sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O Passado da Ordem - Travessuras na Escuridão (Parte 3)


Travessuras na Escuridão
– Elma 

Como o público estava escasso nos mercados de Elmud nas semanas que se seguiram, Tootie e a Srta. Cléo se dirigiram rumo ao sul em direção a Bausonne, capital de Century. Bastava-lhes um espaço amplo e um carpete esticado para começar as apresentações — Cléo fazia uso de seus poderes para manipular areia e criar esculturas mágicas que se moviam, o que animava sua audiência e lhe rendia alguns trocados. Tootie a observava cheia de admiração, treinando sempre que podia. Carregava consigo um pequeno vaso de areia de sua terra natal para praticar os próprios bonecos, mas nunca conseguiu fazê-los se mover por conta própria, pois se desmanchavam em poucos minutos.
Durante uma das apresentações de sua senhora, Tootie percebeu que outra criança aproximou-se dela, avaliando o seu mais recente trabalho.
— O que é isso? — perguntou o menino.
Tootie encolheu os ombros e desejou que ele fosse embora. Sua memória a levou de volta para as tantas vezes em que ouvira alguém criticar seu trabalho, insultar seus bonecos e chamá-los de monte de bosta; isso quando a situação não envolvia gente de mal caráter que só queria se aproveitar de sua inocência.
O garotinho loiro, que assim como ela devia ter por volta de seus dez anos, apoiou-se nos joelhos para entender melhor o que a garota estava fazendo.
— Isso é muito legal — ele falou ao tocar com a ponta do dedo a cabeça da escultura que se desfez. — Eita, me desculpa! Eu não queria ter estragado...
— Tá tudo bem — respondeu Tootie, cabisbaixa. — É só fazer outro.
— Você é uma tótines também?
Tootie fez que sim com a cabeça, concentrada em seu trabalho.
— E como consegue dominar seus poderes tão bem com essa idade?
Tootie parou por um instante e olhou para ele.
— Você tá sendo irônico? — ela perguntou cheia de insegurança.
— N-não, é que eu nem descobri os meus poderes ainda — o rapazinho falou meio encabulado. — Ah, quem me dera saber controlar um dos grandes elementos. Até agora eu só descobri a minha transformação, mas nem isso eu faço direito.
— E no que você se transforma? — Tootie continuou.
— Ah, não é nada demais — disse o menino, tentando não soar convencido. — Consigo dobrar de tamanho, faço asas crescerem e me transformo em um dragão!
— Jura? — Tootie disse boquiaberta, estava incrédula. Ela revirou seu jarro de areia e começou moldar o barro e terra até que tomasse a forma de um dragãozinho em miniatura. — Que nem um desses aqui?
— Sim, só que bem maior! — falou o menino. — Acha que consegue fazer um desses gigante? Seria legal se pudéssemos voar nele para longe daqui.
A menina concordou, revirando a bolsa de sua senhora em busca de mais areia. O garoto ficou de olho e percebeu a pérola que escorregou para fora, mas logo voltou ao seu local de origem. Ele voltou a encarar Tootie, que sorria animada com o reconhecimento.
— Ainda não sei seu nome — ela insinuou.
— É William.
— Que chique — Tootie revelou um sorriso meigo. — Eu queria ter um nome assim.
— E qual é o seu?
— É Tutantótines Ankha, terceira da minha linhagem.
— Hah, hah. Tá falando sério?
— Pode chamar só de Tootie — disse a menina, ajeitando a franja atrás da orelha.
Durante algum tempo, as duas crianças trocaram interesses e se divertiram montando esculturas de areia. Cléo lhes lançava olhares de relance, parecia satisfeita pelo fato de sua menina ter encontrado alguém com quem pudesse se divertir, permitindo que ela continuasse seu show sem que fosse interrompida.
Quando estava entardecendo, Bill levantou-se e limpou a barra da calça, suas vestes eram finas, mas ele não se importou em sujá-las um pouco por causa da terra em suas mãos.
— Está ficando tarde, minha mãe deve estar preocupada — disse Bill.
— Tudo bem. Adorei te conhecer — falou a menina. — Acha que posso te ver de novo?
— Claro! Em que parte da cidade vocês moram?
— Nós não temos uma casa — disse Tootie. — Eu e a Srta. Cléo seguimos para onde houver movimento, mas temos um esconderijo bem afastado no norte do Deserto Elmud, entre as montanhas.
— Em Elmud? E vocês vieram andando todo esse caminho?
— Já estamos acostumadas.
— Puxa, eu até as convidaria para ficar em casa, mas... — Bill cerrou os punhos. — Bem, espero que dê tudo certo para vocês. Nos vemos por aí, Tootie.
O menino acenou para ela e misturou-se entre a multidão. Como o público também tinha diminuído, Cléo deu por encerrada sua apresentação e começou os preparativos para a partida.
— Encontrou um namoradinho, é? — caçoou a mulher.
Tootie virou-se para ela com os olhinhos apaixonados e perguntou:
— Eu posso casar e ter filhos com ele?
Tá louca?! Quem anda te ensinando essas coisas, menina?
— F-foi a senhora! — respondeu, amedrontada.
— Você é muito nova para entender essas coisas. Ouça o que estou dizendo, todo homem tem segundas intenções quando se aproxima. No fim das contas, você sempre vai quebrar a cara.
— Mas o Bill é diferente. Ele é fofo, um verdadeiro cavalheiro, e consegue se transformar em um dragão!
— Olha a bolsa — ordenou sua tia.
Tootie abriu a bolsa e contou ali as moedas adquiridas na tarde, estava no seu devido lugar; o jarro de areia, brinquedos e pertences pessoais, mas algo desaparecera.
— A Pérola — confirmou a menina, sua expressão minguou até se transformar em desamparo. — Foi... foi ele quem roubou?
— Você ainda tem dúvida? Eu fiquei só de olho, mas não quis perturbá-los, porque senti que estavam se divertindo de verdade. O garoto tem mão leve, mas não leva jeito para ser um ladrão, pela forma como estava vestido deve estar passando por dificuldades.
— M-me perdoa, Srta. Cléo... — lamentou-se Tootie com lágrimas nos olhos. — Eu sou mesmo uma imprestável... sei como aquele tesouro era muito importante para você, e eu o perdi.
— Ora essa, então vamos lá recuperá-lo!
— Mas como?
Cléo apontou para o chão onde se via uma fileira de pequenas criaturinhas de areia parecidas com baratas. Elas se aglomeravam aos montes e passavam despercebidas na cidade, mesmo quando pisoteadas, reassumiam sua forma e continuavam indicando o caminho por onde o menino loiro passara. As duas aprontaram seus pertences e seguiram o rastro do gatuno.

