esses mesmos passos e adotaria crianças? <3

    E pra finalizar, com aperto no coração, ver o final do Tellum é comovente.
    E mais uma vez, você esconder palavras fortes e usar termos que deixar tudo subentendido aumenta ainda mais nossa ansiedade e tristeza. Acho que acaba ficando vários questionamentos de como, quando, onde e porque, e isso aumenta mais o sentimento de luto no leitor. E é triste encarar como a Auria estava tão ingenuamente incrédula com isso, tentando resgatar uma mente mais infantil pra não ter que pensar na morte e encarar isso com menos dor, mas ela cresceu, e infelizmente, sabemos que morte é uma realidade.Cada reação das irmãs só reafirma as suas personalidades, a Lydia com raiva, a Diana perto da aceitação, apesar de estar na depressão, e Auria eu consigo imaginar um misto das fases do luto, a negação, junto com a barganha e a depressão. É um retrato lindamente triste :(

    RIP Tellum. Always in our hearts <3

    "Eu só quero ajudar os que mais precisam."
    E eu espero que você consiga, minha guerreira com Alma de Diamante :3

    Parabéns pelas 3 partes, Canas, fico feliz que isso tudo tenha saído depois de tantos anos mudando. E parabéns pelo 1° ano de Matéria <3

    See ya

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    1. EU NEM IA DESENHAR O TELLUM, MAS DEPOIS DESSE ESPECIAL PRECISO FAZER A FICHA DELE! Aguardando ansiosamente as impressões de Star sobre o livro 3 quando o Tellum der as caras, sabe-se lá por quais motivos kkkkkkk

      E tem mais é que esconder chocolate mesmo, doce é doce, família e trabalho é coisa à parte HAEHHUAE Pô, é ótimo finalmente ter alguém para compartilhar mais sobre a Diana e a Lydia, estou dando pistas sobre elas desde o Livro 1, mas elas estão entre minhas personagens mais antigas. A Lydia é quase que uma manifestação da Wiki (só que obviamente sem tudo que faz a Wiki ser um ícone kkkk), ela está sempre tomando decisões erradas, mas faz de tudo para proteger sua família e dar uns pegas nos caras bonitões da fortaleza, claro. É um arquétipo de personagem que amooo trabalhar, e já devo fazer isso desde 2010 quando postei uma fic no Nyah com Cynthia e Steven chamado "I Remember".

      A Auria teve uma evolução que eu NUNCA teria previsto! Eu achei interessante de sua parte mencionar na nossa última call que é capaz de eu terminar os 4 livros e ainda considerar o 2 meu favorito, porque é uma jornada tão especial, foi tudo tão espontâneo! De garotinha em perigo a Auria conseguiu sair das sombras e se tornar a minha favorita também, por isso tenho quebrado a cabeça para dar um final à altura para ela. Foi o passado que eu mais me dediquei a escrever junto com o do Lee, são capítulos que eu adoraria ter incluído no livro de alguma forma...

      Prometo que vou caprichar no desenho do Tellum para ele ser seu crushão guarda costas kkkkk Nossas conversas sobre esse especial me abriram os olhos para muitas ideias! Sempre fico muito feliz quando a pessoa encontra os detalhes que escondo em cada parágrafo, e isso é tão raro. É uma das coisas que mais me senti falta das fanfics, desses longos comentários feitos de capítulo em capítulo com momentos de surto e sentimentos extrapolando o limite de palavras, era maravilhoso kkkkkk Obrigado por me proporcionar mais um pouquinho disso tudo <3

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  2. AAAAAAAA esse cap foi bem inesperado, principalmente desde o inicio. Auria é uma personagem incrível e com um desenvolvimento muito bom ao longo do livro 2, estar aqui e saber tudo o que ela passou me faz pensar que se alguém me perguntar quais as melhores personagens de Matéria para mim, ela está na lista hehehe Obrigado por isto <3

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado do capítulo, Shii! Você não sabe o quão inseguro eu estava para postá-lo, fiquei com receio de tocar temas delicados, mas a verdade é que já deixei de me importar com isso há muito tempo kkkkkk Os assuntos mais difíceis de se tratar são os que mais precisam ser discutidos!

      Como sempre, faço o possível para que nada pareça agressivo ou forçado. Para vocês que leram o livro 2, de repente tudo começa a se encaixar, né? A melhor coisa que fiz foi esperar todos esses anos para postar esse especial da Auria, ela nasceu como a garota durona do time e quanto mais eu escrevi sobre ela, mais passei a compreender o que realmente passava em sua cabeça. Significa demais saber que a Auria está entre suas favoritas de Matéria! Espero que mais pessoas também possam se impressionar com a jornada dela quando o livro 2 for lançado. Seu feedback sempre é extremamente importante para mim <3

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  3. Tellum...why does that name sound familiar? Maybe I'm thinking of how Lignum sounds similar, but amazing chapter man, it's shocking to see how rough Auria had it and how her family is just getting by, and poor Lydia having to do that to help her family! You really pull no punches with this series and go into some really dark territory, and in a good way of course, you show how ugly and hard life can be while still pulling off those more lighthearted moments in the rest of the story!

    Really wondering now what happened with Tellum and thinking he might show up in Auria's book somehow later on, and damn good work on how it sets up Auria heading to the same school as Ralph and even showing us a side of her that we don't get to see in the book that often! Marvelous work as always and sorry for being slow to catch up on all your work man, keep at it!

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    1. Both Telum and Lignum comes from latin, which is the language that originated many other languages from Latin America, including portguese which I speak. Telum means something like "weapon" and Lignum means "wooden", that's why they look so familiar! Both characters have such strong connections with Auria and Ralph.

      I'm really glad you finished this chapter man, it's a very important part from Auria's past and it means so much for her as she grows on Book 2 and 3. And I just love telling stories about the difficult part of our lives, our struggles and suffering, because it's good when a reader can connect with our heroes and realize that they can overcome all that too.

      Yes, Tellum will indeed show up Book 3, even though it's really, really far away. But I think it's a good closure to his story! Thank you so much for reading it and taking your time to write this comment, I was really scared people didn't understand what I was trying to show, because Auria always said she wanted to save the people who needed the most, and I wanted to show where all this begun, because she doesn't want to lose anyone anymore... Thanks again, and see you next time!

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    2. OOOH I see now, thanks for clearing that up man!

      aye I could only imagine, and you nail it as always man! It's hard but inspiring in a way!

      Dude I'm more than honored to read your stuff! See you then man!

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