domingo, 4 de setembro de 2016

Mundo Elemental - O Escolhido [Resenha]

"O que você faria se fosse parar em um mundo onde a magia e todos os seres e criaturas fantásticas que só conheciam pelos filmes e livros existem? E ainda por cima, uma profecia diz que você é o Escolhido e deve libertar os povos oprimidos e matar um poderoso feiticeiro que existe naquele mundo.

Peter, junto com seu primo Thomas, atravessou a barreira dos universos e agora precisa decidir entre voltar pra casa ou tentar cumprir o destino que todos dizem ser dele.

Lyla, uma garota aparentemente normal, descobre com a chegada do Escolhido que foi encontrada na vila ainda bebê e que precisará viajar junto de Peter e Thomas para desvendar seu passado e descobrir quem, ou o que, realmente é. 

Junto de seus amigos, Peter descobrirá um mundo novo e verdades que seu próprio mundo desconhece. Terá que enfrentar situações perigosas, tomar decisões difíceis, e principalmente, aprender a acreditar em si mesmo."

Autor(a): Débora Santana
Idioma: Livro Nacional - Português
Lançamento: Agosto de 2016
Altura e largura: 23 x 15,5 cm
Número de páginas: 458
Editora Arwen


Mundo Elemental - O Escolhido é uma história de ficção, aventura, romance e fantasia; o primeiro livro publicado pela autora Débora Santana junto da Editora Arwen. Acabei por conhecer a Débora quando visitei seu blog à procura de um artigo que me ajudasse no registro de meu livro em São Paulo. É engraçado como as coisas funcionam na internet, mas nunca imaginei que quase um ano mais tarde eu acabaria por me esbarrar com sua primeira obra na Bienal do Livro de 2016, e senti interesse imediato porque sempre fui apaixonado por fantasia. Infelizmente não consegui pegar um autógrafo com a autora por um dia de diferença, mas fico contente que ela tenha realizado seu sonho de publicar um livro com a Editora Arwen, que cada vez mais tem me cativado com seus trabalhos incríveis.

Nessas mais de 450 páginas em que estive presente em Luthera, pude aprender um pouco sobre a Débora, seus personagens e o que a fascina. Tomei conhecimento de que ela ingressou no mundo da escrita com uma fanfic de Crepúsculo, aos 14 anos. Isso é muito bacana, pois há muitas pessoas — inclusive eu — que começaram a escrever como um simples hobbie, primeiro com histórias de jogos, filmes e séries que tínhamos muita afinidade, e em seguida levando a ideia além, quem sabe até como carreira. Para mim, o prazer da leitura está em compreender a mensagem que um autor deseja passar, enxergar algo dele nos personagem e lugares pelos quais irá nos guiar nessa aventura. Este é o propósito da fantasia, não?

Capa, Design e Editoração

Vamos fazer uma breve análise do design gráfico da obra. Pelo que sei, esta é a segunda capa do livro, pois me lembro da primeira versão com muito mais verde e fontes diferenciadas. As tonalidades em azul e roxo trouxeram uma ideia de serenidade e a influência da magia nesse mundo, em contraste com o verde antigo que passava somente a ideia de uma selva densa.

Há inclusive um mapa muito bem feito logo nas primeiras páginas, para termos uma ideia da riqueza trabalhada neste mundo e a possível ideia de futuras continuações.

A fonte é Garamond, folhas em pólen e um espaçamento de 1,5cm entre as palavras, tornando as 458 páginas mais curtas e rápidas de se ler do que aparentam. Todas as páginas possuem adornos em forma de raízes e flores, que faz muito jus à autora. Para mim, a capa estaria impecável, se não fosse por alguns pequenos detalhes...

Por algum motivo, escolheram colocar um rapaz qualquer virado de costas para ilustrar Peter, o protagonista, e sua enorme mochila. A mochila é vermelha e está praticamente centralizada, chamando quase tanta atenção quanto o título, e entrou em contraste total com a ideia do místico e fantasioso. Entendo que a ideia era justamente a de mostrar um "invasor" neste universo, mas a forma como foi aplicada faz com que a mochila pareça um elemento aleatório que colocaram ali. Faltou harmonia e suavidade, tanto que Lucila (para mim, a verdadeira protagonista) acabou ficando só na parte de trás do livro, e ela teria cumprido seu papel muito melhor em destaque.

Os problemas de verdade começam na cor da fonte utilizada para o resumo do livro. Está ilegível, como pode ser visto na imagem logo ao lado. O mesmo ocorre na orelha, onde há informações importantes da autora e da obra que acabam dificultando a leitura.