i

Bill estava suando de inquietação e ansiedade, era a primeira vez que furtava alguma coisa, fora bem mais fácil do que imaginara. Primeiro sentiu um aperto, pois realmente gostara de Tootie; mas depois veio o alívio e satisfação, uma vez que a pérola roubada tinha um brilho dourado tão intenso que deveria valer uma nota.
A estrada de tijolos amarelos serviu como referência para encontrar seu caminho até o parque, onde as ruas eram pouco iluminadas e as árvores montavam uma muralha verde em volta de uma construção antiga. Havia uma mulher solitária sentada sobre um banco de madeira desbotada, o menino correu até ela e mal conseguiu expressar-se devido a agitação.
— Bill, onde esteve? — Sua mãe levantou-se apreensiva, cogitara tantas opções de castigos que agora só conseguia sentir-se aliviada em ver o seu menino a salvo. — Você sumiu a tarde toda, não brinque assim comigo!
— Você não sabe o que eu consegui! — falou Bill, retirando uma sacola de pano do bolso que continha a Pérola de Ouro.
— Onde encontrou isso? — perguntou Amélia com o semblante alterado.
— Eu encontrei na rua. Sei que as pérolas perderam o valor comercial há muito tempo, mas essa aqui parece diferente, né? Nós podemos tentar vendê-la para conseguir dinheiro e recuperar nossa casa!
— William Von Altenburg, eu só vou perguntar mais uma vez: onde foi que conseguiu essa pérola?
O garoto desviou o olhar, pois nunca sabia como encarar sua mãe furiosa. Imaginava que seria recompensado de alguma maneira, ansiava por vê-la sorrir outra vez; não conseguia mais suportar aquela vida nas ruas desde que seu pai e seus irmãos foram mortos.
— Eu roubei porque a gente precisa mais do que eles.
Ouviu-se um tapa que ecoou distante no parque. Bill segurou o choro e manteve a fronte baixa. A dor que o consumia era por tê-la desapontado.
— Não se permita rebaixar. Não perca sua dignidade — disse Amélia.
— M-mas eles levaram tudo que nós tínhamos, mamãe... eu nunca vou conseguir viver nas ruas — lamentou-se o menino. — Eu queria que o papai estivesse aqui. E o Zack, a Velouria...
Amélia ajoelhou-se e envolveu o garoto em seus braços. Bill assustou-se ao vê-la chorar também, os últimos meses não tinham sido nada fáceis; sem o trabalho de seu pai a casa foi a leilão e eles tiveram que sair às pressas, Amélia não tinha condições de manter a vida dos Altenburg como nos tempos áureos e o medo constante de que a Silenciadora voltasse para finalizar o trabalho lhe arrancava qualquer paz e sossego. Bill juntou os braços e permitiu-se chorar baixinho no colo dela, onde ninguém veria seu momento de fraqueza.
— Eles não levaram tudo, porque ainda tenho você, meu bem — falou Amélia com a voz doce, aninhando-o para próximo de si. — Meu menino.
— Sei que o que fiz foi errado, mamãe... elas foram tão gentis comigo...
— Você saberia reconhecê-las? Podemos ir ao mercado amanhã e, se você encontrá-las, devolva a pérola e peça desculpas. Pode ficar tranquilo que estarei ao seu lado e darei uma explicação.
— ... nenhuma explicação será necessária — ouviu-se uma voz distante.
Bill encolheu-se atrás da saia da mãe quando a Srta. Cleópatra surgiu das sombras. Ao seu lado estavam dois gigantescos golens feitos de terra como se fossem seus seguranças. A pequena Tootie também a acompanhava, os olhos avermelhados e a desconfiança de que o ladrãozinho voltasse a tramar mais alguma coisa contra ela.
— Não será necessária violência. Aqui está o que foi furtado — respondeu Amélia, oferecendo a sacola de pano.
— Oh, mas depois de roubar o coraçãozinho de minha menina, acha que permitirei que saiam impunes? — confrontou Cleópatra, dando a entender que não perdoaria aquela ousadia tão facilmente.
Amélia reuniu suas mãos, de onde pequenos pedaços de algodão começaram a se aglomerar até se transformarem em um monstro fofo e branquinho que tentava ser ameaçador. Cléo arqueou uma das sobrancelhas e perguntou:
— É sério isso? Se eu assoprá-lo é capaz desse bicho desaparecer.
— Bem, nossa família não é muito conhecida por ter magias poderosas, mas... lutamos com as armas que nos são oferecidas, não é? — respondeu Amelia com um sorriso encabulado.
Cléo fez uma pose dramática e riu de forma histérica. Tootie não sabia se devia copiá-la ou se continuava quieta, pois estava louca para abraçar o monstro de algodão.
— Poupe-nos desse showzinho! Eu jamais atacaria uma mãe ao lado do filho. Sem contar que sou uma mulher das ruas experiente e não permitiria que um tesouro como aquele ficasse jogado onde qualquer idiota pudesse ver.
Ao estender a mão, Cléo materializou uma Pérola de Ouro semelhante àquela roubada por Bill. Amélia verificou a sacola e percebeu que só havia areia dentro.
— Agora que terminamos aqui, vamos ao que realmente importa. Eu quero que o seu menino peça desculpas para minha menina — ordenou Cléo.
— Err... só isso? — perguntou Bill. Então se cometesse algum crime, bastava pedir desculpas que tudo estaria resolvido?
— É, sim — falou Cléo com ironia. — Agora, se ela irá aceitar, aí é outra história.
Bill aproximou-se devagar e sem jeito, Tootie fez o mesmo até que os dois pararam a alguns palmos um do outro. Para crianças era sempre difícil admitir um erro, mas Bill gostara demais de conversar com ela e seus sentimentos foram sinceros. Bill leovu as mãos ao bolso da blusa e tirou dali um par de brincos delicados com duas esmeraldas.
— Eu peguei algo que era seu, então... quero que fique com isso — disse ele. — Pertencia à minha irmã, Velouria, mas acho que vai combinar mais em você.
O coração de Tootie plapitou, seu estômago encheu-se de borboletas que saíram voando. Nunca sentira nada parecido antes. Virou-se para sua tia e mostrou os brincos, pois a Srta. Cléo sempre fora apaixonada por apetrechos que realçassem sua beleza, e aquele par de pedras preciosas seria o primeiro a chamar de seu. Tootie abraçou Bill e prometeu usar os brincos para o resto da vida.
— E eu também não me transformo em um dragão — disse o menino envergonhado. — Na verdade, eu viro um guaxinim.
Tootie riu com meiguice da declaração.
— Se quer saber, eu acho guaxinins mil vezes mais legais do que dragões.
Amélia demonstrou alívio, afinal, toda aquela situação fora contornada da melhor forma.
Foi quando elas puderam ouvir um grupo de delinquentes que frequentava aquele parque ao anoitecer, rindo alto enquanto percorriam o parque quebrando latões de lixo e assustando animais. Cléo trouxe Tootie para mais perto, assim como Amélia fez com sua criança. As duas apressaram o passo para longe dali.
— São tempos perigosos para tótines andarem sozinhos — falou Cleópatra. — Siga-me.
As duas mulheres tentaram deixar o parque o mais rápido que puderam, mas o portão principal estava fechado. Dois homens cercaram a saída quando cinco outros indivíduos vieram logo atrás — entres eles havia humanos, monstros e até geckos, todos com um interesse incomum.
Não era a primeira vez que Cleópatra se deparava com mercenários. Há meses ouvia relatos de desaparecimentos constantes, tótines estavam sendo caçados por gente de má indole que visava grandes quantias em pagamentos, Amélia inclusive suspeitava que a invasão em sua casa fora de fato uma encomenda. Lembrava-se de seu marido ter relação com um misterioso grupo chamado de A Ordem do Selamento, mas ela pouco sabia sobre sua função.
O gecko de pele amarela que os liderava sacou uma adaga e partiu logo para a negociação:
— Passem já para cá a Pérola Dourada.
Cléo revirou os olhos, sabia que havia mais gente de olho em seus pertences enquanto fazia suas apresentações. Qualquer que fosse o desafio, tinha que proteger Tootie e jamais poderia se desvencilhar do único artefato que trazia alguma relevância para sua vida.
Com um giro rápido das mãos, as esculturas de areia voltaram a assumir forma; Amélia fez o mesmo com seu monstro de algodão.