O problema mais grave que encontrei foi com a revisão. É aceitável que livros tenham alguns errinhos de digitação perdidos por aí, afinal, só quem escreve e lê suas histórias mil vezes sabe que alguma coisa sempre escapa; todavia, deparei-me com sérios erros de português que não poderiam ter passado batido pela equipe. Entre eles, os que mais me incomodaram foram o uso de "porque" e "por que" completamente invertidos, "iram" ao invés de "irão", balanÇei e soMbrancelhas. Infelizmente, tais gafes desconcentraram muito a leitura.

Sobre a Obra e a Autora

O mundo criado por Débora Santana tem fortes influências do universo de Tolkien, e isso é deixado bem claro nos agradecimentos da autora. Vemos dois jovens do mundo real que acabam por atravessar um portal em uma árvore e ir parar em um universo com magia, espadas e dragões (mesmo que pequeninos). Antes de iniciar uma resenha, gosto de pesquisar todos os hobbies e atividades extra-curriculares dos autores que encontro; procuro sites, blogs, seus perfis no facebook e até mesmo instagram ou twitter, afinal, a proximidade é uma das maiores vantagens das obras nacionais, não?

Esta é também uma excelente forma de entender o livro e a mensagem que o autor quer passar com ele. Por exemplo, fica claro que a Débora tem um carinho especial pela comida, sendo que praticamente todos os capítulos no início da jornada davam destaque de uma boa refeição. De início eu achei estranho — diria até dispensável —, mas desde os tempos de Tolkien e Lewis eles fazem lindas descrições de nos dar água na boca e valorizam muito a ceia, percebo que a Débora teve um carinho especial na hora de criar o alimento e cada refeição dos personagens. Afinal de contas, ela é formada em técnico de cozinha!

Quando somos apresentados a um mundo novo é importante irmos com calma, e nisso a autora seguiu seu próprio fluxo. Uma das partes que mais me interessaram foram as discussões sobre o passado do reino, as nomenclaturas próprias para "Dia" e "Mês" que são usadas até o fim do livro, e sua mitologia. Débora começou bem, nos entregou um universo mágico muito interessante, mas com o tempo damos de cara com elfos, centauros e seres muitos belos; percebi que ela desapareceu completamente com os anões e outras criaturas esquisitas. Todos são lindos e admiráveis, como numa história de Crepúsculo, e é exatamente aqui onde entramos no tópico seguinte...

Aventura ou Romance?

Vejo o romance como uma das maiores habilidades da autora. O livro todo contém pequenas conversas clássicas de adolescentes, sempre que os personagens tiram um tempo para ficarem a sós rola um clima, um flerte aqui e outro ali. Isso com toda certeza foi herdado da época em que ela escrevia fanfics — ou ficção de fã —, onde os capítulos são postados aos poucos em um site apropriado para os fãs de um titulo famoso como Harry Potter, Crepúsculo, Pokémon ou tudo que você imaginar. Outra característica de fanfics que senti foi a transição de dia que geralmente ocorre de um capítulo para o outro, permitindo que o leitor pare a leitura e possa retomá-la quando quiser.

Seu carinho pelos elfos e a raça dos whitelighters é notável, talvez mais até do que o próprio Peter, o suposto  protagonista. Em suma, eu diria que a verdadeira protagonista da jornada foi Lucila (a moça que ficou só na parte de trás do livro, e bem que poderiam tê-la colocado na frente ao invés de Peter e sua mochila). Lyla é quem recebe mais atenção e carinho por parte da autora, e revela-se como a personagem mais interessante da obra, procurando compreender seus poderes que vão desde cura, ler runas e ter uma pontaria melhor do que a dos elfos, mas, principalmente, descobrir quem são seus pais.


O momento do flashback  *alerta de spoilers* de seus pais, Luccios e Xiomara, é provavelmente um dos melhores arcos. Foram cerca de três capítulos inteiros dedicados a eles, com direito a cada detalhe de como foi a relação destes dois jovens que se apaixonaram em um amor proibido, e ainda tivemos um vislumbre do passado do vilão, explicando um pouco mais de suas motivações que envolvem sentimentos comuns como vingança, medo, insegurança e megalomania.

Há lugares muito interessantes em Luthera, como o cativeiro onde monstros diferentes eram mantidos reféns sofrendo experiências; temos também as principais cidades dos elfos e whitelighters que apresentam-se de forma deslumbrante, mas na maioria dos casos o reino se revela apenas como uma ampla terra coberta em trevas, repleta de árvores, bosques e algumas vilas espalhadas.