— Podem ficar com o tesouro, o Doutor só quer mais cobaias — respondeu um dos integrantes da gangue.
O homem com um bastão de aço foi o primeiro a avançar de forma violenta, destruindo uma das esculturas de Cléo enquanto a outra era golpeada no estômago na tentativa de proteger sua senhora. Os poderes de Amélia revelaram-se úteis na fuga, pois seus inimigos não conseguiam atravessar as nuvens de algodão que se formavam e acabavam ficando presos ali dentro. Quando um dos assaltantes avançou por trás, as duas precisaram se separar e suas crianças acabaram ficando desprotegidas. Um terceiro homem tentou agarrar Tootie que gritava agoniada.
— M-me larga! Eu não quero ir! — exclamou a menina sendo puxada pelo braço.
Uma cortina de fumaça formou-se ao seu redor, ela gritou ao sentir alguém segurá-la do outro lado, mais tranquilizou-se ao notar que era Bill. Os dois desapareceram juntos, estavam invisíveis aos olhos dos criminosos que buscavam perdidos as crianças.
— Malditos sejam os tótines e sua trapaça! — exclamou o gecko furioso.
Cléo e Amélia se viram cercadas e com as costas reunidas, estavam em menor número e tinham as crianças para proteger, ceder não era uma hipótese. O monstro de algodão foi esfaqueado de forma impiedosa até que só sobrassem farrapos no chão, e nem mesmo os golens de Cléo puderam aguentar até o fim do combate.
A atenção dos criminosos desviou quando as luzes nos postes começaram a piscar. A iluminação precária do parque apagou-se por completo, os bandidos ficaram dispersos e assustados, sem entender o que acontecia. Ouviram gritos distantes de seus colegas, mas nenhum deles sabia contra o que lutavam. Amélia sentiu o corpo estremecer, Cléo revelou um sorriso discreto — o resgate estava a caminho.
Um a um os mercenários desapareceram, como se consumidos pela escuridão. Uma nuvem de fumaça atrás do banco denunciava que Bill e Tootie estavam escondidos ali, os pequenos foram correndo para os braços de suas protetoras quando perceberam que era seguro.
— Só porque a festa estava começando a ficar interessante? — disse Cleópatra.
— Diga por você — Amélia retrucou estarrecida, sequer acreditava que sobreviveria mais um dia.
Quando as luzes nos postes se acenderam, as duas mulheres se viram na súbita companhia de outros dois indivíduos — o primeiro deles era um garoto invocado de jaqueta de couro, não devia ter mais do que um metro e cinquenta, apesar de conseguir assustar só pelo olhar. Ao seu lado estava uma mulher formosa com cabelos volumosos e pele escura, ela trajava uma armadura leve e regata rosa claro. Sua arma era semelhante a uma lança alongada de aço com detalhes entalhados, como as usadas por cavaleiros em combates medievais.
— Aonde todos aqueles caras ruins foram parar? — perguntou Bill.
— Ah, eu só apaguei a luz e fechei a porta do quarto. Sabe como é, crianças morrem de medo do escuro — brincou o sujeito cheio de modéstia. — É um prazer encontrá-las aqui, senhoritas. Meu nome é Black Jack, e sou o líder da Ordem do Selamento.
— Sempre aparecendo quando a festa está para terminar, não é mesmo, Jack? — caçoou Cleópatra.
— Assim que é bom, não preciso ficar cumprimentando ninguém — brincou.
— Elma, você continua esplêndida, uma musa inspiradora!
— Obrigada, Srta. Cléo — agradeceu a mulher com um aceno.
Amélia não pôde deixar de pensar o quão baixinho ele era, até mesmo Bill era quase de sua altura. O assunto mudou de repente, e ela se tornou foco das atenções.
— Ah, você deve ser a esposa de Gregor Von Altenburg. — Jack retirou o chapéu em um gesto de respeito e fez sinal de condolências. — Ficamos sabendo do ocorrido, e... me desculpe por não ter chegado a tempo. Seu marido era uma influência magnífica, aprendi muito com o velho... ele vivia me convidando para jantar com sua família. O que aconteceu às suas crianças foi uma tremenda tragédia.
Amélia retribuiu a gentileza, mas não pôde deixar de sentir certo desconforto ao saber que um completo desconhecido parecia ter conhecimento de sua vida inteira. A própria Cleópatra agiu com surpresa por não ter reconhecido que Amélia era a matriarca da família Altenburg.
— Isso nos torna companheiras de trabalho, não? — disse Cléo com um sinal convidativo. — Teremos muito a conversar. Preciso de algumas dicas de como cuidar de crianças, porque você teve cinco e eu mal consigo cuidar dessa danadinha que nem é minha — ela apontou para Tootie.
— Eu poderia jurar que você era mãe dela — Amélia brincou.
— Que Araya me livre de ter filhos!
A conversa foi interrompida quando Tootie correu para abraçar Elma que a pegou no colo, enquanto Bill não sabia como reagir em frente aos colegas de trabalho de seu pai.
— E aí, pestinha! Qual seu nome? — perguntou Jack.
— Este é o meu filho mais novo, William — falou Amélia.
— O herdeiro dos Altenburg. Você tem futuro, garoto. — Jack deu-lhe um tapinha dolorido no ombro. — Me diz, quais são seus poderes? Herdou a força de pedra do seu pai?
— Ele consegue se transformar em fumaça! — disse Tootie como quem quer impressionar.
— Fumaça? Interessante, é possível explorar técnicas furtivas com isso, nunca tivemos ninguém que trabalhasse nas sombras dentro da Ordem — admitiu Jack, percebendo que o garoto o ouvia cheio de admiração. — Tô falando sério, meu poder envolve escuridão, mas na verdade é uma mistura da ausência de luz e eletricidade. Poderíamos formar uma bela dupla juntos. Calma, Elma, não precisa ficar com ciúmes, eu não te trocaria por nada!
A guerreira revirou os olhos, mas não escondeu um sorriso travesso.
Os dois trocaram olhares apaixonados por tanto tempo que Amélia precisou perguntar:
— Vocês são... um casal?
Jack e Elma coraram de tal forma que começaram a se atropelar nas próprias falas, dizendo coisas sem sentido e tentando desviar do assunto. Elma, que mantivera a compostura até então, ficou tão vermelha quanto uma maçã enquanto Jack ria sem parar.
— Qual é, a Elma é tipo minha... minha... — Jack balançava a mão em busca da palavra certa que nunca veio. — Escuta, é muito tarde para falarmos sobre isso. Nós temos pistas sobre o paradeiro da Silenciadora.
— Então, vocês fazem parte de alguma organização secreta ou coisa do tipo? — perguntou Amélia.
A guerreira ao lado manifestou-se:
— Digamos que sim. Seu marido nunca lhe contou nada? — indagou Elma.
— Eu preferia me manter longe de seus compromissos de trabalho. Foi uma promessa que Gregor fez para mim há muito tempo: cuide das crianças que eu cuido de todo o resto.
— Nós vasculhamos a casa de vocês em busca de pistas de onde se encontravam, a princípio pensamos que estivessem mortos — Elma continuou. — Demos cabo de alguns arruaceiros que já tinham invadido o lugar, mas não sobrou muita coisa... Quando demos conta da falta da Pérola Sagrada, supomos que vocês tivessem fugido com ela.
— Gregor era o guardião da Pérola da Fumaça, passada de geração em geração na sua família. É um tesouro inestimável que não pode cair em mãos erradas — explicou Black Jack.
— A minha está aqui, guardadinha — revelou Cleópatra.
Quando os olhos caíram sobre Amélia, ela pareceu sem jeito.
— Mas eu não tenho pérola alguma. Ela foi levada.
— A Silenciadora — Elma sussurrou baixinho, como se até a pronúncia do nome dela pudesse invocá-la no recinto. — Estamos no encalço dela há meses, essa mulher fez muitas vítimas inocentes. A justiça da Ordem há de cair sobre ela!
— Não são tempos seguros para tótines como nós — comentou Jack. — O governo não quer que essa informação chegue ao povo, o que me faz crer que eles têm algum envolvimento. A mídia está tratando os desaparecimentos como puro infortúnio, como se as vítimas fossem responsáveis por “estarem em local de risco e facilitar o crime”. E eu tenho vontade de esganar alguém toda vez que ouço uma merda dessas! Não está na cara que estamos sendo caçados como se fôssemos animais?