O Mundo Elemental da Débora seguia muito bem, mas houveram alguns deslizes durante a obra que comprometeram a qualidade final.

Defeitos e Deslizes?

Glorfindel? Gondor? Valinor? Feänor? Finwë? Esses nomes com toda certeza são familiares para quem é fã assíduo das obras mais acadêmias de Tolkien como O Silmarillion. Sou fã dos filme e mais ainda dos livros, o problema que encontrei foi a mistura de dois universos de uma forma que tudo pareceu... uma bagunça. É compreensível que não exista somente um personagem com estes nomes, mas conhecemos um Glorfindel senhor élfico e por um instante começamos a pensar se o intuito da autora não era brincar com o fato de que Luthera e a Terra Média são parte do "mesmo universo".

Eu acredito que a mitologia criada pela autora estava indo muito bem, até ela fazer referências demasiadas ao universo de Tolkien. Tornou-se... desnecessário. São deuses novos, povos novos e origens novas; colocar qualquer semelhança só fará com que pessoas comparem, um fã mais recente pode confundir-se e quem é totalmente leigo tem aquela impressão: "Mas eu já ouvi esse nome em algum lugar..." São tantos nomes de origens diferentes que fica difícil sentir uma harmonia entre eles. Luthera estava para se tornar única, mas de repente tropeçou e se embaralhou toda. Temos nomes élficos diretamente do mais puro sindarin e quênia em um lado, e do outro temos Ryan.

Entre tantas ideias interessantes, temos algumas que se perderam no caminho por deslize da autora. A presença do dragãozinho Pan é promissora, só que ele aparece duas ou três vezes para fazer algo, e depois você nem se lembra mais que o bicho está no grupo.

Livro Grimório é outro desses artefatos mágicos incríveis que não conseguem cumprir com sua função. Ele consegue localizar qualquer pessoa no mundo e faz tanta coisa surreal que é até difícil explicar. Mas, sendo bem sincero, era só propaganda! Após os personagens se reunirem e se esforçarem ao máximo para encontrá-lo em uma difícil missão, o livro não funciona e posteriormente torna-se inútil, como afirmado pelo próprio rei élfico. Só serviu para ler runas, então? Capítulos certamente dispensáveis, que serviram mais para melhorar o relacionamento dos personagens e colocá-los em frente à novas  provações e situações de perigo que nos faz sentir mais raiva do livro do que contente em ver a galera toda quase morrer por causa dele.

Sobre os Personagens

Já sobre a equipe principal, temos cinco integrantes no grupo, e quatro deles possuem armas e técnicas parecidas.
Um a menos ali não faria falta, e é onde começamos este tópico.

Essa costuma ser a minha parte favorita nas histórias de fantasia. Prezo conversas e relações tão reais que nos fazem se apaixonar por seres que nem existem. Não tenho defeito para colocar em Lucila, ela funciona bem e cumpriu seu papel como a bela elfa que está ali para curar, ser um mistério e o interesse romântico de alguém ao mesmo tempo. O problema está em Peter, o protagonista, que por mais que tente pagar do "bom herói" parece estar fazendo tudo... por ela. Salvar o mundo? Ajudar a vila? Acho que não... Será que você não queria só passar algumas horas a mais com a linda moça de cabelos loiros e olhos azuis? Por mais que o romance deles se torne um pouco mais sincero com o tempo, está implícito que há um interesse dele maior nela do que no universo em si, tornando-o assim, um herói egoísta. Será que ele ainda se lembra do avô tão querido que morreu lá no começo, ou isso só serviu para lançá-lo nessa aventura?

Thomas é o clássico ajudante, um cara sem sonhos que está lá só para acompanhar.
Como mencionado pelo próprio personagem: "Já assistiu Sky High: Escola de Super Heróis? Então, eu sou o seu ajudante."
Ele não faz nada a história inteira. Só reclama e isso até é motivo de brincadeira para a autora. Imagino que ele esteja na história só para que o protagonista tivesse com quem contracenar no começo, mas, é sério, talvez Peter estivesse melhor sozinho. Não vejo como gostar de um personagem que está o tempo inteiro reclamando de algo e fazendo comparações com o mundo real, sinto que ele foi uma tentativa de inserir humor ali, mas se ele não estivesse presente, faria mesmo falta? Eu juro que esperei o pobre Thomas virar um traidor, ele tinha tudo para ser um personagem interessante no final. "O eterno segundo lugar, o cara que guarda mágoas do primo que sempre se dá melhor, o escondido pela sombra..." Mas não. Era apenas o Thomas fazendo suas piadinhas e, bem, servindo sua função de ser um alívio cômico. Se ele tem ou não um propósito maior em futuros livros, então vamos torcer que torne-se maldoso, porque só assim passarão a reparar mais nele. Imagino que haja algum tipo de carinho especial da autora pelo personagem, embora algumas vezes mudanças sejam necessárias!