Assim que deixaram o parque, o grupo seguiu em direção à base improvisada da Ordem do Selamento. Bill estava ansioso para conhecer o local onde seu pai trabalhara, talvez agora entendesse por que ele voltava tão tarde para casa e até se conformaria que sua morte se devia a uma ameaça maior, capaz de definir o destino de toda Sellure.
... mas o local nada mais era do que um quarto alugado na Árvore Vigorosa, um bar/pousada mantido por uma doce velhinha chamada Sophie. Eles só tinham dinheiro para alugar um quarto, Cléo e Tootie aprontavam seus pertences enquanto Amélia analisava o ambiente — havia uma mesinha rodeada por dois sofás confortáveis, três beliches que mal davam espaço para transitar e um único banheiro. A Ordem do Selamento era composta, basicamente, por aqueles que estavam presentes — não havia soldados uniformizados, estandartes e nem salas de reuniões, para a decepção das crianças.
— Espero que não se importem em ficarmos um pouco apertados. Estamos meio curtos da grana esse mês — explicou Jack, estirando-se na cama de baixo com os braços atrás da cabeça. — Não é fácil viver sem uma base fixa.Você tem a sensação de que não pertence a lugar algum, e nunca sente que está verdadeiramente em casa.
— Bom, se dinheiro é o problema, eu tenho uma pequena quantia guardada na poupança — falou Amélia. — Não é muito, mas espero que ajude.
Ela retirou da bolsa um selo mágico que permitia acesso à sua conta bancária e deu para Jack. O líder da Ordem arregalou os olhos ao descobrir a quantia que estava depositada e recusou repetidas vezes qualquer oferta.
— Tá doida, mulher? Dá pra comprar duas passagens para uma lua de mel em todas as províncias de Sellure todos os dias do ano com essa quantia, e ainda vai sobrar! Com treze moedas de ouro já garantimos a estadia para o mês o inteiro, é mais do que o suficiente.
— Desculpe, é só que... é tudo que sobrou, e eu faria de tudo para dar continuidade a algo que era importante para meu marido.
Jack saltou de sua cama, sacou uma das espadas de Elma e parou em frente à Amélia.
— Ajoelhe-se.
Amélia trocou olhares com seu filho que aguardava entusiasmado.
— Ajoelha logo, se não vai perder a emoção! — disse Jack, dando uma tossida para limpar a garganta. — Devido o falecimento de seu marido, eu, Black Jack, a nomeio como parte integrante da Ordem do Selamento. — Ele tocou nos ombros dela com a ponta da espada, como se lhe incumbisse um título. — Que de hoje em diante, até o fim de seus dias, você viva para proteger aquilo que há de mais importante.
— As Pérolas Sagradas? — perguntou o pequeno Bill cheio de entusiasmo.
— Também. Eu ia dizer os inocentes, mas ia soar super cafona. Pensei em família, mas tem gente como eu que não conheceu os pais. Há alguns que só possuem os amigos, e mesmo assim tem vezes que dá vontade de esmurrar eles até a morte... ah, caramba, é a primeira vez que faço isso e estou agitado! Não saiu nada como eu esperava.
Bill aplaudiu contente. Quando crescesse, também queria fazer parte daquela Ordem.
— Você fez tudo com perfeição, querido — elogiou Elma, dando-lhe um beijo na cabeça enquanto passava com cobertores e travesseiros do armário.
— Nós vamos recuperar a pérola da sua família — disse Jack. — O inimigo já está em posse de duas delas. Não posso permitir que outras famílias sejam destruídas, muitos de nossos amigos estão aprisionados em algum lugar, mas ainda tenho esperanças de que estejam vivos.
— Quer dizer que agora faço parte de uma organização secreta? — perguntou Amélia.
— Exato. O nome não é maneiro? — disse Jack cheio de empolgação. — Fui eu que inventei.
— E o que preciso fazer?
— Sei lá. Sobreviver.

ii

Como Amélia se oferecera para bancar as despesas, foram alugados outros dois quartos para que todos os integrantes tivessem privacidade. Bill preferiu dormir no mesmo quarto de sua mãe, assim como Tootie fez com Cléo.
Elma estava na varanda observando a cidade silenciosa, temia que a Silenciadora ferisse seus amigos durante a madrugada enquanto estivessem dormindo, por isso vinha encontrando dificuldades em dormir. Ouviu alguém bater à porta. Vestiu seu roupão e foi atender.
— Opa — disse Black Jack como forma de cumprimento. Ele segurava dois copos e uma garrafa de uísque. — Eu ouvi barulhos estranhos e achei melhor vir verificar se você estava em segurança. Sabe como é, não posso permitir que nada aconteça com minha oficial-chefe, você é o meu braço direito.
— É muita ironia um tótines capaz de controlar a escuridão ter medo do escuro — disse Elma que sempre se divertia com as desculpas esfarrapadas dele. — Vai. Entra logo.
Jack esparramou-se todo contente na cama de Elma, mas admitiu também não ter sono pelo mesmo motivo. Havia muito a planejar e gostava das madrugadas quando tinha um momento a sós com sua companheira.
— Eu me divirto com todo mundo sempre achando que eu sou um moleque — disse ele com os braços esticados. — Qual é, eu tenho vinte e três anos, é que sou nanico!
— Deixe que pensem o que quiserem — respondeu Elma, tocando o queixo do rapaz e roubando-lhe um selinho discreto. — Já está gastando as economias da Ordem com bebidas caras? Jack, não era necessário...
— Poxa, hoje faz três anos que estamos juntos... Eu estava me martirizando por dentro, sem grana pra comprar qualquer presente ou sequer arranjar um meio de te proporcionar uma noite agradável. Você merecia o mundo...
Elma sentou-se ao lado dele na cama e segurou sua mão, guiando-a até suas coxas enquanto fazia uma massagem lenta que foi subindo aos poucos.
— Quer se divertir hoje?
— Não sei, estou um pouco tenso... — Jack admitiu. — Não consigo dormir direito há algumas noites.
— Shhh... Está tudo bem. Estou aqui agora — disse ela, aninhando-o em seus braços.
— Você me traz segurança — murmurou o líder da Ordem.
— Uhum — Elma sibilou baixinho enquanto se despia de seu roupão na frente dele. Estava no auge de sua beleza, vinte e um anos, treinava todos os dias para se fortalecer, pois jurou proteger seu parceiro de todos os perigos do mundo. — Eu sei como te acalmar, mas primeiro precisamos cuidar disso aqui embaixo.
Elma esticou as pernas e sentou-se no colo dele, levando as duas mãos de Jack até seus seios, massageando-os com movimentos giratórios suaves que arrancaram um gemido fraco e apaixonado de sua amante. Jack preencheu sua boca e Elma e o beijou devagar na nuca enquanto ia para trás e para frente, sentindo o sangue ferver.
— Um dia quero te levar para a lua de mel mais maravilhosa e inesquecível que já existiu — disse Black Jack deitado na cama, em meio a suspiros. — Ouvi dizer que há um lugarzinho perdido entre as montanhas de Perpetua conhecido como Pousada do Inverno. Quero passar frio e me esconder debaixo da coberta com você, ficar olhando a lareira crepitar, beber chocolate quente...
— Não se preocupe, sei outros modos de te esquentar— assumiu Elma, beijando o pescoço dele e descendo cada vez mais.
Jack abriu o zíper da calça e tentou conter um gemido quando sentiu a língua dela percorrer suas partes íntimas, permitiu-se nos prazeres que ela oferecia, o cheiro de rosas e baunilha tão característico dela. Elma parecia se deliciar, cada noite juntos era como uma experiência inédita. Jack comprimiu o corpo quando atingiu o clímax, pressionando a cabeça dela contra sua pelve. Elma aguardou até que ele terminasse e engoliu seus fluídos, sorrindo de um jeito sensual como só ela conseguia.
— Agora apague as luzes, Black — disse a guerreira com a voz apaixonada. — É melhor que não esteja com sono, porque estamos só começando.
Quando a situação estava para esquentar, os dois ouviram uma nova batida à porta. Jack subiu o zíper da calça e Elma agarrou seu machado do lado da cama. Ao atender, os dois se depararam com Amélia ainda vestida de pijama.
— Desculpe incomodá-los a essa hora, é só que... a Tootie sumiu.