Eron e Megara são as maiores promessas da trama, mas na maioria do tempo estão ali para lutarem. Por mais que suas histórias sejam bem trabalhadas e as mais interessantes do livro, nenhuma delas é de fato concluída até o final deste volume.

Há um dado momento somos apresentados à família de Lucila, e, por todas as divindades, é uma família ENORME! São quase três páginas de pais, mães, tios, tias, primos e primas; que apesar de não acrescentarem muito ao roteiro, entram para mostrar um pouco da força da família real. É nesta hora, com tantos nomes confusos e personagens novos apresentados de uma vez só, que o restante se perde. Vemos o foco em Lyla, Peter, e o resto. A partir deste ponto, tudo que importa são eles.

Há uma série de capítulos narrados na visão de Lucila, a começar pelo Prólogo, mas na verdade o livro é escrito em terceira pessoa... ou deveria ser? Não costumo gostar de trocas súbitas de narrador, entendo quando são diversos personagens diferentes e a partir daí trabalhamos os P.O.V. (Point of View) diferentes de cada um deles, mas a troca me parecia um pouco desnecessária. Quando estávamos fartos de Peter e seus amigos, a autora mostrava capítulos na visão de Lucila, provavelmente para aprofundar mais suas emoções e descobertas, mas a mudança pode incomodar alguns leitores, e muitas vezes quebrou o sentido de continuação.

A batalha final é muito rápida, parece que não foram mais de quatro páginas de guerra, pois perdemos tempo falando sobre a família de Lucila e até mesmo do passado de seus pais — que apesar de eu ter adorado, poderia ter sido um especial tratado separadamente, quem sabe até postado de graça no blog, para que qualquer um pudesse ler. Isso provavelmente teria barateado o custo da produção. O tamanho certamente assusta alguns, afinal, estamos falando de um livro de 450 páginas de autoria nacional, as pessoas ainda têm preconceito e sinto isso na pele. No começo temos as aventuras menores com foco no desenvolvimento, missões e treinamento dos personagens para que eles se conheçam melhor; a metade é onde tudo fica interessante ao descobrirmos mais dos mistérios de Lyla, mas no fim tudo se torna corrido por conta de tantas figuras e elementos que precisavam ser finalizados antes de derrotar o vilão Magnus, que também poderia ter ficado para um futuro volume, deixando para este um general inimigo de maior influência (mas levando em conta que um bando de jovens derrotaram seus melhores generais, sinto que não havia mais quem pudesse enfrentá-los de qualquer maneira...)

Considerações Finais

Mundo Elemental é uma história que tenta ir longe, mas talvez tenha se embaralhado no caminho. Temos personagens interessantes que se perdem em suas funções e são lançados para escanteio, magias e cenários incríveis que deveriam ser explorados mais, mas acabamos concentrando a atenção no passado que parece muito mais interessante que o futuro.

A autora falou da natureza, de ricas refeições, mitologia, criaturas belíssimas e passados bem escritos; mas temos um vilão pouco marcante que não é nem de perto o suficiente para combater "O Escolhido" em toda sua glória, afinal, ele foi feito para ganhar, não? Disso ninguém nunca duvidou. As melhores partes se resumem ao momento em que não temos foco nas guerras ou batalhas, o romance é a especialidade da autora; a aventura em si se resumiu a longas caminhadas atrás de coisas sem importância... O problema é que Peter e sua mochila na capa dão exatamente a ideia oposta, a de uma aventura em um mundo completamente novo, sendo que este não era exatamente o propósito do livro. O romance superou a aventura.

Esta é a minha primeira experiência com a editora Arwen, e por mais que eu adore seus projetos, senti que faltou um pouco de carinho com Mundo Elemental, principalmente na revisão. Vejo na Débora um potencial enorme para continuar sua história de fantasia, concluir o desfecho que restaram de seus personagens e mostrar uma ameaça mais assustadora do que Lorde Magnus representou para Peter e seus amigos. Mundo Elemental é um livro interessante para quem não tem muito contato com universos de fantasia e procura mais foco nos romances e relacionamentos de seus seres fantásticos, como elfos, quem sabe até vampiros... Já li tanto os livros de O Senhor dos Anéis quanto Crepúsculo — que para muitos são dois opostos completos —, mas se você se sente atraído por ambos os títulos, então pode ser que tenha uma agradável leitura.

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