 

  2 comentários:

  1. Mano, eu na real não esperava por esse final, quem diria, hein? Quando o troço começa a ficar bom, vem a Amélia bater na porta e falar que a Tootie sumiu.

    Pois então, aqui tivemos a junção de tudo, desde a Tootie conhecendo o jovem Bill até o encontro de Cleópatra e Amélia para tratar do furto do mais jovem. Mais a frente tivemos ambas cercadas por pessoas desconhecidas que queriam a pérola que com elas estava, mas a aparição de Black Jack e Elma lhes salva na hora h.

    Descobrimos que BJ e Elma são um casal e que já estão juntos a três anos, tal como vimos que eles sabem de muita coisa que vem ocorrendo, e que tem medo do que possa ocorrer depois.

    Eu acho que vou parar por aqui o comentário, mano. Pois bem, mais um capítulo legal vindo de tu, brother!

    Valeu e até depois!

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    1. HAHAH Esse finalzinho pegou todo mundo desprevenido, né? Acho que nem nos tempos de Sinnoh cheguei a descrever uma cena assim, sempre fiquei nas insinuações. Foi uma válida experiência, pena que não tenho coragem de colocar nada assim no livro, eu não saberia onde enfiar a cara se algum membro da família lesse kkkkkk Então é melhor concentrar isso só aqui no blog mesmo!

      Cara, eu gosto demais do Bill e da Tootie, pena que todo o background deles não está em nenhuma parte do livro. Eu sempre quis contar como eles se conheceram, acho que consegui criar algo fofinho que ainda dê corda para que 8 anos depois os dois continuem tendo uma quedinha um pelo outro.

      Elma também foi uma agradável surpresa, da integrante da Ordem que eu menos gostava, ela acabou dando a volta por cima para se tornar uma das beldades de Sellure! Vc vai se amarrar no desenho dela finalizado cara, um dia ainda quero refazê-la com uma cara mais de milf haha Fico feliz que tenha curtidoo Black Jack também mano, mesmo que a aparição dele seja bem limitada, acho que ainda renderia conteúdo pra muito Support aqui no blog! Valeu por comentar Napo, grande abraço!

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